Actions

Work Header

Demonologia e o Modelo Trifásico de Trauma: Uma Abordagem Integrativa

Summary:

No momento em que Aubrey Thyme, psicoterapeuta, abriu a porta de seu escritório e viu seu novo cliente, Anthony J. Crowley, sentado em sua recepção, ela já estava o observando e o avaliando. À primeira vista, ela prestou atenção no seguinte:
– Suas roupas eram caras e estilosas;
– Ele usava um perfume estranho porém perceptível;
– Sua relação com a cadeira que ele ocupava poderia apenas, muito vagamente, ser considerada como “sentado”;
– Ele parecia irritado;
– Ele estava usando óculos escuros.
O que Aubrey Thyme, uma profissional, pensou, quando viu seu novo cliente foi: você vai ser divertido, não é?

Chapter 1: Avaliação Inicial

Notes:

Este trabalho é uma tradução de "Demonology and the Try-Phasic Model of Trauma: An Integrative Approach" de Nnm.

Para aprender mais sobre trauma e seus efeitos no cérebro, dê uma olhada no "The Body Keeps Score", de Bessel van der Kolk.

No Brasil, você pode chamar o Centro de Valorização da Vida, discando 188.

(See the end of the chapter for more notes.)

Chapter Text

“Complexo de Édipo,” foi a primeira coisa que ele disse à ela. “Sua opinião?”

Aubrey Thyme era uma profissional. Ela tinha mais de dez anos de experiência providenciando terapia individual e em grupo, com foco especial em sobreviventes de trauma. Ela havia tido clientes que a ameaçavam, gritavam obscenidades na sua cara, propuseram sexo à ela, e ainda pior. Ela havia trabalhado com clientes através do processo de hospitalização, ela havia reportado ameaças de violência acionável e de automutilação para a polícia, e ela havia ouvido relatos de angústia, dor e perda pior do que a maioria poderia imaginar. Aubrey Thyme era uma profissional, e ela estava treinada profissionalmente e com experiência para lidar com clientes terríveis, confusos e desafiadores. 

E ainda assim, mesmo com mais de dez anos de experiência, ainda havia formas de que uma profissional como Aubrey Thyme conseguisse ser surpreendida. Essa é a emoção do trabalho, afinal de contas: sempre há surpresas. Por exemplo, uma profissional como Aubrey Thyme poderia ter um cliente novo, entrando em seu escritório para seu primeiro encontro, se jogar numa cadeira do outro lado da sua e dizer, “Complexo de Édipo. Sua opinião?” do mesmo jeito que esse cliente, Anthony, acabou de fazer. 

Parte de ser uma terapeuta de saúde mental profissional é ter um olhar aguçado, observador. A partir do momento do primeiro contato com um cliente, ou com um cliente em potencial, uma profissional como Aubrey Thyme presta atenção em cada detalhe sobre a identidade, a personalidade, os problemas e vias para soluções dele. É por isso que, quando esse cliente, Anthony, se jogou e disse, “Complexo de Édipo. Sua opinião?” ela não foi pega desprevenida. 

No momento em que Aubrey Thyme abriu a porta de seu escritório e viu seu cliente novo, Anthony, esperando em sua recepção, ela já estava o observando e o avaliando. À primeira vista, ela prestou atenção no seguinte: 

– Suas roupas eram caras e estilosas;
– Ele usava um perfume estranho porém perceptível;
– Sua relação com a cadeira que ele ocupava poderia, apenas muito vagamente, ser considerada como “sentado”;
– Ele parecia irritado;
– Ele estava usando óculos escuros.

O que Aubrey Thyme, uma profissional, pensou, quando viu seu novo cliente foi: você vai ser divertido, não vai?

Ela havia o convidado para entrar em seu escritório. Ela havia sorrido, gentilmente, e ele não havia sorrido de volta. Ele se levantou, entrou, e não disse uma única coisa, nem mesmo um cumprimento, até ele se jogar na cadeira e pedir sua opinião sobre complexos de Édipo. 

Uma terapeuta não precisa ser profissional com mais de dez anos de experiência lidando com casos particularmente desafiadores de trauma severo para saber como responder a isso. Uma terapeuta que preste saberia como responder a isso. Então Aubrey Thyme se instalou em sua cadeira na frente da de Anthony e disse, como qualquer terapeuta que preste teria feito, “Por que a pergunta?” 

Ele claramente não parecia impressionado, mas ela não estava insatisfeita com isso. Ele estava tentando provocar uma batalha de poder; ele queria fazê-la se provar para ele. Ele ainda estava usando aqueles óculos escuros. 

“Na última vez que eu tentei isso,” ele disse, “eu passei horas deitado num sofá, e tive que ouvir horas e horas sobre complexos de Édipo. Não quero fazer isso de novo.” 

Ela ouviu. Ela assentiu com a cabeça. O que ela ouviu foi: Estou com medo. Não goste de mim, e eu vou embora. Isso era seu trabalho, convencer ele a ficar.

“Parece que você viu um psicanalista Freudiano muito tradicional.” 

“Bem, sim. Era o Freud.” 

Isso não fazia sentido pra ela. E pelo movimento de suas narinas e a flexão de sua boca, ela podia notar que ele não esperava que isso fizesse sentido pra ela. Ele queria a deixar apreensiva, abalada, ela tinha certeza, porque fazer isso faria com que ele ganhasse a batalha de poder que ele havia tentado estabelecer. Então ela não se abalaria. 

“Não sou Freudiana. Eu acho que nunca falei sobre Édipo numa sessão antes.” Ela sorriu. 

O fato de que ela deu a resposta certa não significava que ele havia terminado de testá-la. Aubrey Thyme, profissional, entendia que Anthony era alguém que não pararia de testá-la por um bom tempo. 

“Eu gostaria de começar conhecendo um pouco mais sobre o que te trouxe aqui,” ela disse. 

“É,” ele disse, e não elaborou. 

Uma das primeiras habilidades que Aubrey Thyme, terapeuta profissional, havia desenvolvido era a habilidade de sentar em silêncio. Pode ser amedrontador e insuportável, sentar numa sala pequena em completo silêncio um com o outro, especialmente quando o outro era um homem muito irritado que ainda não havia tirado seus óculos escuros. Pode ser inquietante, e a maior parte das pessoas tem a necessidade de preencher todo silêncio desconfortável com conversa. Mas isso não era o que Anthony precisava neste momento, ela decidiu. O que Anthony precisava, ela pensou, era a experiência de esperar o tempo necessário para ele dizer o que ele precisava dizer. 

Outra das primeiras habilidades que Aubrey Thyme havia desenvolvido era a habilidade de sub-repticiamente manter um olho no relógio, não importava a situação. É assim que ela soube que Anthony se manteve em silêncio por trinta segundos inteiros antes de continuar. 

“Algo aconteceu há um tempo atrás. Eu não tenho estado bem desde então. Preciso que você conserte isso.” 

Para narrativas de trauma, isso não havia sido o pior que ela havia ouvido numa primeira sessão com um cliente. Com outro cliente, ela teria respondido: é muito difícil falar sobre, não é? Ou talvez: Eu me sinto comovida que você compartilhou isso comigo, obrigada. Ou talvez outra coisa. Mas levando em consideração tudo que ela aprendeu sobre Anthony até agora, ela decidiu continuar com: “O que aconteceu?” 

“Teve um incêndio. Eu pensei que meu amigo morreu.” 

“Parece bastante grave.” 

“E foi.” 

“Seu amigo não estava morto?”

“Não.” Ele balançou a cabeça. “Ele tá bem.” 

“E, agora, você não está bem.” 

“Não.”

Que nem arrancar os dentes, ela pensou. “Me fale mais um pouco sobre isso,” ela disse. “Como você não está bem?” 

Ele se mexeu, inquieto, e revirou os olhos de uma maneira exagerada que deveria ter sido com o objetivo de deixá-la reconhecer que ele estava o fazendo apesar dos óculos escuros. Ele tem muita prática fazendo isso, ela pensou. O movimento permitiu que ela notasse a tatuagem no lado do seu rosto. Ela teria que pensar sobre essa tatuagem, mais tarde. 

“Eu pesquisei,” ele disse. “São flashbacks. Eu tô tendo flashbacks do incêndio.” 

Ela assentiu com a cabeça. Era um dos seus acenos profissionais. Era um aceno que dizia, Isso faz completo sentido pra mim. “Mais alguma coisa?” 

“Não.”

“Mudanças de humor?” 

“Não.”

Ela pausou, para que pudesse deixar sua mente profissionalmente treinada avaliar suas opções. Anthony estava a testando, e ela decidiu o testar de volta. “Isso é verdade? Porque você parece bastante nervoso.”

“Apenas minha personalidade conquistadora,” ele disse.

“Muitas pessoas, depois de um evento traumático, se encontram irritadas e nervosas. Tem certeza de que não notou nenhuma mudança desse gênero?”

Ela observou ele pensando. Ele tinha muito o que pensar, aqui. Ela sabia que muitas pessoas, depois de experienciar trauma, perdiam o contato com suas emoções. Ele poderia ser assim; ele poderia honestamente precisar pensar, para avaliar suas emoções, para encontrar a resposta para sua pergunta. Ela também sabia que era possível que ele ainda estivesse a testando, e ele queria saber o quão longe ele poderia a cutucar antes de ela desistir. Ou: ele poderia estar decidindo se ele queria continuar com as mentiras. Isso, ela pensou, era o cenário mais provável. 

Anthony, ela estava começando a notar, era um mentiroso. 

Aubrey Thyme gostava de trabalhar com mentirosos. Nem todo terapeuta gosta. Muitos vêem mentiras como veneno para o encontro terapêutico, mas não Aubrey Thyme. Aubrey Thyme, com toda sua experiência, tinha descoberto que mentirosos são interessantes o suficiente para valer a pena a frustração potencial. Mentirosos eram divertidos. 

“É, beleza,” ele disse, e ele se escorou para trás na sua cadeira. Ela notou a diferença na postura: se escorando para longe, virando a cabeça para o lado. Ela havia dado a menor migalha possível de confiança emocional, e ele compensou por aumentar a distância física. “Eu já ouvi que estou irritável.” Ele fez um gesto complicado com a mão. “Mais irritável que o normal, no caso.” 

“Sua personalidade conquistadora,” ela disse. 

Ele sorriu. Promissor, ela pensou. 

“Quem te contou que você está mais irritável ultimamente?”

“Meu amigo,” ele disse, e ele estava se mexendo na cadeira novamente. As costas dela estavam começando a ficar impacientes, como resposta. “Não vamos falar sobre ele.” 

“Esse é o mesmo amigo que você pensou que havia morrido?”

A boca dele se abriu, e ficou aberta por um momento. Ele claramente sabia que havia sido pego, estava preso. “É. É, ele.”

“Então eu acho que provavelmente vamos precisar falar sobre ele.” Ela fez um gesto com suas mãos, como se estivesse mostrando as opções, como se estivesse oferecendo consolo: aqui está tudo que tenho para oferecer.  

Ele produziu um som, algo entre um grunhido e uma lamúria. 

“Então, me conte sobre ele,” ela sugeriu. Ela se moveu agora, cruzando uma perna sobre a outra, e encolheu os ombros. 

“O nome dele é Ezra. Ele tem uma livraria. Era a livraria que estava pegando fogo. Isso é tudo que você precisa saber.” 

Anthony gostava de decidir o que ela precisava e não precisava saber. Ela deixou essa observação de lado por agora; ela teria trabalho para fazer, desenvolver a descrição inteira dele, depois de seu tempo com ele terminar. 

“A livraria de Ezra estava pegando fogo,” ela sumarizou. “Você pensou que ele havia morrido – no incêndio? E agora você está tendo flashbacks, e está irritável.”

“Eu estava dentro do incêndio,” ele disse, e era como se ele não estivesse mais na sala com ela, como se ele tivesse ido para outro lugar, um lugar quente demais e sem saída. Pela sua aparência, Aubrey Thyme podia concluir, a pressão sanguínea dele aumentou, a frequência cardíaca dele estava subindo, e a pele dele ficou pálida. Ele era muito magro, ela podia ver todos os músculos se movendo em seu rosto e suas mãos enquanto seu corpo inteiro ficava tenso. Ela o assistiu enquanto ele não respirava. 

“Fique comigo,” ela disse, e ela disse com um tom específico que ela usava em situações como essa. Porque isso não era uma situação incomum, não para uma profissional como Aubrey Thyme, que era especialista em casos de trauma. “Anthony. Está comigo? Olhe para mim. Estou aqui com você.” 

Com os óculos escuros, ela não podia ver onde os seus olhos estavam, mas ela adivinhou que havia conseguido sua atenção. Ela fez questão de respirar fundo, e ficou satisfeita de ver ele a imitando. 

Ela esperou. Ela respirou. Ela observou Anthony. Ele retornou ao presente, à sala. Levando tudo em consideração, não levou muito tempo. 

“Eu tenho mais perguntas para você,” ela disse. Ela se certificou que sua voz soou mais baixa agora. Ela sabia como usar sua voz para modular a emoção de outros. “Mas eu acho que deveríamos deixá-las para depois.” Ela esperou por uma resposta, mas não recebeu, então ela continuou. “Em vez disso, que tal eu te ensinar algo que pode ajudar, quando algo assim acontece.”

“É?” ele pediu, de uma forma específica, e foi de uma forma que fez com que o coração de Aubrey Thyme se quebrasse quase no meio. Ela estava acostumada com isso, sentir seu coração quebrando, quando clientes soavam e pareciam como Anthony agora, especialmente os mentirosos. Era assim que ela sempre se sentia, quando ela via alguém irritado deixar o véu para trás, para revelar uma criança assustada e solitária se escondendo. Ele estava oferecendo uma migalha de esperança. 

Ela queria merecê-la. 

“Se chama cinco-quatro-três-dois-um. É uma técnica de estabilização. Já ouviu falar?”

Ele balançou a cabeça. 

“Okay.” Ela sorriu. “Deixa eu explicar o que é.” 

Eles foram ao trabalho.

Quando a hora acabou, Anthony estava um pouco mais calmo. Depois que ele saiu e ela fechou sua porta, ela se permitiu sentir todos os nervos enroscados que estava escondendo dele. Ela respirou fundo, várias vezes, longos e profundos, e fechou os olhos. Ela havia passado a hora tomando toda a raiva e dor e confusão e desconfiança palpável de Anthony para si, e ela tinha dez minutos para expelir tudo de seu sistema, antes de seu próximo cliente. 

Ela imaginou que as chances de Anthony voltar para a próxima sessão eram de 50/50. 

***

À um certo nível de abstração, há três fases na terapia de trauma. Isso é, pelo menos, o que o modelo trifásico de trauma e terapia diz. Aubrey Thyme achou que é um modelo útil. 

A primeira fase é baseada na segurança. Uma aliança terapêutica deve ser formada. Nesta fase, o cliente ganha confiança nele próprio e no terapeuta. O foco principal é em aprender habilidades – técnicas de estabilização, técnicas de respiração, técnicas de meditação, e por aí vai – que ajudem com os sintomas de distúrbios relacionados ao trauma. O objetivo é dar ao cliente algumas ferramentas que ele precisa para lidar com a dor que virá, em fases futuras, quando o foco muda para confrontar e superar as memórias traumáticas. 

Clientes diferentes, é claro, têm diferentes necessidades de segurança. Essa primeira fase leva mais tempo para alguns clientes do que outros. Depois de uma primeira sessão com um cliente, Aubrey Thyme normalmente tem uma ideia boa de quanto tempo demorará para que ele possa seguir para a fase dois, mas ela nunca sabe com certeza. Sempre tem surpresas, reveses, e desenvolvimentos não previstos. 

Ela não tinha certeza, depois de apenas um encontro com Anthony, de quanto tempo demoraria. Mas ela tinha uma suspeita forte: eles estariam prontos para sair da fase de segurança no momento em que aquela merda daqueles óculos saíssem de sua cara. 

***

“Estou começando a pensar que você não é boa no seu trabalho,” Anthony disse, no momento em que ele estava esparramado na cadeira de seu escritório. 

Eles haviam se encontrado algumas vezes naquele ponto. Cada vez, ela estava surpresa que ele havia voltado – especialmente depois que ela checou seu endereço. (O Google Maps a contou que Londres era um vôo de 9 horas do seu escritório em Rochester, Nova Iorque. “Belo trajeto,” ela havia dito, e ele assentiu. “Especialmente para alguém que é aposentado,” ela adicionou, e ele não respondeu. Ele era um mentiroso, mas pagava em dinheiro vivo, e seu número de celular funcionava, então ela continuou com seu trabalho.) Cada vez, ele começava a sessão estabelecendo claramente as regras básicas: Eu posso ir embora a qualquer momento, eu não preciso de você, se prove pra mim. 

E estava tudo bem. Aubrey Thyme, afinal de contas, era uma profissional. Essa não era a primeira vez que um cliente havia questionado sua competência. Não era nem a centésima. A parte boa de se ter experiência é que você aprende a lidar com esse tipo de situação. 

“Agora, por quê?” ela perguntou.

Ele ergueu uma mão, dedo indicador flexionado. Ele deu um tapinha com o dedo contra a armação dos seus óculos escuros. 

Ha-ha!, ela pensou, mas não mostrou com sua expressão. “Quer explicar o que você quer dizer?” ela perguntou. 

“Tá acostumada com gente usando óculos escuros aqui dentro o tempo todo?”

Você tem que ser tão contraditório sobre tudo, droga? ela pensou. “Não, nem um pouco,” ela disse. 

“Não é esse o tipo de pessoa que sua profissão deveria, sabe, comentar sobre?”

Ela sorriu, e ela sabia qual efeito isso teria sobre ele. Ele queria vê-la incerta; ele queria o poder neste encontro, para que pudesse se sentir seguro com a distância que isso inspirava. Ela sorriu, e, ao fazer isso, ela o roubou deste poder. “É? Você acha?”

Ele sacudiu os ombros. 

Ela o roubou da segurança que vinha com a incerteza dela, porque ela queria substituí-la com, em vez dela, um outro tipo de segurança. A segurança que vinha com uma conversa honesta. “Você está certo,” ela reconheceu. “Definitivamente é o tipo de coisa que as pessoas na minha profissão tendem a comentar sobre.”

Ele sacudiu os ombros novamente. 

“E, eu falo, Anthony, é definitivamente algo que eu tenho pensado sobre.” Ela esperou, mas ele não reagiu, então ela continuou. “Eu tenho pensado em falar sobre eles. Quer saber o porquê de eu não ter feito isso?”

Ele estava muito disperso para reconhecer sua curiosidade. 

“É porque…” e ela alongou a frase um pouco, porque ela sabia que poderia ser um pouco cruel com mentirosos contraditórios como Anthony, pelo menos quando ela sabia que não estouraria em sua cara muito gravemente. “... eu pensei que, no momento em que você estivesse pronto pra falar sobre eles, você começaria o assunto.” 

Ela o deixou sentar ali na sua frente e pensar sobre isso. Ela deixou seu sorriso pequeno se transformar em um mais satisfatório. 

“Eu não quero falar sobre eles,” ele murmurou.

“Então não precisamos.” 

“Eu tenho uma doença nos olhos.”

“Ah, eu não sabia disso.” Ela assentiu agora, e deixou sua mente trabalhar com essa informação nas teorias que ela tinha sobre ele. “Obrigada por me contar.”

Ele odiava receber gratidão. Ele odiava isso agora. Ela continuou sorrindo. 

“Eu não quero falar sobre eles,” ele repetiu. 

“Você disse,” ela assentiu. “Sabe, outra coisa sobre as pessoas na minha profissão? Quando ouvimos alguém dizer que não querem falar sobre algo? Especialmente quando eles dizem isso mais de uma vez? Nós tendemos a prestar atenção nisso.” 

Ela o viu franzir o cenho, atrás das lentes escuras. 

“Nós tendemos a pensar que significa que, na verdade, eles realmente querem falar sobre.” 

“Eu não.”

“Você disse,” ela sorriu. “Três vezes, já.” 

Ele estava cansado desse jogo. Ele grunhiu enquanto se mexia na cadeira, de alguma forma chegando ainda mais perto de zombar do conceito de ‘sentar’ do que qualquer outro humano tinha direito. Ela estaria tentando a sorte, se continuasse com isso por mais tempo. 

“Se você não quer falar sobre eles, não falaremos sobre eles. Se quiser continuar usando eles, pode continuar. Mas se você quiser falar sobre eles, então vamos falar sobre eles.” 

Olhos no relógio: quarenta e cinco segundos se passaram antes de ele falar de novo. 

“Ninguém me chama de Anthony,” ele disse. Ela estava ficando melhor em ler suas expressões, apesar dos óculos, e ela podia ver que ele não estava olhando em sua direção.

“Desculpa, o quê?”

“Crowley. Eu me chamo Crowley.” Agora ele a encarava, e seus lábios se contorceram.

“Vou lembrar disso.” Para a maioria dos clientes, o primeiro nome tinha mais intimidade que o último nome. Mas Aubrey Thyme podia notar que isso não era o caso de Anthony – de Crowley. Isso era um presente, uma reconciliação, sendo ofertada. “Obrigada por me falar, Crowley.” 

Ele odiava receber gratidão. Ele podia tolerar, mas ele odiava. É por isso que ela continuava agradecendo.

***

Ela fez nota de todas as vezes que ele mencionou os óculos escuros. Ela procurou os padrões, para os eventos suscitantes que levam ele a mencioná-los. Às vezes, como agora, ele fala sobre eles para mudar de assunto. 

“Se eu fosse tirar eles, você não teria a mesma imagem de mim,” ele disse, como se o referente ‘eles’ tivesse sido estabelecido, como se ambos estivessem numa conversa sobre os óculos escuros. Mas não estavam. Ela havia, em vez disso, perguntado sobre por quê ele não gostava de praticar as técnicas de respiração em casa. Isso a irritou, mas ela era uma mulher íntegra: quando ele quisesse falar sobre os óculos, eles falariam sobre os óculos. 

“Como você acha que a minha imagem sobre você mudaria?”

“Você…” Crowley, com frequência, começava a falar sem saber como terminar o que ele queria dizer. Sua mente funcionava rapidamente, afinal de contas, e ele ainda não confiava nela. “Você não me veria mais como um humano.”

“Uau,” ela disse, e se permitiu mostrar o peso que aquelas palavras tinham para ela. Ela o assistiu se mover, inquieto. Ele estava escondendo algo, o que parecia estranho. A maioria das pessoas, quando admitem que algo as fariam não se sentir mais humanas, teriam se exposto. De alguma forma, ele não. “O que significa pra você, ser humano?”

Algo muito complicado passou através de seu rosto, como um sorriso ou uma expressão de escárnio e careta. Ela pensaria sobre isso mais tarde. “Significa ser livre,” ele disse. 

“Se você tirar seus óculos,” ela sumarizou, “você não seria livre.”

“Eu não pratico em casa, porque Ezra não sabe que eu venho aqui.”

Ela poderia levar uma chicotada, tentando seguir as tentativas de Crowley de desviar o assunto. “Okay, okay,” ela disse, e mostrou as mãos. “Eu realmente acho que precisamos falar sobre essas coisas. Mas não podemos falar sobre elas ao mesmo tempo. Óculos escuros, ou Ezra. Com qual você quer começar?”

“Nenhum.” Porque Crowley era, acima de tudo, mesquinho. “Qualquer um, eu não tô nem aí.” 

“Então escolhe.”

“Tá bom, óculos escuros,” como se isso fosse um favor que ele estava fazendo pra ela, um grande sacrifício de sua parte para o benefício dela. 

“Okay.” Ela assentiu e se permitiu um momento para trabalhar numa estratégia, se reposicionando ligeiramente em sua cadeira. “Deixe eu perguntar isso. E se você fosse tirá-los agora, aqui, comigo. O que é a absolutamente pior coisa que você acha que poderia acontecer?”

“Você se transformaria num monte de sal.” 

Ele fazia isso às vezes. Ele fazia piadas bobas, e elas normalmente eram preenchidas com alusões Bíblicas. Isso era, também, algo que ela mantinha anotações sobre. Ela não entendia o porquê de ele fazer isso, mas ela sabia que ele não esperava que ela entendesse. Era seu próprio jeito particular de rir da sua cara, aparentemente. Ela esperou. 

“Você gritaria e correria para fora e não iria se encontrar comigo novamente,” ele murmurou.

Ela assentiu. “Então essa é a pior coisa. Qual a probabilidade que você acha de isso acontecer? Numa escala de um à dez, onde um é nada provável, e dez é com absoluta certeza.”

“Hum, quatro.”

“Então poderia acontecer, mas não é muito provável.”

“Não.”

“Qual você acha que é o resultado mais provável?”

“Você provavelmente gritaria um pouco, mas tentaria esconder.” Ele pausou, sugando o ar através de seus dentes. “Você me agradeceria por ser tão corajoso e forte.”  

Ela tinha feito isso algumas sessões passadas. Ele estava zombando. Mesmo assim, ela pensou que importava que ele lembrava, e que as palavras haviam o afetado o suficiente para mencioná-las de novo. “Okay.” ela disse, não caindo na armadilha. “Qual a probabilidade disso?”

“Provavelmente, sete.” 

“Qual a absolutamente melhor coisa que poderia acontecer?” 

Ele não estava esperando isso. Ele sentou ligeiramente mais reto em sua cadeira, o que ela pensou que era interessante. “Eu acho– Eu acho que, nada.” 

“Nada. Você tira seus óculos escuros, eu vejo seus olhos, e absolutamente nada acontece.”

“Nada muda.” 

Ela sorriu. “Certo, sim. Porque nada sobre seus olhos pode mudar quem você é.” 

Ele pensou sobre isso. Não respondeu. 

“Qual a probabilidade?” 

Ele a encarou, e disse, “Nós já passamos de dez. Pior caso é um quatro, mais provável é sete. Estamos lidando com probabilidades impossíveis.” 

“Me agrade. Qual a probabilidade?” 

“Dois.”

Aubrey Thyme era um profissional. Ela tinha um interesse profissional em qual doença que seu cliente, Anthony Crowley, poderia ter. Ela tinha um interesse profissional em tentar entender porquê ele tinha tanto medo de mostrar seus olhos para outra pessoa, e porquê ele pensava que a aparição de seu rosto descoberto seria tão amedrontador que a relação inteira deles mudaria. Mas Aubrey Thyme não era apenas uma profissional, ela também era humana. E, como uma humana, ela tinha um interesse pruriente em o que diabos poderia ter atrás daquelas lentes escuras. 

Eles não conseguiram discutir sobre Ezra, naquela sessão. Lamentável, mas o tempo havia terminado.

***

Aubrey Thyme gostava de pensar sobre a mente humana como uma teia de aranha. Isso não era particularmente criativo da parte dela, afinal era uma metáfora comum, mas era útil. Cada fio na teia era uma crença. Os fios periféricos eram as crenças simples, facilmente sacudidas com evidências contrárias, insignificantes. No centro da teia estavam as crenças-base, entretanto, as que moldavam a identidade inteira de uma pessoa. Mexa em um desses fios, e a pessoa inteira mudaria. Aubrey Thyme passava muito tempo de seu trabalho tentando localizar os fios-base nas teias de outras pessoas para que pudesse extraí-las. 

Ela não era boba o suficiente para acreditar que ela poderia entender a teia inteira de uma pessoa. Todos escondem algo. O ramo da psicologia era simplesmente complicado pra caramba, e sempre teriam perguntas sem resposta sobre qualquer cliente, não importava quanto tempo o trabalho deles durasse. Isso era algo com que Aubrey Thyme já havia se acostumado: pondo na balança sua curiosidade intensa com a vasta realidade de limitações humanas. 

O seu trabalho com Crowley havia a deixado com uma ideia pequena sobre como era a teia ocupando a mente dele. Ela havia dado uma olhada, de vez em quando, em alguns dos fios-base de crença dele. Mas ainda haviam algumas questões muito sérias que ela adquiriu sobre ele, buracos em seu conhecimento sobre ele que, ela sabia, estavam interferindo no trabalho dos dois. Ela havia tido essas questões, desde que ele havia preenchido os formulários demográficos, no primeiro dia em que se conheceram. 

Para pronomes, ele selecionou ‘ele/dele’. Para gênero, entretanto, ele escreveu ‘Não.’ Para orientação sexual, ele não escreveu nada. Para a afiliação religiosa, ele escreveu, ‘Claro, por que não?” 

O último foi o que mais a surpreendeu. Ele parecia o tipo de pessoa que acharia a simples ideia de religião enfurecedora. Ele tinha a aparência de um homem (?) que havia mergulhado os dedos em Satanismo antes de se tornar obsoleto, alguém que havia desistido dele uma vez que descobriu que ateísmo era mais apropriado para ele. 

As outras informações demográficas não haviam a surpreendido de maneira significativa. Crowley era, afinal de contas, um homem (?) de uma certa idade, e ela estava acostumada com homens de uma certa idade, com certas persuasões, se sentindo desconfortáveis ao descrever certos aspectos de suas identidades. Mas ela ainda precisava perguntar. Era uma conversa que eles precisavam ter. 

Eles precisavam ter essa conversa, porque ela estava começando a vislumbrar o que estava bem no centro da teia da mente de Crowley. Ela estava vendo, de novo e de novo, o quão enraizado era aquela teia-base da mente de Crowley, como todo outro aspecto daquele homem (?) girava ao redor daquele centro. Para a maior parte das pessoas, este centro é uma porção de crenças sobre elas. Para Crowley, entretanto, era outra pessoa. 

Ezra. Ela precisava aprender mais sobre esse Ezra. 

A oportunidade surgiu durante uma sessão, da mesma forma que muitas aconteciam com Crowley: ele foi grosso. 

Eles estavam no meio de uma sessão quando seu telefone tocou. Isso acontecia, de vez em quando, com clientes. A maioria das pessoas esquecia de pôr seus celulares no silencioso. Ela estava acostumada com um cliente dando um sorriso amarelo, tirando o celular do bolso com pressa, e desligando. Às vezes o cliente oferecia meias-desculpas, contando à ela, enquanto o celular tocava, que ele precisava atender. Mas não o Crowley, ah, não. No momento em que o celular tocou, o objeto tinha sua total atenção, muito mais do que ela teve em qualquer sessão. Ele era descarado, despreocupado, não dando uma mísera desculpa ou explicação. Ele o pescou de seu bolso, ficando em pé e virando as costas para ela, e ele atendeu.

“O que aconteceu?” Ele disse quando atendeu. Ela podia ouvir ligeiramente a voz do outro lado, mas ela só conseguia entender o lado de Crowley da conversa. Ela pensou que ouviu o mesmo sotaque britânico na voz. “Ah. Ah. Não, é, tudo bem. Sete. Beleza. Aham. Hum. Aham.” 

Isso era a parte da ligação onde a maior parte das pessoas diriam, Estou no meio de um compromisso, eu te ligo de volta depois. Crowley não fez isso. 

“Você não pode só, sabe? Ah. Entendi. Sim, beleza. Eu posso pegar no caminho. Tá tudo bem. É.” 

Ela teria se sentido culpada por ouvir uma conversa privada, mas ele estava, afinal de contas, no escritório dela. Ela pigarreou.

“Escuta,” ele disse, finalmente, olhando para ela. “Eu preciso ir. Não, está tudo bem. Eu vou chegar em casa em meia hora. Okay. Okay. Sim, tchau-tchau.”  

Crowley não era o tipo de pessoa que dizia ‘tchau-tchau’, a não ser que ele estivesse zombando de alguém. Ele parecia estar fazendo isso, mas não havia veneno. Ele desligou o telefone e se sentou novamente. 

Ele tinha a expressão de um homem (?) que sabia que não sairia dessa vivo. 

“Ezra,” ele disse. 

“Ele ainda não sabe que você vem aqui?”

“Não.”

“Podemos falar sobre isso?”

“Não.” Ele era um mentiroso. “Eu não quero preocupar ele.”

“Ele se preocupa com você.”

“É a especialidade dele.”

“Você se preocupa com ele?”

“É,” ele grunhiu, não aceitando as palavras. “Eu cuido dele.” 

“Você se importa com ele.”

Ele assentiu.

“Você ama ele?”

Era arriscado. Aubrey Thyme, a profissional que era, sabia que às vezes alguém tinha que se arriscar. Ela viu cuidadosamente que Crowley se tornou extremamente imóvel, muito mais imóvel do que qualquer outra vez que ela havia visto. 

“Não usamos essa palavra,” ele disse, depois de uma pausa de quinze segundos.

“Tem uma palavra melhor?”

Vinte e três segundos, e então: ele balançou a cabeça, negando. 

“Você amava ele, antes do incêndio?”

“Desde o começo,” ele disse. Esse era o tipo de situação onde ela normalmente esperaria que ele se escondesse atrás do sarcasmo e piadas privadas, mas ele não fez isso. Ele foi sincero. Crowley, ela determinou, não fazia piadas sobre esse relacionamento. 

“É tocante,” ela disse, e então sorriu. “Vocês dois se encontraram, e parece que vocês têm algo especial juntos.” 

“Você é tão piegas,” ele disse, mas não tinha nenhum rancor na voz. Na verdade, ele estava sorrindo, até. 

O caminho para os óculos escuros caírem, ela pensou, é através do Ezra.

Notes:

Como essa é provavelmente minha fanfic favorita de cu de homens Good Omens, eu quero recomendar ela pra todo mundo que eu conheço, e quando eu vi que não tinha nenhuma tradução pra PT-BR, eu imediatamente fiquei com os dedos coçando pra fazer.
Espero fazer um trabalho bom :)
Comentários me deixam muito felizes!