Actions

Work Header

Rating:
Archive Warning:
Categories:
Fandom:
Additional Tags:
Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2022-08-15
Updated:
2026-02-01
Words:
251,737
Chapters:
32/?
Comments:
14
Kudos:
18
Bookmarks:
3
Hits:
656

Deve Ter Sido o Vento

Summary:

Kiara Mitchell tem a típica reputação de uma causadora de problemas, temida, misteriosa, sempre aprontando com as pessoas da escola e entrando em encrencas, fora a maneira que ela aprendeu a lidar com a vida. E quando a mesma começa a ponderar suas escolhas e decisões, tudo muda quando seu irmão volta para casa, depois de anos sem dar nenhum notícia, junto de uma criança, Gabriel, sobrinho de Kiara.

Emma Standifer, a reserva da equipe de vôlei com uma vida familiar cheia de drama, espera que seu último ano escolar na cidade interiorana onde nada acontece seja diferente e animador, ser ser colocada como parceira de laboratório de Kiara acaba se mostrando mais do que um simples trabalho quando Emma acaba envolvida na nova rotina dos Mitchells.

Entre campos de trigo e aulas tediosas, o que esperar de uma rebelde cuidando de um raio de sol?

Chapter 1: A Rotina Da Garota Sem Futuro

Chapter Text

Nada no mundo fazia Kiara Mitchell se sentir tão bem como o vento batendo nos seus cabelos enquanto ela pilotava sua moto.

Tem algo tão atrativo, reconfortante e emocionante sobre a velocidade que ela alcança em uma estrada em linha reta, o barulho do motor, a paisagem distorcida pela rapidez que magicamente não perde sua beleza.

Tudo isso lhe dá uma sensação de liberdade.

Era uma sexta - feira. Finalmente sexta. E Kiara  saiu cedo para andar de moto, pois sabia que as ruas estariam vazias. Mais vazias do que o normal, pois Newstill não era uma cidade movimentada. Isso tinha suas vantagens, como estradas livres e pastos de trigo dourados onde ela poderia se esconder caso fizesse algo de errado. Ou simplesmente ficar sozinha por um tempo.

Ela observava o posto de gasolina de onde acabara de sair, encostada em sua moto, tomando uma lata de refrigerante, com os fones de ouvido tocando uma música de sua playlist aleatória, que para sua infelicidade foi interrompida por uma notificação, bem na hora do refrão, puxou o celular com o cenho franzido e viu as mensagens de Luther.

luther:
cadê você??? vai me forçar a ver a aula sozinho??

Faltar não era uma opção, não com seu recorde impressionante.

kiara:
tô indo. dramático.

Ela desligou o celular e subiu na moto novamente. Encarando o céu com um suspiro, era o fim de sua tranquila manhã. Pisou no acelerador e saiu em direção ao bairro do colégio.

Em quatro anos de ensino médio, Kiara perdeu quase que completamente o luxo de faltar à aula. Faltar um dia sequer no último significaria um risco enorme de expulsão, e por mais tentador que parecesse ficar sem professores gritando em seu ouvido, não podia arriscar sair da escola.

Os pneus derraparam quando ela estacionou na frente da Season High School, atraindo os olhares dos poucos alunos que ainda adentravam o colégio. Kiara bufou, começando a montar um roteiro em sua cabeça do que falar quando fosse pega pelo seu atraso.

Passou pelo corredor quase vazio e espiou o professor já na sala gesticulando para o quadro. Ruim. Ela abriu a porta da sala o mais devagar possível, os que a viram ou reviraram os olhos ou riram baixo.

— Mitchell. — o professor chamou e ela parou de andar. O homem se virou. — Está atrasada.

— É, eu percebi. Meia hora, melhorei não acha?

— Isso não é engraçado.

— Foi mal.

— Sente-se. — falou severo.

Deu um aceno de cabeça para o professor que apenas cansou de lidar com ela e se voltou para o quadro.

— Como eu estava dizendo, a evolução dos seres humanos...

Kiara se sentou na cadeira e viu Luther do outro lado da sala sorrindo para ela. A garota usou a jaqueta que usava como travesseiro e apoiou a cabeça na mesa, a voz do professor tão arrastada com uma matéria que ela não entendia, jurando que poderia dormir a qualquer minuto.

 


 

Ela jogou os livros no armário sem muito cuidado, nossa como aquilo estava bagunçado. Até embalagens de doces estavam jogadas ali, não que ela tivesse vontade de tirar tempo para arrumar.

— E aí? Dormiu demais? — Luther Bachmann, seu amigo com cabelos loiros espetados, se aproximou. Kiara sempre pensou que o penteado o fazia parecer um personagem de série do Disney Channel. Junto com as sardas que pintavam seu rosto.

— Fui passear de moto antes da aula começar e perdi o horário. Pelo menos foram trinta minutos a menos do falatório insuportável do professor Burkes — disse brincalhona e Luther riu.

— Hoje é sexta, quer fazer alguma coisa?

— Vamos até a Pista do O'Haley.

— Dessa vez quem vai pagar é você. — Kiara deu uma cotovelada no ombro dele. — Hey!

— Eu paguei da última vez e me recuso a pagar lanche de novo essa semana. Eu tenho cara de rica para você?

— Mas eu não quero gastar dinheiro! Minha avó está ameaçando cortar minha mesada se minhas notas não melhorarem e eu quero economizar o que eu já tenho!

— E eu com isso?

— Você sabe que eu quero um skate novo. — ele se virou desajeitadamente e puxou o skate de sua mochila. Já estava gasto além da conta, uma das rodas havia caído a pouco tempo e Luther teve que dar um jeito de pôr de volta. Uma fissura era visível na superfície do skate.

— Uma hora ou outra isso vai quebrar no meio com você em cima. — riu.

— E eu não sei? Eu preciso de um novo, mas se minha vó cortar minha mesada vai ficar difícil, por isso tenho que cuidar do que eu já tenho. Não posso pagar o lanche.

— Bem, nem eu... — Suspirou e deu de ombros. — Vamos ver se o Malcom é legal dessa vez e descola comida grátis. Sobras de fritura, Luther!

Luther abriu um sorriso pensando na comida, nesse exato momento um copo de slushie foi de encontro ao armário entre eles dois e se esparramou no chão. Seguido por uma risada irritante.

E ali estava Jaxon Talling. Rindo feito uma hiena mesmo sendo um fracassado que não conseguiu acertar dois alvos óbvios. Andando em direção a eles com um garoto preso em seus braços, consequentemente arrastado junto.

— Você errou e nem terminou de beber, idiota. — Kiara disse com desinteresse.

— Sempre existem próximas vezes. — passou a mão livre pelos cabelos ruivos, expondo o relógio caro em seu pulso.

— Será que eu posso...— balbuciou o rapaz ainda preso. Jaxon revirou os olhos o empurrando para a liberdade que quase fez o garoto cair no chão aos tropeços.

— Não interrompa.

Kiara cerrou o olhar, vendo de relance o menino parado um pouco mais longe deles, sem saber se deveria ir embora.

— Jaxon, toda vez que você abre a boca para fazer uma impressão de bad boy você chega cada vez mais perto de todos no colégio perceberem que você é um garoto mimado que tem tara em delinquentes.

O sorriso no rosto de Jaxon sumiu e o de Kiara aumentou.

— Por que você não cuida da sua vida?

— Porque você jogou um copo na minha direção e na direção do meu amigo. Agora se você não quer que eu chute a sua bunda até a esquina, some da minha frente.

Jaxon cerrou os punhos e os amigos dele, Logan e Martin, o olharam hesitantes. Luther se colocou ao lado da garota.

— Cai fora, o sinal vai bater. — ele argumentou.

— Beleza. Como se eu fosse perder meu tempo com vocês. — o projeto de delinquente se virou e saiu andando pelo corredor.

Jaxon talvez seja a única pessoa na escola tão ferrada quanto Kiara. Um número de suspensões alto, várias detenções, mas a diferença é que ele não chega a ter uma reputação. A impressão que se tem de Jaxon Talling é que ele é apenas um adolescente revoltado, rico e burro que viu filmes dos anos 80 demais e acha que sabe lutar. E não sabe. Ele não é nem tão ameaçador quanto Kiara, quem sabe até como Luther.

Já Kiara era diferente. Se lembrou disso assim que encontrou o olhar do mesmo garoto que foi empurrado enquanto recolhia o copo de slushie. Ele apertou os livros junto do corpo e saiu correndo como se ela fosse atacá-lo por simplesmente fazer contato visual. As pessoas fofocavam alto sobre ela, o que era irritante. Kiara ia fechar a porta de seu armário com força para ver se eles sumiam, mas viu algo que a interessou.

— Não vai ficar barato — Kiara puxou um pacote de chiclete do meio da bagunça. — Eu tive uma ideia.

Kiara e Luther entraram na sala de aula vazia, faltando alguns minutos para o sinal bater, então ela tinha que ser rápida. Abriu o pacote de chiclete e colocou vários na cadeira de Jaxon, exceto pelo último que ela pôs na boca.

— Eu vou gravar.

— Me manda depois. — se endireitou olhando orgulhosa para sua obra de arte. — Eu precisava de algo para completar a semana.

Quando o sinal bateu meia hora depois, Kiara entrou na sala com um sorriso no rosto e mãos no bolso de sua jaqueta, se sentou em seu lugar de sempre no fundo, e como planejou Jaxon foi burro demais e nem olhou para sua cadeira antes de se sentar nela, ocupado demais conversando com seus amigos. Ela mordeu os lábios para não cair na risada ali mesmo.

Passou a aula ansiosa para ver a reação do garoto e desenhando em seu caderno, a professora de vez em quando passava pelas fileiras e quando a via suspirava, dando atenção a outro aluno que valia a pena ensinar. Desenhar em seu caderno ou dormir eram as duas maneiras de não morrer de tédio durante a lição. Infelizmente isso não era apreciado por grande parte do corpo docente.

Ela estava rabiscando o final do desenho quando sua concentração foi atrapalhada por uma folha de papel sendo jogada em sua mesa.

Kiara levantou a cabeça irritada e encontrou a professora ajeitando os óculos fazendo um som de desaprovação.

— Ei!

— O que você esperava? Garota perdida, se você prestasse atenção nas aulas teria algum rumo. Pena que essa sua geração não liga mais para a boa moral...

Não entendeu a interação até olhar para o que a professora lhe entregou.

Ela esqueceu completamente que hoje era o dia de entrega dos exercícios avaliados de matemática.

F.

Passou pelas páginas da prova que tinha apenas marcações em vermelho, ela apertou o papel em mãos, o amassando, acabando com uma questão sobre hipotenusa e enfiou o teste na mochila sem nenhuma delicadeza, voltando a desenhar. Tanto faz.

— Bem, aqueles que tiverem dúvidas sobre suas notas podem vir falar comigo na secretaria. Não esqueçam de ler as páginas quarenta e cinco e quarenta e seis para a próxima aula. — A professora falou arrumando sua pasta para sair da sala.

Imediatamente começaram as conversas sobre "quanto você tirou?" e "qual era resposta dessa questão?"

E antes mesmo de Kiara fechar seu caderno ouviu um barulho alto ecoar pela sala. Admirou entre risadas Jaxon com o traseiro preso na cadeira completamente sem saber o que fazer, e riu ainda mais quando ele tropeçou e caiu com a cadeira grudada nele.

— Que inferno?! — gritou enquanto se debatia, tentando se levantar sem sucesso já que na posição que estava tudo que ele conseguia fazer era cair de na cara no chão repetidas vezes.

Ela estava se curvando de tanto rir, alguém bateu em sua mesa e ela encarou a professora, sem deixar as risadas pararem.

— Kiara Mitchell! Você fez isso?!

Kiara recuperou o fôlego.

— Eu? Como pode desconfiar de mim querida professora? Eu apenas fiquei quieta a aula inteira, nem saí do meu lugar!

A professora franziu o cenho.

— Está mascando chiclete?

Kiara parou de rir. O chiclete. Ela ainda estava com ele na boca. Droga. Deveria ter posto embaixo na mesa, nem tinha mais sabor!

— Impressão sua. — Respondeu rapidamente para que ela não visse além disso.

— Tinha que ser....Em plena sexta-feira, garota! Jesus amado... Vá para a diretoria agora! — esbravejou a mulher apontando para a porta. Kiara revirou os olhos e se levantou para sair, a professora pisou firme atrás dela. — Você não pode entrar na sala do diretor com esse doce na boca.

Kiara se virou, fazendo uma bolha com o chiclete pela última vez antes de pegar uma das mãos da professora, momentos antes dela ter tempo de reagir, tirar o chiclete da boca e entregar diretamente na palma dela. O rosto da mulher se retorceu em nojo.

— SAIA DAQUI AGORA MESMO! EU VOU FALAR PARA O PADRE ME DAR TODA A ÁGUA BENTA DA IGREJA PARA DERRAMAR EM VOCÊ!

Ela deu uma última olhada em Jaxon que foi puxado por seus amigos para fora da cadeira, Luther balançando o celular e as pessoas que a encaravam com expressões mistas, incômodo ou sorrisos pela pegadinha. Então andou em rumo para a diretoria. O lado bom é que iria perder a aula de química, o lado ruim é o sermão que estava prestes a levar.

 


 

O ar condicionado da coordenação sempre estava com defeito, o que tornava suas idas lá mais tortuosas. Quando era um dia quente, aquele lugar se tornava um inferno na terra, chegando ao ponto onde a secretária tinha duas jarras grandes de água para suportar horas de trabalho. Ela nunca dividia. Sobrevivência do mais preparado nesse caso. Isso fazia Kiara gostar da mulher e quem sabe, mesmo que a secretária revirasse os olhos para suas piadas ruins, sentia saudades quando os professores não a mandavam para lá em certos dias.

Ou não.

Provavelmente não.

Kiara mexia no seu celular passando pelas comics salvas no seu aplicativo de quadrinhos, quando alguém se sentou ao seu lado.

Olhou de canto para a garota de cabelos pretos que revirava sua mochila de esportes, tirando lá de dentro uma garrafa de água. Ela usava o uniforme da equipe de vôlei. Seu olhar se encontrou com o de Kiara e então ela finalmente percebeu que estava sentada ao lado de uma delinquente juvenil.

Kiara quase riu da expressão de surpresa que se formou no rosto da garota.

— Olá. — Cumprimentou formalmente e Kiara notou que ela se envergonhou da reação que teve agora a pouco.

— E aí?

Voltou sua atenção para o telefone e pensou que a cômica interação iria acabar naquele pequeno diálogo, iria, se a garota não ficasse encarando descaradamente. Kiara começou a ficar incomodada. Não gostava de ter alguém a olhando por muito tempo e a pessoa ao seu lado não era nem um pouco discreta.

— Algum problema?

A garota empalideceu e balançou a cabeça negativamente.

— Não, problema nenhum!

— Eu não vou te morder, sabia?

— O que? Eu...Não estava pensando nisso...É que... — pausou. —  Sua jaqueta é legal.

Kiara piscou, não esperava isso. Não estava acostumada a receber elogios e não sabia como reagir agora. Se antes estava rindo da reação da garota, caso pudesse se ver agora daria uma risada ainda mais alta. Surpresa e elogio, combo.

— Huh... É...Obrigada — mordeu a língua, isso foi horrível. Não tinha prática nisso. — Por que você está aqui?

— Minha ficha do time de vôlei, preciso ajeitar... E você? — ela guardou a garrafa de água.

— Colei a bunda de Jaxon Talling na cadeira.

Um silêncio se instalou entre as duas, essa menina não era boa em esconder suas reações, a incredulidade estampada em seu rosto. Ambas estavam ali por razões completamente diferentes.

— Jaxon Talling? O filho do dono da linha de supermercados? Talling?

— Ele mesmo, é o que merece por sair jogando copos de slushie nos outros. — disse brincalhona relembrando a cena com um sorriso.

A garota da equipe de vôlei deu uma risada pequena.

— Eu queria ter visto isso.

— Ele é tão chato. Insuportável.

Outro silêncio se formou, não durou tanto tempo dessa vez, a porta da diretoria se abriu e o diretor bufou.

— De novo?

— Yep.

— Entra logo, Mitchell.

Kiara se levantou e passou as mãos pelos cabelos. A garota a observou e ela imaginou a cabeça da integrante do time de volêi repassando a conversa. A imaginou dizendo para seus amigos: Conversei com Kiara Mitchell e ela não me jogou em uma lata de lixo.

— Tchau, boa sorte com a ficha defeituosa.

Fechou a porta atrás dela sem esperar a garota falar alguma coisa de volta. O diretor Henderson estava sentado em sua cadeira atrás de sua mesa, na sua sala cheia de quadros e livros. O homem tomou um gole de café de sua caneca com os dizeres em letra de forma MELHOR DIRETOR DO MUNDO e gesticulou para a garrafa cheia da bebida.

— Aceita?

— Venho tentando cortar a cafeína.

— A substituindo por refrigerante?

Ela relaxou a postura. Diretor Henderson a fazia se sentir um tanto mais confortável em comparação com os outros adultos. Senhor Octavian de pele negra, óculos de fundo de garrafa e várias reclamações de dor nas costas, ele não gritava, não a tratava com frieza e a ignorava. Claro, ele tinha que manter o pulso firme, afinal ela não era uma boa estudante seguindo o conceito. E ele ainda tinha sermões clichês e chatos, não se pode ter tudo na vida, mas um adulto que pelo menos escuta já era grande coisa.

— Cada um com seus vícios.

— Kiara. — Diretor Henderson começou. — A senhorita Tosher veio aqui dizendo que você a humilhou publicamente causando uma mancha no histórico profissional dela e que grudou um aluno na cadeira. Isso é verdade?

— Ora por favor, ela consegue a mancha no histórico dela sozinha! — viu a repreensão no rosto do diretor e parou. — Ela disse que não podia entrar com chiclete na sua sala então eu dei para ela. Sim, eu colei Jaxon na cadeira.

— Mitchell!

— Ele fica por aí jogando coisas nos outros!

— Isso não significa que você tem o direito de buscar vingança. Kiara, o seu histórico não é o dos melhores, ela me mostrou a sua nota no teste recente...

— Lá vem. — Jogou a cabeça para trás.

— Sim, lá vem. Desse jeito não vai conseguir se formar.

— E? — Cutucava o estofado azul, arrancando a costura junto com o algodão.

— Kiara, você tem dezoito anos, tem muitas faltas e não está indo bem na escola. Ainda faz essas pegadinhas o que te colocam em uma situação ainda mais complicada...Você precisa começar a pensar no que vai fazer no futuro.

Ela não estava mais relaxada. Seus músculos tencionaram, a garota cruzou os braços e virou a cabeça para o lado, estalando a língua fazendo um barulho de "tsc".

— Irei pensar em algo.

Diretor Henderson tirou os óculos e a fitou, dessa vez ela foi obrigada a encarar de volta.

— Eu vejo grandeza em você, senhorita Mitchell. Eu sei que você pode conseguir se colocar sua mente no lugar, entendo que é assustador mas está chegando a hora de decidir o que fazer daqui para frente.

Ela odiava esse tipo de conversa. Queria apenas pegar sua advertência e sair dali.

— Que isso não se repita semana que vem. — escreveu sua assinatura no papel e entregou o aviso de mau comportamento para a garota que se levantou com mais pressa do que queria, ele tinha uma expressão compreensiva, isso fez ela engolir em seco.

— Posso ir? — colocou o papel no bolso, a perna batendo com ansiedade.

— Pode...E Mitchell. — chamou quando a mão da garota segurava a maçaneta. — Comporte-se.

— Vou tentar. — saiu da sala a passos largos.

Existia momentos onde mesmo que o diretor Henderson fosse o único adulto na escola que ela gostasse, ela queria que ele agisse como os outros e parasse de esperar algo dela.

Como os professores, houve um tempo onde ela costumava pedir ajuda a eles. Quanto mais séries ela avançava, isso se tornava mais raro. Eventualmente, eles pararam de se importar e ela também.

Mas Henderson não faz isso, ou ela acha que ele não faz. Não o culparia se ele parasse de esperar. Deve ser algo que diretores fazem, um código de conduta pelo qual diretor Octavian Henderson era apegado demais para se deixar admitir que cansava dos seus alunos.

Saiu da coordenação, entrando no corredor vazio e indo em direção a próxima aula. Só faltavam dois períodos.

 


 

Quando o último sinal bateu, Kiara saiu em disparada pela porta com Luther logo atrás. Ele encostou nela de leve com um sorriso bobo no rosto. Segurava o celular em uma das mãos e a mochila com a outra a arrastando pelo chão sem cuidado.

— Como foi?

— O mesmo de sempre, ganhei uma advertência. — mostrou o documento para o garoto que pegou e leu rapidamente.

— Zoado, mas não liga para isso. — ele devolveu o papel e puxou Kiara para perto, mostrando o seu celular com um vídeo na galeria. Nele, Jaxon tentava sair de sua cadeira e caía no chão preso pelo chiclete. Isso melhorou seu humor e ela soltou uma risada baixa e discreta.

— Comédia de primeira categoria.

Luther sabia como anima-lá. Eles se conheciam desde o ensino fundamental, quando os dois acabaram sentando juntos em uma aula de artes e um desafiou o outro a beber um pote de tinta. Luther bebeu o verde e Kiara o azul. Suas bocas queimaram e a professora quase teve um aneurisma, mas as crianças não conseguiam parar de rir entre as lágrimas e apontar um para o outro como se aquilo fosse a coisa mais engraçada do mundo e nem um pouco perigosa.

Foi a primeira vez que os dois foram mandados para a coordenação juntos.

A primeira de muitas vezes.

— Vamos enquanto ainda está vazio.

Kiara subiu na moto e Luther na garupa, ela dirigiu para fora da escola. Enfim, paz.

Passando pelos bairros, várias pessoas já estavam indo para o trabalho e lojas estavam abertas. As mesmas pessoas, no mesmo horário, sempre igual, na mesma paz. Newstill é uma cidade pequena, do tipo que se você não prestar atenção vai acabar passando direto por ela no mapa. Isso tem suas vantagens e também o oposto, em especial o tédio. Nada muda, tudo é sempre igual. Com o tempo, Kiara aprendeu a rotina de cada um dos moradores.

O padeiro abria para o turno da tarde às 16:10, a borracharia no mesmo horário, e os donos, senhor Scottland e Wayard vão começar a brigar. Exatos dez minutos depois, um banqueiro vai passar pela rua olhando para o relógio segurando sua maleta e balançar a cabeça vendo os dois senhores brigarem. Então pequena Susie vai sair para andar com seu triciclo cor de rosa sendo seguida por sua mãe que a observava cautelosa. Pequenas coisas assim que se repetem diariamente.

Cansativo. Tedioso.

A Pista de O'Haley era diferente disso.

Ela deixou sua moto no estacionamento e entrou no local. A Pista de O'Haley era uma pista de skate e um restaurante. As músicas de rock, comida gordurosa e decoração amarela descascando juntavam o público de várias pessoas com tatuagens, cabelos de cores diferentes e histórico questionável.

Kiara se sentou em uma das mesas à frente do balcão, Luther deixou a mochila com ela e saiu correndo para a pista segurando seu skate.

— Fala aí, pessoal! — gritou para os outros, os cumprimentando com soquinhos e tapas nas costas.

Começou com uma manobra básica, o ollie, a partir daí começou a evoluir para manobras mais ousadas e dinâmicas. Os colegas de pista gritavam palavras de apoio a cada giro e salto bem-sucedido. Kiara dava o mesmo apoio de sua mesa, mantendo a distância do resto dos clientes. 

Depois de um tempo vendo seu amigo, lembrou-se que precisava achar um jeito de conseguir comida de graça, se preparou para encarar o cozinheiro que fritava batatas com um cheiro que a deixava com água na boca. 

— Malcom.

O jovem adulto de pele clara com manchas de vitiligo ergueu o olhar do celular. que transmitia o jogo de basquete da noite anterior. Ele cerrou os olhos cor de mel para a adolescente a sua frente. Um sorriso torto decorou seu rosto enquanto o rapaz se inclinava no balcão. Kiara conseguia ver a quantidade de piercings e tatuagens que o atendente da pista do O'Haley possuia.

— Veja só, se não é Kiara Mitchell.

Sempre usando nome completo de todos os clientes, Malcom Williams-Taylor, senhoras e senhores. Kiara passou a mão pelo pescoço, buscando relaxar a tensão acumulada pelo dia. Ainda bem que era sexta. 

— Sabe Malcom... Somos amigos, não é? — Com a frase da garota, Malcom arqueou as sobrancelhas. Oof, amigos era uma palavra perigosa demais para ser jogada assim. Mesmo apenas por interesse. — Conhecidos.

— Você quer sobras.

Kiara deu um aceno firme de cabeça.

— Estamos zerados hoje.

Malcom pegou um prato e colocou nele tudo que sobrou das frituras que havia feito naquele dia. Entregou para a garota com um saquinho de ketchup e duas latas de refrigerante.

— O refri é por conta da casa, só dessa vez. Semana que vem quero pago entendeu?

— Relaxa cara, eu não brinco com esses assuntos. — disse, se sentando de volta em sua mesa com as sobras e os refrigerantes.

Agora sim, ela poderia matar a fome de leão que tinha. O almoço da escola não era o suficiente. Uma música do Guns N' Roses começou a tocar no momento que ela abriu o refrigerante, porém antes que ela pudesse beber duas pessoas se aproximaram com cara de poucos amigos. Ela sabia exatamente quem era e quem havia mandado.

— Logan e Martin, boa tarde. — Esticou o pescoço para ver entre eles e achou Jaxon atrás dos dois, afastado da cena. — Jaxon, como vai?

— Achou que não ia ter volta? — falou com um sorriso confiante de canto.

— Eu esperava que sim, só que infelizmente você é um mala.

— Ugh, pessoal mostrem para ela. Já passou da hora de você aprender quem é o mais forte de Season High School! — Jaxon exclamou.

Logan derrubou uma das cadeiras da mesa, Kiara continuou sentada vendo o móvel cair no chão, deixando seu refri de lado, com receio de o derrubar.

— Eu não quero brigar rapazes, só quero comer meu lanche em paz.

— Ninguém liga para o que você quer fazer! — Martin a puxou pela gola da camisa, ela o encarou de volta, com as mãos no bolso.

Kiara suspirou.

— Vocês são insistentes, sério gente eu não quero... — Nesse momento Martin se preparou para dar um soco nela.

Em uma velocidade impressionante, seu punho atingiu o rosto de Martin que a soltou e cambaleou para trás. Logan gritou avançando nela como um touro, tudo que ela fez foi sair do caminho rápido, ficando atrás dele e dando um chute em suas costas o fazendo cair em cima de uma mesa. O refrão da música tocava.

In the jungle, welcome to the jungle

Feel my, my, my, my serpentine

I, I wanna hear you scream

Martin se recuperou do soco e voltou para retribuir o gesto, Kiara se abaixou e o jovem acabou socando o ar. Se aproveitou da brecha e desferiu um golpe no queixo de Martin, e antes que ele pudesse cair para trás o segurou pela camisa e o arremessou em direção a Logan que estava prestes a se pôr de pé.

No final, os dois permaneceram no chão gemendo de dor.

Kiara tornou a fitar Jaxon que engasgou, tentando formar uma frase diante da situação, todos os trejeitos de superioridade sumindo e dando lugar a raiva com uma mistura de nervosismo. Ela caminhou até ele.

— Não mande seus amigos irem lutar por você, Jaxon. Isso é algo bem merda de se fazer. Da próxima vez que quiser comprar briga, venha você mesmo.

Ele não respondeu nada. A garota olhou para os dois colegas de Jaxon e sentindo um gosto ruim na boca, deu um passo em direção a eles.

— Ei, eu ouvi uma confusão e acho que você não viu minha manobra.... — Luther viu os dois capangas se levantarem do chão e saírem correndo de volta para Jaxon. — Hum... Eu perdi alguma coisa?

— Kiara! Pare de jogar adolescentes nas mesas do estabelecimento! Se quebrar você vai ter que pagar! — Malcom gritou balançando freneticamente um pano de limpeza.

— Que saco, não dá nem mais para tomar um refrigerante em paz. — balançou a cabeça de leve, finalmente tomando um gole da bebida, piscando várias vezes para ver se a luz forte e irritante do ambiente parava de a incomodar tanto assim, ela deveria mudar de mesa. Ugh, agora até a música estava lhe dando um pouco nos nervos. Ela respirou fundo.

O resto do tempo que passou lá se passou sem grandes problemas. Luther comeu suas tão esperadas sobras, eles conversaram sobre diversos assuntos, riram e lancharam, sem Jaxon com suas frases de efeito nada efetivas sobre "ser o mais forte". Em certo momento ele pegou a caixa de primeiros socorros do estabelecimento para dar um trato na mão de Kiara, porque dar um soco mesmo vitoriosa não era uma experiência indolor. Em certo momento o celular de Luther tocou e ele atendeu, assim que a ligação acabou o loiro arrumou sua mochila.

— Preciso ir para casa, a vó quer que eu ajude ela a arrumar os catálogos das revistas de cosméticos.

— Quantos ela já tem? Mais de cem?

— Por aí. Ela mandou um beijo para você.

— Diz que eu vou passar lá amanhã para comer bolinhos.

— Vou avisar. — Eles se despediram com soquinhos de punho. — Até amanhã e cuida dessa mão. Sério!

Kiara passou mais meia hora na Pista Do O'Haley, se contentando em observar os outros. Luther não era só seu melhor amigo, ele era seu único amigo, quando ele deixava o ambiente Kiara poderia ficar horas sem falar, se ele sumisse da face da terra e ninguém a abordasse para o minímo de interação humana, Kiara tinha certeza de que ela nunca mais diria uma palavra em toda sua vida.

Quando ela finalmente deixou o lugar, a tarde já caía. Pilotava sem pressa de voltar para casa. Passou pelo parque municipal Clamont, onde famílias passeavam, namorados comiam hot dogs, pessoas se exercitavam e adolescentes que saiam da escola conversavam sentados na grama. O local sempre ficava lotada nesse horário.

Não faria mal descansar ali por um tempo, o mais longe possível de toda aquela gente. Felizmente havia um canto mais isolado, coberto de mato não aparado que fazia Kiara se sentir abraçada pelo conforto do silêncio.

Ao atravessar o parque, Kiara observou aqueles que corria para se exercitar. Ela era minimamente decente em exercícios físicos, odiava educação física, sempre tentava achar um jeito de cabular a aula, além disso, não tinha como ela correr de jaqueta de couro agora, seria pedir para morrer de insolação. Enfim, chegou ao local mais isolado, dando um suspiro de alívio ao sentir que parte das conversas estavam longe. Se sentou embaixo de uma árvore. Puxou um maço de cigarros que mantinha escondido e um isqueiro, acendeu, pendendo entre os lábios e se recostou no tronco. A paisagem do parque e da cidade tranquila em sua frente, dava para enxergar a cruz do topo da igreja bem no fundo.

"Você precisa começar a pensar no quer fazer no futuro."

O futuro...

O futuro sempre foi uma pedra no sapato de Kiara.

Desde que entrou no ensino médio ela só escutava sobre isso. Mas como ela poderia ser capaz de decidir? Como é que eles esperam que ela reflita sobre?

Ela não pensou nisso porque sabe que não iria conseguir de qualquer maneira.

Suas notas eram horríveis, ela não conseguia aprender nada e, sinceramente, não foi por falta de esforço prévio. Que tipo de lugar iria querer ela trabalhando com eles? Que tipo de trabalho ela queria ter em primeiro lugar? No final, qualquer coisa que não a faria querer morrer já não era o bastante? Porque ela nem sequer sabia se iria fazer uma faculdade.

Ela nunca teve um sonho de carreira, uma profissão que ela sempre quis seguir desde pequena como as outras crianças que diziam que iriam ser médicos, bombeiros e advogados. Ocupada demais lidando com sua família e se jogando de balanços para ver se conseguia cair em pé, simplesmente pensar no futuro a deixava ansiosa e ela tentava dizer a si mesma que não era tão importante assim. A verdade é que ela não tinha o que fazer. O que queira fazer. Ninguém esperava isso dela e os que esperavam iriam apenas se decepcionar.

Sem expectativas, sem perspectiva, sem altas esperanças, sem nada.

Analisando o espaço vazio onde deveriam estar as opções, ela tinha a possibilidade de surtar e fazer uma viagem de moto pelo mundo, voltar falando três línguas diferentes e com uma coleção impressionante de artefatos e fotos de cada ponto turístico.

O pensamento a fez sorrir.

Kiara sentiu algo caindo em sua cabeça, mexeu nos cabelos e tirou um folha de lá. Deu mais uma tragada em seu cigarro, soltando a fumaça lentamente.

De novo, algo caiu em seu cabelo e em seu ombro. Mais folhas. Ela tirou elas de sua cabeça e roupa.

Apenas para mais folhas caírem.

Ok, isso não é normal.

Olhou para cima e viu os galhos se mexendo com uma silhueta estranha em cima deles, um pássaro? Não. Um esquilo? Não. Mas quem sabe? Esses animais comem tanta porcaria que encontram no parque que devem dobrado de tamanho.

Kiara semicerrou os olhos e se afastou um pouco da árvore para ver melhor, para sua surpresa, a sombra misteriosa que fazia folhas caírem nela, não era um roedor mutante e sim... Uma criança.

O garoto tinha cabelos castanhos e uma camiseta azul marinha suja, se segurava no galho se movimentando devagar para frente. Kiara tirou o cigarro da boca, jogando no chão e pisando em cima.

— Hey! Menino aranha!

A criança levou um susto e procurou pela fonte da voz, enfim vendo a garota.

— Oi moça! Sou eu?

— Tem outro garoto preso em uma árvore?

O garoto pareceu pensativo.

— Quem sabe? Aqui tem muitas árvores e então eu posso não estar sozinho. Não sei...

— O que você está fazendo aí em cima?

— Quero pegar a minha bola! — Apontou para o brinquedo preso entre as folhas e madeira. — Tava brincando e chutei ela alto demais! Vai ser fácil, só preciso chegar um pouquinho mais perto. Deixa comigo.

— Você não vai fazer nada disso, desce daí que eu vou pegar para-

O som da madeira se partindo encheu seus ouvidos- MEU DEUS DO CÉU O MENINO ESTAVA CAINDO! Ela de repente se viu correndo desesperada com os braços abertos para interromper a queda do garoto que despencou levando o galho quebrado com ele. Se moveu tão rápido e mesmo assim estava hiper-atenta a todo e qualquer movimento que fez naquele instante. O coração acelerado. Houve um vulto, Kiara se arremesou pra frente, um peso a puxando para baixo subitamente mas ela se manteve firme e forte, um barulho ao seu lado. Mas que-

A criança estava em seus braços.

Os músculos de Kiara não haviam relaxado.

As mãos deles estavam coladas junto ao peito, os olhos arregalados, a criança piscou várias vezes, não tentou virar a cabeça para ver os arredores, mas sim encarou Kiara, boquiaberto. Lentamente, bem lentamente mesmo, Kiara sentiu a adrenalina se esvair. Dando um pequeno suspiro de alívio vendo o garoto são e salvo e com todos os ossos no lugar (Aparentemente).

— Moça você é rápida! — exclamou animado. — Eu pensei que ia cair com tudo no chão e... Ah! A minha bola! Ela veio junto também!

O garoto se desvencilhou dos seus braços, Kiara o ajudou a ficar de pé na grama, ele correu para pegar a sua bola, parecendo ter se recuperado completamente do acontecimento de quase ida para o cemitério. Kiara franziu o cenho, incrédula. Não era possível esse menino falar apenas isso, ele não iria chorar ou algo assim?

— Obrigada, moça! Eu fiz uma aterrissagem segura por sua causa!

Kiara foi tirada de seu transe.

— Que "obrigada" pirralho?! Já pensou se você caí daquela altura e se machuca feio!? — Era uma árvore alta, se ele fosse escalar que escolhesse uma mais baixa. Imagina se ela não tivesse bons reflexos?

— Eu ia ficar bem, sou bem forte. Não precisa se preocupar. — O menino deu de ombros, apenas isso.

— O que isso tem haver com quase cair de cara no chão?

— Ei! Isso foi a gravidade! É o que puxa a gente pro chão. — O menino explicou, levantado uma das mãos, ele estava se mexendo no lugar.

Ok, que atitude. Não era desconhecida por Kiara, ela mesma já conheçou várias crianças sem noção de perigo em sua vida, mas isso foi a muito tempo atrás quando ela também era uma pivete introvertida.

— Não puxaria se não subisse tão alto assim, espertinho. — Kiara suspirou. — Não machucou nada mesmo?

— Não, não. Essa árvorezinha aí, não é nada pra mim. — Ele sorriu e apontou para si mesmo, entao tornou a encarar Kiara, curioso, parecendo querer falar alguma coisa. Todo mundo queria falar alguma coisa pra ela naquele dia, que horror.

Kiara apontou para a bola de futebol.

— Joga isso para cá.

— Oh? Você quer brincar comigo? Sério? — O menino correu para mais perto dela, animação estampada no rosto, ele pulou na frente de Kiara.

— Se você fez tudo isso para conseguir essa bola é bom pelo menos ser bom em futebol. — A garota se espreguiçou.

Kiara pegou a bola do menino e desmanchou a faceta séria. Jogando a bola no chão, começou a fazer embaixadinhas, o rosto da criança se iluminou e ele admirou as jogadas da jovem. Ela se sentiu orgulhosa, a criança estava fora de lugares altos e ainda tinha habilidades em futebol que adquiriu pelos treinos da educação física na epóca do fundamental, futebol era um dos principais esportes da cidade então era impossível alguém dali não saber pelo menos fazer um passe.

Quando terminou, arremessou o brinquedo para ele, que deu um salto para pegar a bola e impedir que ela saísse voando.

— Boa defesa. — Elogiou. — Onde estão seus pais?

— Meu pai tá no carrinho de cachorro quente. — Kiara viu um homem de camisa cinza no carrinho que o garoto apontou.

— Então vá ficar do lado dele, ok? Pare de subir em lugares altos.

— Tchau moça! — Acenou com a bola em baixo do braço correndo de volta para seu pai.

Kiara o observou indo embora e se espreguiçou. Muita emoção para ela que queria somente descansar embaixo de uma sombra. Ainda tinha que fazer compras para casa, era melhor se apressar antes que todas as coisas da lista sumissem das prateleiras.

Subiu em sua moto se afastando do parque, cinco e meia da tarde, o padeiro e o borracheiro não brigavam mais pelo resto do dia, uma notícia boa para todos os vizinhos querendo ler o jornal em paz. Estacionou na frente do supermercado, pouco movimento no local. Kiara sempre fazia compras nesse horário para evitar pular no pescoço de alguém por causa de algum produto. Ainda bem que a feira seria apenas no dia seguinte, por enquanto, colocou macarrão instantâneo para preparar pelo resto da semana. Não podia extrapolar o valor que sua mãe lhe estipulou para compras, pegar lanches na Pista Do O'Haley e doces são ganhos que foram permitidos a ela se soubesse economizar direito. Gostava de pensar que se uma crise mundial acontecesse, depois do apocalipse zumbi ela seria parte do 10% que sobrou da raça humana com dinheiro para comprar enlatados. O dinheiro não iria valer de nada, mas shhh, era bom ela ter pelo menos distópica realização pessoal, mesmo que fosse falsa.

Enquanto a caixa colocava suas compras em sacolas ela lia uma revista em quadrinhos da prateleira. A mulher do caixa chamou sua atenção, Kiara colocou a revista de volta no lugar e pagou as compras. Saiu da loja, mantimentos em dia, missão semanal cumprida.

Dirigiu de volta para sua casa escura e ligou as luzes da sala quando entrou. Uma caixa de pizza estava em cima do sofá. Agitou o embrulho, nada dentro. Abriu a lata de lixo e jogou a caixa vazia fora.

Entrou em seu quarto, o espaço cheio de desenhos feitos a mão em papel cobrindo as paredes, na escrivaninha havia uma bagunça de lapís de cor e lições de casa não terminadas, havia uma mesa digitalizadora ali que foi resultado de boas semanas economizando dinheiro, a estante pela qual ela passou estava recheada de livros, esses sim estavam bem arrumados. Deixou a mochila na cama, parando por um instante na frente do espelho.

Sua pele negra-clara estava com alguns resquícios de grama por conta da visita conturbada que teve ao parque da cidade. Kiara ajeitou um dos cachos escuros que caiam na frente de seu rosto, droga, ela nem tinha notado que a briga estúpida na Pista havia arruinado parte do seu penteado. Jaxon idiota. Martin e Logan idiotas. Ela também uma babaca por ter brigado, mas um de seus mantras era que "Se outra pessoa a atacasse fisicamente, ela iria revidar." , e agora adicionando mais um pórem: essa confusão em partes justificada isso não impediu o longo e exausto suspiro que saiu de sua garganta. Kiara tirou o curativo que Luther fez em sua mão, analisando os arranhões e hematomas pequenos, não era nada que merecesse preocupação excessiva, sumiria de vez em uma semana no máximo se ela cuidasse. Finalmente, ela tomou um banho demorado para tirar o cheiro de escola.

Kiara sabia muito como se virar sozinha em casa, acontecia com frequência. Confiava em si mesma o bastante para saber que não iria tacar fogo no lugar sem querer. Por isso quando voltou para a cozinha — já vestida com roupas mais confortáveis, foco em uma camiseta de uma banda chamada Ride que seu pai costumava gostar — colocou o macarrão no microondas e se sentou no balcão da cozinha, pondo uma música para passar tempo enquanto espera. Sua playlist decidiu ir com The Cranberries. Até pensou em comer uma de suas deliciosas gelatinas de amora que guardava na geladeira, mas se impediu, precisava jantar antes.

Se esparramou no sofá, assoprou o macarrão para resfriá-lo depois de pasar pela sua gigantesca coleção de filmes de comédia romântica, uma parte considerável dos dvds que possuía eram adaptações dos livros que havia lido, jamais cometeria o crime horrendo de ver um filme de um livro antes de ler a obra original. Houve uma época onde ela se lembrava de toda semana sair um desses. Trailers e entrevistas com os autores eram a única coisa que passava nos canais, em conjunto com fãs dizendo que tal cena era diferente no livro, Kiara estava no meio dessa galera, havia lido e assistido todos os filmes de sua coleção mais vezes do que conseguia contar. Era isso que ela pensava enquanto tentava se decidir entre Cidades De Papel e Noiva em Fuga. A última opção ganhou, porque já fazia um tempo desde que Kiara viu o rosto da Julia Roberts.

Ela sabia a trama de trás para a frente, mesmo assim prestou total atenção na tela enquanto a história corria. Maggie Carpenter e sua saga de tentar casar mais uma vez após fugir de três casamentos no altar. E Graham, um jornalista que publicou uma matéria sobre o caso e acabou se apaixonando por Maggie. Era uma premissa interessante, a parte de fugir do altar, não a de publicar uma matéria sobre isso sem checar com a pessoa se era ok ou não. Se ela desaparecesse do nada, agora, nesse exato momento, no que daria?

Luther, a avó dele e diretor Henderson ficariam preocupados. Sua mãe iria pirar. Jaxon iria achar maravilhoso e o resto da escola faria uma festa. Os professores trariam o champagne e tocariam músicas seriam bregas, com o tempo as coisas voltariam ao normal.

Será? Meh, muito chato. Desaparecer daria muito trabalho e mil coisas podem acontecer, acredite, Kiara tinha uma noção sobre esse assunto. Parece que Newstill teria que aguentar ela. Newstill e sua tediosa rotina, com uma delinquente sem futuro. Certas coisas nunca mudam. A vida era assim.

Os personagens debatiam entrar em uma cidade quando alguém bateu na porta, apertando a campainha logo depois. Kiara franziu o cenho. Ela até poderia ignorar, mas seja lá quem estivesse do lado de fora bateu mais forte e mais alto, a fazendo se encolher irritada. Era final de tarde, quem era a essa hora? A epóca de escoteiros vendendo biscoitos já passou, então não podia ser isso. Também não era Luther, porque Luther tem batidas rápidas e leves na porta e não algo como um coice de cavalo.

Engoliu a comida e abriu a porta pronta para fazer conversa curta e expulsar o visitante.

Kiara reagia bem a ataques surpresas, um soco, pontapé ou chute. Observava bem o ambiente em que estava e reagia de acordo com rapidez. Tinha um jeito de contornar essas situações com maestria. O mesmo se aplicava em fazer uma surpresa para ela, Kiara descobriria, ela sentia que a pessoa estava escondendo algo. Fazer um ataque surpresa era quase improvável, no geral uma surpresa era impossível quando falavamos de Kiara Mitchell.

Mas assim que abriu a porta e encarou a pessoa ali parada ela entrou em choque. A boca meio aberta e os olhos arregalados, ela não sabia como reagir, se o socava, fechava a porta ou o convidava para entrar.

Porque quando se tratava de David, seu irmão mais velho, ela nunca sabia o que fazer.

— Oi maninha. — disse com um sorriso nervoso.

Kiara soltou a primeira coisa que veio à sua cabeça.

— O que você está fazendo aqui, David?

O homem se moveu, desconfortável. Por fim, Kiara percebeu que ele não estava sozinho.

Do lado dele, havia uma criança.

— Kiara, eu vim fazer uma visita para te apresentar alguém. — segurou os ombros do garoto. — Esse aqui é o Gabriel...

O menino aranha.

— O meu filho e o seu sobrinho.

Kiara reagia bem a ataques surpresas.

Mas não tinha a menor ideia de como contra-atacar essa notícia.