Chapter Text
Capítulo 1- o Lema
“A águia sabe o que há no poço?” - (O livro de Thel)
TUD
Ela arrumou seus óculos com um suspiro cansado enquanto se dirigia à pilha de livros, agora caídos, com um andar lânguido, porém posturado.
Não era sempre que era deixada no arquivo, visto que, dada sua educação e idade, ela não seria a mais cotada para manusear arquivos tão delicados. De qualquer forma, ela era simplesmente competente no que fazia, sua boa memória colaborou com a manutenção da biblioteca e subiu, em partes, a confiança que os superiores sentiam em relação à ela.
Mesmo que, em momentos assim, ela desejasse ser vista como menos capaz.
Agachando, passou a recolher os tomos um a um, garantindo que não haviam páginas dobradas ou amassados, a maioria e tratavam de manuscritos, alguns com grafias que faziam-na questionar se sequer era um idioma que conhecia, de qualquer forma, ela ainda era paga para isso. O salário não era excepcional, as pessoas da cidade, pelo menos as alinhadas a sua posição social, não pareciam ter grandes interesses em acúmulo de riqueza, mesmo que, às vezes, ela se questionasse o quanto A Ordem deveria ter em seus cofres, ainda era o suficiente para manter um aluguel relativamente estável e perto do trabalho, por mais que preferisse gastar suas horas vagas na biblioteca que se encontrava agora. Não necessariamente se tratava de uma vontade de solidão auto imposta, era simplesmente… difícil , as pessoas em seu meio eram escassas e menos ainda possuíam interesse em formar algum tipo de amizade, seus antigos amigos simplesmente miraram mais alto, de formas que ela nunca sonhara em ousar, os outros? Mais velhos, alguns até obcecados em falar do “salvador”.
Sempre que ficava no arquivo ela trabalhava organizando livros sobre liturgia, teorias, textos apócrifos e transcrições sobre Sparda, pelo menos em seu tempo livre e amizades em potencial ela preferia se afastar um pouco do nome, o que em sua situação e tendo crescido em uma cidade comandada por um culto voltado à ele, se mostrava complexo. Ela não era descrente per se, entretanto, conforme crescia o comportamento de seus conterrâneos parecia simplesmente errado.
Ela voltou a si quando percebeu que havia parado de juntar os tomos caídos, agilizando o trabalho antes que a outra bibliotecária, a sortuda do dia de poder ficar a cargo do público e o mais próximo de uma amiga que possuía, viesse checar sua falta de resposta por tanto tempo. Como um relógio, assim que o último livro fora guardado, a outra responsável se fez conhecida.
“É o fim de minha rotação, irei organizar o arquivo de devoluções e empréstimos agora, é a sua vez no balcão.”
“Entendido… uh, ei-”
“Falar assim é impróprio.”
“Eu sei… mas eu poderia ter uma pausa?”
“...Você sabe o que trazer pra mim, certo?”
“Sim, quer chá dessa vez?”
“Por favor” e com isso, se retirou.
Organizando os cabelos por baixo do capuz, saiu rapidamente, evitando o caminho central da biblioteca e se esgueirando por entre as estantes, o uniforme, mesmo que compartilhasse de características similares do padrão de vestimenta exigido, ainda mostrava escolhas de design muito características como a saia mais curta de seu vestido azul escuro, junto das calças marrons e das botas, que facilitavam a movimentação e eram bem destacáveis no meio dos vestidos longos de cores quentes que as outras moças portavam, ambas ainda utilizavam o mesmo capuz branco, uma marca registrada de todos os seguidores de Sparda.
De forma rápida, ela fez seu caminho até a “lanchonete”, ela leu essa palavra em um dos livros proibidos, A Ordem evitava contato com o mundo exterior, mas, ocasionalmente, algumas coisas vazavam, era um lugar simples, demonstrava a mesma frieza do resto da cidade e seus habitantes, ainda assim era próximo o suficiente, ela não precisava de outra advertência por vadiagem e não poderia contar com sua amiga para cobri-la todas as vezes em que cometia uma falta.
Com seu pedido padrão em mãos, duas simples fatias de pão tostadas junto de um copo de chá preto, e o pedido de sua amiga bem guardado, retornou o mais rápido possível sem provocar olhares de estranhamento ou perder a compostura, abriu as portas imponentes da biblioteca com certa dificuldade enquanto equilibrava a comida em mãos com a maestria de quem realizara tais manobras diversas vezes, deixando o pedido da outra no local de sempre do balcão, dirigiu-se para a sala dos fundos.
Como tudo na cidade, a sala era antiga, com paredes de pedra e estética de castelo, elas ainda se esforçaram para deixar o local relativamente aconchegante após receberem permissão para usá-la como sala de descanso. Colocando delicadamente seu lanche em cima da mesa de canto, ela se sentou, pegando uma das fatias, sua outra mão pairou sobre duas de suas leituras recentes, nenhuma aprovada pela Ordem, debatendo sobre qual preferia, fechou seus olhos e retirou um à sorte, olhando para a capa seu olhar se tornou um de frustração.
Logicamente ela acabou pegando o de Poemas, tudo o que ela precisava junto de seu chá da tarde…
Ela possuía sim um gosto por literatura variada, em partes pela falta de outras ideias de entretenimento fácil e barato e em partes pelo gosto genuíno que sentia pela arte da literatura, e, mesmo que tivesse jogado de forma imparcial na hora de decidir o que ler, ainda se encontrava um pouco chateada do livro que ela queria mais não ter sido o felizardo, principalmente por sua narrativa, o texto de novelização era mais atraente e mais facilmente absorvido,e de fato ela aproveitada o escape induzido por ele e as ideias interessantes, por mais que fantasiosas, de criaturas da noite que poderiam queimar ao Sol. O texto em verso, por melhor que fosse, lhe cansava os olhos, principalmente se acompanhado de chá quente em sua folga…
Abrindo o livro em uma página aleatória, decidiu que, ao invés de se lamentar, era mais produtivo simplesmente aproveitar a pausa.
“Eu era bem novo e minha mãe morria.
E meu pai vendeu-me quando eu mal sabia
Balbuciar, chorando limpa-dor dor dor dor,
Assim sujo e escuro sou o limpador.”
-
Eve…
Sim, essa era ela…
Eve.
O Pardal de um dos contos parecia falar com ela no sonho, que engraçado, ele soava muito parecido com alguém que ela conhecia.
Eve!
Ela abriu os olhos, desnorteada.
“Evangeline, eu estou te chamando já faz minutos, o que estava fazendo?”
“O que? E-eu…”
A outra Bibliotecária suspirou.
“Eu finalizei no arquivo, é a hora do seu turno.”
“Já?”
“Sim, eu ainda preciso cumprir com algumas tarefas domésticas então eu preciso sair mais cedo e-”
“Fala para o seu filho que eu mandei oi”
“...Falarei.”
Evangeline se levantou e, curvando-se em cumprimento, despediram-se.
-
O turno da noite não era ruim, longe disso, Fortuna era de fato um local seguro e regrado, a chance de encontrar bêbados, principalmente naquela parte da cidade, era nula, as grandes portas da biblioteca ainda lhe causavam ansiedade, a noção de que estavam abertas e que qualquer um poderia entrar era um pouco enervante, ainda assim, raramente entravam, se alguém aparecia buscando qualquer livro que ela poderia ceder à essas horas seria aquele cientista… menos que ideal que A Ordem parece ter criado um apreço para com.
Encostando na cadeira, fechou os olhos por alguns momentos, a ideia de uma rápida fuga atrás dos livros que estava lendo era tentadora e parecia valer o risco de ser pega lendo em serviço mais do que o tédio de estar em inanição mental, até que
Um som.
Parecia um cachorro… um rouco e que parece estar sofrendo um pouco pelos sons que está produzindo, o ar pesado colocou-a em alerta.
O rosnado estranho não cessou, a sensação de opressão se tornava cada vez mais forte, acompanhada pelo cheiro de enxofre e algo queimado.
Levantando-se, pensou se deveria, não era lutadora e se mostrou desastrosa em atividades muito físicas, entretanto, os sons de sofrimento cada vez mais altos coagiram-na a se aproximar, a curiosidade mortal e inerente ao ser humano era forte demais, a opressividade na atmosfera agindo como uma espécie de força magnética, guiando-a até as grandes portas de madeira, colocando a palma da mão na porta, Evangeline ponderou enquanto olhava para os entalhes na madeira maciça e antiga daquelas portas, obviamente não era um cachorro, ela não era ignorante muito menos se deleitava em ideias ilusórias de que poderia ser um, mas a ideia de que esse o-que-quer-que-seja estava sofrendo o suficiente para emitir tais sons a deixava mal do estômago. Reunindo toda sua coragem, empurrou a porta, a pequena fresta emitindo um rangido agonizante de se ouvir em tal horário.
“Assim se acalmou. E numa noite escura
Tom dormindo teve essa visão futura,
Que mil limpadores Josés Chicos Joões
Foram confinados em negros caixões.”
Ela, assim como todos em Fortuna, crescera ouvindo sobre a lenda do cavaleiro negro, Sparda, e do seu feito em prol da humanidade. Assim como todos, ela era grata e cresceu com uma sensação equivocada de gratidão e segurança, afinal, se ele era tão forte, provavelmente todos os demônios poderiam nem sequer existir mais, ela não sabia como se alimentavam ou viviam, mas supôs que, pelas situações que pareciam criar, provavelmente sua dieta deveria ser composta de humanos… Isso ou eles tinham algum instinto muito básico de matar tudo o que se move, claro, nem todos eram de uma complexidade inferior como os tipos básicos os quais ela leu sobre, mas a ideia de que algum deles poderia se equiparar a Sparda apenas não conseguia coexistir com sua mentalidade fomentada por anos de exposição aos textos da Ordem.
O rosnar cessou, porém, o silêncio que sucedera não trazia conforto consigo, mas sim a sensação de antecipação que traria consigo um perigo iminente.
As portas foram abertas de repente.
Caindo para trás, não havia no que se agarrar para se equilibrar após a porta acertá-la com certa pressão, tentando se reorientar, Evangeline não conseguiria começar a descrever o que lhe acertara, a pancada na cabeça não fazia nenhuma questão de ajudar e só a fazia questionar se a figura semelhante a uma marionete? Talvez um espantalho com foices no lugar de mãos era real ou apenas uma distorção causada pela batida e possível concussão.
A criatura se aproximava, ficou claro que o barulho de antes não havia saído de tal bicho, por mais que, de onde estava, não conseguisse dizer se tal criatura possuía boca ou não, ele- aquilo vinha lentamente, talvez por sua falta de reação pensasse que já lhe havia matado e a deixasse em paz, ou talvez nem sequer se importasse com isso. Ela sentia sua cabeça latejar e suas pernas se tornaram inúteis, ela não conseguia se levantar, estava presa por seu medo e pânico, seus instintos mais básicos de sobrevivência gritavam para que lutasse ou corresse, mas ela não conseguia.
Nas portas da morte, ela questionou o quão real tudo o que lhe fora ensinado era, aquilo à sua frente, se ela tivesse que nomear, se assemelhava à idéias cruéis de pesadelos passados de uma época a qual ela nem se lembra mais, se ela devesse resumir em uma palavra seria…
Demônio.
Uma criatura das trevas, a qual ela sempre acreditou que passaria sua vida sem testemunhar…
Quão eficaz foi tudo o que Sparda fez se eu ainda terminei aqui?
…
Quem realmente foi Sparda…?
Se pudesse, soltaria uma risada histérica por precisar de uma situação tão extrema e de morte certa para realmente pensar sobre porquê Fortuna cultua um demônio, ele fez algo benéfico, não anula sua existência como um ser de trevas…
Um semelhante daquilo que lhe levaria para o abraço da morte.
Um lampejo, uma sensação, uma realização e o desejo de lutar foi expurgado de seu corpo, encarando a criatura, ocorreu-lhe que o que aquilo era, naquele momento, tornara-se irrelevante, os fatos eram que, independente do que aquela criatura fosse fazer, ela estava à mercê de suas decisões, ela morreria de forma mais trágica do que esperava, não que tenha ponderado sua morte tanto assim, apenas o suficiente, na adolescência cogitou a ideia de mártir por ser incentivado pela Ordem, mas ela nunca foi cotada para nada relevante.
Ela aceitou que era uma covarde.
Ela não tinha forças nem vontade de lutar por sua própria vida estando de frente para o perigo.
Ela encarou a criatura no que acreditava ser seu rosto, o formigamento de antecipação, a ansiedade que lhe impedia de focar em algo que não fossem os movimentos da criatura, as sensações físicas começavam a lhe escapar, já não sentia a testa latejando, suas mãos suadas ou as lágrimas escorrendo.
“E então veio um Anjo com uma chave branca
E os tirou do escuro destravando a tranca.
E então entre risos ao campo saíram
E entraram num rio e ao Sol reluziram.”
Uma espada decepou a criatura em um único golpe preciso, econômico.
Não… econômico não, calculado.
A figura parecia humana, a capa escondia bem suas feições, sua barra se movia levemente com a brisa da noite, um casaco longo de cor fria visível por baixo, encarando, a visão de dois olhos gélidos e mortais olhando de volta a fez entender como é quando o abismo responde, um abismo azul e glacial, quase brilhante na pouca luz da sala, antinatural…
Demônio!
Era o que lhe cruzava a mente e perturbava seus pensamentos, entretanto, a visão de suas feições, aqueles olhos , lembraram-lhe de algo, uma gravura ou pintura talvez, antes que seu cérebro já prejudicado pudesse ajudá-la a se recordar ou pelo menos a ler o humor da sala, sua boca traiçoeira fez o trabalho de deixar claro onde ela já viu um rosto assim.
“S-salvador…?”
