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Daisy - The Galaxy That Grew Up Inside Us

Summary:

O olhar de Kengo sobre Gentaro a medida que os anos se passam.

Notes:

Essa fanfic foi originalmente postada em dezembro de 2017. O post original se encontra no site do Spiri lá. Segue a nota original:

Notas do Autor
Essa história é meu presente de amigo oculto a Paula. Espero que goste, doçura!

Ela foi baseada na música Daisy, do grupo STEREO DIVE FOUNDATION, e no mix Galaxies growing inside of me, disponível no canal R L I F E, disponível em https://www.youtube.com/watch?v=xXHA1xLjAx0 .

Boa leitura!

Work Text:

O silêncio é estraçalhado

E é chegada a hora

 

Os últimos dias haviam sido extremamente silenciosos. Isso é no mínimo bizarro, considerando o quão barulhento o namorado e os amigos de Kengo costumava.

Antes, onde quer que estivessem, era bem rápido identificar o grupo de amigos. Havia o riso e as piadas de JK, com sua onda de cores, e música saída dos fones que ganhara como lembrança de um antigo amigo havia poucos meses. Havia a confusão de cor preta de Tomoko, o som da sua voz fazendo suavemente argumentações inteligentes, o barulho de teclas sendo tocadas enquanto mandava mensagens pra alguém de outra escola. Havia os dois membros novatos rindo de seus senpais, tentando entender o lugar certo onde deveriam estar, se divertindo no processo de se encontrar. Havia o tom animado de sua melhor amiga falando sobre o espaço, sobre desvendá-lo e experienciá-lo num futuro cheio de risos e amigos, cumprindo sonhos de pessoas preciosas que já haviam partido. E claro, os gritos dele. Gentarou estaria sempre gritando sobre fazer amigos, sobre proteger os amigos que tinha. Ele ia se animar sobre o universo a ser desvendado, sobre as pessoas que poderia ajudar a sorrir. Ele falaria sobre isso e então sorriria para Kengo, e Kengo sabia de todo o coração que deveria estar olhando pro próprio sol.

 

Ao mesmo tempo que aprendera a amar as risadas altas e gritos histéricos de Gentarou, havia algo que o deixava incrivelmente quente, bochechas, orelha e corpo, quando pensava em como Gen conseguia falar tão baixo e sem jeito também. Era fácil se pegar revisitando o momento em que recebera aquela declaração, abaixo das folhas das árvores do colégio caindo, Gentarou pela primeira vez não parecendo conseguir formular o jeito certo de se expressar, o próprio riso nervoso sendo ouvido, a certeza que olhava pra alguém que fizera dele a melhor versão de si mesmo, o barulho das folhas quebrando enquanto ficava na ponta dos pés. O gosto do beijo, o som do grito animado que se seguiu. Todo dia parecia ser verão ao lado de seu sol pessoal, maçãs sendo cortadas e divididas, sorrisos sendo compartilhados em silêncio, a companhia na volta pra casa.

 

De repente, todos esses sons pareciam uma memória que ia se desvanecendo e distanciando, enquanto o fim do ano letivo chegava. Em seu lugar, havia um silêncio acompanhado apenas de olhares tristes e baixas fungadas aleatórias, olhares vazios para as janelas da sala, o constante barulho de páginas sendo folheadas e anotações furiosas, passos que revezavam entre a pressa de chegarem onde deveriam estar e a ansiedade fazendo círculos na sala, sem saber por qual caminho deveria trilhar.

 

Ele sentia seu olhar cada vez mais preso aos livros de física e aos livros de astronomia, às anotações das provas finais, ás vezes dando escapadas para checar com preocupação seu namorado, em geral alegre e confiante, olhando perdido para as janelas e seu cinto, sem saber qual era o percurso que estaria suposto a seguir após as aulas terminarem. Ele só queria um tempo para serem capazes de conversar até entender o que eles fariam quando isso acontecesse.

 

Ao final das provas, tal silêncio barulhento foi finalmente cortado por um som: o de um pôster com a data oficial da graduação sendo colada na parede.

 

De nós nos separarmos

É uma jornada que precisamos fazer

 

É incrível como o estresse que vem antes da faculdade, antes das escolhas de carreiras e da vida adulta, podia trazer saudades a época em que suas preocupações giravam ao redor de monstros destruindo a escola e fazendo grandes complôs. Na noite do baile de graduação, Kengo olhava para seus amigos com orgulho e carinho de onde todos haviam chegado.

 

Seus kouhais pareciam ainda embargados com a ideia de que dali em diante seriam os responsáveis pelo seu clube, emocionados e agradecidos pelos momentos que passaram com seus senpais. Miu fizera questão de levar as duas meninas para fazer compras como presente pela graduação, e de alguma forma, elas conseguiram marcar a sua individualidade mesmo em vestidos formais. Havia algo no vestido de tule branco com estrelas prateadas no vestido de Yuki, que a fazia parecer como uma princesa lunar de histórias infantis. Por outro lado, era interessante a forma como de alguma maneira o vestido da cor da noite mais escura de Tomoko ainda parecia elegante, mesmo quando combinado pela capa bruxesca que decidira. Havia algo bonito e sobrenatural em seus passos, mas contraditoriamente algo extremamente solar em seu sorriso com a chegada de seu acompanhante. Kengo não tinha certeza se Ryusei realmente poderia entrar num evento da escola, mas estava tão feliz por poder dividir esse momento também com ele que não fez nenhum comentário. Sua roupa discreta contrastava com de forma cômica com a de JK, que fazia Kengo se perguntar quantas opções de cores um terno poderia ter, e como alguém poderia alugar todas elas misturadas juntas. Apesar disso, não foi as cores que prenderam sua atenção.

 

Não, o que prendera a sua atenção naquela noite era o rapaz que havia concentrado sua atenção em achar um casaco de terno e calças do tamanho certo para si, e que continuava a ignorar qualquer possibilidade de usar algo que não tênis para o evento formal. Gentarou hoje exalava a sua aura solar de sempre, mas havia algo de comedido ali. Seus olhos escuros iam observando cada rosto naquele salão, como se tentasse gravar toda a cena para sempre apenas com sua memória, com seu olhar repleto de carinho e gratidão. Até que eles se encontraram com os de Kengo, fazendo com que os dois sorrissem enquanto os olhares transbordaram num carinho diferente ao reservado aos outros amigos. Kengo atravessou a distância entre os dois e parou de pé ao lado de Gen, virado para a mesma direção que ele, enquanto lhe deu a mão. Os dois dividiram outro sorriso enquanto iam para o lado de fora depois da graduação.

 

Seriam sempre duas as memórias que Kengo guardaria de sua graduação. A primeira era dos sorrisos de todos os seus amigos recebendo o diploma, os gritos e palmas de apoio enquanto recebiam seus diplomas, a visão de suas becas e o detalhe de seus chapéus de formatura. A segunda seria ele e a pessoa que era seu sol sentados na grama, olhando o céu aberto e estrelado, falando sobre o futuro, costas no mato macio, mãos sempre entrelaçadas.


 

Nessa longa viagem, tudo que eu posso ver é sua alma

Florescendo lindamente

Embaixo do arco íris

 

 Enquanto Kengo abria a porta do pequeno apartamento, notou a luz ligada e suspirou. Havia algo de engraçado e inesperado na seriedade que Gentarou colocou nos estudos assim que começara a faculdade, mesmo que ao mesmo tempo uma parte dele não estivesse surpresa também. Não que a rotina do estágio dele no laboratório o deixasse para trás. Noite após noite, Kengo chegava com o cérebro sentindo a exaustão das horas de estudo consecutivas, necessárias para que se tornasse o físico que almejava ser. Estudar em Amanogawa havia facilitado muitas coisas: a entrada dele para um programa mais rápido, o emprego bem mais próximo de seu alcance o esperando assim que se formasse. Ao mesmo tempo, a pressão dos estudos parecia ainda mais acumulada e comprimida, e seus ombros pareciam duros com o estresse diário.

 

Não que fosse o único. Nessas noites, cenas como as de hoje eram frequentes. Cenas onde abria a porta e encontrava Gentaro inclinado sobre uma avalanche de livros e cadernos, frequentemente fazendo mais anotações frenéticas, tão quieto e concentrado quanto Kengo não achara possível. Alguns dias, ele levantaria a cabeça e daria um sorriso ao ver Kengo, bonito demais pra alguém claramente tão cansado. Outras noites, principalmente noites próximas de provas e testes importantes, ele não perceberia sua entrada até que Kengo fosse até ele e apoiasse a cabeça em seu ombro, bagunçasse seu cabelo e o lembrasse de comer.

 

E então, havia noites como essa, em que um sono pesado ganharia a luta de suas pálpebras cansadas contra seu cérebro agitado, e o envolveria no que provavelmente seriam sonhos cheios de espaço e amigos, quadros de aula e Kamen Riders que ensinam.

 

A primeira vez que dividira com ele seu sonho de ser professor, Kengo tivera sérias dúvidas. Vendo o esforço que o namorado colocava em seus objetivos, ele só conseguia admirar o crescimento de Gentarou. Não havia nada mais precioso para ele que o tempo que passara junto ao Space Kamen Rider Club, as risadas e lágrimas que compartilharam, as histórias sobre as estrelas e os planetas, sobre constelações e sobre perdão, sobre amizade e lealdade. Essas coisas eram seu tesouro mais precioso, e a decisão de ser professor tinha haver com a necessidade que sentia de compartilhar isso. De ajudar as próximas gerações a criarem seus próprios tesouros preciosos a eles.

 

Kengo parou ao lado do dorminhoco e observou seu semblante irregularmente pacífico, então trouxe sua manta favorita e o cobriu, desligando a luz e retirando os livros que marcariam seu rosto. Ele olhou para Gentaro com orgulho e sorriu.

 

Ele podia acordá-lo pela manhã.


 

Eu posso ver isso trazendo alegria a vida das pessoas

Ei, você também consegue ver?

Eu tenho certeza que sim

 

A animação de Gentaro com a formatura da primeira turma de estudantes dele era visível. Era o fim de semana, e enquanto Kengo ia cortando e cozinhando o jantar dos dois, Gentarou se sentava em seu banco na batente da porta enquanto falava.

 

O acordo que os dois fizeram assim que decidiram dividir o apartamento tinha algumas regras, e a principal para Kengo era que Gentarou não poderia chegar perto do fogão sob nenhuma hipótese, baseando-se na certeza justa de que ele queimaria não só o apartamento, como seria responsável por queimar todo o prédio abaixo. Não lhe importava os protestos de Gentarou sobre como salvaria todos os seus vizinhos, com quem rapidamente fizera amizade, e apagaria as chamas antes que um estrago maior ocorresse: Kengo não retiraria a regra sobre hipótese alguma. Por isso, a cozinha ganhara o banco, para que Gentarou pudesse sentar para observar, ouvir ou falar enquanto Kengo preparava o jantar.

 

Era a primeira vez que uma turma dele se formava. Ele parecia orgulhoso e emocionado, por ser responsável pela formação de uma série de jovens, o fazendo na sua própria maneira eficaz e nem sempre exatamente como gente acima dele acharia ideal. É verdade que haviam várias dúvidas sobre sua capacidade inicialmente, mas quando sua turma apresentara resultados ideais nas últimas provas, ele parecia ter provado um ponto para essas pessoas. Não que se preocupasse com isso, é verdade. Não, a preocupação de Gentarou estava na individualidade e na amizade criada entre seus alunos. Os resultados das provas tinham haver com o ambiente saudável e o apoio mútuo entre o professor e seus alunos, e de seus alunos entre si. Todos eles haviam encontrado o suporte necessário para se ajudar como um todo, e se descobrirem como pessoas numa sala de aula, e nada poderia deixar Gentarou mais orgulhoso que isso.

 

Kengo sorria ouvindo as palavras de Gentarou, então se lembrou da entrega no nome de seu namorado que haviam recebido hoje. Quando mais tarde Gen a abriu no sofá da sala, o que transbordou foi uma pilha de cartas, cartas em envelopes coloridos e envelopes rabiscados. Algumas escritas em papel perfumado e outras em papéis amassados. Letras até elegantes, e letras que pareciam rabiscos bagunçados. As cartas pareciam tão diferentes e vindas de indivíduos tão claramente diferentes, no entanto o carinho no conteúdo de todas era igualmente transbordante. Uma série de agradecimentos, de lembranças de situações ruins e de como foram salvos, escritas por dezenas de estudantes. Kengo não conseguia parar de sorrir enquanto Gentaro chorava com elas, no final se levantando e gritando, baterias completamente recarregadas, começando a pular pela casa tendo ideias para a melhor graduação que Amanogawa High já havia presenciado. Ainda sorria por dentro quando tivera que se levantar para conter algumas das ideias mais extravagantes do companheiro.

    

 

Vamos pintar por cima de todos os erros que cometemos

Tentar de novo e de novo, até conseguirmos

 

Kengo ia catando os cacos de vidro embaixo da mesa de jantar, lembrança da noite anterior. Foi esse ponto que marcou o fim da discussão, quando Gen esbarrou no enfeite de mesa, cujo som se destacou em meio aos gritos dos dois. Ele continuara ali até a noite seguinte, quando Kengo chegou do laboratório e começou a consertar as consequências da noite desastrosa.

 

Entenda, não é que as discussões fossem raras pros dois. As personalidades conflitantes se encarregavam de frequentemente colarem os dois em posições adversas. Os dois frequentemente se implicavam o tanto que se apoiavam e confiavam um no outro, o que talvez fosse o motivo pelo qual brigas fossem uma parte bem rara no relacionamento. Mas então havia noites como a anterior, em que tais posições adversas e perspectivas diferentes os fariam entrar num conflito de difícil resolução. Ouviu a porta se abrir, e Gentarou entrar.

 

Ele olhou para Kengo, enquanto trazia nas mãos uma pequena embalagem. Ele pegou os cacos na mão do companheiro e lhe deu a embalagem. Foi colocando os cacos juntos ao lixo enquanto ouvia os questionamentos de Kengo, então se sentou, e olhava em seus olhos, tão honesto e tão direto como sempre. “Me desculpe”, disse. “Era um presente de quando começou a trabalhar no laboratório, certo? Eu sei que era importante pra você”. Kengo abriu a embalagem, encontrando a conhecida esfera armilar de madeira, aço e vidro, se perguntando como Gentarou fora capaz de encontrar um objeto tão incomum novamente. “Eu acredito que podemos achar uma solução para qualquer situação.” Kengo respondia com cuidado. “Mas vamos ter que fazer isso juntos pra funcionar”.

    

A face toda de Gentarou se iluminava ao responder com seu sorriso mais solar.

 

Vamos pintar um futuro refrescante juntos

Com nossas esperanças e sonhos

 

 “Gentaro, essas caixas ficam lá na sala”. Os sons que ocupavam a casa eram os das caixas sendo movidas e removidas, abertas e fechadas novamente.

 

A mudança para a casa nova, uma casa de verdade, com um pequeno quintal para o canteirinho de margaridas que distrairiam Kengo aos fins de semana pelos próximos anos. Com espaço para cadeiras na varanda durante o verão, onde seus amigos queridos e as famílias que eles formariam poderiam sentar pra beber chá gelado. Com uma sala grande o suficiente apenas para que sempre que quisessem, pudessem convidar os amigos para comer bolo ou beber sakê enquanto improvisavam o karaokê na televisão. Com um quarto que pintaram juntos, o tapete com tema de céu noturno no chão, a cama com lençóis macios, pronta pros segredos noturnos que continuariam a ser sempre divididos. Ás vezes os segredos podiam ser transmitidos na forma de conversas sussurradas, ás vezes na forma dos nomes de cada um escapando em meio a suspiros pesados, o som dos corpos se estalando um contra o outro. Um pequeno escritório com livros de astronomia, ciência e pedagogia. Com as aventuras mágicas noturnas de bruxas escrita por uma amiga preciosa. Com teorias espaciais comprovadas juntos.

 

Os anos que passavam iam criando marcas nas faces de cada um. Aventuras e histórias eram sempre compartilhadas, sempre experienciadas acompanhadas. Gentaro sempre facilitava o contato de seus alunos mais interessados no espaço com Kengo e Yuuki, tornando reuniões entre alunos e ex-alunos, seus antigos professores, seus colegas de trabalho, antigos amigos, novos amigos. A casa seria sempre lotada com risadas e carinhos, ponto de encontro de pessoas que seriam sempre importantes para umas as outras.

 

Kengo e Gentaro se sentaram no chão após terminarem o trabalho com as caixas, se entreolharam e sorriram. Gentaro se levantou e colocou a primeira foto, das muitas molduras que um dia preencheriam aquelas prateleiras e estantes: uma foto tirada sem aviso, onde eram vistos seus amigos de Amanogawa reunidos conversando, os dois sentados no centro de frente um para o outro, os enormes sorrisos e o olhar que os dois trocavam, galáxias inteiras brilhando por dentro.

 

Eu nunca disse adeus

Nem nunca vou dizer