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Masterpiece

Summary:

Roier é um estudante de arte que decide pintar o homem mais bonito que ele já viu para a exposição de artes de sua faculdade.
Cellbit mal pode acreditar quando encontra um grande quadro com um retrato seu e pela forma que suas cicatrizes foram retratadas.

Notes:

Oi! Eu postei isso no Twitter também, então se verem lá não se preocupem!

Work Text:

Roier não achava que já tivesse visto algo tão bonito em sua vida. Nem o céu ao entardecer. Nem a lua encontrando o mar na noite. Nem seu primeiro 10 na faculdade. Nem seu primeiro pagamento por sua arte. Nada podia superar aquele homem. Aquele completo estranho sentando do outro lado da praça central do campus lendo um livro distraidamente. 

 

Seus cabelos castanhos pareciam dourados no sol da tarde e sua pele parecia estar sendo beijada pelos raios dele. Os olhos azuis corriam as páginas do livro concentrados no que quer que estudavam. Os braços fortes, provavelmente o suficiente para carrega-lo, um erguido segurando o livro e o outro apoiado em cima da mochila ao seu lado. Algumas marcas adornavam sua pele, cicatrizes. Uma bem no dorso da mão direita, algumas nos dedos e no antebraço exposto pela camisa dobrada. A maior de todas e mais evidente estava no rosto, indo da orelha até quase o nariz, cortando sua bochecha mas sem chegar a linha da barba, que era por si só motivo o suficiente para fazer o moreno suspirar. E seus lábios, movendo-se minimamente, como se ele inconscientemente falasse as palavras que estava lendo. Roier não conseguiu deixar de imaginar como eles sentiriam contra o seus, se eram tão macios quando pareciam. 

 

Balançou a cabeça e suspirou. Não era possível que ele tinha se apaixonado por um homem aleatório no pátio da faculdade. Uma pessoa com quem ele sequer tinha falado. Mas bem, uma coisa que Roier tinha aprendido era que seu coração não era algo que ele pudesse controlar. Além do mais, não era como se ele fosse levantar e ir falar com o rapaz. Não, nunca. Ele não seria capaz. 

 

Puxou se caderno e começou a traça-lo. Cada detalhe, cada curva, cada traço. No meio do caminho notou que uma única mecha branca descolorida havia caído sobre os olhos do rapaz, mas ele parecia focado demais em sua leitura para perceber. Seus dedos coçaram para coloca-la de volta em seu lugar, mas em vez disso seguiu desenhando. Decidido a eternizar a imagem em sua memória e na ponta de seu lápis. 

 

E uma semana depois quando seu professor anuncia que no próximo mês teriam uma grande exposição com trabalhos dos alunos, Roier sabia exatamente o que iria pintar. 

 

——       ——        ——       ——      ——     ——

 

Cellbit estava extasiado. 

 

Quando tinha concordado em acompanhar sua irmã para a exposição de arte da turma da namorada dela imaginou que encontraria peças que o deixariam pensativo, admirado e talvez até decepcionado. Mas não isso. Nada como isso. 

 

Era uma pintura de grande, provavelmente quase um metro de altura, em um local de destaque entre as outras. Não qualquer pintura, um retrato de uma pessoa. Um homem. Ele

 

De início ele pensou que tivesse se confundido, que ele e o homem do quadro só fossem parecidos, mas quanto mais observava mais era impossível negar. Os cabelos, os olhos, o nariz, a boca, até sua camisa verde preferida. Mais. Suas cicatrizes. Aquela era uma pintura gigantesca dele. 

 

Aproximou-se um pouco mais, refreando-se ao notar que quase tinha tocado o quadro. Nunca tinha se visto daquela forma, nem mesmo antes do acidente. Ele parecia tão… Bonito. Era surreal pensar que alguém o enxergava assim, tão belo, tão pacífico. 

 

A grande cicatriz em seu rosto, que o incomodava a ponto de evitar se olhar no espelho por muito tempo há anos mesmo que não admitisse, parecia parte de uma obra perfeita e delicada, não uma terrível e indesejada disruptura. Os cortes em suas mãos e seus braços pareciam adorna-los como anéis e pulseiras, não torna-los algo terrível e digno de pena. 

 

⁃Cellbit… - sua irmã soltou em meio a um suspiro - Parece que você tem um admirador. 

 

Mas quem? Ele não conhecia ninguém do curso de artes. Bom, ninguém além de Tina, que certamente não escolheria ele entre os dois gêmeos para fazer um quadro. Deveria ser um estranho, um desconhecido. Alguém que ele nunca nem tinha falado com e o enxergava assim.

⁃ So that’s what he was doing - uma voz conhecida disse atrás de si e Cellbit pela primeira vez desde que tinha chegado ali desviou os olhos da pintura. 

 

Tina tinha se aproximado deles, tendo os deixado sozinhos por alguns minutos para cumprimentar alguns amigos. Ela observava o quadro admirada. 

 

⁃Você sabe quem fez isso? - ele perguntou esperançoso. 

 

⁃Sim, o Roier. Ele tava cheio de segredos sobre esse quadro, não tinha visto antes - a namorado de sua irmã falou e o olhou com um sorriso travesso nos lábios - I didn’t know you were together. 

 

Cellbit ignorou o comentário e voltou a olhar a pintura, enxergando no canto uma pequena e elegante assinatura. Roier

 

⁃Você tem o número dele? - perguntou se voltando novamente para a garota.  

 

Tina pareceu confusa e olhou para sua irmã, que balançou a cabeça em negação para a namorada. Elas pareceram conversar somente por olhares por um segundo e então Bagi olhou para ele. Cellbit tentou ao máximo dizer com um olhar que ele precisava falar com aquele homem, com esse Roier. Ele precisava entender. Ele precisava… Agradecer. 

 

Bagi pareceu entende-lo, coisa de gêmeos, ela diria para qualquer um que perguntasse como ela podia ler os pensamentos de seu irmão desde sempre, e assentiu para sua namorada. 

 

⁃Yeah, i do - disse Tina. 

 

——    ——   ——   ——   ——   ——   ——   ——  

 

 

“Olá. É o Roier?” 

 

“Sim. Quem é?” 

 

“Oi, meu nome é Cellbit. Você me pintou no seu quadro na exposição de artes da faculdade.” 

 

⁃Ai! - Roier exclamou quando o celular caiu em seu rosto quando ele o soltou em surpresa pela frase que tinha lido. 

 

Ele tinha visto. O gatinho da praça, como ele vinha chamando, tinha visto seu quadro. Seu enorme quadro de um completo desconhecido que ele tinha visto uma única vez, se apaixonado em segundo e decidido pintar para o maior projeto de seu ano letivo porque não o conseguia tirar de sua mente. Seu quadro que tinha recebido elogios de todos os professores e sido colocado no centro da exposição. 

 

Naquele momento Roier teve vontade de se enterrar dentro de um buraco. 

 

Seu celular apitou novamente e ele o levantou para ver. 

 

“Tina é namorada da minha irmã, ela me deu o seu número” 

 

Tina. Tina que soltava palavras em inglês no meios das frases. Que gostava pintar coelhos e esculpi-los em gesso. Tina que tinha uma namorada de quem falava sempre que lhe era dada a oportunidade. 

 

“Desculpa se foi invasivo” disse a mensagem seguinte. 

 

Só então Roier notou que ainda não tinha respondido nada. 

 

“No te preocupes, está bien” mandou rapidamente, só depois notando que tinha usado o idioma errado “Desculpa. Não tem problema, não se preocupa.” 

 

“Puedes hablar español si quieres” Cellbit respondeu. 

 

Roier sentiu seu coração falhar uma batida. ¿Guapo, educado y habla español?  Tinha como ser mais perfeito? Bom, ele ainda não sabia se o homem tinha mandado mensagem porque o odiava por ter feito uma pintura dele sem permissão ou se ele o achava um grande esquisito por nem o conhecer e ter feito um quadro dele de 1m de altura. Ou talvez os dois. 

 

“Perdóname si el cuadro te ofendió. No fue mi intención, lo prometo.” 

 

Começou a se desculpar, já pensado o que poderia fazer se o homem pedisse para tirar o quadro da exposição. Ele tinha que ter pensado nisso antes, pedido permissão. Talvez perdesse sua maior nota do semestre por ser um grande idiota. 

 

“Não não. Eu adorei o quadro” 

 

O mexicano sentiu seu coração aquecer. 

 

“¿De verdad?” 

 

“Sim! Queria conversar sobre isso. Podemos nos encontrar em algum lugar?” 

 

Roier se esforçou para não gritar de felicidade. Aquele não era um encontro. Ele só queria conversar sobre o quadro. O homem mais bonito que ele tinha visto em sua vida tinha gostado de seu quadro e queria conversar sobre ele. E falava espanhol! 

 

“¡Por supuesto! Donde quieras, gatinho” 

 

Talvez já fosse tarde demais para não ficar animado.

——   ——   ——   ——   ——   ——   ——   ——   

 

Roier era bonito. Muito bonito. Foi a primeira coisa que Cellbit notou quando o viu entrando pela porta da cafeteria. 

 

Ele era alto, talvez da mesma altura que Cellbit ou um pouco menor, cabelos castanhos bagunçados de forma charmosa e olhos amendoados. Seu sorriso parecia ser capaz de iluminar uma cidade inteira. 

 

⁃Fiquei feliz que você gostou do quadro - Roier disse quando já estavam acomodados em uma mesa e com duas xícaras de café preto - Pensé que podría estar enojado. 

 

Roier desviou os olhos, parecendo envergonhado por um momento mas logo escondendo dando um gole em seu café. Cellbit estava encantado. Nunca tinha conhecido alguém irradiasse luz como ele fazia. Que o trouxesse conforto sendo um quase desconhecido. Sentia que podiam falar de qualquer coisa. Que podia se abrir. E foi isso que acabou fazendo.   

 

⁃Eu adorei o sei quadro. Você pinta muito bem - elogiou o rapaz e viu o sorriso se abrir novamente. Seu coração se aqueceu ao notar que era o motivo daquele sorriso - Eu nunca tinha me visto daquela forma. 

 

⁃Gracias - o rapaz agradeceu - Mas… De que forma? 

 

Ele parecia confuso e Cellbit se deu conta de que ele nem mesmo sabia o que tinha feito. Isso só fez o brasileiro ficar mais encantado. 

 

⁃Tão… Bonito - admitiu meio envergonhado - Não desde o acidente. 

 

Ele viu a expressão de Roier mudar de curioso para surpreso e então para para preocupado e terminando em compreensivo. 

 

⁃Não precisa falar disso se não quiser - ele garantiu, esticando uma mão para tocar a de Cellbit que estava sobre a mesa. 

 

Cellbit olhou para a mão do rapaz sobre a sua. Os dedos longos e delicados de um artista. Roier pareceu notar o que tinha feito e começou a se afastar, mas Cellbit o segurou antes que ele pudesse, apertando sua mão de volta. Olhou para cima, procurando os olhos do moreno e sorriu. 

 

⁃Eu quero - garantiu ainda segurando sua mão - Cinco anos atrás eu estava passando na frente de uma lanchonete quando a cozinha explodiu. O fogo não chegou em mim, mas os estilhaços da vitrine sim. 

 

Ele explicou e automaticamente olhou para suas mãos, uma delas unida com a de Roier. O rapaz acariciava uma de suas cicatrizes com o dedão, como se tentasse aplacar sua dor mesmo depois de muito já curada. Cellbit não pode evitar olhar o gesto com ternura. 

 

⁃Eu protegi meu rosto com os braços, por isso tenho muitos cortes neles - explicou levantando os olhos novamente - O único estilhaço que atingiu o meu rosto foi esse daqui e era bem grande.  

 

Com a mão livre apontou para a grande marca em sua bochecha. Ela tinha sangrado tanto no dia que ele pensou que ia morrer. Foram semanas até que fechasse e quase 2 meses até que sorrir deixasse de ser algo doloroso.

 

⁃Eu sempre achei minhas cicatrizes horrorosas, mas depois de um tempo parei de tentar esconder porque era um estresse muito grande e nunca dava realmente certo - ele continuou lembrando das muitas vezes que tinha deixado Bagi maquiar seu rosto e de como costumava usar casacos e luvas para qualquer ocasião - Mas aí eu vi o seu quadro. Você fez elas parecerem bonitas, parte de mim. Eu nunca tinha me sentido assim. Achei justo que você soubesse o efeito que a sua arte tem nas pessoas. 

 

Roier o olhava atônito, parecendo estar absorvendo a história aos poucos. Depois de algum segundos ele apertou sua mão e o olhou de forma determinada. 

 

⁃Cellbo… Muchas gracias, pero… - o rapaz a sua frente olhou no fundo de seus olhos e por um momento Cellbit teve certeza que ele podia ver sua alma - Yo no hice nada. El cuadro se ve exactamente como tú. Tu eres el hombre más guapo que he visto en mi vida.

A surpresa que atingiu Cellbit o fez perder o ar.  Em qualquer outra situação acreditaria que a pessoa estava dizendo aquilo para conforta-lo, mas de alguma forma sabia que era verdade, que Roier estava sendo mais sincero do que nunca. Ele realmente o via daquela forma. O Cellbit do quadro era o mesmo que ele via naquele momento, em sua frente. Cellbit não sabia que isso era possível e não tinha como quantificar o quanto queria alguém que pudesse vê-lo daquela forma ao seu lado. 

 

Ajeitou suas mãos unidas e entrelaçou seus dedos, sorrindo e sentindo suas bochechas esquentarem. 

 

⁃Talvez nós possamos sair mais vezes. O que acha? - perguntou, observando o rapaz a sua frente abrir um grande sorriso brincalhão e apertar sua mão de volta. 

 

⁃Me parece perfecto, gatinho - Roier respondeu em um tom animado que fez seu coração pular uma batida. 

 

Cellbit retribuiu o sorriso. 

 

⁃Pra mim também, guapito. 

 

Roier era ainda mais bonito corado. 

 

——   ——   ——   ——   ——   ——   ——   ——   

 

No encontro seguinte Roier teve a resposta para sua pergunta. 

 

Sim, os lábios de Cellbit eram tão macios quanto pareciam.