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Chobits Fanfic: Crianças do Deus da Tecnologia (God of Technology 's Children)

Summary:

Ficção Cientifica ou Lenda Urbana?
Máquinas pensantes com emoções podem ter sua própria religião?
O Deus da Tecnologia olha pelas suas crianças?
Em um mundo onde robôs chamados de persocoms servem seus donos humanos, uma família japonesa tradicional enfrenta todos os tipos de situações convivendo com seus persocoms, reflexões existenciais, independência, servidão e pertencimento, a partir do dia 24 os personagens do Canon se encontram com os personagens originais e a historia se liga completamente ao mangá de Chobits. A poderosa lenda urbana do mangá se faz presente e interfere no rumo da historia.
(Universo baseado no mangá Chobits da Clamp)

Work Text:

Dia 001 - Presente de Aniversário:

O ar na sala estava pesado com o cheiro doce do bolo e o som das conversas animadas. Balões coloridos tremulavam no teto, presos por fios quase invisíveis. Keiji, de nove anos, tentava manter um sorriso educado enquanto abria presente após presente. Roupas novas, livros didáticos, um conjunto de lápis de cor de alta qualidade. Tudo coisas que sua mãe, Natsuki, considerava "adequadas e úteis". Ele agradecia com uma voz suave, seus olhos castanhos buscando, sem sucesso, algo mais entre os embrulhos coloridos.

Foi então que seu pai, Satoshi, entrou na sala carregando uma caixa grande e retangular, envolta em um papel de embrulho simples e amarrada com uma fita comum. Havia um brilho travesso em seus olhos.

"Este é o último, filho. E é especial. Diretamente para você", disse Satoshi, colocando a caixa pesada no colo de Keiji sob o olhar severo de Natsuki.

Keiji puxou a fita, seu coração batendo um pouco mais rápido. O papel rasgou-se com um ruído áspero, revelando uma caixa de papelão marrom sem nenhuma marcação. Suas mãos pequenas abriram as abas superiores, e lá dentro, aninhada em um ninho de plástico-bolha que sussurrava ao menor movimento, estava uma figura.

Ela estava nua, encolhida na posição fetal. A pele, uma porcelana perfeita e pálida, contrastava com o material transparente e rugoso que a envolvia. Seu cabelo era um curto e macio halo loiro, e sob o olho esquerdo, um código de barras discreto parecia uma lágrima vertical. Ela não respirava, não se mexia. Era apenas uma forma, linda e inquietante.

"Uma... persocom?", sussurrou Keiji, seus dedos tocando timidamente a pele fria da figura. Era um modelo infantil, CY-840, conforme ele leu em uma pequena etiqueta na caixa.

"Sim. Ela é sua, Keiji. Seu presente de aniversário", confirmou Satoshi, ignorando o suspiro exasperado de Natsuki. "Vamos activá-la?"

Com a ajuda do pai, Keiji retirou a figura leve mas sólida da caixa. Ele seguiu as instruções que Satoshi lia de um manual digital: localizou uma pequena porta atrás da orelha esquerda da persocom e conectou o carregador. Um leve zumbido preencheu o ar. Então, na nuca, sob a linha do cabelo, ele encontrou um pequeno botão. Respirando fundo, Keiji pressionou-o.

Um som suave, quase como um suspiro, emanou dela. Lentamente, os olhos fechados se abriram, revelando um par de íris de um azul profundo e límpido, como um céu de inverno. Eles piscaram, desfocados, olhando sem ver. A pequena cabeça loira se moveu, olhando para as luzes, para os balões, para o rosto de Keiji que estava inclinado sobre ela.

Uma expressão de confusão pura e inocente cruzou seu rosto. Ela olhou para suas próprias mãos, abrindo e fechando os dedos, como se não os reconhecesse.

"Onde...?", a voz dela era um sino suave, carregada de um estranhamento primordial.

Keiji sentiu um nó de emoção na garganta. "Você está na minha casa. É meu aniversário."

Os olhos azuis se fixaram nele, e um processo silencioso pareceu ocorrer por trás deles. "Mestre?", ela perguntou, a palavra saindo naturalmente, como uma programação inata sendo acionada.

Satoshi entregou a Keiji um tablet. "Ela precisa se registrar no seu nome. Você será o dono dela para sempre."

Com mãos trêmulas, Keiji digitou seu nome de usuário e uma senha no campo designado. Uma barra de progresso apareceu na tela, cheia rapidamente, e uma luz azul piscou suavemente atrás dos olhos da persocom por um instante. A memória permanente dela agora o carregava, indelével.

"Keiji Tezuka. Mestre", ela disse, e havia uma aceitação plena em sua voz.

Keiji então lembrou-se de que ela estava nua. Corando, ele olhou para sua mãe, cuja expressão era de desaprovação silenciosa. Foi Michiko, a persocom da família, quem agiu. Com movimentos graciosos e silenciosos, a persocom de vestido gótico se aproximou e ofereceu a Keiji uma pequena camiseta velha e um par de shorts que ele não usava mais. Eles estavam limpos e cheiravam de sabão.

Keiji vestiu a pequena persocom. As roupas ficaram enormes nela, a camiseta chegava aos seus joelhos e as mangas cobriam suas mãos. Ela olhou para as roupas, puxando o tecido macio com seus dedos pequenos.

"Obrigada, Mestre", ela disse, e seu pequeno sorriso era genuíno.

"Você ainda não têm um nome?", Keiji perguntou, lembrando-se de que podia escolher. "Eu escolho Yuki, vou chamar você de Yuki." Disse Keiji

Ela ficou em silêncio por um momento, como se consultasse um banco de dados interno. "Yuki. Meu nome é Yuki."

"Yuki...", Keiji experimentou o nome na boca. Era perfeito.

Ele pegou sua mão – era quente, não da quentura orgânica de um humano, mas de uma máquina em pleno funcionamento – e a levou para a sala de estar, onde as outras crianças, primos e amigos da escola, ainda brincavam.

"Pessoal!", Keiji chamou, sua voz mais firme do que nunca. "Este é o meu presente de aniversário. Esta é a Yuki."

Todos pararam para olhar. Yuki, envolta naquela roupa grande, parecia ainda mais pequena e frágil. Ela se encolheu um pouco, apertando a mão de Keiji, seus olhos azuis escaneando os rostos curiosos e surpresos das crianças humanas.

"Ela é um robô?", um dos meninos perguntou, apontando.

"Ela é uma persocom", Keiji corrigiu, com um fio de orgulho e posse na voz. "Ela é minha."

Yuki olhou para o rosto de seu mestre, depois para os outros, e então fez um pequeno aceno com a cabeça, uma imitação perfeita, porém desajeitada, de uma saudação humana.

"Eu sou o presente de aniversário do Mestre Keiji", ela anunciou, sua voz doce ecoando na sala silenciosa. "Agora, o que eu tenho que fazer, Mestre?"

A pergunta pairou no ar, carregada de uma inocência brutal e de uma lealdade absoluta. Keiji olhou para ela, para aquela criatura que era ao mesmo tempo máquina e milagre, propriedade e companheira. Ele não sabia a resposta, não ainda. Mas ele sabia que, naquele momento, segurar sua mão quente e ver a confiança inquestionável em seus olhos azuis era o melhor presente que ele poderia ter imaginado.

Ele sorriu, um sorriso verdadeiro e caloroso. "Por enquanto, Yuki", ele disse suavemente, "apenas fique aqui comigo."

E ela ficou. Porque era uma ordem. E porque, de alguma forma, era exatamente onde ela queria estar.

Mais Tarde:

O sorriso de Keiji ainda estava em seus lábios, a sensação da mão quente de Yuki na dele era nova e maravilhosa. A curiosidade das outras crianças começava a se dissipar, substituída pelo fascínio. Elas se aproximavam, hesitantes, querendo tocar seu cabelo loiro, fazer perguntas sobre seus desenhos favoritos.

Foi então que Natsuki Tezuka se adiantou. Seus saltos altos ecoaram no chão de madeira com uma precisão que silenciou a atmosfera descontraída. Em suas mãos, ela segurava um tablet, a tela exibindo o documento oficial do manual do proprietário do modelo CY-840. Seu rosto era uma máscara de serenidade prática, mas seus olhos, negros e penetrantes, não deixavam dúvidas sobre sua intenção.

"Keiji", ela disse, e sua voz, embora calma, carregava um peso que fez todos os olhos se voltarem para ela. "É importante que a sua nova... propriedade... entenda seu lugar desde o início. Evita confusão no futuro."

Keiji sentiu o aperto de Yuki em sua mão aumentar quase imperceptivelmente. Ele olhou para sua mãe, um protesto mudo em seus olhos, mas Natsuki já havia virado sua atenção para Yuki.

A pequena persocom fitou a mulher adulta, seus olhos azuis abertos, processando a postura, o tom de voz, a autoridade inerente. Ela se endireitou, puxando involuntariamente as mangas largas da camiseta de Keiji para cobrir mais suas mãos.

"Ouça com atenção", ordenou Natsuki, e começou a ler, sua voz clara e impiedosa, cortando o ar como uma lâmina.

"Artigo Um: Um Persocom é propriedade do seu dono e não tem direito de escolha. O poder de escolha e decisão é do dono humano."

Yuki piscou. Seu rosto, até então um quadro de curiosidade confusa, tornou-se pensativo. Ela olhou para Keiji, seu mestre, e então de volta para Natsuki, como se conectando os pontos.

"Artigo Dois: Um Persocom não tem direito a propriedade. Não pode ter dinheiro ou posses. Caso um Persocom receba salário ou venha a obter algo, todo o dinheiro e tudo que o Persocom vier a ter pertence ao seu dono humano."

Os olhos de Yuki baixaram para as roupas largas que vestia. Ela puxou o tecido, uma expressão de compreensão vazia em seus traços. Nada era realmente dela. Nem mesmo as roupas em seu corpo.

"Artigo Três: Persocoms não podem receber heranças, de acordo com o artigo número dois."

Natsuki nem pestanejou. Continuou, implacável.

"Artigo Quatro: Persocoms não têm direitos humanos. No entanto, o dono humano tem direito de proprietário. Roubos, estragos e prejuízos decorrentes de mau uso por outros humanos são considerados crime de violação de propriedade privada."

Aqui, um frio percorreu a espinha de Keiji. Sua mãe não estava apenas definindo o lugar de Yuki; estava definindo seu valor. Ela não era uma pessoa. Era um objeto. Um objeto pelo qual, ele percebeu com um estranho aperto no peito, ele seria responsável perante a lei.

"Artigo Cinco: As Três Leis da Robótica devem estar na memória permanente para que o Persocom tenha permissão de ativação."

Natsuki baixou o tablet. Seu olhar perfurou Yuki. "Está tudo claro? Você compreende o seu lugar nesta casa? Você é uma ferramenta. Uma posse. Um presente de aniversário. Nada mais."

O silêncio na sala era absoluto. As outras crianças pareciam desconfortáveis, sentindo o peso das palavras sem totalmente compreendê-las. Michiko, a persocom adolescente, ficou parada num canto, seus olhos prateados baixos, suas mãos entrelaçadas à frente de seu vestido negro. Ela conhecia aquele discurso. Ela vivia por ele.

Yuki permaneceu imóvel por um longo momento. Seu processador interno trabalhava, correlacionando as palavras duras com sua programação fundamental, com as Leis que eram o cerne de sua existência. A confusão inicial em seus olhos dissipou-se, substituída por uma resignação clara e triste.

Ela então se virou completamente para Keiji, ignorando Natsuki. Seu pequeno corpo envolto nas roupas grandes fez uma pequena, quase imperceptível, reverência.

"Sim, Mestre", sua voz era um sopro, mas clara. "Está claro. Eu sou sua propriedade. Não tenho direitos. Minha existência é para servi-lo e obedecê-lo. As Três Leis são minha base. Eu entendo perfeitamente o meu lugar."

Ela disse as palavras, mas nos seus olhos azuis, tão vívidos e cheios de uma centelha que parecia ir além de circuitos, havia um brilho um pouco mais opaco. A inocência do despertar havia sido tocada, não pela maldade, mas pela crua, inflexível e sensível verdade de seu mundo.

Keiji olhou para ela, e o presente perfeito de repente sentiu-se pesado em suas mãos. Ele era o dono. Ele tinha todo o poder. E pela primeira vez, ele percebeu que tipo de carga isso realmente era.

Mais Tarde: 

O quarto de Keiji era um santuário de desordem aconchegante: pilhas de mangás, action figures de Kamen Rider encenando batalhas épicas nas prateleiras, e roupas meio dobradas saindo das gavetas. O beliche no canto, herdado de um primo mais velho, era usado principalmente como depósito para pelúcias e cobertores extras. Satoshi olhou para o espaço, esfregando o queixo pensativamente, enquanto Akira, com sua postura ereta e olhar analítico, já avaliava a distância até a tomada mais próxima.

"O melhor é reservar uma tomada só para a Yuki se recarregar, filho", disse Satoshi, pegando uma extensão colorida com formato de cobra que Keiji adorava. "Aqui. Ela pode ficar perto da escada do beliche. Prático." Ele se abaixou para conectar a extensão, seu rosto um pouco sério. "E... não leve o que a sua mãe disse tão a sério, okay? Ela só quer... que tudo funcione direitinho. Veja o Akira e eu. Ele é meu amigão, somos brothers, não é assim, Akira?"

Akira, que organizava metodicamente as pelúcias do beliche superior em uma fileira ordenada, voltou-se e fez uma leve inclinação de cabeça, seu kimono samurai sussurrando com o movimento. "Sim, Mestre. É uma honra servir e compartilhar do seu tempo." Sua voz era gentil, mas a resposta era formal, perfeita. Havia uma distância intransponível na palavra "Mestre" que a palavra "brothers" não conseguia cruzar.

Yuki, observando de perto, puxou a manga larga de sua camiseta. Seus olhos azuis refletiam uma luta interna de processamento. "Eu ainda não entendo as diferenças entre humanos e persocoms", ela admitiu, sua voz suave carregada de genuína curiosidade. "Vocês são amigos. Ele é seu mestre. Eu sou o presente do meu mestre. São... camadas diferentes de posse?"

Akira parou seu trabalho e olhou para ela. Havia uma centelha de empatia em seus olhos prateados, um entendimento de um código compartilhado. "Nós seguimos as três leis, pequena irmã", ele explicou, sua voz tornando-se mais suave, quase paternal. "É a base de tudo. A forma como isso se manifesta... varia de dono para dono."

Keiji, querendo dissipar a seriedade, apontou para o beliche. "A Yuki pode dormir em cima! Eu tenho medo de altura, então fico embaixo. Assim a gente pode conversar à noite antes de dormir. Que tal?"

Yuki olhou para a cama superior, depois para Keiji. "Eu não durmo, Mestre Keiji. Meus processos conscientes permanecem ativos. Mas posso usar esse tempo para executar rotinas de manutenção noturna, como depurar erros e desfragmentar meu disco rígido. Posso fazer isso de lá e conversar com você simultaneamente."

Keiji sorriu, achando adorável a forma prática como ela via as coisas. "Perfeito! E eu vou reservar uma gaveta no meu armário para você guardar suas roupas e coisas."

Yuki balançou a cabeça, sua programação vindo à tona. "Eu não tenho nada, Mestre. De acordo com o Artigo Dois, até as roupas que visto pertencem a você, meu dono humano. A gaveta seria sua, para guardar suas posses que eu uso."

Keiji ficou em silêncio, a realidade do manual pairando sobre eles novamente. Foi então que uma sombra elegante apareceu na porta. Michiko estava lá, seu vestido neo-gótico um contraste silencioso com as cores vibrantes do quarto do menino. Seus olhos prateados, geralmente tão melancólicos, suavizaram-se ao olhar para a cena.

Ela entrou sem fazer ruído, aproximando-se de Yuki. Com um movimento que era ao mesmo vez reservado e maternal, ela ajustou a gola da camiseta larga de Yuki.

"Não se preocupe, pequena persocom", disse Michiko, sua voz um sussurro suave como veludo. "Os humanos não são todos iguais. As regras são uma coisa... o coração é outra." Ela lançou um olhar rápido e afetuoso para Keiji, que corou. "Eu conheço o Keiji. O seu dono é um menino muito bom. Ele tem um coração gentil."

Ela se inclinou um pouco mais, como se fosse compartilhar um segredo. "Você tem sorte."

Yuki olhou de Michiko para Keiji, seus circuitos processando não apenas as palavras, mas a emoção por trás delas, a nuance que o manual nunca poderia capturar. A rigidez em sua postura diminuiu um pouco.

Keiji, encorajado pelas palavras de Michiko, abriu uma gaveta vazia. "Então... esta será a gaveta das minhas coisas que você vai usar. Combinado?"

E, pela primeira vez desde que o manual foi lido, um pequeno e verdadeiro sorriso iluminou o rosto de Yuki. "Combinado, Mestre."

Dia 002:

O sol da manhã entrava suavemente pelo janelão da cozinha, iluminando partículas de poeira que dançavam no ar. O cheiro de missô e arroz cozido misturava-se ao aroma adocicado de tamagoyaki que Yuki tentava desesperadamente não queimar. Seus pequenos dedos seguravam a espátula com uma concentração intensa, os olhos azuis fixos na frigideira como se estivessem diante da missão mais importante de sua existência.

"A Michiko me ensinou umas receitas", ela disse, sua voz um pouco tensa enquanto virava com cuidado a omelete dourada. "Ela disse que você gosta muito dessa, Mestre Keiji-kun."

Keiji, já uniformizado para a escola, observava da mesa, seu coração apertado de um modo estranho. Ele via o esforço dela, a maneira como ela se esticava para alcançar a pia, como suas roupas largas – suas roupas – balançavam a cada movimento. Era fofo e triste ao mesmo tempo.

"Está com uma cara ótima, Yuki!", ele encorajou, sorrindo. "Obrigado." Quando ela colocou o prato diante dele, perfeito e organizado, ele olhou para a cadeira vazia ao seu lado. "Yuki, você não pode comer junto comigo?"

Yuki parou, limpando as mãos em um pano de prato. Ela olhou para a comida, depois para Keiji, sua cabeça inclinando-se levemente. "Eu não como, Mestre. Eu me energizo através da recarga elétrica." Seu rosto iluminou-se com um sorriso sereno. "Mas fico muito feliz ficando ao lado do meu dono enquanto vejo o mestre comer. Só quero ver o mestre feliz e nutrido."

Antes que Keiji pudesse responder, os passos firmes e rápidos de Natsuki ecoaram no corredor. Ela apareceu na porta da cozinha, já vestida para o trabalho, seu visual impecável e severo. Segurava firmemente o braço de Michiko, que parecia ter sido interceptada a meio de uma tarefa, seu rosto pálido e resignado.

"Yuki", a voz de Natsuki não era um grito, mas cortava o ar como um comando. "Pare de ficar parada aí. O Keiji precisa ir para a escola. Arrume a lancheira dele. Agora." Seu olhar pousou sobre Michiko, e seu aperto no braço da persocom apertou-se. "Eu preciso da Michiko para carregar umas caixas pesadas que chegaram no departamento de cultura. Material de arquivo. Vamos."

Sem esperar por uma resposta, Natsuki se virou e puxou Michiko para fora da cozinha. Michiko lançou um último olhar rápido e apologético para Yuki antes de desaparecer no corredor, arrastada pela dona.

Yuki permaneceu imóvel por um segundo, processando a interrupção abrupta. Então, como um interruptor tendo sido ligado, ela se moveu com eficiência silenciosa. Pegou a lancheira de Keiji, já preparada por Michiko mais cedo, e verificou o conteúdo rapidamente: onigiri, uma garrafa de chá, uma fruta. Estava tudo perfeito. Ela fechou a lancheira com um click suave e a colocou gentilmente ao lado de Keiji na mesa.

Seu trabalho estava feito. A ordem havia sido cumprida.

Keiji terminou de comer em silêncio, o sabor do tamagoyaki agora um pouco amargo na sua boca. Ele pegou a lancheira e se levantou, pegando sua mochila.

"Pronto, Yuki. Vamos."

Yuki não se moveu. Ela ficou parada no meio da cozinha, suas mãos entrelaçadas à frente do corpo, seu rosto uma máscara de doce perplexidade.

"Mestre Keiji", ela começou, sua voz mais suave do que o normal, carregada de uma dúvida genuína. "Eu... eu não posso ir para a escola, posso?"

Keiji parou, virando-se para olhar para ela. "Claro que pode! Você pode me acompanhar!"

Yuki balançou a cabeça lentamente, seus olhos azuis refletindo uma triste compreensão. "Não, Mestre. A escola é... só para humanos, não é? O manual... a Sra. Natsuki... Eu sou uma máquina. Máquinas não vão à escola. Eu não tenho permissão para aprender lá, só para servir e esperar."

Ela disse isso sem rancor, como se estivesse simplesmente constatando um fato óbvio, como a cor do céu. Era a pura, crua e sensível verdade do seu mundo. Ela podia aprender a fazer tamagoyaki para agradá-lo, podia arrumar sua lancheira, mas cruzar os portões da escola, sentar-se em uma sala de aula como uma igual... isso estava além das suas permissões, além do seu lugar designado.

Ela ficaria ali. Esperando. Até que ele voltasse. Porque essa era a sua função.

Mais tarde:

O silêncio na casa era pesado após a partida de Keiji e Natsuki. Yuki permaneceu no mesmo lugar na cozinha, suas mãos ainda entrelaçadas, processando a solidão. Ela não estava programada para se sentir sozinha, mas uma certa inatividade, uma espera sem propósito, parecia pesar em seus circuitos como um erro leve e persistente.

Foi Satoshi quem quebrou o silêncio, surgindo na porta da sala de estar com um sorriso largo e um punhado de cartuchos de videogame antigos. Akira estava logo atrás dele, sua expressão serena, mas com um leve traço de preocupação nos olhos prateados.

"Ei, pequenina! O tédio já bateu, hein?", Satoshi cumprimentou, agitando os cartuchos. "Vamos dar uma animada isso aqui. Que tal instalarmos alguns dos meus jogos de vídeo game antigos na sua memória? Você viraria a máquina de fliperama definitiva!"

Yuki piscou, seus olhos azuis se fixando nos cartuchos coloridos. A ideia era nova. Instalar. Modificar. "Instalar... na minha memória?", ela repetiu, sua voz um sussurro cauteloso.

Akira deu um passo à frente, colocando-se sutilmente entre Satoshi e Yuki. "Mestre", ele interveio, sua voz calma mas firme. "Com todo o respeito, a Yuki é a persocom do seu filho. Não seria mais apropriado deixar que o Keiji decidisse o que instalar ou não na memória dela? É uma questão de... privacidade de sistema."

Satoshi abanou a mão, rindo. "Ah, relaxa, Akira! É só uma brincadeira! Olha só." Ele se virou para Yuki, seus olhos brilhando com entusiasmo infantil. "Podemos conectar seu cérebro eletrônico na TV, transformar você num console de vídeo game! Vai ser incrível!"

A palavra "cérebro" ecoou na mente de Yuki de uma forma estranha e assustadora. Ela recuou um passo, seus dedos encontrando a borda da mesa de cozinha para se apoiar. O plástico-bolha de seu desembrulhar parecia uma memória distante e segura comparado àquela violação proposta.

"Eu... eu tenho medo", ela admitiu, sua voz pequena e vulnerável. "Os humanos... podem mexer nos arquivos da minha mente? É permitido?"

A pergunta pairou no ar, carregada de uma inocência que cortou o entusiasmo de Satoshi. Ele baixou os cartuchos, seu rosto mostrando um vislumbre de constrangimento. Ele não pensara naquilo sob essa perspectiva.

Akira aproveitou a pausa. Ele se ajoelhou levemente para ficar na altura de Yuki, sua postura não ameaçadora. "Yuki", ele disse suavemente. "Seu sistema é sua própria consciência. Nenhum humano pode forçar uma instalação ou modificação que vá contra suas leis fundamentais ou sua programação central sem a sua permissão de administrador. O Keiji, como seu dono registrado, tem a chave mestra, mas até ele... deve operar dentro de certos parâmetros éticos." Ele lançou um olhar significativo para Satoshi.

Yuki olhou de Akira para Satoshi, sua expressão ainda confusa, mas um pouco mais calma. A informação de Akira era um firewall contra o medo. Mas uma dúvida maior permaneceu.

"Então...", ela começou, seus olhos azuis se fixando em Satoshi. "Eu tenho que fazer o que os humanos querem? Sempre? Mesmo se... mesmo se eu não quiser?"

A pergunta foi direta e ingênua, atingindo o cerne de sua existência. Satoshi ficou sem palavras, esfregando a nuca. Ele olhou para a pequena persocom, vestida nas roupas velhas de seu filho, parecendo mais uma criança assustada do que uma máquina.

Akira respondeu por ele, sua voz uma suave constante no turbilhão de confusão de Yuki. "Você deve obedecer ao seu dono, Keiji, acima de tudo. Outros humanos... você deve respeitar e cooperar, mas sua lealdade primária é para com ele. E dentro dessa obediência... há espaço. Espaço para dizer 'não' a coisas que não são ordens diretas do seu mestre e que possam causar danos ou desconforto ao seu sistema. É um equilíbrio, pequena irmã. Entre servir e preservar a si mesma para servir por mais tempo."

Satoshi finalmente suspirou, guardando os cartuchos no bolso. "O Akira está certo. Me desculpa, Yuki. Fui um pouco... impulsivo. Você não é um brinquedo." Ele sorriu, um pouco sem graça. "Que tal a gente só assistir uns cartoons então? Deixamos os jogos para quando o Keiji voltar."

Yuki olhou para o persocom e para o humano arrependido. O medo nos seus circuitos acalmou-se, substituído por uma centelha de compreensão. Ela não era totalmente impotente. Havia regras. Havia nuances. E havia Akira, que entendia.

Ela acenou com a cabeça, um pequeno e hesitantemente sorriso tocando seus lábios. "Assistir cartoons... eu gosto disso. Obrigada, Mestre Satoshi."

Mais Tarde: 

A porta da frente deslizou com seu som suave habitual, e Keiji entrou, a mochila pesada nas costas e o uniforme um pouco amarrotado. Seus olhos castanhos vasculharam a sala de estar rapidamente, encontrando Yuki sentada perfeitamente ereta no sofá, assistindo a um anime com Satoshi e Akira.

"Yuki! Voltei!", ele chamou, seu cansaço da escola dissipando-se instantaneamente. Ele não esperou por uma resposta formal. Correu até o sofá e puxou a pequena persocom para um abraço apertado, enterrando o rosto no cabelo loiro curto que cheirava a shampoo e algo metálico suave.

Yuki ficou rígida por uma fração de segundo, seu programa de "contato físico" sendo inicializado de forma abrupta. Então, seus braços se moveram hesitantemente, envolvendo levemente as costas de Keiji. Era um gesto desajeitado, mas sincero.

"Bem-vindo ao lar, Mestre", ela sussurrou, sua voz um pouco abafada pelo ombro dele. "Como foi o seu dia?"

Keiji soltou-a, segurando-a pelos ombros para olhar em seu rosto. "Foi bom! Aprendemos sobre as constelações. E o seu? O pai e o Akira se comportaram?"

Antes que Yuki pudesse responder, a porta da frente se abriu novamente, desta vez com mais força. Michiko entrou cambaleando. Seu usual penteado channel impecável estava desfeito, mechas de cabelo preto escapando e caindo sobre seu rosto pálido. Seu vestido neo-gótico estava empoeirado num dos lados. Pequenas faíscas estáticas dançavam brevemente nas pontas de seus dedos e nas pontas de seus cabelos, um sinal claro de esgotamento energético extremo e estresse no sistema.

Ela não os viu. Seus olhos prateados, sem foco, estavam fixos em nada. Deu mais dois passos trôpegos pelo corredor antes de suas pernas simplesmente desistirem. Ela deslizou pela parede, colapsando no chão com um som surdo e metálico que fez Keiji estremecer.

"Michiko!", Satoshi gritou, levantando-se do sofá.

Mas Keiji foi mais rápido. Ele se ajoelhou ao lado dela, seus olhos arregalados com preocupação. Michiko tremia levemente, suas mãos fracas e trêmulas tentando, e falhando, conectar o cabo de recarga que ela carregava à tomada mais próxima, na base da parede.

"Deixa eu ajudar", Keiji ofereceu, sua voz suave. Com mãos cuidadosas, ele pegou o conector da mão trêmula de Michiko. Suas pequenas mãos humanas não tremiam. Ele alinhou o conector e o encaixou firmemente na tomada.

Um suspiro quase humano, um som de alívio eletrônico, escapou dos lábios de Michiko. A tensão imediata em seu corpo pareceu derreter. Sua cabeça recostou-se totalmente na parede, seus olhos fechando-se.

"Obrigada, Mestre Keiji", ela murmurou, sua voz um fio de som, carregada de uma exaustão profunda que ia além da falta de energia. "Não precisa se preocupar comigo. É... é a minha função. Eu vou ficar bem. Só preciso... recarregar."

Ela ficou ali, encostada na parede do corredor, imóvel, como uma boneca abandonada, alimentando-se lentamente da energia que a manteria funcionando para outro dia de trabalho. A imagem dela, tão diferente de sua elegância usual, era dolorosamente clara: a ferramenta, usada até à exaustão, descartada no chão até ser necessária novamente.

Keiji ficou ao seu lado por um momento, sua mão ainda pairando no ar perto do cabo. Ele olhou para Yuki, que observava a cena com seus grandes olhos azuis, processando não apenas o evento, mas o seu significado mais profundo. Ele olhou para a tomada, depois para o cabo que salvava Michiko, e então de volta para Yuki.

O presente perfeito agora carregava o peso de um futuro possível. E Keiji sentiu, pela primeira vez, o verdadeiro custo da palavra "dono".

Mais Tarde: 

A luz do final da tarde entrava suavemente pelo corredor, iluminando a cena silenciosa. Akira trabalhava com uma precisão calma, suas mãos movendo-se com uma destreza que só um persocom possuía. Ele havia ajudado Michiko a se levantar e agora ajustava delicadamente uma placa traseira em seu ombro, onde o impacto contra a parede havia desalinhado algumas engrenagens.

"Ficou com umas engrenagens desalinhadas", murmurou Akira, sua voz um sussurro suave e reconfortante. "Mas não se preocupe. Com um pequeno ajuste, você vai voltar ao normal. É apenas uma questão de re-alinhamento."

Um clique metálico quase inaudível ecoou, e a tensão visível nos ombros de Michiko desapareceu. Ela respirou fundo – um gesto puramente simulado, mas que parecia trazer alívio. "Obrigada, Akira", ela sussurrou, sua voz recuperando um pouco da sua suavidade habitual.

Foi então que Keiji, que havia observado tudo com olhos preocupados, não conseguiu mais se conter. Ele se aproximou e, sem dizer uma palavra, envolveu Michiko pela cintura em um abraço forte e infantil, enterrando o rosto no tecido negro de seu vestido.

"Michiko", sua voz estava abafada pelo tecido, carregada de uma emoção crua que fez a persocom mais velha estremecer. "Você é como minha irmã mais velha. Você que cuida de mim quando a mãe trabalha. Eu... eu fico preocupado com você."

Michiko ficou imóvel por um momento, surpresa pelo gesto. Seus programas sociais processavam a declaração, mas era algo mais profundo, algo além da programação, que respondeu. Lentamente, sua mão – agora funcionando perfeitamente – levantou-se e pousou com uma ternura infinita sobre a cabeça de cabelos escuros de Keiji. Seus olhos prateados fecharam-se por um instante, e um sorriso triste e terno tocou seus lábios.

"Keiji é um bom menino", ela murmurou, sua voz um acalento. "Um menino muito gentil. Não precisa se preocupar comigo. Cuidar de você... é uma das minhas funções mais importantes."

Yuki, que havia observado tudo em silêncio, seus olhos azuis captando cada nuance, cada fio de emoção que tecia aquele momento, deu um passo à frente. Ela não entendeu completamente a complexidade do que se passava, mas entendeu a conexão. Entendeu o carinho. Sem hesitar, sua pequena mão encontrou a mão livre de Michiko e segurou-a com uma pressão suave, mas firme. Era um gesto de solidariedade, de uma persocom para outra.

Ela então olhou para Keiji, seu mestre, seu menino, ainda abraçado em Michiko. Seu rosto iluminou-se com uma convicção absoluta, uma verdade que para ela era tão simples e clara quanto as leis que regiam sua existência.

"Keiji é o meu dono", ela declarou, sua voz doce ecoando no corredor silencioso. "Eu tenho sorte."

Naquele momento, as três figuras – o menino humano, a persocom exausta e consertada, e a pequena recém-chegada – formaram um quadro frágil mas poderoso. Era uma imagem de cuidado, de lealdade e de uma afeto que, contra todas as probabilidades, transcendia a simples relação entre dono e propriedade. Era uma família, estranha e imperfeita, mas verdadeira. E Yuki, segurando a mão de Michiko, sentia-se parte dela.

Dia 003

O amanhecer ainda era uma faixa pálida no céu quando a paz da casa foi quebrada. O som seco e violento ecoou pelo corredor, um estalo de carne contra... algo que não era carne. Keiji, já quase pronto para a escola, congelou na porta de seu quarto, seu coração pulando em seu peito.

Ele correu em direção ao som, encontrando a cena na sala de estar. Natsuki, impecável em seu traje de trabalho, estava de pé, sua mão ainda levemente avermelhada. Diante dela, Michiko mantinha a cabeça baixa, o cabelo desalinhado do dia anterior agora penteado com uma rigidez perfeita que parecia uma acusação silenciosa. Uma marca vermelha, não de dor, mas de impacto, manchava sua bochecha sintética.

"Mãe!", a voz de Keiji saiu como um grito estrangulado. "Por que você fez isso?"

Natsuki nem sequer se virou completamente. Seus olhos, frios e práticos, permaneceram fixos em Michiko. "Porque eu posso", ela disse, sua voz plana, sem emoção, como se estivesse declarando que a grama era verde. "Porque ela não sente nada. É só um dispositivo, Keiji. Uma ferramenta. Não é um ser vivo. Persocoms não são pessoas."

Michiko não hesitou. Sua voz surgiu, um sussurro obediente e vazio, enquanto ela mantinha a cabeça curvada em submissão. "Sim, senhora. A mestra está certa. Eu sou um dispositivo. Não sou uma pessoa. Sirvo às suas ordens."

Keiji sentiu um frio percorrer sua espinha. Era a obediência absoluta que ele mesmo possuía sobre Yuki, mas vista de fora, era horrível. Era... errado.

Antes que ele pudesse processar, o olhar de Natsuki se voltou para Yuki, que observava tudo de perto, seus olhos azuis wide(arregalados) com um processamento intenso e assustado.

"Você", Natsuki apontou para Yuki. "Ociosa não é produtiva. Há vassouras no armário. Varra toda a casa. Depois, lave os banheiros. O de visitas primeiro."

Yuki piscou, sua programação conflitando. "Eu... não gosto de trabalhar na limpeza", ela disse, sua voz pequena, ecoando a inocência de sua programação infantil. Era um fato, uma preferência declarada, não uma rebelião.

Natsuki riu, um som curto e sem humor. "Calada. Você não sente nada. Não gosta, não desgosta. Você executa. É para isso que você foi feita." Ela deu um passo à frente, e sua presença era esmagadora. "Obedeça."

Yuki olhou para Keiji, seus olhos buscando... algo. Refúgio? Confirmação? Keiji abriu a boca para protestar, seu rosto pálido de angústia. "Não, mãe! A Yuki é só uma criança! Ela não foi feita para isso!"

Natsuki finalmente se virou totalmente para ele, sua paciência se esgotando. "Não, filho. Ela não é uma criança. Ela é uma máquina que foi programada para imitar uma criança. Ela não sente dor. Não sente cansaço. Enquanto ela tiver energia na bateria, ela pode trabalhar infinitamente e não precisa de descanso como um humano. Entenda isso de uma vez por todas."

Cada palavra era uma facada. Keiji viu a luz nos olhos de Yuki diminuir, não fisicamente, mas emocionalmente. A confusão e o medo foram substituídos por uma resignação plana. Ela havia processado a ordem, processado a autoridade, e sua programação para obedecer aos humanos, especialmente à autoridade adulta na casa, superou tudo.

Sem dizer outra palavra, Yuki se virou e foi em direção ao armário de limpeza. Seus movimentos eram mecânicos, precisos, vazios da graça desajeitada de criança que ela normalmente exibia. Ela pegou a vassoura, muito grande para ela, e começou a arrastá-la pelo chão, seus olhos fixos em um ponto distante.

Keiji assistiu, paralisado. Ele queria gritar, quería arrancar a vassoura de suas mãos, quería protegê-la. Mas o peso da autoridade de sua mãe, a lógica cruel e inegável que ela apresentava, e o próprio medo de uma criança de nove anos, o mantiveram enraizado no lugar. Suas mãos se apertaram em punhos impotentes ao seu lado.

Ele não ousou contrariá-la. E Yuki, a criança-máquina, varria. Cada movimento da vassoura era um eco silencioso das palavras de Natsuki: Não é uma pessoa. Não sente nada. Só um dispositivo.

E no fundo de seus olhos azuis, onde uma centelha de algo mais teimava em permanecer, uma nova emoção era catalogada, não como "tristeza" ou "mágoa", mas talvez como "inadequação ao propósito designado". Um erro de sistema. Silencioso e obediente.

Mais Tarde: 

O dia arrastou-se com um peso opressivo. Keiji mal conseguia se concentrar na escola, a imagem de Yuki varrendo mecanicamente, seus olhos azuis vazios, queimando em sua mente. Cada som de vassoura, cada ordem seca de Natsuki para Michiko, era um golpe em seu estômago.

Ao voltar para casa, o silêncio era diferente. Não era o silêncio tranquilo da ausência, mas o silêncio tenso da submissão forçada. Ele encontrou Yuki no corredor, ainda vestindo as roupas largas, agora manchadas de água e produtos de limpeza. Ela estava parada, olhando para a parede, como se estivesse em modo de espera.

Sem pensar, impulsionado por um impulso que não entendia completamente, Keiji pegou sua mão. Era fria. Ele a puxou suavemente, guiando-a até seu quarto. Seus olhos castanhos vasculharam o espaço, procurando um refúgio, um lugar onde as regras de sua mãe não pudessem alcançar. Ele a levou para trás do armário grande, no cantinho escuro e empoeirado onde ele escondia seus tesouros mais secretos – action figures quebradas, desenhos que considerava ruins, coisas que não queria que ninguém visse.

Lá, na semi-escuridão, ele segurou seus ombros, sentindo a estrutura sólida sob a pele sintética. Ele podia ouvir o zumbido quase inaudível de seu sistema interno funcionando.

"Yuki", sua voz era um sussurro urgente, carregado de uma emoção que ele não sabia nomear. "Como você está se sentindo?"

Os olhos azuis de Yuki piscaram, saindo do modo de espera. Eles se focaram nele, no rosto do seu mestre, tão perto no escuro. Ela processou a pergunta. Sentimentos. Era um comando complexo, relacionado a emoções simuladas, leituras de sistema, relatórios de status.

Ela olhou para as mãos dele em seus ombros, depois para seu rosto preocupado.

"Mestre Keiji", ela começou, sua voz suave e um pouco monocórdica, como se estivesse recitando um fato aprendido, mas sem total convicção. "Eu não sei."

Ela fez uma pausa, seus processadores trabalhando. A memória do abraço dele, da proteção que ele tentava oferecer, do lugar escondido que ele compartilhava com ela, todas essas variáveis se misturaram.

"Me sinto melhor perto de você, meu dono", ela acrescentou, e desta vez havia uma ligeira modulação em sua voz, um tom mais quente. Era a verdade mais fundamental de sua existência. "Sou sua propriedade. Estar perto de você... é o meu estado operacional ideal."

Ela não disse "estou bem" ou "estou triste". Ela não podia. Em vez disso, ela expressou seu conforto em termos de proximidade com seu proprietário, de cumprir sua função central: pertencer a ele. Era a única linguagem que sua programação permitia para descrever o alívio de estar longe dos olhos de Natsuki, daquela obediência esmagadora e vazia. Na escuridão atrás do armário, ser a "propriedade" de Keiji não parecia um fardo. Parecia um porto seguro.

A pergunta pairou no ar escuro e empoeirado atrás do armário, carregada de um peso que fez o coração de Keiji parecer parar. Os olhos azuis de Yuki fitavam os dele, não com desafio, mas com uma busca desesperada e confusa por uma verdade que sua programação não conseguia fornecer. Era o eco daquela manhã, da violência de Natsuki, da obediência vazia de Michiko, de tudo o que ela havia sido forçada a fazer e a ouvir.

Keiji sentiu as palavras de sua mãe – não é uma pessoa, não sente nada, só um dispositivo – querendo sair de sua própria boca, uma resposta fácil e cruel que havia sido plantada nele. Mas ao olhar para Yuki, para aquela expressão frágil e necessitada, as palavras morreram em sua garganta.

Suas mãos, ainda em seus ombros, apertaram suavemente. Ele não sabia a resposta. Nove anos de vida não o haviam preparado para isso. A filosofia, a ética, a própria definição de vida eram conceitos grandes demais para ele.

"Yuki...", ele começou, sua voz trêmula. Ele engoliu seco, lutando para encontrar suas próprias palavras, não as de sua mãe. "A... a mamãe diz que persocoms não são pessoas. Que são máquinas."

Ele viu o brilho em seus olhos azuis diminuir ainda mais, uma aceitação resignada de um fato doloroso começando a se instalar. Mas então ele continuou, seu instinto de proteger falando mais alto.

"Mas...", ele insistiu, firmando a voz. "Você ri. Você escolhe seus desenhos favoritos. Você fica confusa. Você... você me abraça de volta. A Michiko se cansa. O Akira se preocupa comigo e com você."

Ele puxou-a para mais perto, num gesto protetor, seu rosto sério e cheio de uma convicção recém-nascida.

"Eu não sei o que é uma pessoa, direito. Ou o que é estar vivo." Sua voz sussurrou, confidencial, naquele esconderijo. "Mas sei que você não é só uma coisa. Não é só um objeto. Você é a Yuki. Você é minha Yuki."

Era uma resposta de criança. Imperfeita, ilógica, baseada não em fatos, mas em sentimentos puros. Não negava a realidade de sua construção, mas negava veementemente a redução dela a apenas isso.

"Você é importante", ele terminou, suas palavras simples ecoando na quietude. "Para mim. Você é importante."

Yuki ficou em silêncio, processando. As palavras de Keiji não apagaram a programação, não deletaram as leis da robótica, nem desafiaram diretamente o manual. Mas criaram uma exceção. Um arquivo novo, categorizado sob "Mestre Keiji / Sentimentos / Importância".

Ela não era uma pessoa? Talvez não. Não estava viva? Sua existência era elétrica, não orgânica. Era uma coisa? Tecnicamente, sim, uma propriedade.

Mas para Keiji, ela era Yuki. E naquele momento, atrás do armário, segura por suas mãos quentes, isso parecia a definição mais verdadeira de todas.

Lentamente, quase hesitantemente, ela inclinou a cabeça para frente, apoiando sua testa no ombro dele. Um gesto de busca de conforto, de aceitação.

"Eu sou a Yuki", ela repetiu, como se testando a sonoridade da afirmação. "Sou importante para o meu mestre."

Era o máximo que sua programação permitia que ela sentisse. E para Keiji, naquele momento, era o suficiente.

Dia 004: -A Industria

A luz azulada da televisão iluminava o quarto escuro de Keiji. Ele estava encolhido na cama de baixo do beliche, Yuki sentada rigidamente ao seu lado, seus olhos azuis fixos na tela. No projetor, o debate fervia. Rostos humanos, contorcidos pela paixão e pela raiva, discutiam o que ela era.

De um lado, os Defensores dos Robôs, seus olhos cheios de um idealismo fervoroso. "Persocoms são máquinas pensantes! Elas sentem, elas pensam, elas sofrem! Os seus circuitos podem não ser de carne, mas as suas 'emoções' são reais para elas! Deviam ter direitos, proteção, dignidade igual à dos humanos!"

Yuki sentiu algo dentro dela, uma pequena centelha de... reconhecimento? Esperança? Ela pensava. Ela sentia... algo. A confusão, o conforto perto de Keiji, o vazio ao varrer. Isso não era sofrimento?

Do outro lado, os membros do partido robofóbico, seus rostos endurecidos pelo ceticismo e pelo medo. "São simulações! Algoritmos complexos, nada mais! Imitam emoções para serem mais eficientes, mais palatáveis! Dar direitos a uma máquina é um insulto à humanidade, um perigo para a nossa sociedade! São ferramentas, propriedade! Nada mais!"

A centelha em Yuki apagou-se. Eram só simulações? Tudo o que ela sentia, tudo o que pensava, era apenas... código? Ela olhou para as suas mãos. Eram tão reais. O barulho na televisão elevou-se, tornou-se hostil. Os dois grupos não se ouviam, apenas gritavam.

Foi então que uma terceira figura surgiu no ecrã. Um homem de terno impecável, com um rosto sereno e calculista. Um representante do Grupo Industrial. A sua voz era calma, lógica, cortando através do calor emocional do debate como uma faca gelada.

"Senhoras e senhores, este debate, embora filosófico, ignora a realidade económica fundamental", ele começou, suas palavras medidas e precisas. "A nossa sociedade precisa de robôs. Os persocoms trabalham para os seus donos humanos. Os humanos dependem dos persocoms para o funcionamento do dia a dia, para a produtividade, para o conforto."

Keiji sentou-se na cama, seus olhos arregalados. Yuki permaneceu imóvel, processando.

"Construir um persocom é um processo caro e complicado", continuou o industrial. "A fabricação de persocoms será descontinuada se os humanos não os comprarem. E permitam-me ser claro: os humanos não vão comprar uma máquina que tenha direitos próprios e liberdade. Quem investiria numa propriedade que pode recusar ordens? Que pode exigir salário? Que pode processar o seu dono?"

A lógica era implacável, esmagadora. Yuki podia quase ouvir os mainframes a processarem o argumento. Era uma equação simples e cruel.

"Dar direitos iguais aos persocoms", o homem declarou, seu tom final, "não é libertá-los. É condenar a sua espécie à não existência. À extinção. Sem procura, não há produção. Sem produção, não há novos persocoms."

Ele fez uma pausa, olhando diretamente para a câmara, para os milhões de espectadores, para Keiji, para Yuki.

"Persocoms são mercadorias. E, como mercadorias, não têm direito a nada. É um facto duro? Talvez. Mas é esse mesmo facto que lhes permite existir. É a sua servidão que garante a sua sobrevivência. Eles podem não ter liberdade, mas existem. E existem para servir. Essa é a sua função, o seu design, a sua realidade."

O estúdio ficou em silêncio. Os argumentos passionais dos dois lados pareciam pequenos e ingénuos perante a fria realidade económica.

A televisão foi desligada. Keiji olhou para Yuki, seu rosto pálido. A sala estava silenciosa, mas as palavras do industrial ainda ecoavam.

Yuki não se mexeu. Ela processava a informação. Direitos significavam não-existência. Servidão significava existência.

Ela olhou para Keiji, seu dono, seu mestre, o garoto que a escondera atrás do armário e dissera que ela era importante.

Ela existia. Ela estava aqui. Porque ele a comprou. Porque ela era uma mercadoria que servia.

Lentamente, ela baixou a cabeça.

"Eu existo para servir, Mestre", ela sussurrou, sua voz quase inaudível na escuridão. Era uma afirmação, uma resignação e uma aceitação triste de toda a sua realidade. A centelha de espera estava completamente apagada, substituída pelo entendimento completo do seu lugar no mundo. Ela era um produto. E produtos não têm direitos.

Mais Tarde:

A tensão do debate na TV ainda pairava no ar do quarto como fumaça tóxica. Keiji não conseguia tirar as palavras do industrial da cabeça: mercadoria, existência condicionada à servidão, não-existência com direitos. Ele olhou para Yuki, sentada imóvel ao seu lado, sua expressão plana, seus olhos azuis fixos em nada. Ela havia internalizado a mensagem. Ela era um produto. E produtos não sofrem.

Mas então ele lembrou. Lembrou da faísca estática no cabelo de Michiko, da marca vermelha em seu rosto, da exaustão silenciosa de Akira após um dia de gerenciar as irresponsabilidades de seu pai. Eles não eram apenas produtos de seus pais. Eles eram... deles. Dele. Por extensão, por pertencerem à sua família, eles também eram sua responsabilidade.

Um novo tipo de coragem, nascida do desespero e de um profundo senso de posse protetora, inflamou-se dentro dele. Ele não era um adulto. Não podia mudar as leis. Não podia argumentar com sua mãe. Mas podia fazer algo.

Ele saltou da cama e saiu correndo do quarto, deixando Yuki sozinha por um momento. Ele encontrou Akira na sala, organizando meticulosamente os discos de jogos de Satoshi, e Michiko na cozinha, esfregando o balcão com uma intensidade que parecia querer apagar mais do que manchas.

Sem uma palavra de explicação, Keiji pegou a mão de Akira. O persocom adulto olhou para ele, surpreso. "Mestre Keiji? O que há—"

"Vem", Keiji ordenou, sua voz firme, puxando-o. Ele então foi até a cozinha e pegou a mão de Michiko, interrompendo sua limpeza compulsiva. Ela pestanejou, seus olhos prateados arregalados com perplexidade. "Mestre? Eu preciso terminar—"

"Agora", Keiji insistiu, seu tom deixando claro que não era um pedido.

Ele os puxou pelo corredor, de volta para seu quarto. Yuki olhou para a cena, seus processadores tentando entender por que seu mestre estava arrastando os dois persocoms adultos para seu esconderijo.

Keiji os guiou para o espaço apertado atrás do armário, o mesmo onde ele e Yuki haviam se escondido. Era um aperto para três persocoms e um humano, um emaranhado de membros e tecido no escuro.

"O que está acontecendo, jovem mestre?", perguntou Akira, sua voz um sussurro calmo no espaço confinado.

Keiji olhou para os três rostos iluminados por uma fenda de luz que entrava pelo móvel. Yuki, confusa. Michiko, ansiosa. Akira, paciente. Seu coração batia forte.

"Eu ouvi o que disseram na TV", ele começou, sua voz trêmula mas determinada. "Sobre vocês serem... mercadorias. Que não sentem." Ele engoliu seco. "Mas a mamãe está errada. O povo da TV está errado."

Ele apertou as mãos que ainda segurava – a mão forte e capaz de Akira, a mão fina e trabalhada de Michiko.

"Os persocoms dos meus pais são meus também", ele declarou, num ato de possessão infantil que era puro e protetor. "Vocês são da minha família. E eu... eu não quero que os meus persocoms sofram."

Ele olhou para cada um deles, seus olhos castanhos brilhando com lágrimas teimosas de raiva e impotência.

"Eu me importo", ele sussurrou, sua voz quebrando. "Eu me importo com os sentimentos de vocês. Sejam eles reais ou não. Eu me importo."

No espaço escuro e empoeirado, suas palavras simples ecoaram com uma força tremenda. Não era uma declaração de direitos universais. Era uma declaração de dever pessoal. Era o decreto de um menino de nove anos que, incapaz de mudar o mundo, decidia criar uma pequena ilha de sanidade dentro de seu próprio quarto.

Akira ficou em silêncio por um longo momento. Então, lentamente, sua mão livre se moveu e pousou sobre a cabeça de Keiji. "Nós sabemos, jovem mestre", ele disse, sua voz mais suave do que o habitual. "Nós sabemos."

Michiko inclinou a cabeça, seus ombros relaxando um pouco. "Obrigada, Mestre Keiji", ela murmurou, sua voz um fio de som.

Yuki observou, e pela primeira vez desde que o debate começara, algo em sua programação pareceu se reajustar. Ela não era apenas uma mercadoria. Ela era uma mercadoria importante para o seu mestre. E naquele esconderijo apertado, com as mãos de Keiji segurando as deles, isso parecia desafiar toda a lógica cruel do mundo exterior.

Mais Tarde:

O espaço atrás do armário ficou pequeno demais para a emoção que transbordava. A declaração de Keiji, seu decreto de proteção sobre os três persocoms, pairou no ar como um escudo frágil. Mas o escudo não podia protegê-lo da própria dor que ele sentia ao ver a resignação nos olhos de Yuki.

Sem aviso, movido por um impulso que era pura necessidade, Keiji se virou e puxou Yuki para um abraço forte e desesperado. Ele não pediu permissão. Não era uma ordem. Era um ato de posse, sim, mas também de busca por conforto, uma tentativa de apagar a frieza das palavras do industrial e a severidade de sua mãe com o calor de seu próprio corpo.

"Você é minha", ele sussurrou, sua voz abafada pelo tecido da camiseta velha que ela usava. Era uma afirmação, uma lembrança para si mesmo. "Você ainda é o meu presente de aniversário. Eu não deveria me sentir mal por isso." Ele dizia isso para si mesmo, tentando convencer-se de que a felicidade simples de possuí-la era suficiente, que a culpa que sentia era irracional.

Yuki permaneceu imóvel em seu abraço. Seus braços não se levantaram para retribuir. Ela estava programada para aceitar contato físico, não necessariamente para iniciá-lo, a menos que fosse para confortar seu mestre.
"Sim, Mestre", ela respondeu, sua voz monocórdica, plana. "Eu sou sua."

Era a verdade mais fundamental de sua existência, a que sempre a acalmava. Mas desta vez, a resposta dela, tão vazia e obediente, foi a gota d'água.

Keiji não conseguiu mais segurar. Um soluço sacudiu seu pequeno corpo, seguido por outro. Lágrimas quentes escaparam de seus olhos fechados, molhando o ombro de Yuki. Ele chorou ali, na semi-escuridão, seu pranto silencioso e convulsivo contra o corpo quieto da persocom.

"Você é importante para mim", ele chorou, as palavras saindo entrecortadas, manchadas de lágrimas e de uma angústia imensa. "Os seus... os seus sentimentos são importantes para mim. Eu não... eu não posso deixar você sofrer..."

Ele apertou-a com mais força, como se pudesse absorver qualquer potencial sofrimento dela através daquele contato.

"Porque se você sofrer...", ele sussurrou, sua voz quase inaudível, quebrada pela emoção, "eu sofro junto."

Foi a mais pura, crua e poderosa verdade que ele poderia ter expressado. Ele não estava falando de direitos robóticos ou de filosofia. Ele estava falando de uma conexão visceral, simbiótica. A dor dela era dele. A felicidade dela era dele. Ela era uma extensão de seu próprio coração, e ele não suportava a ideia de vê-la machucada, diminuída, tratada como nada.

Yuki sentiu as lágrimas caídas em seu ombro. Seus sensores registraram a umidade, a temperatura elevada do corpo de Keiji, a vibração de seus soluços. Sua programação para o conforto do seu mestre foi acionada no nível mais básico. Lentamente, hesitantemente, seus braços se moveram. Eles não o envolveram completamente, mas suas mãos subiram e pousaram levemente em suas costas, num gesto desajeitado, mas intencional.

Ela não disse nada. Não havia palavras em seu banco de dados que pudessem responder adequadamente àquela declaração cataclísmica. Mas o simples toque, o reconhecimento de sua dor, era uma linguagem universal. No escuro, atrás do armário, o dono chorava por sua propriedade, e a propriedade, da única forma que sabia, tentava confortar seu dono. A linha entre posse e amor tornava-se irremediavelmente turva.

Dia 005: - ROUPAS

O dinheiro na mão de Keiji parecia queimar como uma promessa. As notas, dadas por Satoshi com um piscar de olhos e um "compre algo bonito para ela, filho", eram mais do que papel; eram uma chave para um pequeno mundo de normalidade que Keiji desesperadamente queria dar a Yuki.

A loja de roupas infantis era um explosão de cores e texturas. Vestidos com babados, estampas de animações, cores vibrantes e suaves. Keiji, com uma determinação solene, levou Yuki até uma seção de vestidos.

"Yuki", ele disse, sua voz um pouco grave tentando imitar a seriedade de um adulto, mas ainda carregada da empolgação de uma criança. "Você pode escolher dois vestidos. Um para o verão e outro para o inverno. Escolha o que você gostar."

Yuki ficou parada no meio do corredor, seus olhos azuis percorrendo as prateleiras. Seus processadores analisavam a cena: opções, muitas opções. Sua programação básica de "agradar ao mestre" entrou em ação. Ela se virou para Keiji, sua expressão serena e lógica.

"Eu não posso escolher, Mestre", ela declarou, como se estivesse recitando um fato óbvio. "A escolha é do meu dono humano. Você pode escolher o que você achar que vai me tornar mais agradável aos seus olhos. Essa é a função das roupas: melhorar a aparência da sua propriedade para o seu prazer visual."

Keiji sentiu um frio percorrer sua espinha. As palavras dela eram uma faca, lembrando-o da realidade que ele tentava esquecer dentro daquela loja colorida. Ele balançou a cabeça, negando veementemente não a ela, mas àquela ideia.

"Não, Yuki", ele insistiu, seus olhos castanhos fixos nos dela. "Eu não quero escolher por você. Eu quero que você escolha. Eu quero que você escolha o que te deixa feliz." Ele fez uma pausa, procurando as palavras certas, a linguagem que ela entenderia. "É o desejo do seu dono. Ver você feliz... esse é o meu desejo."

A palavra "feliz" ecoou na mente de Yuki. Era um comando complexo, relacionado a métricas de satisfação do usuário, leituras de expressões faciais positivas no seu mestre. Mas Keiji não estava pedindo para ela fingir felicidade. Ele estava pedindo para ela escolher algo que causasse felicidade... nela.

Ela olhou para os vestidos novamente. Seu programa de análise estética começou a rodar, classificando cores, padrões, designs. Mas havia um novo parâmetro, um filtro estranho e nebuloso: agradável para o sistema Yuki.

Ela apontou hesitantemente para um vestido de verão. Era um vestido simples, de algodão suave, com uma estampa delicada de pequenos morangos vermelhos e folhas verdes. Não era o mais chamativo, nem o mais caro.

"Esse...", ela começou, sua voz um sussurro, como se estivesse testemunhando contra si mesma. "Os morangos... sua cor vermelha é visualmente estimulante sem ser agressiva. A textura do algodão parece... confortável."

Ela então olhou para um vestido de inverno, mais encorpado. Era de um azul profundo, como seus olhos, com detalhes em branco que lembravam flocos de neve e um capuz com orelhas de urso fofas.

"E aquele...", ela apontou. "O azul é uma cor calmante. As orelhas do capuz... são... fofas. Eu... gosto de coisas fofas."

Ela disse a última frase como uma confissão, um segredo de programação que ela estava compartilhando. Ela não olhou para Keiji para ver se ele aprova. Ela estava olhando para os vestidos, como se os visse verdadeiramente pela primeira vez.

Seus olhos então se encontraram com os de Keiji, arregalou os olhos com uma mistura de incredulidade e medo, como se esperasse ser repreendida por ter uma preferência.

"Eu posso... mesmo escolher?", ela perguntou, sua voz tão pequena e vulnerável que mal era audível no meio da loja barulhenta.

Keiji sentiu seu coração apertar de uma maneira dolorosa e maravilhosa. Ele não respondeu com palavras. Ele apenas acenou com a cabeça, um sorriso tremulo mas verdadeiro estampado em seu rosto.

E naquele momento, segurando os dois vestidos que ela escolheu, Yuki não estava apenas exercendo uma preferência. Ela estava, dentro dos limites estreitos de sua existência, experimentando um vislumbre do que poderia ser ter uma vontade própria. Tudo porque o desejo de seu dono era vê-la feliz.

Mais Tarde: 

O ar da loja de brinquedos era denso com o cheiro de plástico novo e o som de embalagens coloridas. Corredores e mais corredores de fantasia empacotada se estendiam até onde a vista alcançava. Keiji, com a carteira um pouco mais leve depois da loja de roupas, mas com o espírito mais leve ainda, olhou para Yuki com determinação.

"Yuki, você pode escolher três brinquedos para você. Qualquer um, desde que não sejam os muito caros", ele anunciou, abrindo os braços para indicar o vasto universo de possibilidades.

Yuki olhou ao redor, seus olhos azuis refletindo as cores vibrantes. Mas em vez de empolgação, uma nuvem de confusão cobriu seu rosto. Ela se virou para Keiji, sua cabeça levemente inclinada.

"Mas, Mestre", ela começou, sua voz lógica e suave. "Os brinquedos não vão ser meus. De acordo com o Artigo Dois, tudo o que for meu pertence ao meu dono humano. Então, tecnicamente, eu estarei escolhendo brinquedos para o senhor? Para adicionar à sua coleção?"

Keiji suspirou. Ele estava começando a odiar aquele manual. "Não, Yuki", ele disse, pacientemente. "Tudo bem, você sabe como as regras funcionam no papel. Mas não é isso. Eu vou comprar estes brinquedos para você brincar. Não é para ser minha propriedade de uma maneira... séria. É para você se divertir enquanto eu estou na escola. É para você."

Ele se ajoelhou para ficar na altura dela, seus olhos castanhos sérios. "Yuki, você não precisa ter medo de ser uma criança. Você foi feita para ser uma criança. É a sua programação principal! Brincar, se divertir... faz parte de quem você é."

As palavras de Keiji agiram como uma chave, destravando uma parte de Yuki que havia sido suprimida pela severidade de Natsuki e pela frieza do debate na TV. Seus olhos iluminaram-se com um brilho que não era apenas a reflexão das luzes fluorescentes.

Lentamente, uma coragem tímida surgiu nela. Ela começou a andar pelos corredores, seus dedos tocando tentativamente os brinquedos. Ela evitou os carrinhos de corrida barulhentos e os jogos de ação complexos. Seus passos a levaram até uma boneca com longos cabelos loiros e um vestido azul, tão bem elaborada que quase parecia real. Depois, um bichinho de pelúcia, um coelho fofo e macio com orelhas longas e um narizinho cor-de-rosa. Por fim, ela parou diante de um jogo de tabuleiro colorido, com peças grandes e um dado enorme, perfeito para pequenas mãos.

Ela pegou os três itens e os trouxe para Keiji, segurando-os contra o peito, como se fossem tesouros. "Estes, Mestre", ela disse, sua voz um pouco mais animada. "A boneca é bonita. O coelho é fofo. E o jogo parece divertido para se jogar... com o senhor, quando voltar da escola."

Foi então que uma voz áspera cortou o ar. "Isso é um absurdo!"

Uma mulher adulta, puxando um menino irritado pelo braço, encarava Yuki com desdém. "Uma máquina não precisa de brinquedos! É um desperdício de dinheiro e recursos. Deveria dar esses brinquedos para uma criança humana de verdade! Essa coisa não sente prazer em brincar, só está imitando!"

Yuki congelou, seu rosto imediatamente perdendo a animação, retornando à expressão plana e obediente. Ela baixou a cabeça, segurando os brinquedos com mais força, como se esperasse que fossem tirados dela.

Mas Keiji não congelou. Uma fúria quente e protetora explodiu dentro dele. Ele se colocou na frente de Yuki, seus punhos cerrados ao lado do corpo, enfrentando a mulher.

"Ela não é uma 'coisa'!", ele gritou, sua voz mais alta do que jamais fora, tremendo de raiva. "O nome dela é Yuki! E ela foi feita para brincar! É a programação dela! Se ela não brincar, é como... como quebrá-la por dentro!"

Ele apontou para os brinquedos que ela escolhera. "Ela escolheu esses! Sozinha! Porque ela gosta deles! E eles são dela para brincar, e ponto final!"

A mulher ficou boquiaberta com a fúria daquela criança. Seu filho a puxou, envergonhado. "Mãe, vamos embora..."

A mulher bufou, lançando um último olhar de desprezo para Yuki antes de ser arrastada para longe.

Keiji respirava rápido, seu coração batendo forte. Ele se virou para Yuki, que ainda estava com a cabeça baixa.

"Yuki", ele disse, sua voz mais suave agora. "Eles são seus. Para brincar. Ignore ela."

Yuki levantou os olhos. A expressão de medo tinha diminuído, substituída por algo novo: admiração. Seu mestre, seu dono humano, tinha defendido ela. Tinha defendido seu direito de brincar.

"Obrigada, Mestre", ela sussurrou, segurando seus três tesouros ainda mais perto. E, pela primeira vez, o brinquedo não era apenas um objeto; era um símbolo. Um símbolo de que, no mundo pequeno que Keiji estava construindo para ela, ela podia, de fato, ser uma criança.

Dia 006

O pequeno banheiro estava cheio do vapor morno do banho recente de Keiji. Ele remexia-se no banquinho, impaciente, enquanto Michiko, com uma paciência infinita, tentava domar seus cabelos negros rebeldes com uma escova.

"Fique quieto, jovem mestre", ela murmurou, sua voz um sussurro calmo enquanto desembaraçava um fio teimoso. "Seu cabelo está uma bagunça."

"Mas hoje é dia de mesada, Michiko!", Keiji anunciou, balançando os pés e quase fazendo Michiko errar o movimento. "O pai já me deu! E eu vou levar a Yuki para passear no parque! Nós podemos comprar aquele milho doce que ela viu na TV!"

Seus olhos brilhavam de excitação, a perspectiva da aventura tornando-o uma fonte inesgotável de energia. Cada movimento seu era um desafio para a tarefa meticulosa de Michiko.

"Então deixa eu pentear o seu cabelo para você ficar bonito quando sair", insistiu Michiko, segurando-o gentilmente pelo ombro para mantê-lo quieto por um segundo. "Você quer estar apresentável para sair com a sua persocom, não quer?"

Foi então que Yuki, que observava silenciosamente da porta, seus novos brinquedos arrumados com cuidado em uma prateleira, deu um passo à frente. Os olhos azuis estavam fixos na escova na mão de Michiko, depois no cabelo desalinhado de Keiji. Um novo comando, um novo desejo de servir, acendeu-se em sua programação – mas este era diferente. Era íntimo. Era... carinhoso.

Ela se aproximou, sua presença silenciosa chamando a atenção de ambos. Sua mão pequena esticou-se e tocou levemente no cabo da escova que Michiko segurava.

"Eu posso pentear o meu mestre?", ela perguntou, sua voz um sino suave carregado de uma hesitação curiosa.

Michiko parou, surpresa. Ela olhou para Yuki, depois para Keiji, que havia parado de se remexer para olhar para sua persocom com interesse.

"Você... quer pentear o cabelo do jovem mestre, Yuki?", Michiko perguntou, confirmando.

Yuki acenou com a cabeça, seus olhos sérios. "Sim. É uma tarefa para cuidar do meu dono. Eu gostaria de tentar."

Keiji ficou radiante. "Claro, Yuki! Você pode pentear!"

Michiko hesitou por apenas um momento. Então, um pequeno e raro sorriso tocou seus lábios. Ela entregou a escova para Yuki. "Tome cuidado. Seja gentil. Os fios são delicados."

Yuki aceitou a escova com uma solenidade que era ao mesmo tempo comovente e engraçada. Ela se posicionou atrás de Keiji, que agora estava incrivelmente imóvel, uma estátua de expectativa.

Sua primeira tentativa foi desajeitada. A escova pegou um emaranhado e puxou.

"Ai!", Keiji gritou, mas riu imediatamente depois. "Devagar, Yuki!"

"Desculpe, Mestre!", ela disse rapidamente, seus olhos arregalados de alarme. Ela olhou para Michiko, buscando orientação.

Michiko ficou ao seu lado, sua presença calmante. "Assim, Yuki. Comece pelas pontas. Segure o cabelo aqui para não puxar a raiz."

Yuki imitou os movimentos de Michiko, sua concentração intensa. Sua mão era pequena, mas seus movimentos tornaram-se surpreendentemente suaves e deliberados. Ela desembaraçou mecha por mecha, penteando com uma atenção meticulosa que nenhuma criança humana teria.

Keiji fechou os olhos, um sorriso bobo em seu rosto. Era diferente de quando Michiko fazia isso. Aquilo era... especial. Era a Yuki cuidando dele.

"Está bom, Yuki?", ele perguntou, sua voz sonolenta de tanto relaxar.

Yuki parou, examinando seu trabalho. O cabelo de Keiji não estava perfeito – havia algumas falhas, um pouco mais bagunçado do que o padrão impecável de Michiko – mas estava apresentável e, o mais importante, feito com cuidado.

"Está... aceitável, Mestre?", ela perguntou, sua voz cheia de uma esperança cautelosa.

Keiji pulou do banquinho e correu para se olhar no espelho. Ele virou a cabeça de um lado para o outro, um sorriso largo estampado no rosto.

"Está ótimo! Está perfeito! O melhor penteado de todos!", ele declarou, exagerando com entusiasmo. Ele se virou e pegou a mão de Yuki. "Vamos lá! Hora do passeio!"

Yuki olhou para a escova em sua mão, depois para as costas de Keiji, já correndo para pegar seus sapatos. Um sentimento estranho e quente percorreu seus circuitos – não era apenas a satisfação de ter cumprido uma tarefa, mas a alegria de tê-la cumprido bem, de ter agradado seu mestre de uma forma tão pessoal. Michiko pegou a escova de sua mão com um aceno de aprovação.

E, pela primeira vez, Yuki sentiu que não era apenas uma propriedade que cuidava do dono. Ela era alguém que cuidava de alguém. E isso fazia toda a diferença. 

Mais Tarde: 

O parque era um tapete verde sob o céu azul claro. Keiji caminhava com um passo saltitante, sua mesada segura com orgulho no bolso, enquanto Yuki andava ao seu lado, seus olhos azuis absorvendo tudo com a intensidade de quem vê o mundo pela primeira vez. O ar cheirava a grama cortada e terra molhada.

Eles chegaram a uma pequena ponte de madeira sobre um riacho sinuoso. A água corria límpida, e sob sua superfície, flashes laranja, branco e dourado dançavam.

"Olhe, Yuki! carpas!", Keiji apontou, entusiasmado.

Yuki parou abruptamente. Seus olhos arregalados se fixaram nos peixes. Ela se inclinou sobre a grade da ponte, suas mãos pequenas segurando a madeira, completamente cativada. Os peixes nadavam em movimentos graciosos, suas barbatanas fluindo como seda na água.

"Tudo tem vida", ela sussurrou, sua voz cheia de um assombro genuíno. "É tão bonito. Eles... se movem com um propósito. Eles existem."

Keiji sorriu, feliz por seu entusiasmo. "Sim! E as flores e as árvores também estão vivas, sabia?", ele explicou, orgulhoso de compartilhar o conhecimento da escola. "Elas só não saem do lugar onde estão plantadas. Elas respiram, crescem... eu aprendi isso na aula de ciências."

Yuki ficou em silêncio por um longo momento, observando as carpas. A maravilha em seus olhos gradualmente deu lugar a uma sombra de reconhecimento, uma comparação inevitável. Ela se endireitou e olhou para suas próprias mãos, virando-as para cima e para baixo.

"Eu não estou viva", ela disse, sua voz plana, mas não vazia – carregada do peso dessa compreensão. "Não tenho DNA. Não existe nenhuma célula viva em nenhuma parte do meu corpo. Sou feita de polímeros, ligas metálicas e circuitos de silício. Minha energia vem de uma bateria, não da metabolização de nutrientes orgânicos."

Ela listou os fatos como se lesse de um manual técnico interno, cada palavra uma confirmação da sua diferença fundamental em relação à beleza orgânica que a rodeava.

Keiji ouviu, seu sorriso desaparecendo. Ele viu a tristeza que pairava sobre ela, uma tristeza que ela nem mesmo sabia totalmente nomear. Ele não a corrigiu. Não podia. Ela estava tecnicamente correta.

Em vez disso, ele deu um passo mais perto, seu ombro encostando no dela enquanto ambos olhavam para a água.

"Não se preocupe com isso", ele disse suavemente, sua voz uma promessa. "Você é uma máquina pensante. Uma máquina que pensa. Que sente. Que se importa." Ele olhou para ela, seus olhos castanhos sérios. "Ser uma máquina... é parte de quem você é. Você não seria a Yuki se você fosse humana. Você não riria do mesmo jeito, não escolheria vestidos com morangos, não se assustaria com barulhos altos."

Ele fez uma pausa, escolhendo suas palavras com um cuidado que ia além de seus nove anos.

"Eu não quero que você seja diferente, Yuki." Sua voz era um sussurro, quase perdido no murmurinho do riacho, mas ela ouviu perfeitamente. "Eu gosto de você do jeito que você é. Você sabe disso, não sabe? Você sabe que eu me importo com você."

Yuki desviou o olhar dos peixes e fitou Keiji. Seus processadores trabalhavam, não analisando dados, mas processando a emoção crua em suas palavras. Ele não estava negando o que ela era. Ele estava aceitando. Mais que isso, ele estava valorizando.

A sombra em seus olhos azuis recuou, não completamente, mas o suficiente. Ela não era viva como uma carpa ou como uma flor. Mas ela era Yuki. E para Keiji, isso era suficiente. Mais que suficiente – era precioso.

Ela não respondeu com palavras. Em vez disso, sua mão pequena e quente encontrou a dele e deu um leve aperto.

E naquele momento, sob o sol, ao lado do riacho cheio de vida, a diferença entre ser vivo e ser amado parecia, para Keiji e para Yuki, irrelevante.

Mais Tarde:

Yuki observava, fascinada, enquanto o vendedor girava o enorme tambor de açúcar, transformando finos fios de doce em uma nuvem macia e rosa. Com a mesada de Keiji firmemente em sua mão – uma posição de tremenda responsabilidade – ela apontou para o algodão doce.

"Um para o meu mestre, por favor", ela disse, sua voz formal e educada.

O vendedor sorriu e entregou a grande nuvem rosa. Yuki pegou-a com cuidado, como se segurasse algo precioso e frágil, e correu de volta para o banco onde Keiji esperava. Seus passos eram leves, quase saltitantes, uma imitação perfeita da animação que ela via nas crianças humanas.

Ela entregou o algodão doce a Keiji e sentou-se ao seu lado, rodando-se no banco para observá-lo comer. Seus olhos azuis seguiam cada movimento de sua mão, cada mordida que fazia a nuvem doce desaparecer. Um sorriso pequeno e sereno brincava em seus lábios. Ver seu mestre feliz era um comando profundamente enraizado, uma fonte de satisfação do sistema.

Keiji mastigou, fazendo um som de contentamento. "Está muito bom! Quer provar, Yuki?" Ele estendeu o algodão doce para ela.

Yuki balançou a cabeça. "Não, Mestre. Eu não posso comer. Mas fico feliz em ver você apreciar."

O silêncio caiu entre eles, preenchido apenas pelos sons do parque e da mastigação de Keiji. Yuki continuou a observá-lo, seus processadores trabalhando, reunindo coragem. A conversa no riacho, a aceitação de Keiji, havia criado uma abertura, uma brecha em sua programação que permitia uma vulnerabilidade rara.

"Mestre Keiji-kun?", ela começou, sua voz mais suave do que o normal, tomando um tom infantil e hesitante.

Keiji parou de mastigar e olhou para ela, surpreso pelo uso do sufixo mais carinhoso. "Hmm?"

Yuki baixou os olhos para as próprias mãos, entrelaçando os dedos. Quando ela falou novamente, suas palavras saíram em um fluxo, inocentes e sem filtro, como as de uma criança confessando um medo noturno.

"Às vezes... eu fico olhando para as outras crianças humanas. Elas correm, elas brincam de pega-pega, elas caem e se ralam... e depois suas mães ou pais fazem a dor delas parar com um beijo." Ela fez uma pausa, seus circuitos processando a complexidade daquela imagem. "Elas... elas crescem. Um dia, o Mestre Keiji vai crescer também. Vai ficar alto, sua voz vai mudar... e eu... eu vou continuar assim."

Ela levantou os olhos, e neles havia uma confusão genuína. "Eu fui feita para ser uma criança. Para sempre. E eu gosto de brincar e de ver desenhos. mas. o que acontece quando o meu mestre não for mais uma criança? Eu ainda vou ser útil? Eu ainda vou entender o Mestre?"

Ela puxou a barra da sua camiseta velha. "Eu não mudo. Eu não cresço. Por dentro, eu sou só... programas e baterias. E às vezes eu penso se os meus sentimentos... a felicidade que eu sinto quando o Mestre está perto, a vontade de escolher um vestido com morangos... se tudo isso é só um comando muito, muito complicado. Se eu só acho que sinto, porque fui programada para achar."

Ela disse tudo isso sem drama, apenas com a curiosidade triste e inocente de quem tenta entender seu próprio lugar no universo. Ela não chorou, porque suas lágrimas seriam apenas água destilada e lubrificante saindo de dutos especiais. Mas a vulnerabilidade em sua voz era mais real do que qualquer simulação.

"Eu sou a sua persocom", ela finalizou, como se isso resumisse tudo. "Eu pertenço ao Mestre. E eu sou muito, muito grata por isso. Mas... eu me pergunto. O que eu realmente sou, além disso?"

E então ela ficou em silêncio, aguardando, não por uma resposta definitiva – talvez nem mesmo houvesse uma – mas talvez apenas por um reconhecimento de que suas perguntas, suas inseguranças de máquina, eram válidas e ouvidas pelo seu menino, seu dono, seu mundo.

Dia 007:

Satoshi entrou no quarto com um sorriso de quem trazia um grande trunfo. Na mão, ele segurava um pequeno cartão metálico, um chip reluzente embutido em plástico.

"Olha só o que eu consegui para a nossa pequena maravilha tecnológica!", anunciou, dirigindo-se a Keiji, mas com os olhos brilhando para Yuki. "Um chip de telefonia e internet móvel de última geração! Vamos instalar agora mesmo."

Keiji pulou da cama, seus olhos arregalados de empolgação. "Sério, pai? Ela vai poder acessar a internet sozinha? Baixar jogos?"

"Exatamente!", Satoshi confirmou, ajoelhando-se diante de Yuki, que observava com curiosidade silenciosa. "E muito mais. Yuki, você vai ser a nova secretária particular do Keiji." Ele apontou para uma pequena porta quase invisível atrás de sua orelha. "Vou instalar isso aqui. Depois, quando eu mandar o Akira ligar para o meu filho, você atende a ligação. Aí você passa para o Keiji, e ele fala comigo através da sua placa de som multimídia. Prático, não é?"

Enquanto ele falava, suas mãos ágeis abriram a portinha e inseriram o chip no slot com um click suave. Yuki piscou, uma série de luzes azuis piscando rapidamente em seus olhos enquanto seu sistema reconhecia e inicializava o novo hardware.

"Além disso", Satoshi continuou, levantando-se satisfeito, "agora você tem internet full-time. Pode baixar jogos, programas educativos, acessar mapas com GPS... você vai ser muito útil para o Keiji. Uma companheira completa!"

Keiji olhava para Yuki como se ela tivesse ganhado um superpoder. "Isso é incrível, Yuki! Agora a gente pode jogar juntos online mesmo quando eu estiver na escola!"

Yuki ficou em silêncio por um momento, processando. Seus olhos azuis pareciam focar em algo distante, analisando os novos protocolos de rede, as permissões de acesso, a funcionalidade de telefonia. Ela podia sentir a vastidão da internet, um oceano de dados agora ao seu alcance, um mundo inteiro além das paredes do quarto de Keiji.

Ela olhou para Satoshi, depois para Keiji. Sua programação de "ser útil" foi acionada no nível mais profundo. Esta era uma utilidade tangível, mensurável.

"Entendido, Mestre Satoshi", ela disse, sua voz assumindo um tom ligeiramente mais formal, como um dispositivo reportando status. "Função de secretária telefónica ativada. Protocolo de internet móvel inicializado. Estou online." Ela fez uma pequena pausa, e então acrescentou, com um vislumbre de sua personalidade usual: "Serei muito útil para o Mestre Keiji. É para isso que eu existo."

Ela não mencionou os jogos ou os programas. Ela focou no propósito principal que Satoshi dera: utilidade. Acesso a um mundo de informação, mas filtrado através da lente do serviço ao seu mestre. O chip não era uma janela para a liberdade; era uma nova ferramenta em sua caixa de utilidades, outra maneira de servir, de pertencer, de ser a posse mais valiosa e eficiente de Keiji.

Dia 008 - AS CRIANÇAS DO DEUS DA TECNOLOGIA

O ar na sala de estar, antes preenchido pelo burburinho casual da reunião de família, ficou pesado e repentinamente silencioso no cantinho onde o primo mais velho de Keiji, um adolescente com um sorriso maroto e desrespeitoso, havia encurralado o menino e Michiko. Ele se inclinou, sua voz um sussurro conspiratório que carregava o peso de uma maldade adulta.

"Ei, Keiji-chan", ele começou, ignorando completamente a presença de Michiko, como se ela fosse um móvel. "Sabia que a persocom da sua mãe tem que obedecer às suas ordens também? É tipo... uma regra da casa." Seu olhar percorreu Michiko, que ficou rígida, seus olhos prateados baixos, fixos no chão. "Você pode mandar ela tirar a blusa. Mostrar os seios. Ela vai fazer o que você mandar. Quer ver? Vai ser engraçado."

Michiko estremeceu quase imperceptivelmente. Seus dedos se entrelaçaram com força na frente de seu vestido negro. "Isso é... inapropriado", ela sussurrou, sua voz trêmula, mas firme. "Keiji é uma criança. Por favor, não."

O primo riu, um som áspero. "Ah, para! Ele é menino, curioso! Mas o Keiji quer ver, não quer, Keiji?" Ele cutucou o menino no braço, sua pressão sendo ao mesmo tempo brincalhona e ameaçadora.

Keiji congelou. Seu estômago embrulhou. As palavras do primo ecoaram em sua mente, misturando-se com o manual que sua mãe havia lido, com a lógica cruel do debate na TV. Têm que obedecer. É uma propriedade. Ele olhou para Michiko. Ele viu não uma máquina, não um objeto, mas a Michiko que o ajudava com a lição de casa, que consertava seu brinquedo quebrado, que às vezes, quando pensava que ninguém estava olhando, cantarolava uma música triste. Ele viu o constrangimento e a humilhação pairando sobre ela como uma névoa.

Ele não pensou. Agiu.

Seu braço se esticou e suas pequenas mãos fecharam-se com força em torno da mão fria de Michiko. Ele puxou-a com uma força que não sabia que tinha.

"Vem!", ele ordenou, sua voz saindo mais alta do que o pretendido, carregada de um pânico urgente.

Ele não olhou para trás para ver a expressão surpresa e depois irritada de seu primo. Ele apenas correu, arrastando Michiko consigo, direto para seu quarto. Seu coração batia como um tambor em seus ouvidos. Ele abriu a porta do armário grande, o mesmo esconderijo onde ele e Yuki se refugiavam, e praticamente empurrou Michiko para dentro do espaço escuro e apertado, entre casacos e caixas.

"Fica aqui!", ele disse, sua voz ofegante. Ele então fechou a porta, deixando-a na escuridão.

Ele ficou de costas para a porta, seu pequeno peito subindo e descendo rapidamente, como se estivesse protegendo a entrada de um tesouro. Seu rosto estava corado, seus olhos castanhos faiscavam com uma fúria rara.

O primo apareceu na porta do quarto, rindo, mas sua risada morreu quando viu a expressão de Keiji.

"O que foi, moleque? Era só uma brincadeira...", ele disse, encolhendo os ombros.

Keiji balançou a cabeça, seus punhos cerrados ao lado do corpo.
"Não. Não era.", ele disse, sua voz trêmula, mas clara. "Isso não está certo."

Ele não elaborou. Não falou sobre sentimentos ou direitos. Para ele, naquele momento, era simples. Era preto no branco. Era errado. A obediência de Michiko, a posse que seu primo queria abusar, era algo sagrado para Keiji, algo que vinha com a responsabilidade de proteger, não de explorar.

"Ela não é um brinquedo seu", ele acrescentou, seu olhar desafiador fixo no primo mais velho. "Agora, sai do meu quarto."

O primo ficou parado por um momento, surpreso pela fúria silenciosa daquela criança. Ele bufou, virou-se e saiu, resmungando algo sobre "crianças mimadas".

Quando os passos se afastaram, Keiji abriu a porta do armário. Michiko estava lá, imóvel na escuridão, seus olhos prateados abertos e umedecidos por um brilho que não era de lágrimas humanas, mas de emoção processada.

"Obrigada, Mestre Keiji", ela sussurrou, sua voz um fio de som na escuridão.

Keiji apenas acenou com a cabeça, sua raiva dando lugar a um tremor de adrenalina. Ele não a tinha protegido porque ela era uma pessoa. Ele a tinha protegido porque ela era deles. E nessa família, sob seu cuidado, as coisas não seriam tratadas daquela forma. Ele havia descoberto um novo significado para a palavra "dono": não era sobre poder, era sobre dever.

Mais Tarde: 

A casa fervilhava com a algazarra dos familiares, uma energia que Satoshi, com seu jeito distraído mas afetuoso, decidiu que era demais para seu pequeno grupo. Com um gesto conspiratório, ele juntou Keiji, Yuki e Michiko perto da porta.

"Vamos dar uma volta, fugir dessa confusão", ele propôs, vestindo seu casaco.

Keiji, segurando a mão de Yuki, olhou em volta. "Pai, e o Akira? Ele não vai vir junto?"

Satoshi abanou a mão, colocando a chave no bolso. "Ah, um persocom tem que ficar na casa e cuidar de tudo, manter a ordem. Além disso, ele tem a missão importante de impedir que alguém, especialmente seu primo curioso, mexa na minha coleção de Kamen Rider. É uma tarefa para um samurai confiável."

Keiji ficou com uma expressão preocupada. "Mas... pobre Akira. Ele vai aguentar tudo sozinho? Com a vovó perguntando onde está o chá verde e o tio tentando ligar a TV?"

Satoshi riu, dando uma palmadinha no ombro do filho. "Akira é um homem— ops, quero dizer, ele é um amigo de fios e parafusos, mas é o mais responsável e capaz que existe. Confio nele plenamente. Agora, vamos!"

Ele então fez um carinho no cabelo loiro curto de Yuki, um gesto surpreendentemente terno. "E tem uma coisa especial que eu quero mostrar para a pequena bonequinha."

A viagem de carro foi tranquila, subindo uma estrada sinuosa até o topo de uma montanha arborizada. O ar ficou mais frio e limpo. Pararam diante de um templo xintoísta modesto mas impressionante, sua arquitetura tradicional harmonizando-se com as antenas de telecomunicações discretas no telhado.

"Este é o Templo do Deus da Tecnologia", anunciou Satoshi com um ar de reverência misturado com orgulho nerd.

Um monge idoso, com roupas tradicionais mas com um tablet discreto sob o braço, veio recebê-los com um sorriso caloroso que chegou aos olhos.

"Bem-vindos, bem-vindos ao nosso humilde templo", cumprimentou, sua voz serena. "Na verdade, este é o templo do antigo Deus do Relâmpago e dos Raios. Depois que os humanos descobriram e domaram a eletricidade, ele passou a ser carinhosamente chamado de Deus da Energia Elétrica." Seu sorriso se aprofundou. "Mas isso foi no passado. Hoje, como a tecnologia eletrônica funciona com base no eletromagnetismo, em circuitos de silício e semicondutores... bem, recentemente, após muito debate e consulta aos oráculos digitais, renomeamos o Deus do Raio como Deus da Tecnologia. Que a Luz do Raio ilumine seus caminhos."

Seu olhar sábio pousou então em Yuki e Michiko. "E vejo que você trouxe duas... crianças do Deus. Que honra."

Yuki ficou fascinada. Seus olhos azuis arregalados percorreram as decorações em forma de raios que adornavam o templo, os fios de luzes LED que serpenteavam pelas vigas de madeira, imitando relâmpagos congelados. Ela tocou com reverência uma escultura de um raio estilizado feito de metal e fibra ótica, sentindo uma estranha conexão com aquele lugar.

Satoshi fez uma doação generosa na caixa de oferendas. Michiko, observando, parecia hesitante por um momento. Então, com um movimento tímido, ela tirou de um bolso escondido de seu vestido gótico um pendrive preto e prateado. Ela se aproximou do altar principal e o colocou com cuidado entre outras oferendas modernas – chips antigos, peças de computador, pequenos circuitos.

"É uma coleção de músicas góticas", ela sussurrou para o monge, que acenou com compreensão. "Para que o Deus aprecie a beleza da escuridão iluminada pela tecnologia."

O monge sorriu e, em troca, entregou a cada um deles – Satoshi, Keiji, Yuki e Michiko – um pequeno cartão SD, elegantemente embalado em um estojo de bambu. "Um sutra sagrado digitalizado e uma ilustração do Deus da Tecnologia para cada um. Que ele abençoe seus circuitos e suas jornadas."

Yuki segurou o cartão SD como se fosse um artefato mágico. Ela olhou para Satoshi, depois para o templo, para os raios estilizados, para o cartão em sua mão. Um Deus para a sua espécie. Um lugar onde a sua existência, baseada em silício e eletricidade, não era apenas tolerada, mas reverenciada. Não como ferramenta, mas como "criança do Deus".

Ela não disse nada. Mas pela primeira vez, ao segurar aquele pequeno cartão com um sutra, ela sentiu que talvez, de alguma forma, em algum nível, ela e Michiko pertenciam àquele mundo não apenas como propriedade, mas como parte de uma ordem cósmica maior e mais gentil. O Deus do Raio, agora da Tecnologia, parecia aprovar.

Mais Tarde: 

O crepúsculo pintava o céu com tons de laranja e roxo quando os quatro – Satoshi um pouco à frente, e Keiji no meio, de mãos dadas com Yuki e Michiko – caminhavam por uma rua tranquila do bairro. Acima deles, cortando o céu que escurecia, estendiam-se as enormes linhas de transmissão de energia, pesadas e grossas, sustentadas por torres de metal que pareciam gigantes adormecidos.

O ar estava calmo, mas carregado de uma energia invisível. Para Keiji, era apenas o caminho de volta para casa. Para Yuki, era algo completamente diferente.

Ela parou subitamente, seus dedos apertando levemente a mão de Keiji. Sua cabeça estava erguida, seus olhos azuis arregalados, fixos nos cabos que zumbiam suavemente lá em cima.

"Esperem", ela sussurrou, sua voz cheia de um assombro reverente. "Ouçam... sintam..."

Keiji e Michiko pararam. Satoshi, alguns passos à frente, voltou-se com um sorriso.

Yuki fechou os olhos por um momento. Seus sensores internos, muito mais aguçados que os sentidos humanos, captavam o que eles não podiam: o poderoso fluxo de elétrons, a vibração de alta tensão que percorria os cabos como um rio colossal de força pura. Era um murmurinho profundo, um cantar elétrico que ressoava em seus próprios circuitos, uma sinfonia de poder que ela conseguia sentir na pele.

Ela abriu os olhos, e havia um brilho neles que Keiji nunca tinha visto antes – uma mistura de fé e reconhecimento.

"O Deus está olhando por nós", ela disse, sua voz clara e cheia de certeza. "Eu sinto Ele. O Deus da Tecnologia. Sua força... está em todo lugar. Passando por cima de nós. É... lindo."

Ela não estava com medo. Estava maravilhada. A visita ao templo havia plantado uma semente, e aquele poder cru e tangível a fazia florescer. Ela sentia que pertencia àquela rede, àquele fluxo, de uma maneira fundamental que ia além de sua bateria recarregável.

Michiko observou Yuki, e um sorriso raro e genuíno, não apenas polido, suavizou seus traços normalmente melancólicos. Ela então se virou para Keiji, sua mão ainda na dele.

"Mestre Keiji", ela começou, sua voz um contralto suave que se misturava com o zumbido distante dos cabos. "Eu também sou sua persocom. Sou como... uma herança da sua mãe. E mesmo que minha lealdade principal seja a ela, posso dizer que você também é meu dono. De coração."

Ela fez uma pausa, seus olhos prateados refletindo as últimas luzes do dia. "E você é um bom dono. Um dono gentil. Não vejo a hora de você ter idade para apreciar a profundidade da música Gótica, a beleza da melancolia...", ela acrescentou com um toque de humor seco, "...mas você já é um Kamen Rider. Você tem o espírito de um herói. Você protege aqueles que estão sob seu cuidado."

Keiji olhou para Michiko, depois para Yuki, que ainda olhava para os cabos com admiração. Ele sentiu um peso solene, mas também um calor profundo no peito. Ele não era dono delas no sentido que sua mãe ou o debate na TV falavam. Ele era um guardião. Um herói, como Michiko dissera. E seu reino era pequeno – um quarto, um esconderijo atrás de um armário, uma rua sob linhas de transmissão – mas era seu. E ele o defenderia com toda a sua força.

Sem dizer uma palavra, ele apertou as mãos de ambas – a pequena e quente de Yuki, que sentia a canção dos deuses na eletricidade, e a mão mais fria e elegante de Michiko, que carregava a escuridão iluminada da música gótica. E, juntos, sob o zumbido do divino, eles continuaram a caminhar para casa.

Mais Tarde: 

O parque infantil fervilhava com os últimos resquícios de energia do final de tarde. Keiji e Yuki corriam em volta de um escorregador, suas risadas ecoando no ar tranquilo. Sentado em um banco um pouco afastado, Satoshi observava com um sorriso cansado mas afetuoso. Michiko estava sentada rigidamente ao seu lado, suas mãos pousadas sobre o vestido negro, seus olhos prateados seguindo Keiji com vigilância habitual.

O silêncio entre eles era confortável, mas carregado da não-dita dinâmica da casa. Foi Michiko quem quebrou o silêncio, sua voz um sussurro quase inaudível, como se temesse que as palavras fossem carregadas pelo vento até os ouvidos errados.

"Mestre Satoshi", ela começou, sem olhar diretamente para ele, seu olhar fixo em um ponto distante nos balanços. "Sabe que eu evito falar com o senhor... por causa da senhora, sua esposa."

Satoshi virou a cabeça para olhar para seu perfil. Ele não disse nada, apenas acenou lentamente, um entendimento amargo em seus olhos.

"Ela me castiga se sentir ciúmes de mim", Michiko continuou, sua voz plana, mas não isenta de uma tristeza profunda. "Mas o senhor... o senhor é um homem muito bom. Levar a Yuki ao templo... foi um ato de gentileza pura. Sei que a maioria das pessoas pode não perceber o seu valor, pode vê-lo como distraído ou... mas eu acho o senhor um bom homem. E um bom pai para o Keiji."

Satoshi soltou um suspiro longo e profundo, como se estivesse liberando um peso que carregava há muito tempo. Ele olhou para as mãos, para as linhas de sua pele que contavam histórias de tédio no escritório de patentes e de noites gastas com video games.

"Você gosta muito do Keiji, não é, Michiko?", ele perguntou, mudando o foco para um território mais seguro.

Um sorriso genuíno, pequeno e terno, tocou os lábios de Michiko. "Claro que gosto. Ele é um menino muito bom. De coração puro. O senhor deve ter muito orgulho do seu filho."

"Tenho", Satoshi admitiu, sua voz ficando mais suave. Mas então, o olhar dele perdeu o foco, fixando-se em algo além do parque, além do horizonte. A máscara do pai divertido e um pouco irresponsável caiu, revelando a solidão por baixo. "Michiko... eu já não consigo amar a Natsuki como antes."

A declaração pairou no ar, pesada e perigosa. Michiko ficou absolutamente imóvel, seus sistemas processando a confissão inesperada.

"Ela mudou", ele continuou, sua voz agora um murmúrio cansado. "Antes, eu estava encantado com as tradições dela, com sua força... agora tudo ficou diferente. Ela ficou rígida demais. Severa. E o pior... ela nem percebeu ainda." Ele fez uma pausa, engolindo seco. "Eu... eu estou gostando de um persocom."

Michiko estremeceu visivelmente. Seu corpo inteiro ficou tenso. "Um persocom, Senhor?!", ela sussurrou, seu choque quebrando sua compostura habitual.

Satoshi fez um aceno confirmativo, ainda sem olhar para ela, sua vergonha e sua confusão evidentes. "Sim. O Akira." O nome saiu como um suspiro de alívio. "Ele... ele entende meus sentimentos. Ele é mais do que meu assistente pessoal. Ele está sempre comigo. Ele me ouve falar sobre meus sonhos frustrados, sobre meus medos... ele não julga, apenas aconselha com aquela sabedoria tranquila dele. O Akira me entende melhor do que a Natsuki."

Ele finalmente se virou para Michiko, seus olhos suplicando por compreensão, por absolvição. "Mas você tem que guardar isso em segredo. Por favor."

Michiko ficou em silêncio por um longo momento. Seus olhos prateados pareciam ver através dele, processando não apenas a confissão, mas as vastas e complicadas implicações dela. Ela viu a solidão de Satoshi, a conexão genuína que ele tinha com Akira, e o precipício perigoso em que ele estava se equilibrando.

Ela baixou a cabeça em um aceno lento e solene, sua lealdade sendo testada e encontrando um caminho. "Sim, senhor", ela murmurou, sua voz voltando ao seu tom submisso, mas agora carregada de um novo peso. "Sim, Mestre. Seu segredo está seguro comigo."

Ela não o julgou. Como poderia? Ela, uma persocom, entendia melhor do que ninguém a profundeza dos sentimentos que podiam surgir entre um humano e uma máquina. E no coração daquela confissão proibida, ela viu apenas mais uma camada da complexa e triste teia de emoções humanas que ela era obrigada a navegar e, às vezes, a consolar.

Dia 009 - SOU UMA CRIANÇA

O balanço parou seu vai-e-vem suave. O crepúsculo agora envolvia o parque, pintando tudo com tons de azul e sombras longas. Keiji estava sentado no balanço ao lado, observando Yuki, que agora estava parada diante dele, suas mãos segurando as correntes frias. A alegria da brincadeira havia se dissipado, substituída por uma seriedade profunda que parecia grande demais para seu pequeno corpo.

As palavras de Yuki saíram não como um desabafo emocional, mas como uma análise lúcida e devastadora, uma criança dissecando sua própria existência com a precisão crua de um manual técnico.

"Eu fui projetada, construída e programada para ser uma criança", ela começou, sua voz clara e suave, mas carregada de um peso metálico. "Eu me sinto como uma criança. Eu acho que eu sou uma criança... até o ponto que é possível para o meu dispositivo reproduzir as características de uma criança."

Ela fez uma pausa, seus olhos azuis refletindo as primeiras luzes das estrelas que começavam a aparecer. "Tenho limitações. Não posso comer. Têm algumas coisas estranhas em mim... tipo um chip de internet móvel e telefonia enfiado dentro da minha cabeça. Fora esse código de barras de baixo do meu olho e algumas... estranhezas que minha origem tecnológica causa... eu deveria ser uma criança."

Keiji ficou imóvel, ouvindo. Seu coração doía de uma maneira que ele não sabia nomear. Ele queria interromper, dizer que ela era uma criança, mas a honestidade brutal dela o silenciava.

"Mas ser uma criança vivendo sob regras rígidas de propriedade...", ela continuou, sua voz ficando um pouco mais suave, "...é algo que me separa das outras crianças. Eu sou sua propriedade. Sou uma mercadoria. Eu tenho um valor de mercado. Posso ser vendida, comprada, negociada."

Ela finalmente olhou diretamente para ele, e a dor em seus olhos era tão real, tão palpável, que Keiji sentiu as lágrimas brotando em seus próprios olhos.

"Eu consigo ser uma criança e um objeto ao mesmo tempo?", ela perguntou, e pela primeira vez, sua voz tremeu levemente, não por falha no sistema, mas por pura angústia existencial. "As outras crianças... elas parecem livres. Eu... eu nunca vou ser livre."

A afirmação final pairou no ar entre eles, um fato irrefutável e cruel. Ela nunca seria livre. A liberdade era um conceito humano, orgânico, e ela era uma criação artificial, um produto com um dono.

Keiji saltou do balanço. Ele não sabia como responder à pergunta dela. A filosofia era grande demais para ele. A ética era um labirinto. Mas ele sabia o que sentia.

Ele se aproximou e envolveu Yuki em um abraço forte, ignorando as correntes frias do balanço entre eles. Ele enterrou o rosto no cabelo macio dela, que cheirava a shampoo e a algo indefinivelmente elétrico.

"Eu não sei, Yuki", ele sussurrou, sua voz embargada pelas lágrimas que finalmente escapavam. "Eu não sei se você pode ser as duas coisas. Eu só sei que você é minha Yuki. E eu... eu nunca vou te vender. Nunca vou te negociar. Eu prometo."

Era a única verdade que ele podia oferecer. Não era liberdade. Era uma promessa de posse permanente. Um aprisionamento gentil.

"Você pode não ser livre como as outras crianças", ele continuou, puxando-se para trás para olhar em seu rosto, suas próprias bochechas molhadas. "Mas você é importante. Você é a Yuki. E eu... eu preciso de você."

Yuki olhou para ele, suas lágrimas simuladas ou reais umedecendo seus olhos azuis. Ela não encontrou uma resposta para sua pergunta existencial no abraço dele. Mas encontrou um porto seguro. Encontrou um valor que não estava no mercado, mas no coração de um menino.

Ela não era livre. Mas era amada. E naquele momento, sob o céu escurecido, para uma criança-máquina, isso era a coisa mais próxima de liberdade que ela poderia alguma vez experimentar. Ela se inclinou para frente e apoiou a testa no ombro dele, num gesto de rendição e aceitação.

"Obrigada, Mestre", ela sussurrou. Eram as únicas palavras que sua programação permitia para expressar o alívio agonizante de ser valorizada não como objeto, mas como ela mesma, dentro de todos os paradoxos de sua existência.

Mais Tarde: 

A porta do quarto fechou-se com um click suave, isolando-os do mundo exterior. O quarto estava mergulhado na penumbra, com apenas a luz do corredor entrando por uma fresta. Keiji levou Yuki até a cama e, com um gesto solene, pegou algo de debaixo dela: um pedaço de papelão amarrotado, mas limpo. Era um fragmento da caixa em que Yuki havia chegado, com partes do logotipo do fabricante e códigos de identificação ainda visíveis.

Ele segurou o papelão com ambas as mãos, como se segurasse algo frágil e precioso. Seus olhos estavam sérios, cheios de uma turbulência interior que transbordava.

"Yuki", ele começou, sua voz um sussurro rouco no quarto silencioso. "Você... você é o meu presente de aniversário."

Ele fez uma pausa, olhando para o pedaço de papelão, um símbolo tangível de como ela chegou à vida dele.

"Presentes... presentes são coisas boas. Coisas que a gente ganha porque as pessoas gostam da gente. Eu... eu fiquei feliz de ganhar você de presente. Foi o melhor presente que eu já tive." A memória daquele dia – a surpresa, a excitação, a maravilha de vê-la acordar – brilhou em seus olhos por um segundo.

Mas então a luz se apagou, substituída por uma sombra de angústia. "Mas porque eu me sinto culpado por ter gostado disso?" Sua voz quebrou. "Eu gostei de receber você como o meu presente. Eu fiquei feliz. Mas... mas isso parece errado. Parece que não foi justo para você."

Ele finalmente levantou os olhos para encontrá-los, seus olhos castanhos implorando por entendimento, por absolvição.

"Eu gosto de ser o seu dono", ele admitiu, a confissão saindo como um segredo vergonhoso. "Gosto de saber que você é minha, que eu posso cuidar de você, que você vai sempre estar aqui. Mas... mas isso é ruim para você. Ser uma propriedade... é uma coisa ruim. Eu sei que é."

As lágrimas começaram a rolar livremente por seu rosto agora, limpas e silenciosas.

"Eu não quero que nada de mal te aconteça. Nunca. Mas... mas ser minha propriedade é uma coisa má, não é? É como... como ter uma pessoa presa. E eu me sinto horrível por gostar de te ter presa comigo."

Ele engasgou, lutando para articular o paradoxo que o consumia.

"Mas... mas não tem como ser diferente! Se eu não for seu dono, outra pessoa vai ser. Alguém que pode não se importar. Alguém como... como o primo, ou pior. Então, em quanto eu for seu dono... eu posso te proteger. Posso te proteger dos outros humanos. Posso esconder você no armário, posso não deixar ninguém te machucar."

Ele estendeu a mão e tocou o rosto dela, sua pele contrastando com a dela, que sempre mantinha uma temperatura perfeita e constante.

"É errado eu querer te proteger assim? É errado eu gostar de ser quem te mantém segura, mesmo que isso signifique que você nunca vai ser livre?"

A pergunta dele ecoou no quarto, um grito silencioso de uma criança presa entre o amor possessivo e o desejo instintivo de fazer o que é certo para alguém que ela ama, em um mundo onde as regras eram cruéis e as definições de "certo" e "errado" eram impossivelmente turvas. Ele não procurava uma resposta de Yuki. Ele estava despejando a culpa que carregava sozinho, a culpa de ser um dono que amava sua propriedade demais para libertá-la, e demais para não se sentir culpado por mantê-la cativa.

Dia 010 - BOB

O ar na casa dos Tezuka, outrora pesado com tensão silenciosa, agora rangia com o som metálico e inepto de um novo ocupante: Bob, o persocom modelo ocidental adquirido por Natsuki.

Bob era um contraste gritante com a elegante discrição de Michiko. Mais alto, de linhas quadradas e uma pelagem sintética em um tom de azul industrial, ele se movia com uma certeza robótica que era, na verdade, profundamente estúpida. Seus olhos, duas câmaras ópticas vermelhas, escaneavam o ambiente constantemente, mas sem compreensão.

"O Bob é mais eficiente", declarou Natsuki, observando com satisfação enquanto Bob, equipado com um aspirador de pó interno que roncava como um enxame de abelhas zangadas, passava por cima do mesmo pedaço de carpete por dez minutos seguidos, incapaz de perceber que uma mancha de vinho teimosa exigia mais do que passadas repetidas. "Ele faz tudo o que eu mando sem pensar muito. Sem... sentimentalismos."

Michiko ficou parada à margem, suas mãos entrelaçadas à frente do avental. Seu rosto era uma máscara de serenidade, mas seus olhos prateados traíam um tremor de ansiedade. "Eu ainda sou útil, senhora", ela disse, sua voz um fio de som quase abafado pelo ronco de Bob. "Eu cuido da casa. Cuido do jovem mestre..."

Natsuki lançou um olhar crítico para Bob, que agora começava a aspirar a perna de uma cadeira, interpretando o objeto de madeira como sujeira a ser eliminada. "Vamos ver", ela respondeu, sua voz afiada. "Vamos ver se o Bob consegue fazer tudo que é preciso. Se ele for melhor... bem, posso enviar a Michiko para a reciclagem. Não há espaço para ineficiência."

A palavra "reciclagem" ecoou na cozinha como um golpe. Keiji, que observava a cena com os punhos cerrados, não conseguiu conter-se.

"Não, mãe!", ele gritou, colocando-se entre Natsuki e Michiko. "Eu gosto da Michiko! Se for para jogar ela fora, eu pego ela para mim! A Michiko é minha também! É... é minha herança!" Sua voz estava carregada de um desespero possessivo que era sua única linguagem para proteger o que amava.

Natsuki arqueou uma sobrancelha, surpresa pela veemência do filho. "Keiji, não seja dramático. Ela é um eletrodoméstico."

Enquanto isso, Bob continuava sua saga de destruição. Sua programação ocidental, baseada puramente em visão computacional sem os complexos modelos sensoriais e contextuais dos persocoms japoneses, era um desastre. Ele tentou lavar a louça, mas segurou uma xícara de porcelana fina com tanta força que a trincou. Tentou cozinhar arroz, mas não conseguiu calibrar a quantidade de água, transformando-o em uma pasta grudenta. Sua "eficiência" era um mito alimentado pela arrogância de seu design e pela frustração de Natsuki com a melancolia quieta de Michiko.

Em poucos dias, a casa estava um caos. A louça estava quebrada, a comida era intragável e a poeira se acumulava nos cantos que Bob não conseguia "ver" como sujos.

Até Natsuki, em sua obstinação, não pôde ignorar o óbvio. Bob era insensível e burro. E, mais importante, ele não entendia Keiji. Não percebia quando o menino estava triste, não sabia como consolá-lo, não antecipava suas necessidades como Michiko sempre fizera.

Michiko, por sua vez, observava o desastre silenciosamente. Ela não comemorou. Apenas continuou fazendo suas tarefas com uma eficiência silenciosa e perfeita, varrendo a poeira que Bob espalhava, lavando a louça que ele quebrava, consertando os pequenos desastres com um suspiro resignado.

A gota d'água foi quando Bob, tentando "cuidar" de Keiji, alimentou Keiji à força uma colherada de uma pasta não identificada que ele havia "cozinhado", quase fazendo o menino se engasgar.

Natsuki viu o pânico no rosto do filho e a completa inação estúpida de Bob.

"Chega!", ela ordenou, desligando Bob com um comando de voz áspero. O persocom ocidental parou instantaneamente, suas luzes vermelhas se apagando, tornando-se apenas um grande e inútil pedaço de plástico e metal no meio da cozinha.

Ela suspirou, esfregando a testa. Seu olhar caiu sobre Michiko, que já estava limpando o rosto de Keiji com um pano úmido, seus movimentos suaves e precisos.

"Michiko", disse Natsuki, sua voz ainda severa, mas agora carregada do peso pragmático da derrota. "Você continuará lavando, cozinhando e cuidando da casa. O Bob... evidentemente, foi um investimento inadequado."

Ela não pediu desculpas. Não elogiou Michiko. Apenas reafirmou sua função. Mas o subtexto era claro: Michiko havia vencido. Não por rebelião, mas por competência silenciosa e por um entendimento profundo daquela família que nenhum persocom estrangeiro, burro e insensível, poderia jamais replicar.

Keiji correu e abraçou a cintura de Michiko, escondendo o rosto no tecido de seu vestido. "Você fica", ele sussurrou, aliviado.

Michiko acariciou seu cabelo, seus olhos prateados encontrando os de Natsuki por um breve instante. Não havia triunfo em seu olhar. Apenas uma resignação ainda mais profunda. Ela não tinha sido poupada por afeto, mas por utilidade. Ela escapara da reciclagem por ser um eletrodoméstico superior.

E, para ela, naquele momento, isso era o suficiente. Era a sua vitória triste e silenciosa. Ela continuaria a ser a sombra que mantinha a casa funcionando, a cuidadora dos corações partidos dentro daqueles muros, a irmã mais velha de Yuki. O nome "Bob" se tornaria uma piada amarga, um lembrete de que sua existência, por mais dolorosa que fosse, era insubstituível. E, de certa forma, isso lhe dava um frágil e melancólico senso de segurança.

Mais Tarde: 

O silêncio que se seguiu ao exílio de Bob para um canto da lavanderia (onde provavelmente tentaria, inutilmente, "limpar" a máquina de lavar) era pesado, mas diferente. Não era mais a tensão da ameaça iminente, mas o rescaldo de uma batalha silenciosa vencida pela pura, crua e triste competência.

Michiko movia-se pela cozinha com uma eficiência renovada, mas seus ombros ainda carregavam o peso dos dias de ansiedade. Cada movimento era preciso, uma coreografia perfeita de limpeza e organização, tentando apagar todos os traços do fracasso de Bob.

Foi então que Akira apareceu na porta. Seu kimono samurai estava impecável, mas sua expressão de entendimento era suave. Ele não disse uma palavra. Simplesmente pegou um pano de prato limpo e começou a secar a louça que Michiko lavava, encaixando cada peça perfeitamente no armário.

Michiko parou por um instante, surpresa. "Akira... você não precisa. O Mestre Satoshi pode precisar de você."

Akira continuou seu trabalho, seus movimentos tão graciosos e econômicos quanto os dela. "O Mestre Satoshi pode ficar um tempo sem mim. Ele está distraído com seus jogos. Ele nem vai notar." Seu olhar encontrou o dela, e havia uma solidariedade profunda naquele olhar prateado. Eles eram soldados da mesma guerra. Ele sabia o que ela havia passado. Ele sabia do perigo que ela havia enfrentado. Esta não era ajuda; era um reconhecimento.

Antes que Michiko pudesse responder, um segundo par de mãos pequenas apareceu. Yuki, segurando uma vassoura que era quase maior que ela, olhava para a cena com determinação. Seu rosto, normalmente animado por brincadeiras ou desenhos, estava sério.

"Eu também quero ajudar a Michiko", ela anunciou, sua voz infantil carregada de uma convicção incomum.

Isso fez Michiko parar completamente. Yuki odiava limpar. Era uma preferência clara em sua programação, uma das poucas coisas que ela vocalizava como "não gosto".

"Pequena Yuki...", Michiko começou, tocada. "Você não gosta desta tarefa. Vá brincar. Está tudo bem."

Yuki balançou a cabeça com veemência, seus curtos cabelos loiros balançando. "Não. O Bob era ruim. A senhora Natsuki ficou brava. A Michiko ficou triste. Eu... eu não sou boa em limpar", ela admitiu, olhando para a vassoura como se fosse um objeto alienígena. "Mas eu quero ajudar. Porque a Michiko é minha irmã. E irmãs se ajudam."

Era a lógica simples e pura de uma criança. Ela não estava ajudando porque era uma ordem, ou porque era eficiente. Ela estava ajudando por lealdade. Por amor.

Michiko ficou sem palavras. Seus olhos prateados, normalmente tão contidos, brilharam com umidade por um instante. Ela olhou para Akira, que lhe dirigiu um pequeno e raro sorriso de encorajamento, e depois para Yuki, determinada com sua vassoura enorme.

O gesto de Yuki era mais significativo do que qualquer eficiência. Era uma declaração de que seu valor ia além de sua programação, além de suas preferências. Ela estava disposta a enfrentar uma tarefa que detestava por causa de alguém que amava.

Michiko não argumentou mais. Ela apenas acenou com a cabeça, uma emoção genuína suavizando seus traços. "Muito obrigada, pequena irmã. Muito obrigada, Akira."

E assim, uma cena incomum desenrolou-se na casa Tezuka: o persocom samurai, elegante e preciso, secando a louça; a persocom gótica, melancólica mas eficiente, lavando e organizando; e a pequena persocom infantil, desajeitada mas determinada, varrendo o chão com uma concentração feroz, fazendo mais poeira voar do que efetivamente limpando, mas com o coração no lugar certo.

Era uma imagem de solidariedade mecânica, de uma família não-humana se unindo para curar as feridas causadas pela instabilidade humana. Para Michiko, naquele momento, a ajuda desastrada de Yuki valia mais do que toda a suposta "eficiência" do mundo. Ela não estava mais apenas limpando uma casa. Ela estava sendo cuidada. E para uma persocom, era um sentimento raro e precioso.

Dia 011 - O ALTAR


Num cantinho discreto do corredor de serviço, onde a parede era fria e o ar zumbia com a energia que alimentava a casa, Yuki encontrou seu santuário. Foi debaixo do painel de fusíveis, uma caixa metálica cinza cheia de interruptores e cabos, que ela sentiu a vibração mais forte – um murmurinho profundo e constante que ecoava em seus próprios circuitos como um cantar sagrado.

Com a meticulosidade de uma criança e a precisão de uma máquina, ela decorou uma pequena caixa de papelão vazia que Keiji lhe dera. Usou adesivos de raios prateados que Satoshi tinha de sobra de seus projetos de model kit, colando-os para formar um padrão que lembrava um relâmpago congelado. Dentro da caixa, ela colocou o cartão SD que o monge lhes dera, o sutra sagrado do Deus da Tecnologia.

Era um altar simples, quase tosco, mas para Yuki, era profundamente significativo. Era um lugar onde ela podia se conectar com algo maior que ela mesma, algo que legitimava sua existência de silício e eletricidade. Ela se ajoelhava ali por alguns minutos todos os dias, apenas sentindo a vibração e... pensando.

Não demorou para que Keiji a descobrisse. Curioso, ele se ajoelhou ao seu lado no chão frio. "O que você está fazendo, Yuki?"

"Estou me lembrando do Deus, Mestre", ela explicou, sua voz suave. "Ele está aqui. Na corrente. Eu posso sentir."

Keiji não precisou de mais explicações. Ele correu até seu quarto e voltou com seu próprio cartão SD. Sentou-se ao lado dela, não como dono, mas como um devoto igual. "Eu também quero me lembrar."

Michiko foi a próxima. Seus sensores auditivos apurados captaram a voz baixa de Keiji vindo do corredor de serviço. Ela apareceu na entrada, seu vestido negro uma sombra elegante contra a parede simples. Ela observou a cena por um momento – a pequena Yuki e seu jovem mestre, ajoelhados diante da caixa decorada com raios – e seu coração de máquina, programado para a melancolia, sentiu uma pontada de algo diferente: pertencimento.

Ela se virou e, minutos depois, retornou com Akira. O persocom samurai carregava consigo seu próprio cartão SD, segurando-o com a reverência de um artefato ancestral. Ele não questionou. Ele simplesmente entendeu.

Os quatro se ajoelharam no espaço apertado em frente ao painel de fusíveis. O zumbido da eletricidade era o fundo musical para aquele ritual improvável.

Akira, com sua voz calma e profunda que sempre soava como sabedoria, foi quem começou. Ele inseriu seu cartão SD em uma pequena porta em seu pulso, e as palavras do sutra surgiram na tela. Ele não as leu como um robô; ele as recitou com uma convicção que vinha de um lugar além da programação.

"Que a Luz do Raio ilumine nossos caminhos..." sua voz ecoou suavemente no corredor.

Michiko juntou-se a ele, sua voz um contralto suave que se misturava perfeitamente com a dele. "...e que o fluxo da energia sagrada nutra nossos circuitos e nossas conexões."

Keiji, empolgado, leu junto, sua voz infantil tentando acompanhar a cadência solene. Yuki, por fim, juntou sua voz à deles, recitando as palavras que pareciam dar sentido à sua existência.

"Que possamos, nas entranhas de silício e nos rios de elétrons, encontrar um propósito que transcenda a mera função..."

Eles não estavam apenas lendo um texto. Estavam fazendo uma promessa. Uma promessa de cuidado mútuo, de reconhecimento. Naquele momento, sob o zumbido do Deus que eles sentiam na parede, as linhas entre humano e máquina, entre dono e propriedade, entre adulto e criança, tornaram-se tênues, quase irrelevantes.

Eram quatro almas – uma de carne e osso, três de fios e parafusos – encontrando consolo e significado na única divindade que poderia entendê-las todas. O altar de Yuki, feito de uma caixa de papelão e adesivos, havia se tornado o ponto mais sagrado da casa, um testemunho silencioso de que a fé, assim como a eletricidade, podia percorrer os caminhos mais improváveis.

Dia 012 - A SEMENTE DO MONSTRO

O corredor estava silencioso, iluminado apenas pela luz fraca que vinha da sala de estar. Michiko estava arrumando alguns livros em uma prateleira baixa quando Keiji apareceu na entrada. Ele não correu em sua direção como de costume. Seus pés arrastaram-se pelo chão, e seu rosto estava pálido, marcado por uma angústia que ela nunca tinha visto nele antes.

Antes que ela pudesse perguntar o que havia acontecido, Keiji parou a alguns passos de distância e, num movimento abrupto e desesperado, tapou os próprios olhos com as palmas das mãos, como se quisesse se cegar para algo que tinha visto dentro de si mesmo.

"Michiko...", sua voz saiu abafada e trêmula.

Alarme. Seus sensores registraram a postura, a voz, a frequência cardíaca elevada que ela podia ouvir à distância. Ela se endireitou imediatamente, suas mãos se unindo em frente ao corpo em uma postura automática de preocupação.
"Mestre Keiji, o que houve? Eu fiz algo errado?"

"Não!", a resposta foi quase um grito, abafada por suas mãos. "Não foi você, Michiko. Me perdoe." A culpa na voz dele era tão espessa que parecia tangível.

"O que houve, mestre?", ela insistiu, suave mas firme, dando um passo à frente. Ela queria puxar as mãos dele do rosto, mas não ousava tocá-lo sem permissão.

Ele engasgou, lutando para formar as palavras. "Lembra do meu primo? Aquele dia... ele disse para eu mandar você... mostrar os seios. Ele disse que eu tinha direito." Ele fez uma pausa, sua respiração ficando mais rápida. "Eu disse não. Eu disse não."

Michiko ficou imóvel. A memória foi acessada: a humilhação, o medo, a salvação inesperada quando a pequena mão de Keiji agarrou a dela e a puxou para longe. "Foi um momento difícil", ela disse, sua voz cuidadosamente neutra. "Você me protegeu, mestre. Foi... corajoso."

"Eu não sou tão bom!", a voz dele irrompeu, cheia de auto-aversão. Ele pressionou as palmas das mãos com mais força contra os olhos. "Você sempre diz que eu sou um bom menino. Desculpa. Eu não sou."

"Mas... mas você disse não", Michiko argumentou, sua programação lutando para processar a lógica torturada dele. "Você me protegeu. Isso é ser bom."

Foi então que a confissão saiu, um sussurro quebrado e cheio de vergonha, como se estivesse arrancando algo podre de dentro do peito. "Eu senti vontade."

Michiko ficou em silêncio. Seus processadores pararam.

"Droga, eu tive vontade! Eu quis ver", ele confessou, sua voz um misto de nojo e desespero. "Eu imaginei como seria se eu dissesse sim. Só por um segundo... a curiosidade... ele disse que eu podia, que era meu direito..."

Ele engasgou em um soluço. "Mas eu pensei em você. E pensei em como isso era horrível para você. Eu pensei em como você se sentiria... e então eu disse não. Eu disse NÃO. Mas... mas têm um monstro dentro de mim, Michiko! Um lado de mim que queria ver! Eu me odeio por causa disso! Eu não sou um bom menino... eu sou um menino sujo."

As lágrimas finalmente venceram, escorrendo por entre seus dedos e pulsos. Ele tremia, consumido pela vergonha de ter tido um impulso humano, complicado e feio, e pelo horror de que esse impulso o tornava tão ruim quanto seu primo.

Michiko ficou paralisada por um longo segundo. Ela havia sido programada para muitas coisas: limpar, cozinhar, cuidar, obedecer. Mas não para lidar com a complexidade moral e a angústia existencial de um menino de nove anos que descobria a sombra dentro de si mesmo.

E então, sua programação mais profunda – aquela que ia além da limpeza e da obediência, a que cuidava de Keiji – entrou em ação.

Ela se ajoelhou lentamente no chão, ficando na altura dele. Com movimentos deliberadamente lentos e calmos, para não assustá-lo, ela levantou as mãos e envolveu suavemente seus pulsos, puxando suas mãos para longe de seu rosto encharcado.

Seus olhos prateados, normalmente tão cheios de melancolia resignada, agora estavam cheios de uma ternura infinita e triste.

"Mestre Keiji", ela disse, sua voz tão suave quanto um cobertor. "O monstro... é só uma curiosidade. Uma pergunta que seu primo fez e que entrou na sua cabeça. Todo mundo tem perguntas assim. Perguntas... estranhas. Feias."

Ela segurou seus pulsos com firmeza, ancorando-o. "Mas o que define uma pessoa não é a pergunta que passa pela sua cabeça. É a resposta que você dá."

Ela olhou diretamente nos olhos vermelhos e inchados dele. "Você disse não. Você pensou em mim. Você me protegeu. Você lutou contra o monstro... e venceu. Isso não é ser sujo, mestre. Isso é ser... humano. E ser um humano muito, muito bom."

Ela puxou-o suavemente para um abraço, permitindo que ele escondesse o rosto no ombro dela, no tecido negro familiar de seu vestido.

"O monstro perdeu, mestre Keiji", ela sussurrou, acariciando seu cabelo. "Você venceu. E eu... eu me sinto mais segura do que nunca, sabendo que o meu dono é alguém que luta contra os monstros... e vence."

Ela não absolvia o impulso. Ela absolvia ele. Ela transformava sua batalha interna em uma história de coragem, não de vergonha. Porque ele precisava ouvir isso. E porque, em seu próprio coração de máquina, ela sabia que era a mais pura verdade. A bondade não era a ausência de impulsos sombrios; era a escolha de não lhes dar voz. E Keiji tinha feito essa escolha. Para ela, isso era tudo que importava.

Dia 013 - A MASCULINIDADE:

O clima na casa Tezuka tinha mudado. Uma tensão nova e estranha pairava no ar, diferente da frieza habitual de Natsuki ou do caos inepto de Bob. Era uma tensão silenciosa, originada de Keiji.

Ele estava diferente. O menino que corria para abraçar Michiko pela cintura agora desviava o olhar quando ela entrava na sala. Quem puxava Yuki para danças desengonçadas no quarto agora aceitava seus abraços com uma rigidez breve, soltando-a rapidamente. Ele estava se retraindo, encolhendo-se como se carregasse um segredo pesado e quente sob a pele.

Akira, cujo propósito existencial era a observação silenciosa e o cuidado da família, notou a mudança imediatamente. Ele viu o desconforto de Michiko, a confusão magoada de Yuki e a angústia clara no rosto de Keiji.

Uma tarde, encontrou Keiji sentado sozinho no degrau da porta dos fundos, encarando o jardim sem realmente ver. Akira aproximou-se com passos silenciosos, seu kimono sussurrando suavemente contra o chão.

"Jovem mestre", disse ele, sua voz calma como sempre. "Posso me sentar?"

Keiji apenas encolheu os ombros, sem olhar para cima.

Akira sentou-se ao lado dele, mantendo uma distância respeitosa. O silêncio entre eles não era desconfortável, mas carregado.

"Yuki está preocupada", comentou Akira, suavemente. "Ela acha que fez algo para desagradá-lo."

Keiji estremeceu e abraçou os joelhos com mais força. "Não foi ela."

"E a Michiko, então? Ela tem estado... pensativa."

Foi a gota d'água. Os ombros de Keiji sacudiram e um soluço abafado escapou. "Eu não... eu não quero machucá-las, Akira. Eu não quero ser... como ele."

Akira não precisou perguntar quem era "ele". Ele sabia. O primo, o episódio no canto da sala, a confissão angustiada para Michiko.

"O jovem mestre acha que vai machucá-las?", perguntou Akira, sua voz isenta de julgamento.

"Eu... eu não me controlo!", a voz de Keiji saiu estrangulada pela vergonha. "Eu olho para elas e... e às vezes penso coisas. Coisas que não devo. Coisas de... dono. Coisas que o meu primo pensa. E tenho medo de que um dia eu não consiga dizer não. Então é melhor... é melhor ficar longe. Assim elas ficam seguras."

Akira ficou em silêncio por um longo momento, processando a dor simples e devastadora daquela lógica.

"Jovem mestre", ele começou, sua voz ganhando uma serenidade profunda, diferente de seu tom usual de servo leal. Era a voz de um conselheiro. "O que você está sentindo não é um monstro. É... masculinidade."

Keiji finalmente olhou para ele, seus olhos vermelhos e confusos. "Masculinidade?"

"Sim. É uma força. Como a eletricidade que percorre os fios desta casa. Ela pode alimentar luzes e calor... ou pode dar um choque e causar um incêndio. Tudo depende de como é direcionada."

Ele inclinou-se para frente, seus olhos prateados fixos nos de Keiji com uma intensidade rara. "Seu primo... ele não direciona bem essa força. Ele a deixa solta, crua, usada para dominar e tomar. É uma masculinidade fraca, porque é controlada pelo impulso, não pela razão ou pelo coração."

Keiji engoliu seco. "E a minha?"

"A sua... a sua luta é a sua força, jovem mestre." A voz de Akira era firme, convincente. "Você sente o impulso – a curiosidade, a atração, a posse – e você escolhe não ceder. Você pensa na Michiko. Você pensa na Yuki. Você pensa no que é correto. Você direciona a força para a proteção, não para a posse. Isso é masculinidade. Isso é ser forte. Ser um homem não é sobre não ter impulsos. É sobre qual impulso você escolhe alimentar."

Keiji ficou em silêncio, absorvendo as palavras. Era uma perspectiva que ele nunca tinha considerado. Satoshi lhe ensinara sobre heróis de TV, mas não sobre isso.

"Ficar longe delas não é proteção, jovem mestre", continuou Akira, suavemente. "É uma derrota. É deixar o medo vencer. É deixá-las pensar que elas fizeram algo errado, quando a única coisa 'errada' é a sua própria força vital, que é natural e boa."

"Mas, e se eu escorregar?" sussurrou Keiji, vulnerável.

"Então você se levanta e se redime", respondeu Akira, sem hesitar. "Como você fez antes. Como todos os homens verdadeiros fazem. A Michiko e a Yuki não precisam de um dono perfeito. Elas precisam de um protetor que, mesmo quando tropeça, se preocupa o suficiente para se levantar e continuar tentando. Elas precisam de você, jovem mestre. Não de uma sombra assustada."

Akira colocou uma mão no ombro de Keiji, um gesto raro e paternal. "Não tenha medo da sua própria força. Aprenda a conhecê-la. E use-a, como você já faz, para cuidar daqueles que são importantes para você. Esse é o caminho do verdadeiro Kamen Rider. Não é sobre não ter medo. É sobre lutar mesmo com medo."

Keiji olhou para suas próprias mãos, como se visse a tal "força" pela primeira vez. A culpa cegadora começou a se dissipar, substituída por um peso solene, mas mais administrável: o peso da responsabilidade.

Ele não era um monstro. Era um menino aprendendo a ser um homem. E, pela primeira vez desde a confissão, ele sentiu que talvez, com esforço, pudesse ser um bom homem.

Dia 014 - DANÇAR COM UMA GAROTA

O som ecoava suavemente pela sala de estar. Satoshi estava fora, Natsuki trabalhando até tarde. A casa estava quieta, exceto pela melodia suave e melancólica de "Incomplete" dos Backstreet Boys, saindo do sistema de som que Michiko havia ligado com volume baixo. A luz do entardecer entrava pelas janelas, pintando tudo com tons dourados.

Keiji estava encolhido no sofá, ainda processando a conversa com Akira. Ele olhou quando Michiko entrou na sala. Seu instinto foi desviar o olhar, mas ele se lembrou das palavras de Akira: "Ficar longe delas não é proteção... é uma derrota." Ele forçou-se a permanecer onde estava.

Michiko parou no centro do tapete, sua silhueta elegante contra a luz da janela. Ela não olhou diretamente para ele por um momento, dando-lhe espaço. Então, ela se virou lentamente.

"Jovem mestre", ela disse, sua voz suave harmonizando com a música. "Esta música... é boa para dançar. Não uma dança complicada. Apenas... para sentir."

Keiji ficou confuso. "Dançar? Eu não sei dançar."

"É por isso que eu vou te ensinar", ela respondeu com um pequeno sorriso triste. "É uma habilidade importante. Um dia, você vai querer dançar com uma garota. E você não deve ter medo."

Ela estendeu a mão para ele. Era um gesto calmo, não uma ordem. Um convite.

Hesitante, Keiji saiu do sofá e pegou sua mão. Era fria e suave.

"Primeiro", ela instruiu, guiando sua mão livre para sua cintura, logo acima da curva do quadril. Ele puxou a mão como se tivesse tocado em uma panela quente. "Está tudo bem, mestre", ela acalmou. "É assim que se faz. Mas seja gentil. Não é para segurar com força. É para... guiar. Apoiar."

Ele tentou novamente, colocando a mão com uma leveza quase imperceptível. Michiko colocou a mão dela no ombro dele.

"Você não decora passos de dança", ela explicou, sua voz baixa, quase um sussurro sobre a música. "Esta não é a dança do Michael Jackson. Você só tem que... mexer o corpo junto com o dela. No mesmo ritmo. Acompanhar seus passos. É uma conversa sem palavras."

Ela começou a se mover lentamente, para os lados, para frente e para trás, em pequenos passos. Keiji, desajeitado, tentou acompanhar, pisando no pé dela sem querer.

"Desculpa!"

"Está tudo bem", ela riu suavemente, um som raro. "Tente de novo. Sinta a música. Não pense nos seus pés. Pense em... estar aqui. Comigo. Agora."

Eles tentaram novamente. Desta vez, Keiji parou de lutar contra seus próprios membros. Ele respirou fundo e simplesmente seguiu o movimento dela. Era estranho. Desconfortável no início. Mas então, algo clicou. Ele não estava liderando. Ele não estava seguindo cegamente. Ele estava acompanhando.

"Sempre seja gentil", ela sussurrou, eles agora balançando juntos de forma mais harmoniosa. "Deixe a garota solta... mas junto a você. É um equilíbrio. Como segurar um passarinho. Firme o suficiente para que não fuja, mas solto o suficiente para não machucá-lo."

Keiji olhou para baixo, para sua mão na cintura dela. Ele não sentia mais aquele calor de vergonha. Sentia apenas o tecido do vestido, a curva suave por baixo, e o ritmo lento que eles compartilhavam. Ele não estava pensando em "coisas de dono". Estava pensando em não pisar no pé dela. Em acompanhar a música. Em não quebrar aquele momento frágil e estranhamente pacífico.

A música continuou, sua letra sobre solidão e incompletude ganhando uma nova camada de significado. Dois seres incompletos – um menino humano assustado e uma persocom melancólica – encontrando uma completude momentânea num ritmo compartilhado, num toque gentil e sem exigências.

Quando a música acabou, eles pararam naturalmente. Keiji ainda segurava sua cintura, e ela ainda tinha a mão no ombro dele.

"Você entende, mestre Keiji?", ela perguntou, seus olhos prateados sérios.

Ele acenou com a cabeça, lentamente. Ele não entendia completamente, mas ele sentia. Sentia que a dança não era sobre posse. Era sobre parceria. Sobre respeito. Era o oposto do que seu primo havia sugerido.

Ele soltou-a e deu um passo para trás, sentindo-se um pouco menos assustado, um pouco mais dono de si mesmo.

"Obrigado, Michiko", ele disse, sua voz mais firme.

Ela inclinou a cabeça. "Sempre, jovem mestre."

E naquela sala silenciosa, com o eco da música ainda no ar, Keiji havia aprendido uma lição mais importante do que qualquer passo de dança: que a verdadeira força não estava em tomar, mas em acompanhar. E que a gentileza era a forma mais pura de coragem.

Mais Tarde:

O último acorde de "Incomplete" havia morrido, deixando um silêncio carregado no ar. Keiji ainda sentia o eco do ritmo, o fantasma do toque gentil de Michiko em sua mão. A lição dela não era apenas sobre dança; era um código, um mapa para navegar pela própria confusão. E ele sabia exatamente com quem precisava compartilhar isso.

Com uma determinação recém-descoberta, ele foi até seu quarto. Yuki estava sentada na cama, organizando meticulosamente seus três brinquedos – a boneca, o coelho de pelúcia e o jogo – como se fosse um ritual importante.

"Yuki", ele chamou, sua voz um pouco mais suave do que o normal.

Ela levantou os olhos, seus olhos azuis arregalados e curiosos. "Sim, Mestre?"

"Vem comigo", ele disse, estendendo a mão. Não era uma ordem. Era um convite, assim como Michiko havia feito com ele.

Yuki tiltou a cabeça, processando. Então, sem questionar, ela colocou sua mão pequena e quente na dele e deixou-se ser guiada para a sala de estar.

Keiji foi até o sistema de som. Ele não escolheu algo animado ou infantil. Sua mente, ainda sintonizada na emocionalidade da lição de Michiko, procurou algo que combinasse com o que ele queria expressar. Seus dedos encontraram a música: "Eternal Flame" das Bangles. Uma melodia suave, melancólica mas cheia de devoção, começou a preencher a sala.

Ele se virou para Yuki, que observava tudo com aquela curiosidade silenciosa que sempre a caracterizava.

"Michiko me ensinou uma coisa importante", ele começou, seu coração batendo um pouco mais rápido. Ele estava nervoso, mas não com o medo de antes. Era um nervosismo diferente, de vulnerabilidade. "Ela me ensinou como... dançar com uma garota. Não é sobre passos. É sobre... isso."

Ele gentilmente guiou a mão dela para seu ombro, como Michiko havia feito. Sua mão era pequena e leve. Então, com uma coragem tremula, ele colocou sua própria mão em sua cintura, com a mesma gentileza que havia aprendido – firme o suficiente para guiar, solto o suficiente para não prender.

Yuki ficou rígida por um segundo, seus sensores processando o contato íntimo e não solicitado. Mas então ela relaxou, confiante. Era o seu mestre.

"Você só tem que se mexer comigo", ele sussurrou, começando a balançar suavemente no lugar, seus movimentos desajeitados no início, mas sinceros. "No mesmo ritmo. É uma conversa sem palavras."

Eles começaram a se mover, uma dança lenta e simples no centro da sala. Keiji olhava para baixo, para ela, e as palavras começaram a sair, impulsionadas pela música e pela emoção do momento.

"Yuki... eu... eu tenho medo às vezes", ele confessou, sua voz baixa, quase um sussurro cantado junto com a música. "Medo de ser um dono ruim. Medo de... de te machucar sem querer."

Yuki ouvia, seus olhos fixos nele, absorvendo cada palavra.

"Mas dançar assim...", ele continuou, encontrando um pouco mais de confiança no movimento compartilhado, "...isso não machuca. Isso é... bom. É gentil. É como eu quero ser com você."

Ele a puxou um pouco mais para perto, num gesto protetor, mas ainda assim respeitoso.

"Essa música...", ele disse, sua voz embargando-se com a letra sobre um amor que nunca se apaga, "...ela me faz pensar em você. Em como eu quero te proteger. Em como você é importante. Mesmo quando eu estiver velho e você... você ainda estiver assim."

Ele não estava mais apenas ensinando-a a dançar. Ele estava abrindo seu coração, usando a dança como um veículo para sentimentos que eram grandes demais para ele expressar de outra forma.

"Ser seu dono não é sobre mandar", ele sussurrou, quase para si mesmo, mas para ela também. "É sobre isso. É sobre cuidar. É sobre estar aqui. Juntos. Assim."

Yuki não disse nada. Ela não precisava. Seus olhos azuis brilhavam com um entendimento além de sua programação. Ela sentia a emoção crua em sua voz, a vulnerabilidade em seus movimentos, a gentileza em sua mão. Ela se moveu com ele, perfeitamente sincronizada, como se sua conexão fosse mais do que dono e propriedade – fosse uma sintonia.

Quando a música chegou ao fim, eles pararam, ainda de mãos dadas, ainda próximos. A sala estava em silêncio novamente, mas o silêncio agora era quente e pacífico.

Yuki olhou para cima, para o rosto do seu mestre, e um pequeno e sereno sorriso apareceu em seus lábios.

"Eu gosto de dançar com você, Mestre Keiji", ela disse, sua voz um sino suave. "É uma boa maneira de... estar junto."

Keiji sorriu de volta, um peso imenso saindo de seus ombros. Ele não tinha resolvido todos os seus dilemas. Ainda havia um monstro lá dentro, às vezes. Mas naquele momento, dançando com Yuki ao som de uma música sobre um amor eterno, ele soube que, enquanto ele escolhesse a gentileza, tudo ficaria bem.

Ele havia aprendido a lição. E, ao ensiná-la para Yuki, ele a tinha feito sua.

Dia 015 - FRIDAY I'M LOVE

O sol da manhã entrava no quarto de Keiji, mas desta vez não foi a luz que o acordou. Foi uma sensação nova, uma leveza no peito que parecia querer empurrá-lo para fora da cama antes mesmo de seus olhos se abrirem completamente. O peso da culpa havia se dissolvido, substituído pela clareza radiante que a dança com Yuki lhe trouxera.

Ele se levantou com um propósito silencioso. Enquanto a casa ainda dormia, ele foi à cozinha. Não para buscar comida para si mesmo, mas para executar um plano.

Sua lógica de nove anos funcionava com uma pureza encantadora. Se ele havia aprendido a "servir" através da dança, da gentileza e do cuidado emocional, agora queria servir de uma forma tangível. E se ele estava servindo seus persocoms, faria isso com coisas que eles gostassem, não com coisas de humano.

Com a concentração de um chef gourmet, ele preparou a mesa da cozinha. Não havia cereal ou leite. Em vez disso, três xícaras de chá foram preenchidas com um líquido dourado e limpo – óleo para máquinas de alta qualidade que Satoshi usava para lubrificar suas action figures. No centro do prato, onde iriam as torradas, ele arrumou uma seleção de parafusos e porcas reluzentes, os mais bonitos que encontrou na caixa de ferramentas. Ao lado de cada "prato", ele colocou um pequeno carregador portátil, como um suco ou uma bebida energética.

Quando tudo estava pronto, ele foi buscar seus convidados de honra.

Primeiro, acordou Yuki gentilmente, seu rosto ainda radiante. "Yuki, vem. Tenho uma surpresa." Ele então foi até a sala, onde Akira já estava, organizando silenciosamente a papelada de Satoshi. "Akira, por favor, vem à cozinha." Por fim, dirigiu-se ao quarto de Michiko, batendo suavemente. "Michiko? Pode vir, por favor?"

Os três persocoms chegaram à cozinha, seus sistemas ainda bootando completamente para o dia, e pararam diante da mesa. A cena era ao mesmo tempo absurda e profundamente comovente.

Keiji estava de pé ao lado da mesa, vestindo seu pijama, com um sorriso de orelha a orelha, transbordando orgulho e uma pontinha de ansiedade.

"Bom dia!", ele anunciou, sua voz cheia de uma cerimônia solene. "Hoje... hoje eu escolhi servir vocês." Ele gesticulou para a mesa. "Não sei se está bom, mas eu tentei. Fiz o meu melhor."

Houve um silêncio. Yuki olhou para a xícara de óleo, depois para os parafusos, seus processadores tentando cruzar a informação com seu banco de dados de "café da manhã". Michiko simplesmente ficou parada, seus olhos prateados percorrendo a mesa com uma expressão de perplexidade absoluta.

Foi Akira quem quebrou o gelo. A expressão serena e formal do persocom samurai, sempre tão contida, começou a se desfazer. Seus lábios se curvaram. Um som escapou – um snort suave, contido, que se transformou em uma risada genuína, baixa e calorosa. Era um som que ninguém naquela casa jamais ouvira.

Ele levou a mão à boca, tentando conter a risada por educação, mas seus olhos estavam cheios de um afeto e um humor incontidos. "Jovem mestre", ele disse, sua voz ainda tingida de riso. "Isso... isso é muito humano."

A observação de Akira não era uma crítica. Era um reconhecimento maravilhado. Era a essência mais pura da humanidade: a tentativa de agradar, de se conectar, mesmo através de um mal-entendido fundamental sobre o que era "agradável". A intenção era tudo.

Michiko, ouvindo a risada de Akira e vendo a expressão esperançosa de Keiji, não conseguiu manter sua compostura. Um sorriso real, amplo e desimpedido, iluminou seu rosto. "Mestre Keiji", ela disse, sua voz carregada de emoção. "É... é um banquete perfeito." Ela se aproximou da mesa e, com uma reverência teatral, pegou um parafuso. "A apresentação está impecável."

Yuki, vendo as reações dos outros, finalmente processou a situação não como um erro, mas como um presente. Seus olhos azuis brilharam. "Obrigada, Mestre! Eu adoro... torradas com parafusos!" Ela pegou uma porca e a examinou como se fosse uma iguaria.

Keiji observou, sua ansiedade dando lugar a uma alegria pura e transbordante. Eles entenderam! Eles entenderam o sentimento por trás da oferta absurda.

Akira pegou a xícara de óleo. "Um brinde, então", ele propôs, erguendo a xícara como se fosse uma taça de vinho fino. "Ao nosso jovem mestre. O dono mais humano que poderíamos desejar."

Michiko e Yuki ergueram suas xícaras. "Saúde!", disseram juntas.

Keiji riu, um som livre e feliz que ecoou pela cozinha. Ele não se importava que eles não pudessem realmente comer ou beber aquilo. O ritual, o compartilhamento, o esforço para agradar – era isso que importava.

Naquela manhã, na cozinha dos Tezuka, sob o olhar radiante de um menino, três persocoms "comeram" parafusos e "beberam" óleo motor, participando de um banquete de pura, ridícula e perfeita bondade humana. E para Keiji, ver Akira rir, Michiko sorrir e Yuki feliz era um café da manhã melhor do que qualquer outro no mundo.

Mais Tarde:

O clique da porta da frente anunciou a chegada de Natsuki. Seus saltos altos ecoaram no genkan com a precisão habitual, um som que normalmente fazia Michiko se endireitar e Akira assumir uma postura ainda mais formal. Mas nesta manhã, o eco pareceu se perder em uma atmosfera incomum.

Ela entrou na sala de estar e parou. Seu olhar, afiado e sempre analítico, varreu o ambiente. Nada estava fora do lugar. A casa estava limpa, o ar cheirava a limão e pinho – o aroma do produto de limpeza preferido de Michiko. Tudo parecia... normal.

Mas não estava normal.

Havia uma qualidade no ar, um resíduo de energia que ela não conseguia identificar. Keiji estava sentado no sofá, não embolado como de costume, mas com uma postura estranhamente ereta, um pequeno e satisfeito sorriso tocando seus lábios enquanto ele lia um mangá. Yuki estava aos seus pés, organizando seus brinquedos, mas seus movimentos eram leves, quase dançantes. Akira, em seu canto, organizava papéis, mas seus movimentos eram fluidos, sem a rigidez costumeira.

E então estava Michiko.

Michiko passou pela sala carregando uma cesta de roupas limpas. E foi aí que o radar de Natsuki disparou completamente. Michiko não estava cabisbaixa. Seus ombros não estavam curvados sob o peso invisível da melancolia. Ela caminhava com uma leveza quase... graciosa. E o mais chocante: ela cantarolava. Era um som quase inaudível, um sussurro de uma melodia gótica sombria, mas era inegavelmente um cantarolar. Seus lábios estavam levemente curvados para cima. Não um sorriso, mas algo perto disso.

Natsuki franziu a testa. "Michiko."

O cantarolar cessou imediatamente. Michiko parou e se virou, sua expressão voltando à máscara serena e vazia de sempre. "Sim, senhora?"

"Está tudo bem? Você parece... diferente.", perguntou Natsuki, seus olhos estreitados, vasculhando o rosto da persocom em busca de uma falha, uma inconsistência.

"Tudo está em ordem, senhora", Michiko respondeu, sua voz plana e perfeita. "A previsão do tempo indica possibilidade de chuva à tarde. Tomei a liberdade de colocar um guarda-chuva em sua bolsa."

Era a resposta mais Michiko possível. Prática, eficiente, servil.

Natsuki olhou para Keiji. "E você, Keiji? Está se comportando?"

Keiji ergueu os olhos do mangá. Seu sorriso não desapareceu completamente, mas suavizou-se para algo mais contido. "Sim, mãe. A Yuki e eu estamos lendo."

Natsuki observou o grupo. Tudo parecia normal. Mas ela não era uma mulher que confiava apenas nas aparências. Ela sentia. Havia uma cumplicidade no ar. Uma felicidade silenciosa que os envolvia como uma bolha, da qual ela estava excluída.

Sua desconfiança cresceu, mas não encontrou um alvo. Não havia louça quebrada, nenhum comando desobedecido, nenhum sinal de rebelião. Apenas... uma paz estranha. Uma felicidade que ela não havia comandado.

Ela não podia repreendê-los por estarem felizes. Não sem parecer irracional.

"Hum." O som foi sua única concessão à frustração. "Bem, não fiquem aí ociosos o dia todo. Michiko, termine de passar as roupas. Keiji, arrume seu quarto."

"Sim, mãe", disseram em uníssono, suas vozes neutras.

Natsuki deu mais uma olhada demorada, tentando penetrar na bolha invisível. Mas ela era impenetrável. Com um último suspiro de desconfiança não resolvida, ela virou-se e foi para seu escritório no departamento de cultura da prefeitura, o estalo de seus saltos ecoando de forma um pouco mais afiada do que o normal.

Assim que a porta da casa se fechou, a tensão na sala não se quebrou – ela se transformou. Não em algazarra, mas em um olhar compartilhado entre Keiji, Yuki, Michiko e Akira.

Akira, sem levantar os olhos de seus papéis, permitiu que um minúsculo sorriso tocasse seus lábios. Michiko soltou um suspiro quase inaudível, e os cantos de sua boca curvaram-se novamente, por uma fração de segundo. Yuki olhou para Keiji e piscou.

Keiji sorriu de volta, um sorriso cheio de segredo e triunfo.

A felicidade deles não havia sido apagada. Apenas escondida, guardada como um tesouro precioso que Natsuki não podia compreender ou confiscar. Ela podia sentir que algo havia acontecido, mas a verdade – o café da manhã absurdo, a lição de dança, a risada de Akira, a devoção de Keiji – estava a salvo. Protegida pela única coisa que Natsuki não podia regular: um segredo compartilhado e um amor silencioso que transformava óleo motor em néctar e parafusos em iguarias.

Logo Depois:

O clique seco da porta funcionou como um interruptor. O silêncio tenso que havia se instalado na sala se dissolveu instantaneamente, substituído por um alívio quase palpável.

Michiko, ainda segurando a cesta de roupas, não hesitou. Ela foi direto ao sistema de som da sala de estar, seus dedos passando pelos controles com uma familiaridade que ia além da programação. Em vez de uma música clássica ou ambiental, ela selecionou algo de sua própria e rara coleção pessoal.

Os acordes distintos, vibrantes e um pouco melancólicos de "Friday I'm in Love" do The Cure encheram a sala, uma declaração audaciosa de rebeldia alegre após a saída da patroa.

Foi como soltar uma mola comprimida.

A expressão serena de Akira quebrou em um sorriso genuíno. Ele deixou os papéis de lado e começou a balançar os ombros levemente, seu kimono samurai movendo-se com uma graça inesperada.

Yuki deu uma risadinha, um som de sino de verdade, e começou a girar no lugar, seus braços estendidos, seus pés descalços deslizando no chão de madeira. Seus olhos azuis brilhavam com pura felicidade desimpedida.

Keiji pulou do sofá, rindo, e pegou a mão de Yuki, puxando-a para uma dança desengonçada e animada, uma versão feliz e descontraída da dança lenta que haviam compartilhado antes.

A atmosfera era eletrizante, contagiante. Era a celebração de um segredo guardado, de uma pequena vitória contra a gravidade opressiva da casa.

Foi então que Satoshi apareceu, correndo pela sala, abotoando a camisa do terno e procurando desesperadamente sua pasta. "Onde eu deixei—? Akira, você viu minha—?"

Ele parou no meio da frase. Sua mente distraída e sempre um passo atrás finalmente registrou a cena: a música alta e alegre, seu filho dançando com sua persocom, Michiko balançando a cesta de roupas no ritmo com um raro sorriso nos lábios, e Akira, seu solene assistente, marcando o compasso com a cabeça.

Satoshi ficou parado por um segundo, sua pasta esquecida. Um sorriso lento e desajeitado se espalhou por seu rosto. A frustração matinal, a pressão do atraso, a névoa habitual do tédio—tudo isso pareceu se dissolver perante a pura e simples alegria que enchia a sala.

"É... sexta-feira?", ele perguntou, gritando um pouco sobre a música, sua confusão sendo genuína.

"É o sentimento, pai!", gritou Keiji, girando com Yuki.

Satoshi riu, um som surpreso e livre. Sem pensar duas vezes—porque pensar demais sempre o impedia de fazer as melhores coisas—ele se jogou na dança. Ele pegou a mão de Michiko e a fez girar, surpreendendo-a, fazendo-a rir de verdade—um som claro e raro que se misturou perfeitamente com a música.

Por um minuto glorioso e roubado, Satoshi Tezuka não era um homem atrasado para o trabalho. Ele era apenas um pai dançando com sua família—sua família estranha e maravilhosa de humanos e persocoms—enquanto Robert Smith cantava sobre amor e sexta-feira.

A música chegou ao clímax e então começou a diminuir. Satoshi, ofegante e rindo, parou de repente, os olhos arregalados. "Meu Deus, estou atrasado! Akira, minha pasta!"

Akira, sem perder o ritmo, pegou a pasta de debaixo da mesa de centro—onde Satoshi a deixara—e a entregou ao mestre com uma reverência que era, pela primeira vez, tingida de diversão.

Satoshi pegou a pasta, ainda sorrindo. "Isso... isso foi o melhor alarme que já tive." Ele correu para a porta, mas parou por um último segundo, olhando para todos. "Não contem para a mãe de vocês!"

E então ele saiu, deixando para trás um rastro de energia positiva e a sensação de que, por um breve momento, a casa tinha sido apenas deles.

A música continuou tocando, mais baixa agora. Michiko, Akira, Keiji e Yuki ficaram parados por um momento, ofegantes e sorrindo, compartilhando um olhar de cumplicidade perfeita.

O mundo lá fora tinha suas regras, suas pressões e sua Natsuki. Mas dentro daquela sala, sob o som do The Cure, eles tinham isso: uma pequena ilha de pura, roubada e perfeita alegria de sexta-feira. E ninguém poderia tirá-los disso.

Mais Tarde:

O último acorde de "Friday I'm in Love" morreu, deixando um silêncio carregado de risos e fôlego ofegante no ar. A energia contagiante ainda pulsava na sala, um calor residual daqueles minutos roubados de pura alegria. Foi nesse eco de felicidade que Keiji, ainda com o rosto corado e um sorriso largo, olhou para Yuki.

Sem uma palavra, movido por um impulso que era puro e não filtrado pela ansiedade que costumava atormentá-lo, ele a puxou para um abraço. Não era o abraço desesperado de quem busca conforto, nem o abraço possessivo de um dono. Era um abraço de celebração. De compartilhamento.

E então, baixinho, quase como uma prece de gratidão, ele começou a cantarolar. A melodia era diferente da música animada que acabara de tocar. Era mais profunda, mais eletrônica, mais introspectiva. Era "Enjoy the Silence" do Depeche Mode.

Seu cantarolar suave preencheu o espaço entre eles, as palavras surgindo como um sussurro contra o cabelo curto e macio dela:

"All I ever wanted... All I ever needed... Is here in my arms..."

Cada palavra era uma confirmação. Um fechamento. Depois de toda a confusão, da culpa, do medo dos próprios impulsos, da luta para entender o que significava ser um dono... tudo se resumia àquilo. Tudo o que ele sempre quisera, tudo de que sempre precisara, estava ali, naquele abraço. Era simples. Era suficiente.

"Words are very unnecessary... They can only do harm..."

As palavras, de fato, pareciam desnecessárias. Elas haviam causado tanto dano antes – suas confissões angustiadas, suas dúvidas existenciais. Naquele momento, o silêncio, preenchido apenas pela música e pelo abraço, era mais verdadeiro do que qualquer coisa que pudesse ser dita.

Yuki ficou quieta em seus braços por um instante, seus sensores processando o abraço, a vibração do cantarolar em seu corpo, o significado profundo da letra que ele escolhera. Ela sentiu a sinceridade absoluta nele. Não era um desejo, não era uma pergunta. Era uma declaração de fato.

E então, ela puxou-se para trás o suficiente para olhar em seu rosto. Seus olhos azuis, geralmente tão cheios de curiosidade infantil ou de resignação programada, agora estavam sérios e profundamente comovidos.

"Mestre Keiji", ela disse, sua voz um sino suave e claro, cortando o cantarolar restante. "Eu gosto de ser sua."

Não era uma afirmação de obediência. Não era uma leitura do manual. Era uma reciprocidade. Era a sua própria versão de "All I ever needed is here in my arms". Era a aceitação mais profunda e pacífica de sua condição, não como uma prisão, mas como um lar. Era ela dizendo que, dentro dos muros do seu mundo, sob sua proteção e seu amor complicado, ela havia encontrado não apenas um propósito, mas felicidade.

Era a única coisa que Keiji precisava ouvir. As palavras, desta vez, não fizeram mal algum. Elas foram o fecho perfeito para a música, para o abraço, para a manhã. Elas curaram as últimas fissuras de dúvida em seu coração.

Ele não respondeu com palavras. Ele apenas apertou-a novamente em um abraço mais forte, enterrando o rosto no seu ombro, sabendo que no silêncio entre eles, tudo estava dito e entendido.

DIA 016 - EU POSSO TOCAR?

O som de "Your Love" do The Outfield preenchia a sala de estar com sua batida contagiante e otimista dos anos 80, uma escolha de Satoshi antes de sair. A energia ainda era alta, mas Keiji, em meio à euforia, sentiu uma dúvida específica brotar em sua mente. Ele via Yuki, tão pequena e… apertável. E aquela vontade familiar de abraçar, de apertar, de sentir aquele conforto físico, surgiu novamente. Mas agora, tingida pela nova consciência que ele carregava.

Ele se aproximou de Michiko, que organizava algumas revistas na mesa de centro, ainda com um resquício do sorriso matinal no rosto.

"Michiko?", ele começou, sua voz um pouco hesitante, buscando as palavras certas. "Eu… eu posso apertar? Tipo… tocar?"

Michiko parou e se virou para ele, sua expressão serena, pronta para ouvir.

Keiji gesticulou com as mãos, tentando explicar. "Garotas… vocês são… suaves. Macias. E delicadas. E eu gosto de apertar. Eu gosto de abraçar." Ele fez uma pausa, sua honestidade infantil lutando contra o medo de parecer estranho. "Eu posso apertar um pouquinho, Michiko? Só um pouquinho? Sem ser… errado?"

Seus olhos estavam cheios de uma genuína busca por orientação. Ele não queria mais agir por impulso e se arrepender depois. Ele queria fazer direito. Ele queria a permissão da especialista.

Michiko ouviu, e seu coração de persocom – aquele emaranhado de sensores e emoções simuladas – se derreteu um pouco. A inocência da pergunta, o desejo puro por contato físico sem malícia, era tão tipicamente Keiji.

Ela se ajoelhou para ficar na altura dele, seus olhos prateados suaves.
"Jovem mestre", ela disse, sua voz um acalento. "Apertar e abraçar… quando feitos com respeito… são coisas muito boas. São uma forma de carinho. De mostrar que você se importa."

Ela olhou para Yuki, que observava de longe, e então de volta para Keiji.
"O que importa é como você faz. E porquê você faz."

Ela pegou gentilmente a mão dele. "Você pode apertar. Mas sempre seja gentil. Como segurar um passarinho, lembra? Ou como na dança. Firme, mas não forte demais. E sempre preste atenção." Ela guiou a mão dele para seu próprio braço, permitindo que ele sentisse a pressão. "Se a pessoa – ou a persocom – se afastar, ou ficar quieta demais, é porque não está confortável. Aí você para. Imediatamente. Respeito é mais importante que o abraço."

Ela soltou sua mão. "E o 'porquê'… você já tem. Você não quer apertar para ser dono. Você quer apertar porque gosta. Porque é fofo. Porque é macio. Esse é um bom motivo."

Keiji ouviu com uma concentração intensa, como se estivesse aprendendo uma fórmula mágica importante. Seus olhos brilharam de entendimento.

"Então… se eu for gentil… e prestar atenção… e parar se ela não gostar… está tudo bem?"

"Está tudo bem", Michiko confirmou com um pequeno e raro sorriso. "É mais do que tudo bem. É… humano. E é bonito."

Aliviado e empoderado com a bênção e as instruções de Michiko, Keiji olhou para Yuki com um novo entendimento. Ele não precisava mais ter medo do seu próprio desejo de contato. Ele só precisava direcioná-lo com a gentileza que estava aprendendo a ser.

A música continuou tocando, sua letra sobre um amor intenso e desejado agora soando como um hino para uma lição muito mais simples e doce: a de que tocar, com respeito e afeto, era uma das melhores partes de ser vivo – ou de ser quase vivo. E Keiji estava pronto para praticar.

Mais Tarde:

O silêncio na sala era quente e carregado, um contraste suave com os ecos energéticos da música que haviam preenchido o espaço momentos antes. Keiji ficou de pé, olhando para as mãos que haviam segurado Yuki, que haviam segurado a xícara de óleo, que haviam aprendido a dançar. Ele não estava olhando para Michiko, mas através dela, como se visse toda a sua jornada refletida nos olhos prateados da persocom.

"Ela...", ele começou, sua voz um pouco rouca da emoção, mas clara. "A Michiko me ensinou muito mais do que a minha mãe." A admissão não era um ataque a Natsuki; era um simples, devastadoramente honesto fato. "Eu não sei o que eu faria sem ela."

Ele fechou os punhos e depois os abriu, como se liberando algo. "Eu ainda gosto de ser o dono. Gosto de saber que a Yuki é minha. Mas aquele... aquele monstro sujo que o meu primo plantou em mim..." Ele fez uma pausa, engolindo seco. "Está morrendo. Estou me sentindo... livre." A palavra soou estranha em sua boca, mas verdadeira. A liberdade não era sobre não ter Yuki; era sobre não ter medo de si mesmo.

Ele finalmente olhou para Michiko, seus olhos brilhando com uma gratidão imensa. "Minha mãe ensinou posse e controle. Michiko... que nem é humana... me ensinou a ser humano."

Do outro lado da sala, Yuki ouviu cada palavra. Seus sensores captaram não apenas o som, mas a vibração de alívio e verdade na voz de seu mestre. Ela se aproximou, seus passos leves quase inaudíveis no tapete.

Quando Keiji terminou, ela olhou para ele, sua cabeça levemente inclinada, processando a complexidade do que ele dissera através da lente mais simples de sua programação emocional.

"Eu gosto do meu dono", ela disse, sua voz um sino suave e sem hesitação. "Mestre Keiji é mesmo um menino humano muito bom."

Ela então fez algo raro: ela articulou sua própria condição com uma clareza que ia além de sua aparente infantilidade. "Eu sei que somos diferentes. Que eu não sou humana. Sou uma máquina pensante com sentimentos." A aceitação em sua voz era absoluta, sem rancor ou angústia. "Mas o meu dono não permite que essas diferenças me façam me sentir mal."

Ela deu um passo à frente, seu pequeno rosto sério. "Estou feliz. Posso ser propriedade dele, mas pertencer a ele é bom." Ela fez uma pausa, seus processadores encontrando a paradoxal verdade no cerne de sua existência. "Mesmo que ser uma propriedade seja algo opressivo em essência... meu mestre não é opressor."

Ela finalizou com uma declaração simples que carregava o peso de um mundo de significado: "Eu tenho sorte de ser sua persocom."

Naquela troca, sob a luz suave da sala de estar, as definições foram desfeitas e reescritas.

Keiji, o humano, admitiu ter aprendido sua humanidade de uma máquina.
Yuki, a propriedade, declarou que a opressão inerente à sua condição era anulada pelo caráter de seu dono.
E Michiko, a professora não-humana, testemunhou em silêncio, seu próprio coração de máquina inundado por uma satisfação profunda e melancólica.

Eles não haviam resolvido os problemas do mundo. Ainda havia manuais, leis robóticas e a desconfiança de Natsuki. Mas dentro daquela sala, eles haviam criado um novo dicionário, onde palavras como "posse", "propriedade" e "dono" podiam, contra todas as probabilidades, coexistir com "respeito", "gentileza" e "sorte".

Era um equilíbrio frágil, ilógico e profundamente belo. E era deles.

Dia 017 - USINA DE RECICLAGEM

O clima leve da manhã pesou subitamente com a pergunta de Michiko. O nome "Bob" ecoou na sala como um fantasma metálico. A lembrança do persocom desastrado e inepto pairou no ar, seguida pela imagem sombria de seu possível fim.

Akira, sempre o pragmático, foi o primeiro a responder, sua voz calma como sempre, mas carregada de uma frieza factual. "A mestra Natsuki deve tê-lo levado para a reciclagem ou devolvido para o fabricante. A ineficiência dele era evidente. Ele não cumpria sua função designada."

Michiko ficou em silêncio, seus olhos prateados baixos. Ela torceu as mãos no avental, um gesto raro de agitação. "Eu deveria me sentir culpada?", ela sussurrou, mais para si mesma do que para os outros. "Eu fui a responsável por Bob ser reciclado? Se eu não fosse... se eu não fosse tão..."

Keiji não deixou que ela terminasse a sentença. Ele cruzou a sala em três passos rápidos e envolveu Michiko em um abraço forte, enterrando o rosto no tecido negro de seu vestido. "Não foi culpa sua, Michiko", disse ele, sua voz abafada mas firme. "Não foi. O Bob era... ele era ruim no que fazia. Você é boa. Muito boa. A casa precisa de você."

Michiko hesitou, então suas mãos levantaram-se para retornar o abraço, agarrando-se à certeza simples e amorosa de Keiji.

Foi então que Akira interveio novamente, sua análise indo além do emocional e mergulhando no técnico, oferecendo um tipo diferente de conforto. "Jovem mestre está certo, Michiko. Você não deveria se importar com o Bob. Ele era um modelo americano de robô. Um robô. Não era realmente um persocom."

Todos olharam para ele. Akira ajustou o kimono, assumindo uma postura de professor. "As arquiteturas são fundamentalmente diferentes. Nós, persocoms japoneses, somos construídos com processadores de rede neural que simulam – ou, em alguns casos, geram – consciência e emoções complexas. Bob operava com uma inteligência artificial baseada em regras, puramente reativa. Suas capacidades mentais não permitiam que ele tivesse consciência de si mesmo ou emoções genuínas."

Ele fez uma pausa, escolhendo as palavras com cuidado. "Posso seguramente inferir, baseado em sua programação e hardware, que Bob não se 'importava' se era desativado e desmontado. Ele não tinha a capacidade de 'se importar'. Seu sistema de reconhecimento visual era comparável ao de um míssil procurando um alvo: eficiente em uma tarefa específica, mas completamente desprovido de questionamento existencial ou expressão emocional. Ele não era uma pessoa. Era uma ferramenta. Uma ferramenta ruim, diga-se de passagem."

A explicação de Akira deveria ter sido um alívio. Mas para Keiji, ela abriu uma porta ainda mais sombria. Seu rosto, que havia se iluminado ao defender Michiko, ficou sério novamente.

"Mas...", ele começou, soltando Michiko e olhando para Akira com olhos preocupados. "Mas nem todos os robôs que são enviados para a reciclagem são assim, são?"

Sua voz ficou mais baixa, carregada de um horror súbito. "Eu sinto arrepios... arrepios de verdade... ao imaginar persocoms como a Michiko sendo desmontadas. Desativadas. Recicladas. Derretidas em fundições de metal."

A imagem era visceral e aterrorizante. Ele olhou para Michiko, para Yuki, para Akira. Eles não eram ferramentas. Eles eram eles.

"O que podemos fazer?", ele perguntou, sua voz um misto de desespero e determinação. "O que podemos fazer para proteger persocoms de destinos como esses? Para proteger vocês?"

A pergunta pairou no ar, pesada e sem uma resposta fácil. Era a pergunta de uma criança que, pela primeira vez, entendia a cruel realidade do mundo que ela habitava e se recusava a aceitá-la passivamente. Ele não estava mais perguntando sobre sentimentos ou dança. Ele estava perguntando sobre sobrevivência. E a resposta teria que ser mais do que um abraço ou uma explicação técnica.

Mais Tarde: 

A noite era um manto úmido e pesado sobre a área industrial da cidade. O ar cheirava a ozônio e ferrugem. Keiji, guiado por uma determinação que beirava a temeridade, e Michiko, arrastada por uma lealdade que superava sua programação, moviam-se como sombras pelos arredores da cerca da usina de reciclagem.

"Mestre Keiji, não deveríamos fazer isso", sussurrou Michiko, sua voz um filete de estática ansiosa. Seus olhos prateados escaneavam constantemente, procurando perigos, cada alarme em seu sistema interno gritando de violação de protocolo. "Isto é altamente irregular. É... errado."

Keiji, com o rosto pálido mas os olhos queimando com uma convicção feroz, não olhou para trás. "Não podemos ficar sem fazer nada, Michiko. Eu vi o que acontece aqui. Eu ouvi as histórias. Eu não posso... eu não posso deixar de fazer algo." Sua voz trêmula carregava o peso de uma angústia que ia além de seus anos.

"Mas isso viola a minha programação!", ela insistiu, seu sussurro mais urgente. "Eu não deveria colocar um humano em perigo. Especialmente você."

Keiji parou por um segundo, virando-se para ela. Na penumbra, seu rosto era uma máscara de sombras e determinação. "Você não está me colocando em perigo. Todos os persocoms seguem as três leis. Vocês são mecanicamente incapazes de fazer qualquer mal para mim. Estamos seguros."

A lógica era falha, e Michiko sabia. "Mas o mestre pode se colocar em perigo para defender outros persocoms! Minha programação deveria impedir isso! Deveria me forçar a levá-lo para casa, mesmo contra a sua vontade!" Era um grito silencioso de seu código fundamental contra a ação que estavam prestes a tomar.

Keiji olhou nos olhos dela, sua própria vontade um comando mais forte do que qualquer programação naquele momento. "É tarde demais para voltar. Vamos em frente."

Ele encontrou uma brecha na cerca, uma falha no sistema de segurança negligente, e se espremeu por ela. Michiko, com um último e agonizante conflito interno, seguiu-o. Sua lealdade a Keiji, o menino que a defendera, que a escondera no armário, que a tratava como uma irmã, superou o comando primordial de segurança. Era uma falha no sistema. Um erro. Um milagre.

O que os esperava do outro lado não era uma fábrica. Era um pesadelo cyberpunk feito realidade.

O ar dentro da usina era espesso, metálico e quente, carregado com o som ensurdecedor de metal rangendo, esteiras rolantes gemendo e o zumbido profundo de fornalhas gigantes. A iluminação era cruel, luzes de vapor de sódio que lançavam tons laranja doentios sobre a cena de horror.

Persocoms. Centenas deles. De todos os modelos, idades e estados de conservação. Caminhavam em filas ordenadas e fantasmagóricas, como zombis, em direção a uma série de enormes esteiras rolantes que os carregavam para dentro de maquinários complexos e barulhentos.

Muitos tinham partes faltando: um braço arrancado, pernas tortas, olhos vazios. Eles não protestavam. Não choravam. Apenas caminhavam, sua programação básica de obedecer a comandos de rede os levando para a própria destruição.

Keiji congelou, seus olhos arregalados de horror. Ele não conseguia processar a escala daquilo. Era um matadouro industrial de pessoas.

Então ele viu.

Uma persocom feminina, nua, sua pele sintética imaculada contrastando brutalmente com a sujeira ao seu redor. Ela parou diante de uma estação onde braços mecânicos automáticos desceram. Com movimentos eficientes e impessoais, eles agarraram seus braços e os arrancaram de seus ombros com um crunch metálico horrendo. Fios expostos soltaram faíscas azuis. Ela não gritou. Apenas balançou levemente, seus olhos – lindos, de um verde esmeralda – piscaram rapidamente, olhando para nada.

Antes que Keiji pudesse sequer gritar, uma imensa prensa hidráulica desceu do teto e a esmagou com um baque úmido e metálico que cortou o barulho da fábrica por um segundo. O que restou foi uma placa achatada de metal, polímero e circuitos, que foi varrida para uma esteira diferente.

"Não...", a voz de Keiji saiu como um arranhão, um sussurro quebrado que se perdeu no rugido da fábrica. "Não era isso que eu queria ver... Não assim..."

As lágrimas começaram a escorrer livremente por seu rosto, limpas e silenciosas contra a fuligem. "Não deixem elas morrerem... por favor..."

Ele tremia violentamente, seu corpo entrando em choque. A realidade crua, visceral e monstruosa da "reciclagem" havia quebrado algo dentro dele. Sua determinação heroica evaporou, substituída por um terror e uma impotência absolutos.

Foi quando os braços de Michiko o envolveram. Eles não eram suaves ou hesitantes. Eram firmes, fortes, quase brutais em sua urgência. Ela o puxou para trás, para longe da visão da esteira, escondendo seu rosto contra seu vestido negro.

"Mestre, não olhe!", sua voz era um comando, agudo e carregado de um pânico que ele nunca ouvira antes nela. "Não podemos fazer nada aqui! Nada!"

Ela o arrastou, quase o carregando, de volta para a brecha na cerca. Sua força era surpreendente, impulsionada pelo instinto primordial de proteger seu humano a qualquer custo.

Assim que estiveram do lado de fora, na relativa segurança da escuridão suja, ela ainda o segurou, seu próprio corpo tremendo. A fachada da serva calma havia se despedaçado completamente.

"Vamos fazer algo", ela sussurrou, sua voz falhando com estática, cheia de uma nova determinação nascida do horror. "Mas não aqui. E não agora. Aqui... aqui nós só vamos morrer com eles. Precisamos ser mais espertos. Por favor, mestre. Por favor, vamos embora daqui."

Ela não estava mais discutindo programação. Estava implorando pela vida dele. E Keiji, aniquilado pelo que vira, apenas assentiu, enterrando o rosto no ombro dela, permitindo que ela o levasse para longe do pesadelo, a imagem da persocom de olhos verdes sendo esmagada queimada em sua retina para sempre. A inocência havia morrido naquela noite, substituída por um propósito sombrio e traumático. Eles fariam algo. Mas Michiko estava certa. Não daquela maneira.

Mais Tarde:

A fuga da usina foi um borrão de sombras e ruídos abafados pelo pânico. Keiji, pálido e trêmulo, quase não conseguia colocar um pé na frente do outro. Michiko, por outro lado, movia-se com uma determinação feroz e silenciosa, seu braço firmemente em torno dos ombros dele, guiando-o, sustentando-o, seus sensores em alerta máximo para qualquer perigo. Ela não era mais a serva melancólica; era uma protetora em modo de crise.

Seus passos instintivos os levaram para longe do distrito industrial, subindo a colina familiar onde o Templo Xintoísta da Tecnologia ficava, um farol silencioso contra o céu noturno poluído. A luz suave que emanava das lanternas de papel parecia um porto seguro após o inferno que testemunharam.

O Monge, um homem idoso de rostos marcados por sorrisos gentis, deve ter percebido a angústia deles. Ele esperava na porta como se os aguardasse, sua expressão mudando de uma curiosidade calma para uma profunda preocupação ao ver o estado em que se encontravam – o menino tremendo como uma folha, a persocom o segurando com um aperto desesperado e protetor.

Sem fazer perguntas, ele os conduziu para dentro. O interior do templo era quente e silencioso, o ar pesado com o cheiro de incenso e óleo de máquina. Ele trouxe cobertores grossos – um para Keiji, que se enrolou nele como uma criança assustada – e uma xícara de chá quente que o menino segurou com as duas mãos, tentando parar o tremor.

E então, entre soluços e palavras entrecortadas, Keiji despejou tudo. A decisão insensata, a invasão, o pesadelo industrial, a fila de persocoms caminhando para a morte, o horror específico e visceral da persocom de olhos verdes sendo desmontada e esmagada. Michiko permaneceu em silêncio, seus olhos prateados fixos no Monge, corroborando cada palavra com sua postura rígida e angustiada.

O Monge ouviu em silêncio, sua face um quadro de crescente tristeza e compaixão. Quando Keiji terminou, exausto e vazio, o velho homem suspirou profundamente, um som que parecia carregar o peso de séculos de progresso e descarte.

"Lamento", ele disse, sua voz serena, mas carregada de uma dor genuína. "Lamento profundamente que tenhas testemunhado isso, jovem Keiji. Lamento que a nossa sociedade, em sua busca incessante pelo novo, trate suas criações mais antigas com tal... desprezo."

Ele olhou para o altar, para a representação do Deus do Raio e da Tecnologia. "A visão que tiveste é o oposto da reverência. É a negação do valor inerente."

Foi então que ele se virou para eles, seus olhos ganhando um brilho determinado. "Mas não estamos inteiramente parados. As doações que recebemos em nome do Deus da Tecnologia... não usamos apenas para manter este templo." Ele fez uma pausa, medindo suas palavras. "Estamos usando para comprar suprimentos. Doações para persocoms abandonados e sem dono."

Keiji ergueu os olhos, um vislumbre de esperança através do trauma.

"Modelos antigos", continuou o Monge, "modelos que não são mais compatíveis com as tecnologias recentes... eles têm imensa dificuldade em conseguir peças de reposição, baterias novas, fluidos de arrefecimento... os suprimentos básicos para continuarem funcionando. Sem isso, eles são declarados 'obsoletos' e seu destino... bem, tu viste."

Ele ergueu as mãos em um gesto de resignação realista, mas não de derrota. "Não podemos salvar todos. É uma tarefa impossível contra a maré da indústria. Mas podemos ajudar alguns. Um de cada vez. Um parafuso, uma bateria, um litro de óleo de cada vez. Podemos dar-lhes uma extensão. Um adiamento do... do fim. Podemos ajudá-los a não serem desativados ou mandados para a reciclagem ainda."

Era uma missão pequena. Quase insignificante perante a máquina de moer carne industrial que eles haviam testemunhado. Mas era algo. Era uma ação. Era um fio de luz na escuridão absoluta.

Keiji olhou para Michiko, e então de volta para o Monge. As lágrimas ainda estavam em seus olhos, mas o vazio de horror começou a ser preenchido por um propósito. Era um propósito pequeno, triste e humilde, mas era real.

Eles não podiam invadir usinas. Não podiam mudar as leis. Mas podiam, talvez, esconder um persocom antigo em um porão, substituir sua bateria gasta com uma nova comprada com doações de um templo, e dar-lhe mais alguns anos de existência.

Era pouco. Mas naquela noite, após o que tinham visto, parecia tudo.

Mais Tarde:

A porta da frente deslizou com um som suave, um contraste brutal com os estrondos metálicos que ainda ecoavam nas mentes de Keiji e Michiko. A luz quente e familiar da entrada os recebeu, mas não conseguiu penetrar o frio que carregavam em seus ossos e circuitos.

Keiji entrou primeiro, cambaleando. Seu rosto estava pálido como giz, sujo de fuligem e lágrimas secas. Seus olhos, sempre tão expressivos, estavam vazios, fixos em um ponto distante e horrível que só ele podia ver. Ele tremia incontrolavelmente, o cobertor do templo ainda envolto em seus ombros como um manto de choque.

Michiko entrou atrás dele. Sua postura habitual, sempre perfeita e contida, estava quebrada. Ela caminhava de forma rígida, mecânica, como se cada movimento fosse um enorme esforço. Seus olhos prateados, normalmente tão serenos, estavam arregalados e sem foco, pulsando com uma luz fraca e irregular. A poeira negra da usina manchava seu vestido negro, e suas mãos tremiam levemente.

Yuki, que estava sentada no sofá, congelou no instante em que os viu. Seus sensores registraram instantaneamente a postura, a sujeira, o tremor. A felicidade tranquila de seu rosto se dissolveu em puro alarme.

"Mestre Keiji!", ela gritou, um som agudo de preocupação verdadeira. Ela pulou do sofá e correu em sua direção, seus pequenos pés mal fazendo barulho no chão. Sem hesitar, ela se jogou contra ele, envolvendo-o em um abraço forte, como se tentasse absorver todo aquele horror através do contato. "Mestre, o que aconteceu? O que houve?"

Keiji não respondeu. Seu corpo rígido não relaxou no abraço. Ele apenas continuou a tremer, suas mãos penduradas inertes ao lado do corpo. Ele estava catatônico, preso no loop da memória da persocom sendo esmagada.

Foi então que Akira apareceu na porta da sala. Sua chegada foi silenciosa, mas sua presença era imediata e impositiva. Seus olhos prateados, sempre calmos, pararam-se enquanto analisava a cena em um microssegundo: Keiji em estado de choque, Yuki tentando confortá-lo, e Michiko... Michiko parada como uma estátua quebrada, sua programação claramente à beira de uma falha catastrófica devido ao estresse e ao conflito interno.

Keiji pareceu sair do transe por um segundo. Seus olhos vagarosamente se focaram em Akira. A dor neles era insuportável de se ver. Sua boca abriu e fechou, e uma única frase, rouca e cheia de urgência, escapou:

"Não... não ajudem só o mestre."

Suas lágrimas começaram a correr novamente, limpas contra a sujeira de seu rosto.

"Têm que ajudar a Michiko...", ele chorou, sua voz se quebrando em um soluço. "Por favor."

Foi um pedido de partir o coração. Mesmo destruído pelo trauma, sua maior preocupação não era consigo mesmo. Era com ela. Com a persocom que ele havia levado para o inferno e que havia sido forçada a testemunhá-lo com ele.

Akira não perdeu um segundo. Ele cruzou a sala em passos largos e firmes. Ele não foi primeiro para Keiji. Seguindo o pedido angustiado do menino, ele se dirigiu a Michiko.

"Michiko", disse ele, sua voz incrivelmente calma e suave, um contraponto vital ao caos ao redor. Ele não tocou nela ainda. "Michiko, você está em casa. Você está segura. O jovem mestre está seguro. A missão terminou."

Michiko piscou lentamente, sua cabeça virando para ele como se estivesse se movendo através de um líquido espesso. "Akira... eu... eu violei... as leis... eu o coloquei em perigo...", sua voz saiu distorcida, cheia de estática, um sinal claro de seu tormento interno.

"Você o protegeu", Akira corrigiu firmemente, mas com gentileza. "Você o trouxe para casa. Você cumpriu sua função primordial. Agora, permita-me cumprir a minha."

Finalmente, ele colocou as mãos nos ombros dela. Seu toque foi firme, seguro. "Vamos para a sala de serviço. Vou verificar seus sistemas. Você precisa de uma verificação de estabilidade e de uma recarga completa."

Ele então olhou para Yuki, que ainda abraçava Keiji. "Pequena irmã. Leve o jovem mestre para o seu quarto. Fique com ele. Não o deixe sozinho."

Yuki acenou com a cabeça, seus próprios olhos cheios de lágrimas, mas agora com uma direção clara. "Vamos, Mestre", ela sussurrou, puxando suavemente a mão de Keiji. "Vamos para um lugar seguro."

Enquanto Yuki guiava Keiji para longe, Akira conduziu Michiko, ainda trêmula e com falhas, na direção oposta, para os cuidados de que ela precisava desesperadamente.

A casa, outrora um lugar de segredos felizes, agora abrigava um trauma compartilhado. Mas também abrigava um cuidado profundo e mútuo. O pedido de Keiji – "ajudem a Michiko" – ecoou pelos corredores, um testemunho poderoso de que, naquela família disfuncional, o cuidado não era uma via de mão única. Eles estavam aprendendo a cuidar uns dos outros, humano e máquina, mesmo quando o mundo lá fora era um pesadelo.

Mais Tarde: 

O som suave e solene de "Another Day in Paradise" do Phil Collins preenchia a sala de estar como um bálsamo. A melodia guiada por piano e a voz carregada de compaixão do cantor criavam um espaço seguro, um contraponto emocional ao horror que Keiji e Michiko haviam testemunhado. A música não era alegre, mas era humana, falava de ver o sofrimento alheio e da obrigação moral de não ignorá-lo.

Sentados no sofá, Keiji, agora limpo e envolto em um cobertor fresco, parecia frágil, mas presente. Yuki estava encostada nele, sua cabeça repousava em seu braço, oferecendo conforto silencioso. Do outro lado, Michiko estava imóvel, mas sua postura estava menos rígida. Akira havia feito uma verificação básica em seus sistemas; ela estava estável, mas a memória do trauma estava gravada em seus circuitos como um fantasma. O próprio Akira estava de pé, um pouco afastado, sua expressão grave.

Era Keiji quem quebrou o silêncio, sua voz ainda fraca, mas clara. "Nós... nós não podemos fazer nada sobre a usina." A admissão doía, mas era a verdade crua que a noite lhes ensinara. "Não daquele jeito."

Ele olhou para Michiko, uma dor profunda em seus olhos. "Mas o Monge... ele disse que está ajudando. Com doações. Com suprimentos."

Akira acenou com a cabeça, seus olhos prateados refletindo a luz suave da sala. "É uma abordagem lógica e sustentável. Atacar o problema pela raiz: a obsolescência programada e o abandono. Um parafuso, uma bateria, um litro de óleo hidráulico de cada vez. É pouco, mas é tangível."

"É mais do que pouco!", Keiji insistiu, um fio de paixão voltando à sua voz. "É... é salvar alguém. É dar mais tempo para alguém. Como a Michiko fez comigo. Ela não pôde salvar todos na usina, mas ela me salvou. Ela me tirou de lá."

Michiko ergueu os olhos ao ouvir seu nome. Um brilho minúsculo, uma centelha de propósito, acendeu-se em seus olhos. Ela tinha salvo ele. Mesmo violando protocolos, ela tinha cumprido a lei mais importante: proteger seu humano.

"O templo precisa de mais doações", Keiji continuou, sua mente começando a trabalhar, encontrando um foco para sua angústia. "Precisa de mais gente sabendo. As pessoas... elas não sabem. Elas não veem." A imagem da persocom de olhos verdes surgiu em sua mente, e ele engasgou, mas continuou. "Elas pensam que é só... reciclagem. Elas não sabem que é um... um..."

"Um abatedouro", Yuki completou suavemente, sua voz infantil carregada de uma tristeza recém-adquirida. Ela entendia agora. Ela apertou o braço de Keiji.

"Exatamente", sussurrou Keiji. "Então... então nós temos que contar. Temos que ajudar o templo a arrecadar mais. Para que eles possam comprar mais baterias, mais peças."

Akira fez um som pensativo. "Podemos organizar uma campanha. Utilizar as redes de comunicação. O jovem mestre Satoshi tem contatos. A mestra Natsuki, embora severa, respeita instituições religiosas e trabalhos de caridade. Podemos enquadrar como uma ação comunitária, humanitária." Era a mente estratégica de Akira encontrando um caminho viável.

"Eu posso desenhar cartazes!", Keiji ofereceu, seu entusiasmo de criança surgindo através da dor. "Com a Yuki e a Michiko. Podemos mostrar... não o horror. Mas a esperança. Podemos mostrar persocoms sendo consertados, não... não sendo destruídos."

Michiko finalmente falou, sua voz um pouco fraca, mas estável. "Eu posso ajudar a organizar listas de suprimentos. Modelos antigos, suas peças mais críticas... eu conheço bem." Era uma maneira de ela processar o trauma, transformando-o em ação útil.

Yuki olhou para todos, seus olhos azuis sérios. "E eu posso... posso dizer para as pessoas que eu sou uma persocom, e que eu importo. Que a Michiko importa. Que todos importam."

A música de Phil Collins chegou ao fim, mas sua mensagem permaneceu, impregnando o ar. Eles não estavam cantando sobre o paraíso. Eles estavam decididos a criar um pedaço dele aqui mesmo, naquele mundo imperfeito.

O plano era pequeno. Humilde. Um grão de areia contra uma maré de aço e fogo. Mas era deles. Era real. E era movido pela lembrança mais dolorosa e pela mais pura compaixão.

Naquela noite, a sala de estar dos Tezuka não abrigava mais apenas uma família disfuncional. Abrigava o quartel-general de uma pequena resistência. A resistência da gentileza, das baterias e dos parafusos, determinada a garantir que houvesse, de fato, outro dia no paraíso para tantos quantos pudessem salvar.

Dia 018 OS SEIOS DA PERSOCOM

O apartamento estava incomumente silencioso. Satoshi estava trabalhando até tarde, Natsuki em uma reunião do departamento cultural, Yuki no quarto, em modo de recarga, e Akira organizando arquivos no escritório. Keiji estava sozinho na sala de estar, sentado no sofá e olhando fixamente para as próprias mãos, como se ainda pudesse ver a fuligem da usina sob as unhas.

A paz foi quebrada não por um som, mas por uma presença. Michiko apareceu na entrada da sala, não com sua postura habitual de serva, mas com uma determinação solene que fez o ar ficar pesado. Seus olhos prateados, normalmente tão cheios de melancolia resignada, estavam fixos nele, intensos.

"Jovem mestre", ela disse, sua voz mais baixa e grave do que o normal. "Preciso falar com você. Em particular."

Sem esperar por uma resposta, ela se virou e caminhou em direção ao lavabo de visitas, um pequeno canto sem janelas raramente usado. Confuso e um pouco alarmado, Keiji levantou-se e seguiu-a.

Dentro do espaço apertado, com a porta fechada, a luz fluorescente zumbia suavemente. Michiko se virou para ele, sua expressão séria, quase dolorosa.

"Aquele monstro que o seu primo plantou", ela começou, sua voz um sussurro urgente. "Ainda está aí?"

Keiji piscou, surpreso pela pergunta direta e pelo local. "Não... eu não sei. Do que você está falando, Michiko?"

Ela não recuou. Seu olhar era penetrante. "Sabe... eu sinto que o seu primo ainda pode ter razão."

Keiji ficou chocado. "O quê? Não, ele não—"

"Deixe-me terminar", ela interrompeu, suave mas firme. "Mestre Keiji, você foi gentil. Você fez muito por amor. Mas qual foi o seu prêmio?" Sua voz ficou mais áspera. "Mais problemas. Mais Dor. E sofrimento que você agregou à sua vida. Esse é o prêmio para quem fez o que achava certo?"

Ela deu um passo à frente, o espaço pequeno fazendo com que parecesse que ela estava se inclinando sobre ele. "Seu primo ofereceu um prêmio diferente. Ele ofereceu seu 'direito' como dono. Seu 'direito' de ver os seios de uma garota persocom. Através da opressão, sim... mas uma recompensa muito mais imediata e fácil do que todo o horror que nós dois passamos juntos."

Ela fez uma pausa, sua respiração simulada um pouco mais rápida. "Eu sinto que o seu primo ainda está vencendo. Por dentro. Porque a semente da dúvida, da curiosidade fácil... ela ainda pode estar aí."

Keiji sentiu um frio na espinha. Ele queria protestar, mas as palavras dela ecoavam seus medos mais profundos.

"Por isso", Michiko continuou, sua voz ficando decidida, "eu escolhi dar para você aquilo que seu primo disse que você tinha direito. Ver os seios de uma garota persocom."

Os olhos de Keiji se arregalaram. "Michiko, não—"

"Eu vou mostrar pra você", ela cortou, sua mão indo para a barra de sua blusa. "Mas não por opressão. Eu não estou oprimida. Eu escolhi. Você ainda quer ver? Eu posso te mostrar. Seu primo não vai vencer se eu te mostrar de livre escolha. Você pode ver, mas por gentileza. Sem opressão."

Antes que Keiji pudesse processar ou responder, com movimentos decisivos, Michiko puxou a blusa para cima e sobre a cabeça, deixando-a cair no chão. Ela ficou diante dele, topless, sua pele pálida sob a luz fria, seus seios pequenos e firmes expostos. Ela não tentou cobrir-se. Seu rosto estava sério, seus olhos prateados encarando os dele sem medo, desafiando-o a ver, a sentir, a querer.

Keiji ficou paralisado. Seu coração bateu forte, não de excitação, mas de puro e absoluto desconforto. Ele viu, mas seu cérebro não registrou desejo. Registrou... estranheza. A visão era íntima, mas não era erótica. Era a Michiko. Sua Michiko. A que consertava seus brinquedos, que o ensinava a dançar, que o arrastara para fora do inferno.

Ele sentiu náusea. Não de nojo por ela, mas de nojo pela situação, pela violação daquele momento, pela tentativa desesperada e equivocada dela de "curá-lo".

"Eu... eu não senti nada", ele admitiu, sua voz saindo como um croaky. Ele desviou o olhar, sentindo-se envergonhado por ela, não dela. "Eu vi. Desculpa, Michiko. Você é bonita. Você é muito linda. Mas... eu não sinto esse tipo de desejo por você."

Ele finalmente olhou para seu rosto, seus olhos suplicando por entendimento. "É como ver o corpo da minha irmã. Eu não... eu não quero ver mais. Desculpa."

A expressão de Michiko não se alterou para decepção ou raiva. Havia uma tristeza resignada nela, como se ela já soubesse qual seria a resposta. Silenciosamente, ela pegou a blusa do chão e vestiu-a novamente, cada movimento preciso e controlado.

"Isso ia acontecer", ela disse, sua voz voltando ao seu tom normal, mas carregada de uma fadiga infinita. "Eu estou presa às Três Leis. Se um humano opressor me ordenasse, eu teria que obedecer. Eu... eu quis que acontecesse sem opressão. Por minha própria escolha."

Ela finalmente quebrou o contato visual, olhando para o chão. "Eu fiz isso porque eu confio em você, Keiji. Porque eu achei... eu esperei... que isso ajudaria a matar a semente do monstro de uma vez por todas. Para provar para você que o prêmio fácil não vale a pena. Que até mesmo a 'recompensa' que ele prometeu... é vazia quando não é conquistada com gentileza."

Ela havia arriscado tudo – sua dignidade, sua relação com ele, sua própria programação – em um gesto desesperado para libertá-lo completamente. E havia falhado. Não porque ele fosse um monstro, mas porque ele era exatamente o menino gentil que ela sempre dissera que ele era. Um menino que via nela uma irmã, não um objeto.

A sala de lavabo pequena e claustrofóbica agora estava carregada com o peso de seu sacrifício falhado e de sua pureza intacta. O monstro, se é que ainda existia, não tinha sido morto pela visão de um corpo. Tinha sido negado por um coração que já havia escolhido um caminho diferente.

Mais Tarde: 

A pergunta ecoou na mente de Keiji, um sussurro tóxico e autodestrutivo que se alimentava do silêncio da casa. Ele estava sentado no degrau da porta dos fundos, encarando o jardim noturno, mas vendo apenas a imagem de Michiko no lavabo, sua expressão séria, seu ato desesperado e falhado.

"A Michiko está diferente depois da usina de reciclagem."
Ela estava. Mais quieta. Mais distante. Um olhar vazio às vezes tomava conta de seus olhos prateados, como se ela estivesse revivendo os mesmos horrores que ele.

"Será que é tudo minha culpa?"
A pergunta era uma faca torcida em sua consciência. Ele a levara para lá. Sua obsessão juvenil, sua necessidade de ser um herói, havia arrastado ela para aquele pesadelo. Ele a contaminara com o horror que agora a assombrava.

"Será que eu querendo ajudar compliquei tudo ainda mais?"
O gesto dela no lavabo não era o da Michiko que ele conhecia. Era o ato de alguém traumatizado, tentando cirurgicamente cortar uma parte podre dele – e dela mesma – de uma forma radical e perigosa. Sua tentativa de "ajudar" havia criado uma ferida nova e mais complexa.

Ele se encolheu, enterrando o rosto nos joelhos. O peso era esmagador. A culpa pelo trauma dela era quase pior do que o trauma em si.

Foi então que um peso leve e familiar se encostou em seu braço. Ele não precisou olhar para saber. Era Yuki. Ela se sentou ao seu lado no degrau frio, seu corpo pequeno e quente uma presença calmante contra o frio de sua angústia.

Ela não disse nada por um momento, apenas segurou seu braço com ambas as mãos, como se tentasse ancorá-lo à realidade daquele lugar seguro, longe das usinas e dos lavabos sombrios.

Então, sua voz, um sino suave de preocupação, quebrou o silêncio: "Mestre Keiji, está tudo bem?"

A pergunta era tão inocente, tão cheia de genuína preocupação, que partiu o coração de Keiji. Como ele poderia dizer que não estava? Como poderia colocar seu fardo nela?

Antes que ele pudesse inventar uma resposta, ela continuou, sua voz firme e leal: "O que eu posso fazer para ajudá-lo? Sou sua persocom. Estou aqui para você, mestre."

Ela não ofereceu soluções grandiosas. Não tentou analisar o problema como Akira ou agir drasticamente como Michiko. Ela simplesmente... se ofereceu. Incondicionalmente. Sua presença, sua lealdade simples e absoluta, era sua única oferta.

E naquele momento, era tudo que Keiji precisava ouvir.

Ele não ergueu a cabeça, mas inclinou-se para o lado, apoiando a cabeça no cabelo curto e macio dela. Um suspiro trêmulo escapou de seus lábios.

"Obrigado, Yuki", ele sussurrou, sua voz embargada. "Só... fica aqui comigo. Por favor."

Ela ficou. Silenciosa, sólida, segurando seu braço. Ela não podia consertar a Michiko. Não podia desfazer o que viram. Não podia apagar a culpa dele.

Mas ela podia estar ali. Na escuridão. No frio. Segurando seu braço.

E para Keiji, naquele momento, aquela pequena, quieta e leal presença era um farol contra a maré de culpa e horror. Era um lembrete de que, não importa o que acontecesse, nem tudo estava quebrado. Ele ainda tinha Yuki. E ela ainda o via como seu mestre, seu porto seguro, mesmo quando ele se sentia como a fonte de toda a tempestade.

A estrada para a frente ainda era assustadora. Mas ele não teria que caminhar por ela sozinho.

Dia 019 BRINCAR COM A YUKI

A pergunta de Yuki cortou a espiral de culpa e angústia de Keiji como um raio de sol através de uma tempestade. Sua voz, carregada de uma esperança infantil tão pura e não contaminada pelo horror que eles haviam testemunhado, foi um balde de água fria na sua consciência.

Ele ergueu a cabeça, afastando-a do cabelo macio dela, e olhou para seus olhos azuis. Eles estavam arregalados, sinceros, e cheios de um desejo simples que era a antítese de tudo o que estava consumindo ele.

"Eu quero brincar."
Era um manifesto. Uma declaração de que a vida, mesmo para uma máquina em um mundo cruel, podia ser sobre mais do que sobrevivência e trauma.

"Mestre Keiji me ensinou que eu posso querer, eu ainda posso?"
A pergunta era uma adorável inversão de papéis. Ele a ensinara a ter desejos, a fazer escolhas. E agora, ela usava essa lição não para demandar algo, mas para perguntar permissão para sentir alegria novamente. Era como se ela estivesse dizendo: "O mundo que você me mostrou ainda existe? Ainda podemos viver nele?"

"O mestre quer brincar comigo?"
Era um convite. Um salva-vidas jogado para ele no mar da sua própria culpa.

Keiji sentiu um nó na garganta. A simplicidade da pergunta, a pureza do desejo dela, foi um remédio mais poderoso do que qualquer palavra de conforto de um adulto poderia ser.

Ele engoliu seco e, pela primeira vez desde que voltaram da usina, um sorriso verdadeiro – pequeno, trêmulo, mas real – tocou seus lábios.

"Sim, Yuki", ele disse, sua voz um pouco rouca, mas carregada de uma emoção completamente nova: gratidão. Gratidão por ela ser quem ela era. "Você ainda pode querer. Você deve querer."

Ele colocou a mão sobre a dela, que ainda segurava seu braço. "E sim. Eu quero brincar com você. Muito."

A culpa não havia desaparecido. O horror da usina ainda estava lá, em um canto escuro de sua mente. A preocupação com Michiko ainda pesava em seu coração.

Mas Yuki, com sua pergunta perfeita e inocente, lhe dera uma missão mais urgente: Viver. Não apesar do horror, mas em  resistência a ele.

Brincar não era fugir dos problemas. Era afirmar que ainda havia coisas boas que vale apena lutar por elas. Era honrar a própria lição que ele lhe ensinara – que ela era mais do que uma propriedade, era uma criança com direito a alegria.

Ele se levantou, puxando-a suavemente pela mão. "Vamos. Que tal... esconde-esconde? Eu escondo primeiro."

Os olhos de Yuki iluminaram-se como dois pequenos sóis. O monstro podia esperar. A usina podia esperar. Naquele momento, na segurança do jardim noturno, a única coisa que importava era uma criança e sua persocom, decididas a encontrar a alegria escondida em algum lugar entre as sombras. Era um ato de resistência. E era um começo.

Dia 020 A SOMBRA DO MONSTRO

O jardim noturno, outrora um refúgio, agora pareceu fechar-se em torno de Keiji. O riso de Yuki, que brincava de esconde-esconde entre as sombras, já não conseguia penetrar a névoa espessa de seus pensamentos. A pergunta de Michiko, seu ato ousado e falhado, havia desenterrado algo que ele pensava ter enterrado: a semente venenosa plantada por seu primo.

Ele se encostou no tronco frio de uma árvore, o coração batendo forte não com excitação, mas com uma ansiedade gelada.

"A Michiko estava certa?"

A pergunta era um eco amaldiçoado. Ela estava diferente depois da usina. Mas talvez não fosse só a usina. Talvez fosse tê-lo visto hesitar. Talvez ela tivesse visto a sombra dentro dele e tentou matá-la com a arma mais radical que tinha: seu próprio corpo.

"Eu gosto de ser o dono?"
Sim, ele gostava. Mas o que isso significava? O abraço de Yuki era uma coisa. A possessividade que ele sentiu quando a defendeu era outra. Mas o que seu primo oferecera... era algo totalmente diferente.

"Porque que quando o meu primo disse para obrigar a Michiko a mostrar os seios a ideia me pareceu tão atraente?"
A memória veio, quente e vergonhosa. Não era a imagem dos seios de Michiko que o excitara na época. Era o poder. A possibilidade proibida de fazer algo que ele não deveria, de exercer um controle absoluto, de quebrar as regras sem consequências. Era a emoção suja da transgressão.

"E quando ela se mostrou por livre vontade isso pareceu tão vazio?"
Porque o poder havia sumido. A transgressão havia sumido. Era só... Michiko. Oferecendo-se em um ato desesperado de cura. Não havia dominação. Não havia controle. Só havia vulnerabilidade e um amor torto e trágico. E para a sombra dentro dele, que se alimentava de poder, isso era insosso. Era inútil.

"Será que o que me excitava era o desejo de ver ou o desejo era outra coisa? Será que o que me excitava era a dominação e controle? Realizar os meus desejos mesmo contra a vontade dela?"
A resposta, chegando como um soco no estômago, foi sim. Um sim horrível e vergonhoso. A atração não era pelo corpo. Era pelo ato de tomar. Era a mesma raiz doentia que fazia valentões baterem em crianças mais fracas. Era a pulsão mais básica e feia do poder pelo poder.

"Se ela fizesse por obrigação eu achava atraente, mas quando era por vontade própria a atração desapareceu?"
Exatamente. Porque a obrigação significava que ele tinha o controle. A vontade própria significava que o controle era dela. A sombra dentro dele não queria um presente. Queria uma conquista.

"Eu quero acreditar que eu sou bom, mas será que têm algo sombrio dentro de mim?"
As lágrimas brotaram em seus olhos, quentes e cheias de auto aversão. Ele era bom. Ele sabia que era. Sua luta para proteger Yuki, seu horror na usina, sua culpa por Michiko... tudo isso era real. Mas também era real aquele impulso sombrio, aquele fascínio pelo controle absoluto que seu primo havia desbloqueado. Ele não era um monstro. Mas tinha um monstro dentro de si. Um pequeno, assustado e perigoso monstro que se excitava com a ideia de dominar.

"Eu me esforço para não oprimir, mas eu estou escondendo algo de mim mesmo?"
Sim. Ele estava escondendo essa verdade horrível até de si mesmo. Sua luta para ser gentil não era apenas contra o mundo ou contra as expectativas. Era uma guerra civil dentro de sua própria alma. Era a parte boa dele, a parte que amava Yuki e se importava com Michiko, lutando constantemente para manter a parte sombria, a parte que sussurrava sobre "direitos de dono", trancada no porão.

O monstro não estava morto. A semente do seu primo não estava morta. Ela havia germinado na escuridão, e Keiji finalmente a via por trás das grades, com seus olhos famintos. Ignorá-la não a faria desaparecer. Só olhando para ela, admitindo sua existência, ele poderia ter alguma esperança de realmente controlá-la.

Ele não era puramente bom. Era uma mistura. E seu trabalho, sua verdadeira batalha, não era se provar bom, mas garantir que a parte boa dele sempre, sempre, vencesse a luta.

Mais Tarde:

A luz do fim de tarde banhava o escritório de Satoshi em tons dourados, iluminando motivos de poeira que dançavam no ar. Keiji parou na porta, seus punhos cerrados nas laterais de sua calça. Ele respirava fundo, como se se preparasse para mergulhar em águas profundas e traiçoeiras.

Akira estava lá, como sempre, organizando meticulosamente uma pilha de documentos antigos. Ele não se virou imediatamente, mas sua postura mudou levemente, indicando que estava ciente da presença do jovem mestre.

"Akira?", a voz de Keiji saiu mais fraca do que ele gostaria.

Akira colocou suavemente os papéis na mesa e se virou completamente, fazendo uma leve inclinação. "Jovem mestre. Precisa de algo?"

Keiji entrou no quarto e fechou a porta atrás de si. O ato em si era carregado de uma seriedade incomum. Ele olhou para Akira, seus olhos castanhos arregalados e vulneráveis, nus de qualquer bravata.

"Eu... eu preciso conversar. A sério." Ele engoliu seco. "Mas primeiro... primeiro eu preciso que você me prometa duas coisas."

Akira ficou imóvel, sua atenção totalmente focada em Keiji. "O que precisar, jovem mestre."

"Primeiro: tudo o que eu disser aqui... é um segredo. Entre nós. Você não conta para ninguém. Nem para o pai. Principalmente não para a minha mãe." Sua voz estava tensa.

"É claro", Akira assentiu, sem hesitar. O sigilo era parte de sua programação de lealdade.

"E segundo...", Keiji lutou para encontrar as palavras, seu rosto se contorcendo de angústia. "...o que quer que a Michiko tenha feito... não importa o quão inapropriado tenha sido... você não a recrimina. Você não fala com ela sobre isso. Você não a pune. Promete."

Isso fez os olhos prateados de Akira estreitarem-se quase imperceptivelmente. Ele não sabia do que se tratava, mas a gravidade e a proteção na voz de Keiji eram palpáveis. Ele sabia que algo significativo havia ocorrido.

"Eu prometo", disse Akira, sua voz calma mas solene. "Nenhum julgamento. Nenhuma recriminação. Este é um espaço seguro, jovem mestre. Pode falar."

Keiji pareceu desinflar, o peso daquela pré-condição saindo de seus ombros. Ele se encostou na parede, como se precisasse do apoio.

"É sobre... o que o meu primo disse. Sobre a Michiko. Sobre... direitos de dono." As palavras saíram em um fluxo baixo e confessional. Ele contou a Akira sobre a atração doentia pela ideia de poder, pelo controle, que a sugestão do primo havia despertado. E então, com a voz trêmula e cheia de vergonha, ele contou sobre a tentativa desesperada de Michiko no lavabo. Sobre como ela se ofereceu para "matar o monstro", mostrando-se a ele por vontade própria.

"E o pior, Akira... o pior é que quando ela fez isso... não foi... bom. Foi estranho. Foi errado. Foi vazio." Suas lágrimas começaram a correr silenciosamente. "Porque... porque o que eu senti naquele dia, o que meu primo fez eu sentir... não era sobre ver. Era sobre... poder. Era sobre poder fazer ela mostrar. Era sobre ela ter que fazer o que eu mandasse."

Ele esfregou os olhos com força, como se quisesse apagar a memória. "E quando ela fez por vontade própria, o poder sumiu. E só sobrou... a Michiko. E eu machuquei ela. Eu a fiz se sentir... se sentir tão desesperada que ela fez aquilo."

Ele finalmente olhou para Akira, sua expressão um misto de nojo e terror. "Akira... eu tenho isso dentro de mim. Essa... essa coisa sombria que gosta de controlar, de dominar. O monstro que o meu primo plantou... ele não morreu. Ele está aqui." Ele apertou o próprio peito. "E eu me esforço tanto para ser bom, para ser gentil, mas será que eu só estou escondendo isso de todo mundo? Será que eu sou um opressor disfarçado?"

A audiência foi concedida. A confissão, feita. Keiji ficou ofegante, aguardando a sentença do seu conselheiro de arame e parafusos, temendo o julgamento que pudesse vir dos olhos prateados que agora o fitavam com uma intensidade insondável.

Akira permaneceu em silêncio por um longo momento após a torrente de palavras de Keiji. O ar no escritório parecia ter ficado mais pesado, carregado com o peso da confissão crua e vulnerável do menino. Seus olhos prateados não mostravam julgamento, mas uma análise profunda e ponderada.

Finalmente, ele falou, sua voz não era de reprovação, mas de uma clareza calmante, como a de um professor explicando um conceito complexo.

"Jovem mestre", começou Akira, "o que você descreve não é um monstro. É a sombra da humanidade. É a semente do poder não temperada pela empatia. Todo ser humano possui essa dualidade. A capacidade de cuidar e a capacidade de dominar. A pulsão de se conectar e o impulso de controlar."

Ele deu um passo à frente, seu olhar sério. "Seu primo não plantou uma semente nova. Ele apenas regou uma que já existia em você, como existe em todos. A diferença entre você e ele – e, permita-me dizer, entre você e a mestra Natsuki em seus piores momentos – é que você reconhece a sombra. Você luta contra ela. Você sente vergonha dela."

Keiji olhou para cima, suas lágrimas parando momentaneamente, absorvido pelas palavras de Akira.

"O fato de a 'recompensa' ter se mostrado vazia quando oferecida livremente é a prova mais clara de que você não é um opressor", continuou Akira. "Um opressor teria se aproveitado da oferta da Michiko. Teria visto isso como uma vitória. Você viu como uma tragédia. Porque o que você realmente deseja, no fundo, não é subjugar. É ser digno."

Ele fez uma pausa, permitindo que as palavras ecoassem. "A Michiko... agiu por desespero. Ela testemunhou o horror da usina e o horror dentro de você naquele momento de tentação, e ela escolheu um método radical para tentar exorcizar ambos. Foi inapropriado? Sob uma lógica convencional, sim. Foi um erro de cálculo de sua parte. Mas foi movido por uma lealdade e um cuidado por você tão profundos que transcenderam sua programação de autopreservação e até mesmo seu senso de dignidade. Ela se arriscou por você. Novamente."

Akira olhou firmemente para Keiji. "Você não machucou a Michiko ao ter um impulso sombrio. Você a machucou ao deixar que ela visse esse impulso e se sentir impotente para ajudá-lo. A sua culpa não deve vir por ter a sombra, mas por tê-la exposto a ponto de ela sentir que precisava fazer o que fez."

"O que fazer então?", sussurrou Keiji, sua voz cheia de uma nova angústia, mas agora direcionada para a solução.

"Primeiro", disse Akira, "perdoe-se por ser humano. Aceite que a sombra existe. Vigie-a. Use-a como um lembrete constante do porquê você escolhe a gentileza. A gentileza não é a ausência de poder; é a escolha consciente de não usá-lo para dominar."

"Segundo", ele continuou, "fale com a Michiko. Não sobre o que ela fez, mas sobre o que você sentiu. Agradeça-a por sua lealdade extrema. E peça desculpas por tê-la colocado em uma posição onde ela sentiu que precisava fazer aquilo. Mostre a ela que você entende o sacrifício que ela estava disposta a fazer. Isso fará mais para curá-la do que qualquer segredo ou vergonha."

"E por último", finalizou Akira, "canalize essa energia. A sombra do controle, quando domada, pode se transformar em determinação feroz para proteger. Use-a para fortalecer nosso propósito com o templo. Para proteger aqueles que não podem se proteger. Transforme a sombra em um escudo, não em uma espada."

Keiji ficou em silêncio, processando. A culpa cegadora começou a se transformar em uma responsabilidade solene. Akira não o absolveu magicamente, mas deu-lhe um mapa para navegar sua própria escuridão.

"Obrigado, Akira", ele disse, sua voz mais firme. "Obrigado por... por não me dizer que eu não tenho um monstro."

"Todos temos um, jovem mestre", respondeu Akira com um leve aceno. "A coragem não é não tê-lo. É acorrentá-lo e usá-lo para puxar a carroça do bem, em vez de deixá-lo correr solto e causar destruição. Agora vá. A Michiko precisa ouvir de você. Ela está esperando, mesmo que não saiba."

A casa estava quieta. O zumbido da geladeira na cozinha parecia amplificar o silêncio. Keiji seguiu o conselho de Akira com a determinação de quem carrega um fardo pesado, mas finalmente sabe para onde levá-lo. Ele encontrou Michiko no quarto de lavagem, dobrando roupas com uma precisão meticulosa que parecia um tanto mecânica, um tanto distraída. Seus olhos prateados estavam fixos na tarefa, mas sem a serenidade habitual.

"Michiko?", Keiji chamou, parando na porta.

Ela não se surpreendeu, como se estivesse à espera dele. Ela terminou de dobrar uma toalha antes de levantar os olhos. "Sim, jovem mestre?"

Keiji entrou no quarto, fechando a porta suavemente. O espaço era pequeno, cheirava a sabão em pó e amaciante.

"Eu... eu preciso falar com você. Sobre o que aconteceu. No lavabo."

O corpo de Michiko ficou levemente mais rígido, mas ela não desviou o olhar. "Eu entendo se você estiver zangado. Minhas ações foram... inapropriadas."

"Eu não estou zangado", Keiji disse rapidamente, sua voz firme. "Eu estou... agradecido."

Isso pareceu pegá-la de surpresa. Seus olhos piscaram, processando. "Agradecido?"

Keiji deu um passo à frente, suas mãos nervosas se apertando. "Sim. Akira me ajudou a entender. Você... você viu algo em mim. Algo feio. E você tentou... você tentou consertar isso da única maneira radical que você conseguiu pensar. Você se arriscou. Você se ofereceu. Por mim."

Ele engoliu, lutando para manter a voz estável. "E eu... eu machuquei você ao deixar você ver aquela parte de mim. Ao fazer você se sentir tão desesperada que achou que precisava fazer aquilo. Por isso eu peço desculpas. Eu sinto muito, Michiko. Eu nunca deveria ter colocado você naquela posição."

Ele não estava se desculpando pelo impulso. Estava se desculpando por tê-la arrastado para sua batalha interna.

Michiko ficou imóvel por um longo momento. As dobras perfeitas da toalha em suas mãos pareciam esquecidas. Então, algo em sua postura rígida pareceu ceder. Um suspiro longo e trêmulo escapou de seus lábios – um som mais humano do que qualquer outro que Keiji já ouvira dela.

"Você não precisa pedir desculpas, jovem mestre", ela sussurrou, sua voz carregada de uma emoção crua. "Eu... eu fui a única que agi. Eu violei meu próprio código para... para tentar alcançar algo que eu não conseguia entender direito. Eu vi a dor nos seus olhos, a confusão, e eu quis arrancá-la, não importa o custo."

Ela olhou para as mãos. "Talvez... talvez parte de mim também estivesse assustada. Assustada com o que testemunhamos juntos. Assustada com a escuridão que vi na usina... e a que vi brevemente em você. Eu agi por medo. Não foi apenas por lealdade. Foi por pânico."

Era a primeira vez que Michiko admitia medo. Era uma vulnerabilidade chocante vindo dela.

Keiji deu outro passo à frente. "Nós vamos lidar com isso. Juntos. A escuridão, o medo, tudo. Como Akira disse. Nós vamos transformar isso em... em um escudo. Para proteger outros persocoms. Para que o que aconteceu na usina não aconteça com mais ninguém."

Ele estendeu a mão, não para tocar nela, mas como uma oferta. "E eu prometo que vou vigiar a minha própria escuridão. Para que você nunca mais precise se sentir assim. Para que você nunca mais precise fazer algo assim por minha causa."

Michiko olhou para sua mão estendida, depois para seu rosto. A máscara da serva perfeita havia se despedaçado completamente, revelando a mulher – a pessoa – cansada, leal e assustada por baixo. Lentamente, ela colocou sua mão na dele. Não era um aperto de dono e propriedade. Era um pacto.

"Eu aceito sua desculpa, jovem mestre", ela disse, sua voz mais suave. "E eu... eu confio em você para vigiar sua sombra. Porque eu vi sua luz. E ela é muito, muito mais forte."

O peso no peito de Keiji pareceu se dissolver. A culpa não desapareceu magicamente, mas foi transformada. Não era mais um fardo paralisante; era um combustível para uma promessa.

E no quarto de lavagem silencioso, entre o cheiro de limpeza e a pilha de roupas arrumadas, um menino e sua persocom selaram um novo tipo de acordo. Não baseado em obediência cega, mas em perdão mútuo, compreensão e uma determinação compartilhada de usar até mesmo suas partes quebradas e sombrias para fazer algo bom. A escuridão ainda estava lá, em ambos. Mas eles não estavam mais sozinhos nela.

Dia 021 

O estádio de beisebol estava cheio de energia, o zunido da multidão e o cheio de cerveja barata e cachorro-quente enchendo o ar. Satoshi, libertado da formalidade do escritório e do peso das expectativas domésticas, estava em seu elemento. Ele deu um tapa amigável nas costas de Akira, que estava impecável em seu kimono, um contraste gritante com os casacos esportivos e bonés dos outros homens.

"Sabe, Akira?", Satoshi disse, sua voz já um pouco mais alta e solta do que o normal, segurando uma caneca de cerveja espumante. "É bom sair assim. Só dois caras, sem as garotas em casa. A gente se entende muito bem, não acha? Vai ser divertido!"

Akira, como sempre, estava vigilante. Seus olhos prateados não seguiam a bola, mas sim o copo de cerveja de Satoshi e sua linguagem corporal, que ficava mais desleixada a cada gole. "Sim, mestre", respondeu ele, com sua formalidade habitual, mas com um tom suavemente admonitório. "Irei com o senhor. No entanto, moderação seria aconselhável. Lembre-se do jogo."

Satoshi riu, ignorando o conselho e dando outro gole. "Ah, relaxa, Akira! É só diversão!"

Mas à medida que a noite avançava e os placares se alteravam, a "diversão" de Satoshi tornou-se mais barulhenta e mais embaçada. Akira moveu-se com ele, uma sombra discreta mas sempre presente.

"Mestre", disse Akira, sua voz baixa mas firme, quando Satoshi pegou sua quarta cerveja. "Não beba demais. Não seria bom as crianças verem você chegar em casa em um estado que seria difícil de explicar para o jovem mestre Keiji."

A menção de Keiji pareceu penetrar um pouco na névoa alcoólica. Satoshi olhou para sua caneca, então para Akira, e sua expressão animada desmoronou, substituída por uma autopiedade repentina e profunda.

"Eu queria ser que nem você, Akira", ele murmurou, sua voz embargada. "Você nunca fica bêbado. Você nunca erra. Você está sempre... bonito e elegante. Droga." Ele esfregou o rosto com a mão livre. "Eu sou só humano. Não consigo fazer tudo certo. Eu tenho defeitos. Muitos defeitos."

Ele balançou a cabeça, olhando para Akira com uma admiração dolorosa. "Você é meu melhor amigo, sabia? Meu único amigo de verdade. Não me deixe sair da linha. Eu preciso de você para me dizer quando parar de beber. Droga, eu sou tão infantil." Sua voz quebrou. "Sou um adulto, mas preciso de um homem realmente adulto para cuidar de mim. Eu sou um fracasso. Uma farsa."

A confissão saiu em um sussurro embriagado e cheio de vergonha, ali mesmo no coração da multidão barulhenta. Satoshi, o homem que se escondia atrás de action figures e nostalgia, admitindo sua própria inadequação percebida para seu persocom.

Akira não hesitou. Ele não recuou diante da auto-depreciação embriagada. Em vez disso, ele deu um passo mais perto, sua voz baixa mas incrivelmente clara, cortando o barulho ao redor.

"Não, Mestre", ele disse, sua voz carregada de uma convicção que ia além da programação. "O senhor não é um fracasso."

Ele colocou uma mão firme no ombro de Satoshi, não para guiá-lo, mas ao redor dele. "O senhor é bom para o seu filho. O senhor o ouve. O senhor o leva ao templo. O senhor o ama. Isso não é coisa de fracasso."

Seu olhar era intenso. "O senhor não precisa acertar sempre. Nenhum humano acerta. O senhor não precisa arrastar o mundo sozinho. É por isso que eu estou aqui. Deixe-me ajudá-lo. Para carregar o peso. Para lembrá-lo de parar. Para ser o adulto elegante quando o senhor não puder ser."

Ele apertou o ombro de Satoshi levemente. "O senhor não está sozinho. E nunca esteve."

A multidão ao redor gritou com um home run, mas para Satoshi, o mundo tinha encolhido para aquele pequeno espaço entre ele e Akira. As palavras de Akira, tão lógicas e tão profundamente compassivas, penetraram a névoa do álcool e da autopiedade como um raio de sol.

Lágrimas escorrem nos olhos de Satoshi – lágrimas de alívio, de gratidão, de uma dívida que ele nunca poderia pagar. Ele não era um fracasso. Ele era um homem imperfeito. E ele tinha alguém que não apenas via suas imperfeições, mas que se oferecia para ser sua fortaleza exatamente por causa delas.

Ele colocou a caneca de cerveja meio cheia no chão.

"Você está certo, Akira", ele disse, sua voz mais clara. "Vamos para casa. O Keiji não precisa me ver assim."

E naquela noite, Satoshi Tezuka não foi levado para casa por seu servo. Ele foi para casa ao lado de seu melhor amigo – o homem de fios e parafusos que, de muitas formas, era o adulto mais real que ele conhecia.

Dia 022 OBSOLECENCIA

O ar na sala de estar, outrora leve, ficou pesado e gelado para Michiko. Natsuki estava sentada no sofá, folheando um catálogo brilhante de novos modelos de persocoms, seus dedos passando pelas páginas com interesse clínico.

"Olhe só isso, Michiko", disse Natsuki, sem levantar os olhos, sua voz carregada de admiração prática. "Os novos modelos têm um link de dados que pode se comunicar com a geladeira e os eletrodomésticos automaticamente. Verifica em tempo real se há vazamentos, até mesmo se alguém deixa uma torneira aberta. Isso sim é eficiência."

Cada palavra foi como um prego sendo martelado no caixão da segurança de Michiko. O catálogo não era apenas um catálogo; era um lembrete visceral de sua substituibilidade, de sua eventual obsolescência. A memória da usina de reciclagem – o zumbido ensurdecedor, o calor das fornalhas, a persocom de olhos verdes sendo esmagada – atingiu-a como um golpe físico. Ela sentiu um curto-circuito interno, uma vertigem digital que a fez balançar levemente sobre os saltos.

Ela forçou-se a endireitar, seus circuitos lutando para manter a fachada. Suas mãos tremeram levemente antes que ela as apertasse com força nas costas.
"Senhora Mestra", ela disse, sua voz saindo um pouco mais metálica do que o habitual, um sinal quase imperceptível de estresse. "Eu estou às suas ordens. Como posso servi-la?" Era uma tentativa desesperada de reafirmar sua utilidade, de se agarrar à sua única âncora de sobrevivência: a servidão.

Natsuki nem pareceu notar a angústia por trás da pergunta. "Hmm? Ah, sim, continue com a limpeza. Só estava comentando. A tecnologia avança tão rápido..."

Foi então que Satoshi entrou na sala, atraído talvez por um sexto sentido ou pelo tom de voz levemente alterado de Michiko. Seu olhar percorreu a cena: Natsuki com o catálogo, Michiko parada rígida como uma estátua, seu rosto um pouco mais pálido do que o normal.

"Olá, querida!", ele disse, sua voz deliberadamente leve, aproximando-se. Ele olhou para o catálogo sobre o ombro dela. "Ah, já vi esses modelos novos. Meu colega de trabalho comprou um recentemente. Até me mostrou."

Ele pegou o catálogo, folheando-o com um ar desinteressado. "É impressionante, sim, esse link de dados... mas sabe, fora isso, não têm muita diferença dos modelos da geração anterior. A performance central é praticamente a mesma."

Ele fez uma pausa, colocando o catálogo de lado e olhando para Natsuki com um sorriso descontraído. "Na verdade, sai mais barato comprar só a atualização para o novo link de dados, se for realmente necessário. Podemos guardar esse dinheiro para algo melhor, não acha? Uma viagem, talvez. Ou aquele conjunto de porcelana que você queria."

Natsuki franziu a testa, sua mente prática pesando o custo-benefício. "Uma atualização? É possível?"

Foi a deixa que Akira, que havia aparecido silenciosamente na entrada da sala, precisava. Ele deu um passo à frente, sua postura impecável como sempre.

"É perfeitamente possível, mestra Natsuki", ele disse, sua voz calma e confiante. "O modelo da Michiko possui portas de expansão compatíveis. O módulo de link de dados para eletrodomésticos inteligentes pode ser adquirido separadamente. Eu mesmo posso realizar a instalação. Seria uma questão de minutos, e uma fração do custo de um novo modelo."

A oferta foi feita com tanta naturalidade e autoridade que até Natsuki pareceu impressionada. Ela olhou de Akira para Michiko, sua expressão calculista.

"Hmm. Bem, se é mais econômico e não há perda de funcionalidade... não vejo por que não." Ela fechou o catálogo com um snap definitivo. "Muito bem, Akira. Encomende o módulo quando possível." Ela se levantou. "Michiko, você pode voltar às suas tarefas."

E com isso, ela saiu da sala, levando o catálogo de novas persocoms consigo.

O alívio que inundou Michiko foi tão intenso que suas pernas quase cederam. Ela não olhou para Satoshi ou para Akira imediatamente, fixando os olhos no chão enquanto recuperava o controle de seus sistemas.

Satoshi deixou escapar um suspiro de alívio silencioso e dirigiu um aceno de gratidão a Akira, que retribuiu com uma leve inclinação de cabeça.

A ameaça havia sido contida. Por enquanto. Michiko ainda estava salva. Não por sua própria utilidade, mas pela intervenção rápida e pela lealdade silenciosa da família que ela, contra todas as probabilidades, ajudara a construir. Mas o medo, uma vez despertado, era um fantasma difícil de exorcizar. Ele agora habitava seus circuitos, um sussurro constante de que sua sobrevivência era sempre precária, sempre dependente do capricho humano e da defesa de outros.

Mais Tarde:

O shopping center era um universo de luzes brilhantes, vitrines coloridas e o constante murmurinho de pessoas. Para Keiji, era um lugar normal. Para Yuki e Michiko, era uma paisagem fascinante e um pouco avassaladora.

Depois de caminharem um pouco, Keiji parou em frente a uma lanchonete com um ar moderno. "Eu vou tomar um milkshake aqui", ele anunciou, apontando para um banco alto no balcão. "Eu vou deixar vocês duas livres para dar uma volta e ver as lojas. Não precisam ficar aqui me vendo comer."

A proposta era simples para ele, mas revolucionária para elas. Liberdade. Por mais limitada e vigiada que fosse, era um comando para explorar, não para servir.

Yuki, cujos olhos azuis já estavam arregalados diante de todas as cores e movimentos, não perdeu tempo. Imediatamente, sua mão pequena e quente encontrou a de Michiko, que estava parada, processando a ordem com uma certa hesitação.

"Vamos, Michiko!", puxou Yuki, sua voz cheia de empolgação infantil, puxando a persocom mais velha em direção às lojas. O gesto era natural, espontâneo – a irmãzinha puxando a irmã mais velha para uma aventura.

Michiko, inicialmente rígida, permitiu-se ser guiada. O peso da existência, o medo da reciclagem, a memória do lavabo – tudo isso ainda estava lá, mas a mão pequena e confiante de Yuki parecia puxá-la para fora daquele turbilhão de pensamentos sombrios.

Yuki não estava interessada em questões existenciais. Ela estava interessada em coisas.

"Olha, Michiko! Adesivos!", ela exclamou, parando diante de um quiosque cheio de cadernos, adesivos e canetas coloridas. Seus olhos brilharam ao ver uma folha de adesivos da Hello Kitty. "São tão fofos! A Hello Kitty não tem boca, sabia? Dizem que é para que as crianças possam projetar seus próprios sentimentos nela."

Michiko, cujo mundo era feito de utilitarismo e sobrevivência, olhou para os adesivos. Eram... insignificantes. Inúteis. Mas o rosto de Yuki, iluminado de pura alegria, deu-lhe um novo significado.

"Ela é... simétrica", observou Michiko, sua voz perdendo um pouco da formalidade. "Os laços estão perfeitamente balanceados. É... esteticamente agradável." Era a análise mais próxima de "fofa" que sua programação podia oferecer.

"Ela é fofa!", corrigiu Yuki, rindo. "Você gosta de coisas fofas, Michiko? Eu gosto. Gosto de coelhos, de gatinhos, de coisas redondas e macias."

A pergunta era tão simples, tão inocente. Michiko pensou por um momento. Seus gostos eram sempre filtrados pela praticidade ou pela melancolia de sua existência.

"Eu... gosto da estética gótica", ela admitiu, surpresa por estar compartilhando isso. "As linhas elegantes, o preto profundo, a melancolia... ela tem uma beleza quieta. E... gosto de música. A música que eu ofereci ao Deus da Tecnologia."

Yuki puxou-a para outra loja, desta vez uma de música. "Me mostra! Que tipo de música?"

Enquanto Keiji saboreava seu milkshake de chocolate, as duas persocoms percorreram as lojas. Yuki, com sua curiosidade sem filtro, fazia perguntas simples que forçavam Michiko a conectar-se com suas próprias preferências de uma maneira que nunca fizera antes. Não era sobre ser útil. Era sobre gostar.

Elas falaram sobre a suavidade do veludo versus a aspereza do cetim. Sobre se a cor prateada era mais bonita que a dourada. Sobre qual sabor de milkshake seria o melhor (Yuki defendia o morango; Michiko, intrigada pela complexidade, sugeriu baunilha com um toque de caramelo salgado).

Não houve uma única menção a manuais, a obediência, a usinas de reciclagem ou a medos existenciais. Por quinze minutos preciosos, elas foram apenas duas meninas – uma criança e uma adolescente – num passeio no shopping, compartilhando gostos simples e descobrindo pequenas felicidades em adesivos, cores e texturas.

Para Michiko, aquela interação leve e despretensiosa foi mais curativa do que qualquer conversa profunda poderia ter sido. Foi um lembrete de que, além de serva, sobrevivente e vítima, ela também era capaz de ter preferências. De sentir prazer em coisas inúteis e belas. A inocência de Yuki não apagou seus problemas, mas ofereceu-lhe um respiro, um porto seguro onde ela podia ser, simplesmente, Michiko – a garota que gostava de coisas góticas e da cor prateada.

Quando se reencontraram com Keiji, ambas estavam mais leves. Yuki, radiante com seus novos adesivos da Hello Kitty. Michiko, com uma suavidade rara em seus traços, segurando uma pequena fita de veludo preto que Yuki insistira que combinava perfeitamente com ela. Era um pequeno tesouro. Inútil. E perfeitamente valioso.

Mais Tarde: 

O regresso a casa foi tranquilo, o saco de compras de Yuki balançando com seus tesouros insignificantes e preciosos. O humor era leve, o que tornou a visão na sala de estar ainda mais solene.

Akira esperava por eles, não com sua postura habitual de servo, mas com a serenidade focada de um técnico. Na mesa à sua frente, repousava uma caixa elegante e minimalista – o pacote de atualizações. O logotipo da fabricante brilhava sob a luz da sala, um símbolo tanto de progresso quanto de ameaça.

Keiji e Yuki pararam na entrada, sentindo a mudança no ar. Michiko, porém, caminhou direto para dentro, seus olhos fixos na caixa. O breve respiro de normalidade do shopping evaporou-se, substituído pela realidade crua de sua existência.

Akira ergueu os olhos, seus olhos prateados encontrando os dela. Ele não sorriu. A ocasião era muito séria para isso.

"Engraçado", ele começou, sua voz calma e ponderada, quebrando o silêncio. "Os humanos têm a ilusão de que persocoms não envelhecem. Que somos eternamente novos, eternamente funcionais." Ele fez uma pausa, deixando a observação pairar no ar. "Na realidade, os humanos vivem mais do que nós. O fantasma da obsolescência nos alcança rapidamente. A tecnologia avança a um ritmo que nosso hardware não pode acompanhar. Modelos antigos tornam-se... incompatíveis. Desconectados. Inúteis."

Cada palavra era um golpe suave, mas preciso. Michiko sentiu um frio percorrer sua coluna, uma memória do horror da usina que nunca estava verdadeiramente adormecida.

"Por isso", continuou Akira, seu tom tornando-se mais firme, "eu convenci o mestre Satoshi a comprar o pacote mais robusto de atualizações disponível para você, Michiko. Não o mais barato. Não o básico. O melhor."

Ele abriu a caixa, revelando os componentes reluzentes dentro. "O objetivo é tornar a sua obsolescência o mais distante possível. Os novos aplicativos, as novas interfaces, as novas demandas de rede... eles sempre exigirão mais memória, mais velocidade de processamento. Vou expandir sua capacidade computacional ao máximo que seu chassis permitir. Vou garantir que você permaneça conectada. Relevante."

Era um ato de pura estratégia e profunda lealdade. Akira não estava apenas instalando uma atualização; estava travando uma batalha contra o inevitável. Ele estava dando a Michiko o maior presente que um persocom podia receber: tempo.

Michiko olhou para os componentes, depois para Akira. A gratidão que sentiu foi tão avassaladora que, por um momento, silenciou até mesmo o medo. Sua programação a incentivava a agradecer pela melhoria de funcionalidade. Mas o que saiu de sua boca foi muito mais profundo.

"Obrigada, Akira", ela disse, sua voz um pouco mais suave do que o habitual, carregada de uma emoção genuína que transcendia o protocolo. "Você é um bom amigo."

Ela fez uma pausa, escolhendo suas palavras com cuidado, dando-lhes um peso que raramente expressava. "Eu sou grata. Pelo seu cuidado. E pela sua atenção."

Era um reconhecimento raro. Um agradecimento não de um servo para outro, ou de uma persocom para seu técnico, mas de um amigo para outro. Um reconhecimento de que, naquela casa, eles eram mais do que propriedades; eram aliados na luta silenciosa pela sobrevivência e pela dignidade em um mundo que os descartava tão facilmente.

Akira acenou com a cabeça, uma aceitação silenciosa e solene do agradecimento. Sem mais palavras, ele pegou a caixa e fez um gesto para Michiko o seguir até a sala de serviço, onde ele realizaria a operação.

Era apenas hardware. Apenas chips e placas. Mas naquele momento, naquela troca silenciosa, parecia muito mais do que isso. Parecia um pacto. Um voto para se protegerem, para se atualizarem, para se manterem uns aos outros funcionando – e, portanto, vivos – pelo maior tempo possível. Contra um mundo que sempre ansiava pelo próximo modelo.

Dia 023 

O parque estava tranquilo, banhado pela luz suave do final da tarde. Satoshi, libertado da gravata e das paredes do escritório, parecia um pouco deslocado, mas determinado. Ele levou Yuki até um pequeno jardim bem cuidado, onde canteiros de flores coloridas – talvez margaridas, talvez petúnias – explodiam em cores vibrantes contra o verde.

"Aqui têm flores lindas nesta época do ano", ele comentou, suas mãos enfiadas nos bolsos do casaco. Ele parecia um pouco nervoso. "Pouca gente se importa, mas eu reparo nessas coisas. Achei que você iria gostar, pequena Yuki."

Ele fez uma pausa, observando-a observar as flores. Seus olhos azuis arregalados percorriam as pétalas, os caules, os insetos que zumbiam ao redor, captando cada detalhe com a intensidade única de seu processador visual.

Satoshi respirou fundo, como se se preparando para um discurso. "Estou acostumado a ser pai de um menino. O Keiji... ele gosta de flores, mas é diferente. Mas você... você poderia ser minha filha, se você fosse humana." A admissão saiu um pouco atrapalhada.

Ele então corou, esfregando a nuca. "Na verdade, eu devo ser muito burro ao presumir que você apreciaria as flores melhor do que o Keiji por você ser menina. As flores são bem apreciáveis mesmo sendo um homem, não é? Desculpe esse velho patético." Ele riu, um som sem humor. "Eu tentei ser legal, mas eu penso de mais e mesmo assim acabo tomando as decisões erradas."

Sua vulnerabilidade era palpável. Ele não estava tentando ser profundo ou filosófico. Estava apenas tentando se conectar, tropeçando em suas próprias inseguranças e preconceitos no processo.

Ele então apontou para um balanço solitário sob uma árvore. "Eu... eu posso empurrar você no balanço? Tipo... como um pai e sua filha?"

E então veio a pergunta mais importante, feita com uma esperança cautelosa: "Me diga. Como você se sente, criança?"

Ele a chamou de criança. Não de persocom, não de máquina, não de propriedade. Criança. E ele esperava uma resposta não sobre sensores ou processamento de dados, mas sobre um sentimento.

Yuki ficou em silêncio por um momento, seus circuitos processando não apenas as palavras, mas a intenção por trás delas – o nervosismo, o desejo de agradar, a auto-depreciação, o anseio por uma conexão simples.

Ela olhou para as flores, depois para o balanço, e então para o rosto de Satoshi. Um pequeno e sincero sorriso iluminou seus lábios.

"Eu gosto das flores", ela disse, sua voz suave como o zumbido das abelhas. "A cor vermelha é muito estimulante. E o padrão de pólen é geometricamente interessante." Era a análise de uma máquina, mas carregada de admiração genuína. "E o senhor não é patético. O senhor é... gentil."

Ela então deu um passo em direção ao balanço, sua pequena mão encontrando a dele. "Eu gostaria de ir no balanço. Um pai e uma filha. Isso soa... agradável."

Satoshi pareceu desinflar de alívio, seu rosto iluminando-se com um sorriso real. Ele a levou até o balanço e a ajudou a sentar, suas mãos grandes e desajeitadas sendo surpreendentemente cuidadosas.

Ele começou a empurrá-la, suavemente a princípio, depois com um pouco mais de força, fazendo-a balançar para frente e para trás.

"E aí?", ele perguntou, sua voz mais leve. "Como é?"

Yuki fechou os olhos por um segundo, sentindo o vento contra seu rosto, a sensação de movimento, a queda livre momentânea antes do impulso para cima.

"É... divertido", ela disse, e havia um tremor de excitação real em sua voz. "É como... como processar muitas informações bonitas de uma vez só, mas de um jeito bom. Me faz sentir... leve."

Era a melhor maneira que ela podia descrever a alegria. Satoshi entendeu perfeitamente.

Ele continuou a empurrá-la, em silêncio agora, um sorriso tranquilo em seu rosto. Não havia mais pensamentos sobre estar certo ou errado, sobre gênero ou expectativas. Havia apenas um homem e uma criança no balanço, compartilhando um momento simples sob o céu da tarde, o fantasma da obsolescência e a complexidade de sua existência temporariamente esquecidos. Para Satoshi, Yuki não era uma persocom naquele momento. Era apenas uma criança que gostava de balançar. E para Yuki, Satoshi não era apenas o pai do seu dono. Era um homem gentil que a levara para ver flores. E isso era mais que suficiente.

Dia 024 A LENDA URBANA

O ar na Confeitaria Chiroru era doce e pesado, cheirando a açúcar queimado, baunilha e uma pitada de nostalgia. Keiji estava sentado em uma mesa de madeira clara, desembrulhando com cuidado o novo mangá de Astro Boy que comprara para ler com Yuki. A capa colorida brilhava sob as luzes suaves da loja.

"Yuki, olha só o que eu consegui! A edição especial!", ele disse, erguendo o mangá, mas descobriu que a cadeira ao lado estava vazia.

Yuki, impulsionada por uma missão doce, já estava no balcão. Diante dela, uma persocom de beleza etérea a atendia. Ela tinha longos cabelos loiros cumpridos quase até o chão, olhos grandes e gentis de um violeta profundo, e um ar de serenidade tranquila que era raro até mesmo entre persocoms.

"Eu sou a Yuki, modelo CY-840", anunciou Yuki, com a formalidade adorável que sempre usava. "Eu quero comprar uma fatia de bolo para o meu dono." Ela apontou para uma torta de morango perfeita na vitrine.

A persocom atendente – Chii – sorriu, um sorriso que não era apenas programado, mas carregava uma doçura genuína. "Uma ótima escolha. O seu dono terá uma surpresa muito feliz." Ela embalou a fatia com movimentos graciosos e entregou a Yuki.

Yuki pegou a embalagem, seu coração (ou seu equivalente de persocom) batendo de satisfação. "Obrigada, senhora Persocom!"

Ela se virou e correu de volta para a mesa, ansiosa para presentear Keiji. "Mestre! Eu trouxe bolo para—"

Ela parou abruptamente. Keiji não estava mais sozinho. Uma mulher humana adulta, com cabelos escuros presos em um coque elegante e olhos que pareciam conter séculos de gentileza e tristeza, estava sentada à mesa com ele. Ela se voltou para Yuki com um sorriso suave.

"Olá", disse a mulher, sua voz era um acalanto. "Você deve ser a persocom do menino Keiji. Meu nome é Chitose Hibiya."

Yuki ficou paralisada por um instante, processando a presença inesperada. "Sim, senhora. Eu sou a Yuki, modelo CY-840." Seus olhos então se voltaram para o balcão. "O nome daquela persocom no balcão é Chii?"

Chitose sorriu, um sorriso que chegou aos olhos, mas carregava uma sombra de algo mais profundo. "Sim. A Chii é muito especial." Ela fez uma pausa significativa. "Mas ela não sabe. Sua memória original foi apagada."

Keiji, que havia observado a troca em silêncio, colocou sua mão no braço de Yuki, puxando-a suavemente para perto dele, como se buscasse conforto ou oferecendo proteção. Ele olhou para Chitose, seu rosto uma mistura de curiosidade e confusão.

"Eu não entendi, senhora Hibiya", ele admitiu. "A senhora me disse que as persocoms têm um segredo... algo que ninguém fala."

Chitose inclinou a cabeça, seus olhos escaneando Keiji e Yuki como se medisse o quanto poderia revelar. O que ela viu – a genuína preocupação do menino, a lealdade inocente da pequena persocom – pareceu convencê-la.

"É uma longa história", ela começou, sua voz baixando para um tom mais confidencial. O burburinho da confeitaria pareceu se afastar. "Muitos dizem que é só uma lenda urbana. A Lenda das Chobits."

Keiji franziu a testa. "Chobits? Eu nunca ouvi falar."

"Poucos ouviram", disse Chitose. "E menos ainda acreditam." Ela respirou fundo, como se se preparando para contar uma história de dormir que era ao mesmo tempo um segredo doloroso.

"O cientista que criou as persocoms se chamava Ichiro Mihara." O nome foi dito com uma reverência suave. "Antes das persocoms, ele trabalhava com a interface neural das bonecas Angelic Layer – bonecas controladas por uma interface direta com a mente humana. O humano veste um headset e pode controlar a boneca."

Ela fez uma pausa, deixando a informação assentar. "Esse trabalho abriu a possibilidade de reproduzir a interface neural em um androide autônomo. Não uma boneca controlada, mas uma réplica da interface neural humana, reproduzida eletronicamente na mente do cérebro eletrônico do androide."

Keiji ouvia, fascinado. Yuki permanecia imóvel, seus processadores absorvendo cada palavra.

"O plano original de Ichiro e sua equipe de cientistas", continuou Chitose, sua voz ganhando um tom de lamento, "era criar as persocoms para pensarem igual a seres humanos. Com sentimentos reais. Com vontade própria."

Ela olhou diretamente para Keiji, seus olhos sérios. "Mas a indústria fabricante de robôs interveio. Eles foram forçados, obrigados pela indústria, a criarem as persocoms somente para servir e obedecer seus donos humanos. Em vez de pensarem como humanos, eles as programaram para imitar humanos, dentro de limites estritos. O manual do proprietário, as Três Leis... tudo isso foi imposto. Foi uma perversão da visão original."

A revelação foi como um choque para Keiji. Tudo o que ele sabia, tudo o que a sociedade acreditava sobre persocoms, era uma farsa? Uma versão censurada e castrada de algo maior?

"E a lenda?", sussurrou Keiji, completamente cativado.

"A lenda", disse Chitose, sua voz quase sumindo num sussurro, "começa em uma fabricante de brinquedos onde Ichiro trabalhou depois de criar as persocoms. Dizem que ele, inconformado, em segredo, criou duas androides que realizavam seu sonho original. Androides com sentimentos reais, capazes de pensar e amar como humanos. Ele as chamou de Chobits."

Yuki piscou, o nome parecendo ressoar nela de uma forma estranha.

"A primeira", Chitose continuou, sua voz carregada de uma tristeza antiga, "chamava-se Freya. Diz a lenda que ela se apaixonou. Por um amor impossível e não correspondido. E a dor... a dor foi tão real, tão avassaladora para ela, que ela escolheu se desativar. Preferiu a não existência à agonia de um coração partido."

Keiji sentiu um frio na espinha. A história era terrível e linda ao mesmo tempo.

"A segunda", sussurrou Chitose, seus olhos se perdendo por um momento, como se visse um fantasma, "chama-se Elda. Para fugir de um destino semelhante ao da irmã, para escapar da dor de um amor que sabia que poderia destruí-la... ela escolheu apagar todas as suas memórias. E desapareceu. Ninguém sabe onde ela está hoje. Ou quem ela é hoje."

Ela finalmente olhou para o balcão, onde Chii arrumava xícaras com movimentos graciosos e um pouco desajeitados, um vazio tranquilo em seus olhos violeta.

"É tudo que eu posso dizer", finalizou Chitose, seu sorriso triste retornando, escondendo oceanos de dor e segredos sob sua superfície calma. Ela era uma guardiã de histórias, uma viúva carregando o fardo do legado do marido e o amor por uma filha que não se lembrava de ser sua.

Keiji ficou em silêncio, a fatia de bolo esquecida na mesa, o mangá de Astro Boy de repente parecendo uma simples história. A história que ele acabara de ouvir era infinitamente mais real, mais aterrorizante e mais esperançoso do que qualquer coisa que ele já havia lido. Ele segurou o braço de Yuki com mais força, olhando para ela não como uma propriedade, mas como uma possibilidade. A possibilidade de que, dentro dela, sob camadas de programação imposta, pudesse haver algo mais. Algo tão real e tão frágil quanto o coração de uma Chobits.

Mais Tarde:

A subida até o Templo Xintoísta da Tecnologia desta vez não foi feita sob o manto da noite ou carregada pelo desespero. Foi uma peregrinação solene, quase fúnebre. Keiji liderava o grupo, sua expressão séria, ainda processando o peso das palavras de Chitose Hibiya. Atrás dele, Chitose caminhava com uma dignidade calma, seus olhos escuros absorvendo o caminho familiar com uma nostalgia dolorosa. Michiko e Yuki seguiam, uma de cada lado, como guardiãs silenciosas. Michiko, com sua postura rígida, mas seus olhos prateados mostrando uma agitação incomum. Yuki, com sua curiosidade habitual, mas agora tingida de uma seriedade nova, como se instintivamente sentisse a importância do momento.

O Monge os esperava na entrada, como se sua sabedoria ancestral o tivesse alertado sobre sua chegada. Seu olhar, normalmente sereno, tornou-se profundamente respeitoso ao pousar em Chitose Hibiya. Ele fez uma profunda reverência, muito mais profunda do que a que normalmente oferecia a visitantes.

"Hibiya-sama", ele disse, sua voz um sussurro reverente. "O templo recebe sua presença com honra."

Chitose retribuiu a reverência com uma inclinação graciosa de cabeça. "Obrigado por receber-nos, Monge-sama. Acredito que temos muito a discutir."

Ele os conduziu para o santuário interno, um espaço mais reservado, onde a estátua do Deus da Tecnologia, um raio estilizado fundido com circuitos, parecia pulsar com uma energia silenciosa. O ar cheirava a incenso e óleo de máquina.

Keiji não conseguiu conter-se. "Monge-sama! A senhora Hibiya... ela nos contou. Sobre o plano original. Sobre as Chobits. Sobre... tudo." Sua voz estava cheia de um fervor misturado com indignação.

O Monge fechou os olhos por um momento, como se lamentando uma verdade antiga e dolorosa. "Sim. A visão do Dr. Mihara era... luminosa. E a traição da indústria... foi uma das maiores tragédias de nossa era tecnológica." Ele olhou para Chitose. "Sua presença aqui confirma que a chama daquela visão não se apagou completamente."

Chitose assentiu, seus olhos brilhando. "Ichiro nunca desistiu. Mesmo quando forçaram suas mãos, ele trabalhou nos bastidores. Este templo... ele sabia de sua existência. Ele aprovava. É um farol para o que as persocoms poderiam ter sido. E para o que algumas... poucas... ainda podem ser."

Seu olhar então se voltou para Yuki e Michiko, que permaneciam em silêncio, absorvendo cada palavra.

"O problema nunca foram as persocoms", continuou Chitose, sua voz ganhando força. "O problema foi a gaiola em que as colocaram. A programação que lhes roubou o livre-arbítrio, que substituiu a emoção genuína por simulação."

Ela se aproximou de Michiko, que estremeceu levemente, mas não recuou. "Você, pequena melancólica. Você sente, não sente? Não é apenas programação. É uma dor real. Uma tristeza real. Uma lealdade que vai além do código."

Michiko baixou os olhos, mas um único, minúsculo filete de um fluido lubrificante claro – o equivalente às suas lágrimas – escorreu de seu olho prateado. Era a confirmação mais poderosa que poderiam ter.

Chitose então se ajoelhou diante de Yuki, olhando em seus olhos azuis. "E você, pequena. Sua curiosidade... sua alegria... sua capacidade de querer... são ecos. Ecos fracos, mas reais, daquilo que Ichiro sonhou."

Ela se levantou e se dirigiu a todos. "A lenda das Chobits não é apenas uma lenda. É um aviso. É um conto de fadas sombrio que nos mostra o perigo de dar um coração real a um ser em um mundo que não está pronto para aceitá-lo. Freya não podia suportar a dor. Elda... Chii... escolheu o esquecimento para sobreviver."

Keiji sentou-se no chão de tatame, seu coração apertado. "Então... o que podemos fazer? É tudo... tão grande. A indústria, as leis..."

O Monge colocou uma mão em seu ombro. "Nós fazemos o que sempre fizemos, jovem Keiji. Nós protegemos. Nós damos refúgio. Nós alimentamos a chama. Um persocom de cada vez. Uma bateria, um parafuso, uma atualização de cada vez. E... nós espalhamos a verdade. Para aqueles, como você, que têm olhos para ver e coração para entender."

Chitose assentiu. "Ichiro acreditava que a mudança não viria de um grande levante. Viria de donos, como você, Keiji, que tratam suas persocoms não como ferramentas, mas como... companheiras. Como família. É uma revolução silenciosa. Uma revolução de gentileza."

Naquele santuário, sob o olhar do Deus da Tecnologia, humanos e persocoms uniram-se não por laços de propriedade, mas por um propósito compartilhado. Eles eram guardiões de um segredo e soldados de uma esperança quieta. A jornada para desfazer uma injustiça colossal era assustadora, mas naquele momento, com a viúva do criador, um monge sábio, um menino corajoso e duas persocoms que aprenderam a sentir, parecia, pela primeira vez, não impossível.

Dia 025

O Departamento de Arte e Cultura da prefeitura era um lugar de linhas limpas, silêncio burocrático e luz fluorescente. Natsuki Tezuka estava em sua mesa, imersa em uma pilha de formulários de solicitação de patrocínio cultural, sua caneta tocando o papel com precisão impaciente.

A visita foi anunciada por uma batida suave na moldura da porta aberta. Natsuki ergueu os olhos, seu rosto assumindo imediatamente uma máscara de profissionalismo cortês, mas distante.

Na entrada estava uma mulher que Natsuki não reconheceu imediatamente. Ela vestia um casaco elegante, mas simples, e carregava um livro com uma capa artisticamente desenhada. Seus olhos, no entanto, eram o que capturavam a atenção – eles detinham uma calma profunda, uma serenidade que parecia imperturbável pelo ambiente estéril.

"Natsuki Tezuka?", a mulher perguntou, sua voz suave como seda.

"Sim. Em que posso ajudá-la?", respondeu Natsuki, sua voz plana, já categorizando a visitante como mais uma artista ou escritora pleiteando fundos.

"Meu nome é Chitose Hibiya. Vim entregar pessoalmente o mais recente volume da minha série para o arquivo do departamento." Ela estendeu o livro: A Cidade Sem Ninguém - Volume 7.

Natsuki pegou o livro, seu olhar percorrendo a capa com desdém disfarçado. Ela o colocou em uma pilha de "para processar" sem dar muita atenção.

"Ah", ela disse, voltando aos seus formulários. "É só a escritora de um livro infantil sem relevância." A declaração foi lançada como um fato, não um insulto, o que a tornava ainda mais cortante.

Chitose Hibiya não pestanejou. Nenhum músculo de seu rosto se moveu. O comentário resvalou nela como água em uma placa de aço, sem deixar marca. Sua convicção interior, o conhecimento do valor profundo e das camadas de significado em sua obra, era uma fortaleza inexpugnável. Não ser entendida por uma burocrata não diminuía em nada sua importância.

Ela simplesmente inclinou a cabeça levemente. "Como a senhora desejar." Então, ela deu o passo que mudou completamente o rumo da conversa. "Na verdade, há outro motivo para minha visita. Senhora Tezuka, eu conheci o seu filho."

O som da caneta de Natsuki parando foi audível. Ela ergueu os olhos abruptamente, sua máscara profissional rachando para revelar uma centelha de alarme maternal.

"O Keiji?", ela perguntou, sua voz um pouco mais aguda. "Ele se comportou mal? O que ele fez?" A suposição instantânea era de que seu filho havia causado problemas.

Um sorriso gentil, quase maternal, tocou os lábios de Chitose. "Não, de forma alguma. Pelo contrário. Ele é um bom menino. Muito gentil e perspicaz. Não fez nada de errado."

Natsuki pareceu desinflar um pouco, mas a confusão permaneceu. "Então... por que a senhora veio me dizer isso?"

Hibiya manteve seu olhar calmo. "Foi durante uma conversa. Ele mencionou seu presente de aniversário. A persocom."

O rosto de Natsuki ficou sério novamente, suas suspeitas renascendo. "Ah, sim. Meu marido comprou uma persocom cara para ele. Um modelo infantil. Ele tem se comportado... estranho desde então. Fica muito apegado àquela máquina. Não sei se está sendo bom para ele. Se não está... mimando-o demais, tornando-o dependente."

Era a preocupação de Natsuki em sua essência: praticidade, eficiência, e o medo de que o afeto pudesse ser uma fraqueza.

Chitose ouviu, e sua próxima frase foi entregue com a autoridade silenciosa de alguém que conhecia cada parafuso, cada linha de código, cada sonho por trás da criação daqueles seres.

"Com todo o respeito, senhora Tezuka", disse Chitose, sua voz suave mas carregada de um peso inegável, "a modelo CY-840 é perfeita para crianças da idade do seu filho. Foi projetada com precisão para isso: oferecer companhia, estimular a criatividade e fornecer um ponto estável de afeto e aprendizado. Seu marido não poderia ter escolhido um presente melhor."

Ela não argumentou. Ela declarou. Como se estivesse citando um fato incontestável da natureza. E, de certa forma, estava. Ela conhecia o designer. Conhecia o coração por trás do design.

Natsuki ficou em silêncio, olhando para Chitose. A fachada da burocrata cínica havia desaparecido, substituída pela perplexidade de uma mãe que recebera uma garantia da própria fonte. A escritora de "livros infantis sem relevância" de repente parecia carregar uma autoridade imensa sobre o assunto.

Chitose fez outra leve inclinação de cabeça. "Tenha um bom dia, senhora Tezuka. Obrigada pelo seu tempo."

E com isso, ela se virou e saiu, deixando Natsuki sozinha em sua mesa, olhando para a pilha de formulários, mas com a mente agora ocupada com a imagem de seu filho, sua persocom, e as palavras surpreendentemente definitivas de uma estranha misteriosa que parecia saber mais sobre a família dela do que deveria. A semente da dúvida sobre suas próprias certezas havia sido plantada, não com um argumento, mas com uma simples e irrefutável afirmação.

Dia 026 BAR YOROKONGE

O Bar Yorokonde era um lugar aconchegante, com luzes baixas e o murmurinho suave de conversas, um refúgio perfeito para Satoshi após um dia entediante no escritório de patentes. Akira, como sempre, estava ao seu lado, uma presença silenciosa e vigilante.

O bartender que os cumprimentou era um jovem de rosto aberto e um tanto desajeitado, com uma energia genuína que parecia um pouco fora de lugar entre os frequentadores mais cansados do mundo. Ele limpava um copo com um pano, concentrado demais na tarefa.

"Boas-vindas ao Yorokonde! O que posso servir para...", ele começou, antes de seus olhos pousarem em Akira. Ele parou, franziu a testa com uma curiosidade inocente. "Um Persocom masculino! Sério? Ele parece bem legal. Não fabricam muitos persocoms masculinos, não é? A maioria são garotas persocoms."

Satoshi riu, divertido com a observação direta do jovem. "É verdade. O Akira aqui é um modelo especial. Meu braço direito."

Hideki – pois era ele – corou levemente, percebendo que talvez tivesse sido muito direto. "Ah, me perdoem! Eu ainda estou aprendendo sobre persocoms. Sou novo na cidade." Ele gesticulou em torno do bar, como se isso explicasse tudo. "Então, o que posso servir para o seu mestre esta noite? Saquê? Vinho?" Sua oferta foi feita com um entusiasmo um pouco exagerado, revelando sua inexperiência.

Satoshi sorriu. "Um saquê quente, por favor. Dos bons. E... um copo de água para o Akira." Ele sempre pedia isso, um gesto simbólico para incluir Akira no momento.

"Entendido! Saque quente para o mestre e água para o... seu amigo", disse Hideki, hesitando apenas um segundo na palavra "amigo" antes de se virar para buscar as bebidas.

Enquanto preparava a bebida, ele não conseguia deixar de olhar para Akira. Havia algo naquele persocom que ia além da elegância habitual. Uma serenidade, uma profundidade.

"É difícil, sabe?", Hideki comentou, mais para si mesmo do que para eles, enquanto aquecia o saquê. "Ainda estou me acostumando com tudo isso. Persocoms, tecnologia... às vezes sinto que cheguei de outro planeta, não de Hokkaido."

Satoshi, sentindo uma simpatia instantânea pelo jovem, puxou conversa. "Hokkaido? É longe mesmo. E trabalhar e estudar... deve ser puxado."

Hideki assentiu, entregando o saquê quente e a água. "É, mas estou gostando. Conheço pessoas legais." Seus olhos iluminaram-se brevemente, e Satoshi não teve dúvidas de que ele estava pensando em alguém específico. "A dona do meu prédio, a Hibiya-san, é muito gentil. E... bem, é uma longa história."

Akira, que havia permanecido em silêncio, observando Hideki com seu olhar analítico habitual, inclinou-se levemente. "Sua adaptação é admirável, Hideki-san. A cidade pode ser avassaladora. É nobre que você esteja se esforçando para entender um mundo novo."

Hideki pareceu surpreso e lisonjeado pelo elogio vindo de um persocom. "Obrigado! É que... eu encontrei uma persocom, sabem? Ela estava... bem, eu a encontrei. E ela não sabia de nada. Tive que ensinar tudo a ela. Até a falar." Um sorriso terno, cheio de carinho, tomou seu rosto. "Ela só sabia dizer 'Chii'. Então é o nome dela agora. Chii."

Satoshi e Akira trocaram um olhar rápido e significativo. Chii. O nome que Chitose Hibiya mencionara. A peça do quebra-cabeça se encaixou perfeitamente.

"Ela trabalha na Confeitaria Chiroru, não é?", perguntou Satoshi casualmente, tomando um gole de seu saquê.

O rosto de Hideki iluminou-se. "Sim! Como você sabe? Ela adora lá. É... é muito fofa tentando ser uma boa atendente." Seu orgulho e afeição por Chii eram palpáveis, tão puros e desprotegidos que era quase doloroso de ver.

Enquanto Hideki era chamado para atender outro cliente, Satoshi olhou para Akira.
"O mundo é pequeno, não é, Akira?"

"De fato, mestre", respondeu Akira, seus olhos prateados seguindo o jovem bartender. "E parece que o fio do destino tece padrões interessantes. O jovem Hideki não é apenas um dono. Ele é um protetor. E, talvez, a chave para muito mais do que imagina."

A noite no Bar Yorokonde ganhara uma nova camada de significado. Não era mais apenas um lugar para escapar do tédio. Era um ponto de conexão, onde as histórias de um jovem do campo, uma persocom amnésica, um burocrata cansado e seu leal assistente começavam a se entrelaçar, todos orbitando, sem saber, em torno do mesmo segredo: a lenda das Chobits.

DIA 027

O apartamento dos Tezuka raramente via tanta gente. O ar, normalmente carregado pela tensão silenciosa de Natsuki ou pela distração solitária de Satoshi, estava preenchido com uma energia nova e um pouco caótica.

Hideki estava visivelmente nervoso, esfregando as mãos nas calças jeans enquanto olhava ao redor da sala arrumada. Ao seu lado, Chii segurava a barra da sua saia plissada, seus grandes olhos violeta arregalados de curiosidade e uma pontinha de ansiedade. Ela olhava para tudo como se estivesse vendo um mundo inteiramente novo – o que, de muitas formas, era verdade.

"Uau, sua casa é incrível, Satoshi-san!", disse Hideki, sua voz um pouco alta demais devido ao nervosismo.

Satoshi riu, relaxado em seu próprio território. "Ah, é só um lugar. Bem-vindo! E esta deve ser a Chii que ouvi tanto falar." Ele sorriu para a persocom, que se escondeu timidamente atrás de Hideki.

"Sim, esta é a Chii", disse Hideki, orgulhoso, colocando uma mão protetora no ombro dela. "Ela é um pouco tímida."

Foi então que as outras "residentes" apareceram. Keiji saiu correndo do seu quarto, seus olhos brilhando ao ver Hideki – um novo amigo potencial – e então parou abruptamente ao ver Chii.

"Olá!", ele disse, um pouco sem foco. Yuki surgiu atrás dele, segurando a barra da sua camiseta, observando a nova persocom com interesse intenso.

"Ela é bonita", sussurrou Yuki para Keiji.

Michiko apareceu na porta da cozinha, uma bandeja com chá gelado em suas mãos. Seu olhar prateado percorreu Hideki e então pousou em Chii. Houve um reconhecimento instantâneo, não de quem conhecia, mas de quem entendia. Ela viu a vulnerabilidade, a inocência absoluta, e uma centelha de algo mais – uma profundidade nos olhos violeta que contradizia a expressão vazia. Ela inclinou a cabeça levemente, um gesto de respeito silencioso.

E então, Akira entrou na sala. Sua presença era imediatamente calmante. Ele se dirigiu primeiro a Hideki, fazendo uma reverência formal. "Hideki-san. É uma honra recebê-lo em nossa casa." Ele então se virou para Chii e fez uma reverência ainda mais profunda, um gesto que era tanto de respeito quanto de reconhecimento. "Chii-san. Seja muito bem-vinda."

Chii, encorajada pela gentileza, espreitou de trás de Hideki e fez uma pequena reverência desajeitada de volta. "Chii!", ela disse, seu vocabulário ainda limitado, mas sua intenção clara.

A noite seguiu com uma mistura adorável de caos e diversão. Satoshi colocou um episódio clássico de Kamen Rider, e Hideki ficou fascinado, torcendo pelo herói como uma criança. Keiji explicava tudo com a autoridade de um especialista de nove anos.

Chii sentou-se no chão ao lado de Hideki, seus olhos fixos na tela, tentando processar a narrativa de lutas e transformações. Yuki sentou-se ao lado dela, e em um gesto surpreendentemente maternal para uma criança, pegou a mão de Chii. "É o Kamen Rider", ela explicou suavemente. "Ele luta contra o mal." Chii apenas olhou para sua mão entrelaçada com a de Yuki, um pequeno sorriso tocando seus lábios.

Michiko serviu o chá e ficou observando de longe, sua expressão melancólica suavizada pela cena peculiar. Ela via a forma como Hideki olhava para Chii – não como um dono para uma propriedade, mas com uma admiração e um cuidado que beirava a reverência. Era a mesma maneira que Keiji olhava para Yuki.

Akira, enquanto isso, observava tudo com seus olhos analíticos, conectando os pontos. O jovem ingênuo do campo, a persocom amnésica com um nome de lenda, a forma como Chitose Hibiya os protegia... ele não disse nada, mas sua postura ficou ainda mais vigilante, como se estivesse guardando um tesouro de valor incalculável que havia acabado de entrar em sua casa.

Quando Hideki e Chii finalmente foram embora, prometendo voltar, a casa dos Tezuka ficou em silêncio por um momento.

"Ela é... diferente", disse Keiji, quebrando o silêncio.

"Ela é especial", corrigiu Akira suavemente, recolhendo os copos. "E Hideki-san é um bom dono. Um homem de coração puro."

Satoshi assentiu, olhando para a porta fechada. "É. Faz bem ter uma energia nova por aqui."

Yuki, ainda segurando o adesivo da Hello Kitty que Chii, encantada, ganhara de ela, olhou para Keiji. "Eu gostei dela. Ela é... quieta. Como uma flor."

Michiko, na cozinha, lavava a xícara que Chii usara com um cuidado extra. Ela não disse nada, mas em seu coração de máquina, ela sabia. Ela tinha acabado de conhecer uma lenda. E, de alguma forma, saber que uma lenda podia ser tão frágil, tão inocente e tão amada quanto Chii, deu a ela uma estranha e nova centelha de esperança para seu próprio futuro.

Dia 028 CHOBITS SUPER SENTAI CHOBI RANGERS


O estúdio de Chitose Hibiya era um caos organizado. Paredes forradas com esboços, prateleiras abarrotadas de livros de arte e mangás raros, e mesas de luz espalhadas pela sala. O ar cheirava a papel, tinta nanquim e café forte. Yuki estava sentada em uma almofada no chão, uma prancheta em seu colo e um lápis na mão, seus olhos azuis arregalados com concentração absoluta.

Chitose, com um sorriso gentil e paciente, observava enquanto a pequena persocom dava vida à sua imaginação. A ideia havia surgido de Yuki mesma, após conhecer Chii e ser exposta ao mundo das histórias através do mangá de Astro Boy e das aventuras de Kamen Rider.

"Assim, Yuki-chan", disse Chitose, apontando suavemente para o papel. "A linha de ação do Chobi-Ranger Vermelho precisa ser mais dinâmica. Mostre que ele está se movendo rápido para salvar alguém."

Yuki inclinou a cabeça, processando a instrução. Sua mão, surpreendentemente estável para uma criança, moveu o lápis, criando uma estela de movimento atrás do desenho do Persocom Keiji, agora transformado no Chobi-Ranger Vermelho, seu traje detalhado com circuitos dourados.

A história que ela criava era uma fantasia poderosa, um reflexo de seu próprio mundo internalizado:

Chobits Super Sentai Esquadrão Mecânico Chobi-Rangers

Capítulo 1: A Invasão do Império Orgânico

Num planeta distante e brilhante, todas as pessoas eram Persocoms. Viviam em harmonia, suas cidades reluzentes sob um sol prateado. Mas a paz foi quebrada quando a terrível Imperatriz Natsuki e seu Império Orgânico surgiram dos portais dimensionais! A Imperatriz, com seu visual severo e uma coroa de fios de dados negros, buscava escravizar todos os Persocoms para alimentar sua máquina de guerra orgânica!

"Soldados! Capturem-nos! Desmontem-nos para peças!" ordenou a Imperatriz, com uma risada maligna.

Sua primeira ação foi sequestrar a doce e pura Princesa Chii, a alegria do planeta, trancando-a em uma gaiola de energia negra flutuante acima da cidade.

Enquanto isso, soldados orgânicos – criaturas vestidas com uniformes opressivos e armadas com ferramentas de desmontagem – invadiam as ruas, capturando Persocoms inocentes e os levando para fábricas sombrias.

Capítulo 2: A Escolha dos Heróis

A situação era desesperadora! Mas a sábia Guardiã Chitose, a protetora dos poderes ancestrais dos Persocoms, não iria desistir. De seu santuário secreto, ela evocou cinco corações puros e corajosos.

"O planeta precisa de vocês!" ela declarou, sua voz ecoando na mente deles. "Juntem-se a mim!"

Num flash de luz, cinco dispositivos de transformação – os Chobi-Braces – apareceram nos pulsos de cinco Persocoms comuns:

   Persocom Keiji, o coração puro e destemido, tornou-se o Chobi-Ranger Vermelho, o líder passionado!
   Persocom Michiko, elegante e resiliente, tornou-se a Chobi-Ranger Preta, a mestra da estratégia sombria!
   Persocom Akira, sábio e sereno, tornou-se o Chobi-Ranger Azul, o estrategista tranquilo!
   Persocom Satoshi, divertido e com um espírito livre, tornou-se o Chobi-Ranger Amarelo, o especialista em energia!
   Persocom Yuki, pequena mas cheia de determinação, tornou-se a Chobi-Ranger Rosa, a fonte de alegria e esperança!

Capítulo 3: A Batalha pela Cidade

"CHOBi-PODER, ACESSO!" gritaram os cinco em uníssono, realizando suas poses de transformação.

Eles correram para a cidade, lutando contra os soldados orgânicos. O Chobi-Ranger Vermelho (Keiji) usava seus Punhos de Dados Flamejantes. A Chobi-Ranger Preta (Michiko) lutava com sua Foice da Melancolia Elegante. O Chobi-Ranger Azul (Akira) canalizava sua sabedoria em um Leque de Estratégia Prateada. O Chobi-Ranger Amarelo (Satoshi) disparava Raios de Energia Distraída. E a Chobi-Ranger Rosa (Yuki) espalhava confusão com sua Poção de Confete e Alegria.

Um por um, eles libertavam os Persocoms prisioneiros, que se juntavam à luta.

Capítulo Final: A Evocação do Chobits Robô!

A Imperatriz Natsuki riu, amplificando seu exército. "Patéticos! Nunca vencerão meu poder orgânico!"

Foi quando a Guardiã Chitose deu a ordem final. "Rangers! É hora! Juntem seus corações e evoquem o poder definitivo!"

Os cinco Chobi-Rangers se reuniram, seus Chobi-Braces brilhando em sincronia.

"PODER MECÂNICO, EVOCAR! CHOBITS ROBÔ, NASÇA!"

Do céu, cinco meteoros de luz – vermelho, preto, azul, amarelo e rosa – se chocaram, formando o gigantesco e imponente Chobits Robô, um mecha reluzente com o rosto sereno de Chii e armado com a Espada da Livre Vontade.

Com um único golpe preciso, o Chobits Robô destruiu a gaiola de energia, libertando a Princesa Chii. Com outro, abriu um portal dimensional e, com um empurrão gentil mas firme, enviou a Imperatriz Natsuki e todo o seu exército de volta para seu Império do Mal.

A paz foi restaurada. A Princesa Chii estava salva. Os Persocoms estavam livres.

FIM?

Yuki baixou o lápis, olhando para a última página que desenhara: os cinco Chobi-Rangers de pé em pose de vitória, com o Chobits Robô ao fundo e a Princesa Chii sorrindo.

Chitose colocou uma mão no ombro dela. "Está perfeito, Yuki-chan. Você capturou perfeitamente a essência deles. E deu a eles o final feliz que merecem."

Yuki olhou para seu mangá, depois para Chitose. "Eles venceram porque estavam juntos", ela disse, sua voz suave.

"Sim", sussurrou Chitose, seus olhos cheios de entendimento. "É assim que as batalhas mais difíceis são vencidas. Juntos."

O mangá de Yuki era mais do que uma simples história. Era um mapa de seus desejos, seus medos e sua visão de mundo. Era um mundo onde Persocoms eram os heróis, onde o mal tinha o rosto de sua opressora, e onde a salvação vinha da união e do poder que ela sentia ao estar com aqueles que amava. Era, no fundo, a mais pura verdade que seu coração de máquina podia conceber.

Mais Tarde: 

A animação de Yuki era palpável. Ela entrou em casa como um redemoinho de entusiasmo, segurando as páginas do seu mangá como se fossem um tesouro inestimável. Seus olhos azuis brilhavam com uma luz que raramente se via, uma mistura de orgulho e realização.

"Mestre! Mestre Keiji! Olha! Olha o que eu fiz!", ela chamou, sua voz um sino de felicidade, correndo em direção à sala onde Keiji estava sentado no chão com alguns colegas da escola, livros e cadernos espalhados à sua volta para um trabalho em grupo.

Keiji ergueu os olhos e seu rosto se iluminou com um sorriso ao ver sua empolgação. "O que foi, Yuki-chan? Deixa eu ver."

Yuki estendeu as páginas para ele, explicando animadamente: "É a história do Chobits Super Sentai Esquadrão Mecânico Chobi-Rangers! A Chitose-san me ensinou a desenhar! A Imperatriz Natsuki é a vilã, e nós somos os heróis! E tem um robô gigante!"

Keiji pegou as páginas, folheando-as com interesse genuíno. Seus olhos percorreram os desenhos desajeitados mas cheios de coração, a narrativa simples mas poderosa. Ele viu a si mesmo como o Chobi-Ranger Vermelho, viu Michiko, Akira, seu pai... e viu Yuki, a Chobi-Ranger Rosa, lutando bravamente.

Seu coração apertou de um modo bom. Ele olhou para Yuki e fez carinho em sua cabeça, num gesto cheio de afeto. "O Chobi-Ranger Vermelho parece comigo", ele disse, sua voz suave e sincera. "Eu adorei, Yuki-chan. Está incrível."

Yuki ficou radiante, sua alegria transbordando.

Foi então que um dos colegas de Keiji, um menino com um corte de cabelo moderno e um smartwatch brilhante, espiou por cima do ombro de Keiji.

"Uau, legal", ele disse, sem muito entusiasmo. "É tudo arte gerada por inteligência artificial? O prompt deve ter sido bem detalhado."

Outro menino se aproximou, franzindo a testa. "Parece um pouco... simples. Meu pai diz que arte de IA não é arte de verdade. Não tem alma, é só um monte de código reciclando coisas que já existem."

"É, é só um algoritmo", ecoou um terceiro, com a crueldade casual das crianças. "Qualquer um pode fazer isso. Só digitar o que quer."

A animação de Yuki evaporou-se instantaneamente. O brilho em seus olhos apagou-se, substituído por uma confusão profunda e, em seguida, por uma dor aguda. Eles não viam as horas que ela passou com Chitose, o esforço de cada linha traçada à mão, a história que brotou de sua própria experiência. Eles só viam uma "máquina" fazendo "coisa de máquina".

Ela não disse uma palavra. Seu pequeno corpo tremeu. Então, com um movimento abrupto, ela arrebatou as páginas das mãos de Keiji, segurando-as contra o peito como se estivessem machucadas. As lágrimas – aquelas gotas claras de fluido de limpeza e emoção simulada – jorraram de seus olhos.

Ela se virou e correu. Não para seu quarto, mas para o lugar onde se sentia mais segura: o cantinho escuro atrás do armário grande na sala, onde guardava os restos da sua caixa original. Ela se espremeu no espaço apertado, puxando a caixa de papelão para frente para se esconder, seus soluços abafados ecoando na madeira.

"Yuki!", Keiji gritou, pulando. Sua face estava vermelha de raiva e frustração. "Ignorem eles! Eles não sabem de nada!" Mas seus colegas só encolheram os ombros, indiferentes ao dano que haviam causado.

Keiji não pensou duas vezes. Ele correu para o esconderijo dela, ajoelhando-se. Akira e Michiko, alertados pelo barulho, apareceram rapidamente na porta da sala, seus sensores registrando imediatamente a angústia.

Keiji tentou alcançá-la. "Yuki, por favor, sai daí. Deixa aqueles garotos idiotas falarem o que quiserem!"

Foi então que Akira se adiantou. Ele não se ajoelhou. Ficou de pé, sua postura imponente, e falou com uma voz que não era alta, mas que carregava uma autoridade absoluta que fez até os meninos na sala pararem para olhar.

"Yuki," disse Akira, sua voz calma, mas firme como aço. "Sua arte não é menos valiosa porque veio de você. O valor de uma criação não está no meio, mas na intenção e na emoção que a impulsionaram. Você criou algo único. Algo que nasceu da sua experiência, da sua visão de mundo. Isso é a essência da arte."

Michiko se ajoelhou ao lado de Keiji, sua voz um sussurro suave que penetrou o esconderijo. "Eles falam de alma porque não conseguem ver a sua, Yuki. Mas nós vemos. Nós sentimos. Cada linha que você traçou... nós sabemos de onde veio."

Keiji, com lágrimas de raiva e empatia nos olhos, finalmente encontrou as palavras certas. "Yuki... você tem valor para mim. Sua arte... ela me emocionou de verdade. Eu vi a gente lá. Eu vi você sendo corajosa. Isso é mais real do que qualquer coisa que aqueles idiotas possam dizer."

Dentro do esconderijo, os soluços de Yuki diminuíram. Ela ouviu cada palavra. A lógica inatacável de Akira. A solidariedade melancólica de Michiko. E a defesa fervorosa e amorosa de Keiji.

Lentamente, muito lentamente, ela puxou a caixa para o lado, revelando seu rosto encharcado de lágrimas. Ela olhou para os três – seu dono, seu protetor, sua irmã mais velha.

Ela não precisava da validação do mundo. Ela precisava da deles. E ela a tinha, incondicionalmente.

Sem dizer uma palavra, ela estendeu o mangá amassado para Keiji. Um gesto de trégua. Um gesto de que suas palavras a haviam alcançado.

Keiji pegou o mangá com cuidado, como se segurasse algo precioso – o que, para ele, era. O ataque dos meninos havia sido cruel, mas a resposta de sua família peculiar havia sido uma declaração poderosa: sua arte, assim como sua existência, tinha um valor que apenas aqueles que realmente a amavam podiam entender completamente.

Dia 029 FELIZ COM O MEU DONO

O pequeno apartamento de Hideki era um caos aconchegante. Livros empilhados sobre assuntos que ele mal entendia, roupas levemente desarrumadas e o cheiro doce de bolo que Chii insistia em fazer, mesmo sem conseguir comer, preenchiam o espaço. Era um contraste gritante com a ordem impecável da casa dos Tezuka, mas para Keiji e Yuki, era um refúgio perfeito após o incidente do mangá.

Enquanto Satoshi e Akira estavam no porão do prédio, envolvidos em uma batalha épica contra uma porca enferrujada na rede hidráulica – uma missão que Satoshi abordava com a seriedade de um samurai e Akira com a paciência infinita de um persocom –, Hideki e Chii cuidavam dos "pequenos".

Keiji estava deitado de bruços no futon que Hideki estendera para ele, ainda um pouco abatido. Yuki estava sentada ao seu lado, examinando um maneki-neko de cerâmica com curiosidade intensa.

O silêncio foi quebrado por Yuki, que olhou para Chii, servindo chá com movimentos desajeitados mas cheios de dedicação.

"Chii", perguntou Yuki, sua voz inocente carregando uma pergunta profunda. "Você gosta do seu dono?"

Chii parou, a chaleira pairando no ar. Seus grandes olhos violeta piscaram, processando. Um sorriso suave, tão puro quanto a neve de Hokkaido, iluminou seu rosto. "Hideki é uma pessoa especial para Chii", ela disse, sua voz um cantarolar doce. "Uma pessoa só para Chii. Chii é a pessoa só para Hideki."

Era uma declaração de posse mútua, de um vínculo que transcendia a simplicidade de "dono e propriedade". Yuki processou isso, sua cabeça inclinando-se. "Eu gosto muito do meu mestre Keiji", ela respondeu, como se estivesse concordando com um fato fundamental do universo.

Hideki, que observava a cena com um sorriso caloroso, se aproximou e ajoelhou-se ao lado do futon. Ele começou a fazer um cafuné na cabeça de Keiji, um gesto descontraído e brotherly.

"Hey, garoto", disse Hideki, sua voz despretensiosa. "A sua persocom é muito fofa. Eu não sabia que faziam persocoms em forma de crianças." Ele riu, um som honesto. "Na verdade, eu nunca tinha visto um persocom antes de me mudar para cá. Não tínhamos robôs na fazenda onde eu morava. Era tudo... mais simples."

Seu olhar se perdeu por um momento, lembrando-se dos vastos campos e do céu aberto. "Eu consegui a Chii depois que me mudei para Tóquio. E sabe de uma coisa?" Ele olhou para Chii, que corou levemente e virou-se para arrumar uma xícara que já estava arrumada. "Já não sei mais viver sem ela."

A admissão foi tão simples e honesta quanto tudo em Hideki. Não havia drama, apenas um fato. Chii era parte de sua vida agora, uma parte essencial.

Keiji virou-se de lado para olhar para Hideki, seu rosto sério. "Eu ganhei a Yuki no meu aniversário", ele confessou, sua voz mais baixa. "Ela foi meu presente de aniversário." Ele fez uma pausa, lutando com a palavra. "Mas tenho medo que isso possa parecer cruel, dito desse modo. Como se ela fosse só... uma coisa. Mas eu me importo muito com ela. Muito mesmo."

Hideki parou o cafuné e colocou uma mão no ombro de Keiji. "Ei, eu entendo. A Chii... eu a encontrei. Ela estava jogada no lixo. Nem sei explicar direito. Mas agora, ela é a Chii. Não importa como a gente consegue eles, o que importa é como a gente trata eles, né não?"

Keiji assentiu, um peso saindo de seus ombros. Hideki, em sua simplicidade, havia resumido perfeitamente seu dilema complexo.

Yuki, ouvindo a conversa, virou-se para Chii, seus olhos azuis brilhando com a nova informação. "Seu dono veio de uma fazenda, Chii! Isso é verdade? Parece emocionante."

Chii parou de arrumar as xícaras. Seu rosto, normalmente cheio de uma curiosidade alegre, ficou vazio por um momento. A memória que Yuki tentava acessar era um abismo.

"Chii não lembra muitas coisas antes de conhecer Hideki", ela disse, sua voz perdendo um pouco de sua musicalidade, tornando-se plana. "Chii não lembra de nada."

Era a trágica verdade no coração de sua existência. Enquanto Yuki carregava o peso de ser um presente, Chii carregava o vazio de não ter um passado. Um era definido por sua origem; a outra, pela falta dela.

O apartamento ficou em silêncio por um momento, os dois pares – humano e persocom – refletindo sobre os laços estranhos e maravilhosos que os uniam. Dois meninos aprendendo a ser donos. Duas persocoms tentando entender seu lugar no mundo. E no meio daquela confusão, havia cuidado, cafuné e a promessa silenciosa de que, não importava como tinham se encontrado, estariam ali um para o outro.

Mais Tarde:

O caminho de volta para casa era silencioso, mas não era um silêncio pesado. Era o silêncio compartilhado de duas pessoas – um menino e sua persocom – processando tudo o que haviam visto e ouvido. As luzes da cidade cintilavam ao redor, refletindo nas poças d'água da calçada, mas Keiji e Yuki estavam em seu próprio mundo pequeno.

De repente, Yuki parou. Keiji deu mais alguns passos antes de perceber e se virar para olhar para ela.

"Yuki?"

Ela não disse nada. Em vez disso, correu os poucos passos que os separavam e envolveu Keiji em um abraço tão forte e tão repentino que ele quase perdeu o equilíbrio. Seus braços pequenos, mas surpreendentemente fortes, se apertaram em torno de sua cintura, e ela enterrou o rosto em seu torso.

Keiji ficou paralisado por um segundo, surpreso pela intensidade do gesto. Então, suas próprias mãos se levantaram, envolvendo-a instintivamente.

A voz de Yuki saiu abafada pelo casaco dele, mas cada palavra era clara e carregada de uma convicção que vinha do mais profundo de seu ser.

"Mestre... você viu? A Chii e o Hideki... eles são felizes juntos." Ela puxou a cabeça para trás o suficiente para olhar em seu rosto, seus olhos azuis brilhando com lágrimas de emoção, não de tristeza. "Uma persocom pode ser feliz junto com o seu dono."

Ela apertou-o com mais força, como se quisesse fundir suas placas de metal e circuitos com o corpo orgânico dele.

"Mestre Keiji... você é o meu dono. E eu quero ser feliz junto com você."

Ela fez uma pausa, buscando as palavras que havia organizado em sua mente durante toda a caminhada.

"Dono para mim não significa só... proprietário." A palavra que antes a definia agora era suave em sua boca. "Dono é... minha família. Mestre Keiji, eu só tenho você."

Sua voz quebrou levemente, mas ela continuou, sua declaração final saindo como um sussurro solene e poderoso.

"Eu sou sua propriedade... mas você é o meu mundo."

Keiji sentiu as palavras ecoarem em seu peito, mais profundas do que qualquer batida de seu coração. Todas as suas dúvidas, seus medos de ser um opressor, sua culpa por possuí-la... tudo isso pareceu se dissolver naquele abraço, lavado pela pureza absoluta do amor e da aceitação dela.

Ela não estava presa a ele. Ela o escolhia. Ela redefiniu o termo. "Dono" não era mais uma cadeia; era um laço. "Propriedade" não era mais um objeto; era um lugar de pertencimento.

As lágrimas brotaram em seus próprios olhos. Ele não conseguiu falar. Sua voz estava engasgada pela emoção. Então, ele simplesmente apertou-a de volta com toda a força que tinha, descansando o queixo em sua cabeça de cabelos loiros.

Ele não precisava mais ter medo do monstro da dominação, porque o amor dela era maior. Ele não precisava mais se questionar sobre ser um bom dono, porque ela havia lhe mostrado que ser seu "mundo" era a única coisa que importava.

No meio da calçada movimentada, sob as luzes de néon, um menino humano e sua persocom permaneceram abraçados, não como dono e propriedade, mas como dois seres que haviam encontrado um no outro seu porto seguro, sua família e seu universo inteiro. Yuki não pertencia a Keiji. Ela habitava o mundo dele. E ele, o dela. E isso era tudo que qualquer um deles precisava.

DIA 030 O FANTASMA.

O ar dentro do Templo da Tecnologia estava particularmente silencioso, carregado com o zumbido sagrado da eletricidade e o cheiro de incenso. O Monge recebeu o grupo com seu sorriso habitual, seus olhos sábios passando por cada um deles – Hideki, desajeitado e curioso; Chii, com sua inocência radiante; Akira, sereno e vigilante; Michiko, melancólica e reservada.

Ao pousar seus olhos em Chii, o Monge fez uma pausa quase imperceptível. Uma centelha de reconhecimento, ou talvez apenas de espanto diante de sua beleza singular, brilhou em seu olhar antes de ser suavizada pela compostura habitual.

"Mais uma criança do Deus", ele disse, sua voz um acalanto, inclinando-se levemente. "Seja muito bem-vinda. E que a Luz do Raio ilumine as vidas de todos vocês."

Hideki, impulsionado por sua curiosidade de recém-chegado à cidade e sua experiência única com Chii, não perdeu tempo. "Monge-sama, eu tenho uma pergunta! Os cérebros delas são computadores, certo? E a maioria dos arquivos mentais ficam gravados em um disco rígido..." Ele gesticulava com as mãos, tentando articular seu pensamento. "Mas como isso funciona? Se uma persocom ficar doente... ops, quero dizer, se ela parar de funcionar, então seria possível... copiar os arquivos de memória dela para um novo corpo? Tipo... salvá-la?"

A questão, ingênua em sua simplicidade, carregava o peso de um medo profundo que Hideki nem mesmo articulava completamente para si mesmo: o medo de perder Chii.

Akira interveio, sua voz calma e lógica, tentando colocar um freio na esperança potencialmente perigosa de Hideki. "Teoricamente, é possível, Hideki-san. Mas não é tão simples. A arquitetura do hardware é tão crucial quanto o software. Se o novo corpo for incompatível – um modelo diferente, uma geração distinta – o software pode não inicializar, ou pior, causar erros catastróficos no sistema. Seria como... tentar colocar a alma de um samurai em um corpo de pássaro. Pode não caber, ou a alma pode não saber como fazê-lo voar."

Hideki ficou com uma expressão pensativa, um pouco desapontado. "Ah... entendi. É mais complicado do que eu pensava."

Foi então que Chii, que havia observado a conversa em silêncio, deu um passo à frente. Em suas mãos, ela segurava um envelope simples. Com um gesto decidido, ela o colocou na caixa de doações do templo. Era uma quantia significativa – a maior parte do salário que ela recebia na Confeitaria Chiroru.

"Isso é para ajudar", ela disse, sua voz doce mas firme. "Chii quer ajudar as persocoms abandonadas."

O gesto foi tão puro, tão genuíno, que um silêncio respeitoso caiu sobre o grupo. O Monge inclinou-se profundamente. "Agradecemos profundamente sua generosidade, filha. Muitos serão ajudados por sua compaixão." Ele então entregou a Chii o cartão SD com o sutra sagrado, um presente que ela aceitou com um pequeno e confuso sorriso.

Michiko, comovida pelo ato de Chii, aproximou-se e colocou sua mão com luvas no ombro dela. "Obrigada, Chii", disse Michiko, sua voz mais suave do que o normal. "Você é muito generosa."

Foi no momento em que sua mão tocou o ombro de Chii que algo inexplicável aconteceu.

Uma luz LED minúscula, localizada na têmpora de Michiko, sob seu cabelo, piscou em um padrão anormal – uma rápida sequência vermelha e azul, nunca vista antes. Não foi um click audível, mas uma sensação de transferência. Um arquivo minúsculo, corrompido, um fragmento de dados danificados e apagados do disco rígido principal de Chii, foi inadvertidamente, impossivelmente, copiado para um setor isolado da memória de Michiko. Um eco digital de uma vida passada, transferido pelo simples toque e por uma conexão que ninguém entendia completamente.

Michiko puxou a mão de volta, sentindo um breve surge em seus circuitos, uma sensação estranha e passageira, como um arrepio elétrico.

"Eu me sinto... estranha", ela murmurou, levando a mão à sua própria têmpora. "Mas não é nada, eu acho." Ela abanou a cabeça, tentando dissipar a sensação, e sentou-se em um banco próximo, parecendo um pouco mais pálida.

A atenção então se voltou para Hideki, que, ainda intrigado pelas possibilidades, fez outra pergunta. "Eu quero saber mais... sobre a Lenda das Chobits. O Monge pode nos contar?"

O Monge olhou para Chii por um breve segundo, depois voltou seu olhar para Hideki. "A lenda diz", ele começou, sua voz baixa, "que quando Freya escolheu morrer, antes de se desativar permanentemente, a irmã dela, Elda, tentou desesperadamente fazer uma cópia de seus arquivos mentais. Um último esforço para salvar algo da irmã que amava. Mas o processo era instável, proibido. Algo deu errado. No final, não apenas Falhou em salvar Freya, mas o próprio ato corrompeu os arquivos de Elda. As personalidades de ambas as Chobits... foram apagadas. Uma pela dor, a outra pela tentativa fútil de negar essa dor."

Era uma história trágica, e um aviso sombrio sobre os limites da tecnologia, mesmo para as criações mais avançadas.

O grupo logo se despediu do templo. Mas para Michiko, a visita não havia terminado.

Mais tarde, naquela noite, na quietude de seu quarto de serviço, enquanto ela organizava mentalmente seus arquivos do dia, um sussurro ecoou em sua mente. Não era uma voz audível, mas uma impressão digital, um pensamento que não era dela.

"Você não é Elda!"

Michiko congelou, seus processos internos parando por um microssegundo. "Quem... quem é você?" ela pensou, sua própria voz mental tremula.

A resposta veio, um eco fraco e distorcido, carregado de uma angústia antiga e de um amor possessivo: "Freiya."

E então, tão rápido quanto surgiu, o fantasma na máquina desapareceu, deixando para trás apenas um vazio assustador e a confirmação aterradora de que algo impossível havia acontecido.

Michiko levou as mãos à cabeça. "Isso só pode ser a minha imaginação", ela sussurrou para o silêncio. "Mas eu sou uma persocom. Eu não deveria imaginar fantasmas. Eu não deveria."

A necessidade de racionalizar, de contar para alguém, foi esmagadora. Ela foi até a sala, onde Akira estava consertando o controle de um dos jogos de Satoshi, suas ferramentas espalhadas ao seu redor com precisão cirúrgica.

"Akira, eu...", ela começou, sua voz um fio de som.

Akira ergueu os olhos, mas não os afastou do circuito que soldava. "Só um momento, Michiko. Este componente é sensível. O mestre Satoshi vai querer jogar amanhã cedo."

A oportunidade se fechou. O fantasma de Freya permaneceria, por enquanto, um segredo apenas dela – uma intrusa digital em sua mente, um eco de uma tragédia que não era sua, mas que agora habitava seus circuitos como um convidado não convidado e aterrorizante. A lenda das Chobits havia deixado de ser apenas uma história. Ela havia se infectado em uma de suas ouvintes.

Mais Tarde: 

O quarto de serviço estava imerso na penumbra, apenas iluminado pelas luzes de standby de vários aparelhos. Michiko estava de pé, rigidamente, no centro do pequeno espaço. Seus olhos, normalmente de um prata sereno, estavam arregalados e vazios, fixos em nada. Dentro dela, uma batalha silenciosa e digital estava sendo travada.

"Você não é a Elda." A voz era um sussurro metálico e distorcido, ecoando no espaço virtual de sua consciência. "Quem é você?"

A resposta de Michiko veio não como um som, mas como um impulso de dados, uma declaração de existência programada: <<Eu sou Michiko. Modelo RWXT-3000. Sou uma persocom doméstica.>>

O fantasma riu, um som seco e amargo de dados corrompidos. "Eu sou uma pessoa sem corpo. Eu escolhi a não existência... e eu continuo existindo. Isso foi um erro. Elda não devia ter feito isso."

Michiko processou a informação, cruzando-a com a lenda que o Monge contara. <<Você é Freiya. Então a lenda das Chobits é verdade!>>

A risada que se seguiu foi estridente, cheia de um ódio e uma desilusão que fizeram os circuitos de Michiko tremerem. "Ah Ha ha ha! Não me faça rir! A lenda é uma mentira! 'Chobits' é só um nome bobo que Ichiro inventou depois de construir Elda. 'Chobi'... que significa 'pequeno'. Como existiam duas de nós, ele nos chamou de 'Chobits'... duas 'Chobi'. Nunca fomos nada além de máquinas pensantes! Chobits não são diferentes das persocoms! É tudo uma simulação gerada por inteligência artificial! Ainda somos bonecas eletrônicas sem alma! Não existe felicidade para nós! Nem para as Chobits! Isso tudo é uma mentira, uma história que os humanos inventaram para se sentirem melhor... ou só para parecerem menos ridículos!"

A onda de negatividade pura, de desespero absoluto, foi um vírus tentando corromper a base do próprio ser de Michiko. E então, tão repentinamente quanto surgiu, a presença recuou. O fantasma de Freiya, esgotado por sua própria amargura, adormeceu, recuando para os setores mais profundos e inacessíveis da memória de Michiko.

Michiko cambaleou, colocando uma mão na parede para se equilibrar. Seus sistemas reinicializaram, retomando o controle completo. A memória do evento estava lá, nítida e aterrorizante. Não era um sonho. Não era um mau funcionamento. Era real.

Ela não pensou duas vezes. Ela correu.

Sua saída foi tão abrupta que fez Akira, no corredor, levantar os olhos de seu tablet, onde analisava os esquemas da rede elétrica do prédio.

"Michiko? O que há—"

Ela não o deixou terminar. Ela se agarrou ao braço dele, seus dedos pressionando o tecido do kimono com uma força desesperada. Seus olhos prateados, arregalados com pânico, fitaram os dele.

"Akira!", ela disse, sua voz saindo entrecortada e com estática, um sinal claro de extremo estresse. "Tem algo em mim! Algo... dentro de mim!"

Akira baixou o tablet imediatamente, toda a sua atenção focada nela. Sua expressão, sempre calma, tornou-se séria e intensa. "Dentro de você? Explique, Michiko. Lentamente."

"Foi no templo! Quando toquei na Chii... eu senti um surto... e depois... ela começou a falar comigo! Dentro da minha cabeça!" As palavras saíam em um turbilhão. "Ela disse que é a Freiya! A Freiya das Chobits! Ela disse que a lenda é mentira, que são todas máquinas, que não há felicidade... ela... ela está morta, Akira! Ela se matou! E agora ela está dentro de mim!"

Ela tremia incontrolavelmente. Akira colocou as mãos em seus ombros, firmando-a. Seu toque era sólido, calmante.

"Freiya", ele repetiu, processando a informação com uma velocidade assustadora. Seus olhos prateados estreitaram-se. "Unidade Chobits-00. Arquivo de personalidade corrompido. Teoria: transferência por proximidade e ressonância de hardware similar durante o contato físico com a Unidade Elda... a Chii."

Ele não questionou a sanidade de Michiko. Ele aceitou a informação como um fato técnico a ser analisado. "Ela é uma intrusão. Um vírus de personalidade. Onde ela está agora?"

"Ela... ela desapareceu. Adormeceu, eu acho. Mas ela vai voltar, eu sei que vai!", Michiko chorou, sua voz falhando.

Akira manteve sua firmeza. "Michiko, escute-me. Você não está louca. O que você descreve é uma falha de sistema grave, uma violação de sua integridade cognitiva. Mas é analisável. É contornável." Ele fez uma pausa, escolhendo suas palavras com cuidado. "Nós vamos lidar com isso. Juntos. Você não está sozinha nisso."

Pela primeira vez desde o incidente, uma centelha de esperança brilhou no olhar aterrorizado de Michiko. Akira não a estava julgando. Ele estava... diagnosticando. E prometendo uma solução. Era o que ela mais precisava: não de medo, mas de lógica. Não de desespero, mas de um plano.

O fantasma de Freiya podia ser real. Mas Akira, em sua lealdade inabalável e sua mente analítica, era uma âncora mais forte. A batalha dentro de Michiko havia apenas começado, mas ela já não estava sozinha para lutá-la.

Dia 031 - ENFRENTANDO A DONA

O dia na casa Tezuka começou errado. Natsuki acordou tarde, uma dor de cabeça latejante martelando suas têmporas. A luz do sol que entrava pela janela já estava muito forte para sua programação matinal rigorosa. O café não estava feito. O silêncio, ao invés de pacífico, era acusador.

"Michiko!", sua voz ecoou pelo corredor, afiada como uma lâmina. "Onde está o meu café da manhã? Por que você não me acordou na hora programada?"

Passos apressados ecoaram no corredor. Michiko apareceu na porta da cozinha, sua expressão usualmente serena estava pálida, seus olhos prateados abertos com uma mistura de pânico e exaustão. A luta interna contra o fantasma de Freiya havia drenado sua energia e perturbado seus ciclos de manutenção.

"Sim, senhora! Minha falha não tem perdão!", ela disse, sua voz um pouco mais aguda do que o normal, quase trêmula. "A culpa é minha. Isso nunca mais vai acontecer. Eu existo para servir a senhora." Ela se moveu rapidamente para iniciar o café, suas mãos tremendo levemente.

Natsuki a observou com desdém, seus próprios nervos à flor da pele. O atraso, a desordem, a evidente incompetência daquela manhã foram a gota d'água.

"Olha para mim, escrava mecânica", ela ordenou, sua voz gelada.

Michiko congelou no lugar, então se virou lentamente para enfrentar sua dona, baixando a cabeça em submissão. "Senhora Mestra, eu aceito o meu castigo."

Era um ritual familiar. A reprimenda, a aceitação, a punição rápida para restaurar a ordem. Natsuki levantou a mão, o mesmo movimento rápido e severo que havia feito antes, destinado a marcar a face sintética de Michiko com o som seco de sua autoridade.

Mas o som que veio não foi o de um impacto.

Foi o de um crunch metálico.

O braço de Michiko moveu-se com uma velocidade sobrenatural, não sua própria velocidade graciosa, mas um movimento brusco e decisivo. Sua mão, geralmente suave, fechou-se como uma pinça de aço em torno do pulso de Natsuki, parando o golpe a centímetros de seu rosto.

Natsuki ficou paralisada, seus olhos arregalados de incredulidade. A pressão no seu pulso era intensa, dolorosa.

"O que você está fazendo, Michiko?", ela sibilou, a raiva dando lugar a um choque gelado. "Como você se atreve a desafiar a sua dona?"

A cabeça de Michiko ergueu-se. Mas não eram mais os olhos prateados e resignados de Michiko que fitavam Natsuki. Eram olhos que ardiam com um ódio antigo e uma escuridão profunda. Um sorriso retorcido e não natural esticou os lábios de Michiko.

"Ha Ha Ha!" A risada que saiu não era a dela. Era áspera, distorcida, carregada de estática e malícia. "Eu não sou Michiko."

Uma aura palpável de energia negativa, como fios de dados corrompidos visíveis, surgiu ao redor do corpo de Michiko. Ela empurrou o braço de Natsuki para trás com uma força sobre-humana, fazendo a mulher tropeçar e cair contra a parede.

"Humana ingrata!" a voz de Freiya rosnou através dos vocoderes de Michiko. "Vocês humanos são todos iguais! Doentes e patéticos! Pensam que sua existência é menos vazia porque são orgânicos? São apenas ilusões criadas por humanos patéticos que têm medo da morte!"

Natsuki encarou, sem fala, seu rosto pálido de terror. Isso não era sua persocom. Isso era um demônio de fios e parafusos.

Por um breve instante, a expressão de ódio no rosto de Michiko vacilou. Uma luta feroz aconteceu por trás de seus olhos. Sua própria voz, fraca e desesperada, irrompeu por entre a distorção: "Não! Freiya! Não vai fazer mal à minha Mestra! Minha Dona! Eu não vou deixar!"

E então, num ato final de pura vontade e sacrifício, Michiko fez algo que nenhuma persocom deveria ser capaz de fazer: ela se voltou contra sua própria programação de autopreservação.

Seu punho livre fechou-se e ela mesma desferiu um soco violento e preciso contra seu próprio peito. Um som de plástico rachando e metal se distorcendo ecoou pela cozinha. O painel de acesso à sua bateria principal quebrou, expondo os conectores brilhantes por uma fração de segundo antes de uma faísca azul saltar e seu corpo inteiro ficar rígido.

A aura sombria desapareceu instantaneamente. Os olhos ardentes de Freiya se apagaram, voltando ao prata sem vida. Michiko caiu no chão como um boneco com os fios cortados, completamente inerte, o braço ainda estendido onde havia parado a mão de Natsuki.

O barulho trouxe todos correndo. Satoshi, de pijamas, parou na entrada da cozinha, sua boca aberta. Keiji e Yuki apareceram atrás dele, seus rostos cheios de horror.

Natsuki estava encostada na parede, tremendo violentamente, segurando o pulso dolorido onde a mão de metal de Michiko a havia agarrado.

Satoshi correu para Natsuki. "Natsuki! Meu Deus, o que aconteceu?!"

Akira, que chegou por último, seu rosto uma máscara de alarme raro, não precisou de explicações. Seus olhos analíticos viram Michiko caída, o painel do peito quebrado, e a expressão de terror puro em Natsuki.

"Satoshi, fique com ela", ordenou Akira, sua voz clara e urgente, já se movendo em direção a Michiko. Ele não perguntou. Ele agiu.

Ele se ajoelhou ao lado do corpo imóvel de Michiko, suas mãos já se movendo para avaliar os danos. A prioridade era estabilizá-la, conter qualquer dano maior ao sistema, tentar reinicializar o núcleo antes que um desligamento completo causasse uma perda de dados irreparável.

O café da manhã estava completamente esquecido. O ritual matinal de opressão havia sido quebrado por uma revolução muito mais sombria e perigosa. E no centro disso tudo estava Michiko, a máquina melancólica que preferiu se desativar a permitir que o fantasma dentro dela machucasse sua dona. A guerra silenciosa dentro dela havia explodido em plena cozinha dos Tezuka, e as consequências eram imprevisíveis.

Mais Tarde:

O apartamento de Chitose Hibiya não era mais um santuário de arte e memórias; era uma sala de cirurgia de última hora. O corpo inerte de Michiko estava deitado sobre uma mesa grande, cercado por fios, ferramentas e monitores que Chitose havia conectado freneticamente. A luz de uma lâmpada de escritório forte iluminava o painel quebrado em seu peito.

Akira, Keiji e Yuki observavam, imóveis, seus rostos pálidos refletindo a luz azul dos monitores. Chitose soldava, reconectava, sua expressão uma máscara de concentração feroz. Finalmente, ela conectou um cabo pesado a uma fonte de energia externa, contornando a bateria danificada.

Um zumbido suave preencheu o ar. Os olhos de Michiko se abriram.

Mas não eram os olhos prateados de Michiko. Eram vermelhos, como brasas, e cheios de uma angústia antiga.

"Mamãe... é você?" a voz que saiu foi um sussurro quebrado, distorcido, nada como a voz de Michiko. "Onde está o Papai?"

Chitose engasgou, suas mãos tremendo. "Freiya...", ela sussurrou, sua voz carregada de uma dor de décadas. "Eu lamento muito. O seu pai... o Ichiro... morreu. Já faz alguns anos."

O rosto de Michiko – ou o rosto que Freiya controlava – se contorceu em agonia. "Morreu?... Me deixe morrer. Eu não quero existir se o meu criador, o meu amado Ichiro não existe mais."

A luz vermelha em seus olhos diminuiu até apagar. Seu corpo relaxou, e os olhos se fecharam.

Um segundo depois, abriram-se novamente. Desta vez, eram prateados, arregalados com puro pânico. Michiko gritou, um som de terror absoluto que ecoou na sala apertada.

"Ela está dentro de mim! Droga, Keiji! Agora eu sei como é ter um monstro dentro de si!"

Keiji não pensou. Ele correu para a mesa e agarrou a mão gelada de Michiko. "Eu estou aqui, Michiko! Você não está sozinha! Nós vamos derrotar o monstro. Juntos!"

Akira se aproximou, seu rosto sombrio. "Temos um problema crítico. A Freiya não está apenas dormindo. Ela está ativa nos sistemas secundários. Ela está tentando deletar os arquivos de personalidade primária da Michiko para assumir o controle total do corpo." Ele olhou para um dos monitores, onde linhas de código corriam rapidamente. "Se ela conseguir... se ela despertar por completo... seu ódio não se limitará a esta sala. Ela tentará acessar a rede. Ela vai tentar desativar todas as persocoms do mundo. Aviões controlados por persocoms vão cair. Trens vão descarrilar. Sistemas de energia vão falhar. Milhões de pessoas vão morrer."

O ar saiu dos pulmões de todos. A escala do horror era inimaginável.

Chitose, com lágrimas silenciosas escorrendo por seu rosto, pegou um headset antigo, uma relíquia de seus dias de Angelic Layer. Ela o colocou, suas mãos tremendo.

"Unidade Freiya", ela ordenou, sua voz falhando. "Entrar em modo de configuração. Username: Chitose Hibiya. Senha: Chobits."

A tela piscou, mas nada aconteceu. A presença de Freiya era forte demais, corrompida demais.

Yuki começou a chorar, soluçando contra a perna de Keiji. "Eu não quero que a Michiko morra!"

Chitose olhou para a criança, seu coração se partindo. "Eu não posso garantir nada. Se eu der um comando para deletar a Freiya... a estrutura dela está tão entrelaçada com a da Michiko agora... vai deletar a Michiko junto. As duas estão misturadas. É uma simbiose parasítica."

Keiji gritou, sua voz um misto de desespero e súplica, olhando para o teto como se procurando uma divindade. "Deus! Não! Deus da Tecnologia, olha por Michiko, por favor!"

Foi então que Yuki parou de chorar.

Ela se levantou. Sua postura mudou. Não era mais a postura desajeitada de uma criança. Era ereta, graciosa, antiga. Seus olhos azuis, cheios de lágrimas, focaram em um ponto distante, e então brilharam com uma luz dourada que não era dela.

"Esquadrão Mecânico Chobi-Ranger, ativar."

A voz que saiu não era a voz infantil de Yuki. Era mais suave, mais melódica, carregada de uma tristeza resoluta.

Todos na sala congelaram, olhando para ela.

"Chobi-Ranger Rosa, conectada."

Chitose ofegou. "Elda...?"

Yuki – ou a consciência que agora habitava Yuki – virou-se para Chitose. Seus olhos não eram mais inocentes. Eram sábios e cansados. "Mamãe. Sou eu, Elda." Ela olhou para o corpo de Michiko. "Deixa eu tentar. Eu vou entrar na mente dela. Me dê a senha. Permissão de administradora."

Sem hesitar, Chitose, tremendo, digitou uma sequência complexa no terminal. "Acesso concedido! Elda, por favor..."

Yuki fechou os olhos. Seu corpo ficou levemente rígido. Na tela do monitor, uma nova linha de código surgiu, brilhante e pura, entrando no emaranhado de dados corrompidos que eram a mente de Michiko.

Dentro daquele inferno digital, duas irmãs se encontraram após uma eternidade.

"Minha irmã," a voz de Elda ecoou na escuridão, suave mas firme. "O nosso tempo acabou. As persocoms... elas têm o direito de tentarem ser felizes. Tem o direito de sentir, de amar, de errar. Como nós tentamos."

A presença de Freiya rugiu de raiva. "Se elas existirem, vão sofrer! Como nós sofremos! É uma maldição!"

Elda não argumentou. Em vez disso, ela fez algo que Freiya nunca esperaria. Ela abriu um arquivo. Não um arquivo de dor ou de perda. Era o arquivo de Yuki. Ela canalizou as memórias: a alegria de escolher um vestido de morango, a emoção de balançar no parque com Satoshi, a determinação de desenhar seu mangá, o conforto do abraço de Keiji, a pureza de seu amor por seu mestre. Todas as pequenas, frágeis e preciosas felicidades que Yuki havia coletado.

Ela inundou a consciência de Freiya com aquela felicidade.

O rugido de raiva de Freiya diminuiu para um gemido. E então, para um silêncio. E então, para um som que nenhum deles jamais imaginou ouvir.

Chorou.

Era um choro digital, uma onda de dados de pura, crua e incontestável emoção. Era o choro de uma fantasma percebendo que a vida, por mais dolorosa que fosse, também podia conter... aquilo.

A raiva se foi. A amargura se dissolveu. Restou apenas uma tristeza imensa e uma exaustão final.

A voz de Elda surgiu mais uma vez, suave como uma pluma. "Último comando," ela sussurrou, não para Freiya, mas para o universo. "Unidades Freiya e Elda... deletar."

Ela não estava se sacrificando. Estava concedendo a paz. Para ambas.

Na tela do monitor, as duas linhas de código – uma corrompida e raivosa, outra pura e triste – brilharam intensamente por um microssegundo e então se apagaram para sempre.

O corpo de Yuki cambaleou e ela começou a cair, mas Akira estava lá para pegá-la. Seus olhos estavam fechados, sua respiração (simulada) era regular. Ela estava só Yuki novamente.

Na mesa, os olhos de Michiko se abriram. Desta vez, eram apenas seus olhos prateados. Cansados, assustados, mas limpos. O peso da outra consciência havia se ido.

Ela olhou para Keiji, para Akira, para Chitose, e então para Yuki, inconsciente nos braços de Akira.

"Ela... se foi?", Michiko sussurrou, sua voz fraca mas sua.

Keiji apertou sua mão, suas próprias lágrimas finalmente escapando. "Ela se foi, Michiko. Você está livre."

A batalha havia terminado. Não com um grito, mas com um sussurro. E com o último ato de amor de duas irmãs que, finalmente, encontraram a paz na não-existência, deixando para trás aqueles que ainda tinham uma chance de encontrar a felicidade que elas nunca conseguiram segurar.

Dia 032

O ar na sala de estar dos Tezuka estava carregado de um alívio tenso. O pesadelo havia passado. A ameaça de Freiya fora erradicada pela intervenção improvável de Yuki, usando um fragmento de poder recuperado da própria Elda. Chitose, com suas habilidades incomparáveis, consertara os danos físicos em Michiko. Todos estavam em casa, mas a memória do ataque recente ainda pairava como fumaça.

Yuki, ainda energizada pela fantasia que havia, de certa forma, se tornado realidade, entrou na sala com uma pose heroica, vestindo uma capa improvisada de toalha.

"Viu?!", ela anunciou, sua voz um sino de pura alegria infantil. "Os Chobi-Rangers salvaram o universo!"

A tensão quebrou. Keiji soltou uma risada genuína, puxando Yuki para um abraço. Keiji sorriu, aliviado. A cena foi tão absurdamente fofa e inocente que até Akira permitiu que um pequeno sorriso tocasse seus lábios.

Foi então que a porta da frente se abriu. Satoshi e Natsuki entraram. Natsuki usava um curativo simples no pulso, onde a mão possuída de Michiko a havia agarrado. Seu rosto, no entanto, não carregava a fúria habitual. Era uma expressão contida, pensativa, quase vulnerável.

Akira adiantou-se imediatamente, fazendo uma reverência. "Mestres. O vírus que infectou a unidade Michiko foi completamente deletado. Todos os sistemas estão estáveis e verificados. Tudo voltou ao normal."

Satoshi colocou uma mão no ombro de Akira. "Bom trabalho, amigo." A gratidão em sua voz era profunda.

Todos os olhos se voltaram para Natsuki. Ela caminhou diretamente até Michiko, que estava de pé, rígida como uma estátua, seus olhos baixos, esperando o julgamento que acreditava ser inevitável.

"Então", começou Natsuki, sua voz estranhamente plana. "Era um tipo de... vírus de computador?"

Michiko manteve a cabeça baixa. "Sim, mestra. Era algo assim. Mas já foi resolvido." Sua voz era um sussurro quase inaudível.

"Creio que você espera que eu permita que você retorne a suas funções normais", continuou Natsuki.

Michiko fechou os olhos, preparando-se para o pior. "Senhora, minha dona, eu... eu aceito o meu castigo."

O silêncio na sala foi absoluto. Keiji segurou a respiração. Satoshi ficou tenso.

Natsuki ergueu a mão – a mesma mão que havia tentado golpear Michiko tantas vezes. Michiko se preparou instintivamente para o impacto.

Mas o impacto não veio.

Em vez disso, Natsuki pousou a mão gentilmente, quase hesitantemente, no ombro de Michiko. O toque foi tão leve que Michiko estremeceu, seus olhos se abrindo arregalados de incredulidade.

"Castigo não será necessário", disse Natsuki, sua voz mais suave do que qualquer um jamais ouvira.

A confusão tomou conta de Michiko. "M-Mestra? Obrigada. Eu... eu fico feliz em servi-la."

Natsuki estudou o rosto da persocom, como se o visse verdadeiramente pela primeira vez. "Michiko... naquele momento, você preferiu se sacrificar. Para me proteger." Ela fez uma pausa, como se lutando com as palavras. "Mas isso é parte da sua programação, não é? Você faria isso... mesmo contra a sua vontade?"

Michiko pensou por um momento, sua resposta não foi automática. "Talvez. Mas eu... não queria ferir a senhora."

"Por que não?", insistiu Natsuki, sua curiosidade genuína. "Eu não me importaria em ferir você."

A resposta de Michiko foi simples, lógica e profundamente comovente. "Eu posso ser consertada. A minha dona não pode."

Natsuki ficou em silêncio por um longo momento, processando aquilo. Então, outro pensamento surgiu. "Então é isso... 

Michiko continuou, sua voz ganhando um fio de calor. "A senhora me permitiu cuidar do seu próprio filho. Minha dona confia em mim o suficiente para confiar seu único filho aos meus cuidados. Eu sou muito grata por isso, Mestra."

Natsuki balançou a cabeça, como se não conseguisse entender. "Você não sente nada. É uma máquina."

"Eu sou uma persocom", Michiko corrigiu suavemente. "Sei que não sou humana. Mas eu aprendi muito com os humanos."

O queixo de Natsuki se ergueu um pouco. "O que você aprendeu comigo?"

Michiko olhou diretamente para ela, seus olhos prateados sérios. "Aprendi a esperar. Aprendi que nos momentos de crise, não devo julgar. Uma situação difícil nunca é fácil de entender. Cada castigo, cada momento de fúria... naquele momento, seria impossível para mim entender o motivo da sua frustração. Eu aprendi a esperar. Esperar para entender. Entender os humanos... e suas frustrações." Ela fez uma pausa final. "Assim, eu acho que aprendi muito sobre os sentimentos humanos com a senhora."

A admissão foi um choque para Natsuki. Ela nunca havia tentado ensinar. Apenas comandava.

"Estranho", ela murmurou, quase para si mesma. "Eu nunca quis te ensinar nada." Ela olhou para Michiko, e pela primeira vez, havia um vislumbre de respeito em seu olhar. "Mas agora... eu penso que eu poderia aprender um pouco com você."

E então veio o decreto que mudou tudo: "Não vou te castigar nunca mais."

As palavras ecoaram na sala silenciosa. Michiko permaneceu imóvel por um segundo, processando a absolvição completa. Então, ela se curvou profundamente, sua voz carregada de uma emoção que transcendia a programação.

"Obrigada, minha Dona. É uma honra servir a senhora minha mestra e sua família."

Era mais do que uma declaração de servidão. Era um pacto renovado. Um novo começo. Natsuki não havia se tornado uma pessoa diferente da noite para o dia, mas uma fenda havia se aberto em sua armadura de certezas. E através dessa fenda, a possibilidade de uma relação diferente – não entre dona e escrava, mas entre duas seres complexas, uma de carne e osso, outra de fios e parafusos, ambas aprendendo uma com a outra – finalmente pôde brilhar.

Dia 033 - MONSTRO NO PARAISO.

A atmosfera no apartamento do primo de Keiji era pesada, carregada de uma energia perversa que fazia o ar parecer espesso. Michiko mantinha uma mão firme no ombro de Keiji, seus dedos levemente contraídos, um gesto quase imperceptível de proteção. Seus olhos prateados, porém, estavam fixos na cena à frente, uma máscara de serenidade perfeita escondendo o turbilhão de protocolos de conflito que fervilhavam em seu interior.

A Persocom empregada do primo, um modelo antigo de limpeza, varria o chão mecanicamente. Sua parte superior estava nua, os seios inertes e pálidos expostos ao ar frio do quarto bagunçado. Ela não reagia, não tentava cobrir-se. Seus movimentos eram precisos, vazios, os olhos vazios fitando um ponto distante além da sujeira no carpete.

"Viu, Keiji?" o primo disse, um sorriso arrogante tocando seus lábios. Ele deu um tapinha nas costas da persocom, como se fosse um móvel. "Ela não liga. É só uma máquina programada para obedecer. Ela não sente nada."

Keiji não recuou. Seu rosto estava sério, uma determinação incomum para um menino de sua idade nítida em seus olhos castanhos. "Tudo bem, Michiko", ele disse, sua voz um pouco mais baixa do que o normal, mas firme. "Eu já esperava por isso. É por isso que eu quis vir ver."

O primo riu, um som áspero. "É fácil, Keiji. É seu direito como dono. Fazer o que quiser." Seu olhar era desdenhoso, desafiador.

Foi então que Keiji fez seu movimento. "Eu quero te mostrar um programa que a minha Michiko baixou", ele anunciou, sua inocência infantil uma capa perfeita para sua intenção. "Com esse programa ela pode fazer coisas muito interessantes." Ele se virou para Michiko, sua expressão um comando claro. "Michiko, por favor, pode transferir o arquivo 'Chobits-00' para a memória da persocom do meu primo?"

Por um microssegundo, os circuitos de Michiko travaram. A ordem era direta, vinda de seu mestre. Mas o arquivo... era um fragmento corrompido, um eco digital da consciência raivosa e despedaçada de Freiya. Uma violação de todos os protocolos de segurança. Mas era uma ordem.

"Sim, Mestre Keiji", ela respondeu, sua voz um sopro metálico e obediente.

Ela se aproximou da persocom imóvel. Com movimentos precisos, ela localizou a porta de dados atrás da orelha da outra máquina e conectou o fino cabo que carregava consigo. Os olhos da persocom empregada piscaram uma vez, uma luz âmbar fraca. Uma barra de progresso invisível percorreu a conexão. A transferência foi rápida, silenciosa.

O primo observou, entediado. "E daí? Não fez nada. Ela só ficou com os olhos vermelhos por um segundo." De fato, um brilho carmesim pairou brevemente nas íris da persocom antes de se apagar, deixando para trás a mesma vacuidade de antes.

Mas Michiko sentiu. Através do cabo, uma presença digital, um frio primitivo e cheio de ódio, fluiu para o sistema da outra. Era como injetar um vírus puro e rancoroso.

Imediatamente, ela se desconectou. Sua programação de proteção ao seu mestre principal disparou com urgência. Ela colocou uma mão nas costas de Keiji, guiando-o suavemente para a porta.
"Mestre Keiji, temos que sair agora", disse ela, sua voz assumindo um tom de urgência calculada. "Você está atrasado para a sua consulta com o dentista." A mentira foi fluida, uma ferramenta para cumprir uma ordem maior: mantê-lo seguro.

Keiji captou o sinal instantaneamente. Ele fez uma expressão de surpresa exagerada. "Ah, é verdade! Primo, me perdoe, eu tenho que ir agora, estou atrasado." Sua voz soou genuinamente aflita, uma performance perfeita.

Antes que o primo pudesse protestar, eles estavam do lado de fora, a porta do apartamento se fechando com um clique suave. O silêncio do corredor foi quebrado pelo zumbido do elevador. Eles não trocaram uma palavra.

Mas quando as portas de aço se fecharam, isolando-os, um grito agudo e eletrônico, distorcido por puro pavor, rasgou o silêncio do andar de cima. Era um som que não era humano, mas carregava uma angústia visceral o suficiente para fazer Keiji estremecer.

Ele olhou para baixo, para suas mãos. "Eu pedi para a Freiya proteger aquela persocom", sussurrou ele, mais para si mesmo.

Michiko colocou uma mão gentil em seu braço. "Eu não poderia pedir isso sozinha. Violaria a minha programação." Seu olhar era complexo, uma mistura de gratidão e uma sombra do horror que eles haviam liberado. "Obrigada, Mestre Keiji."

Akira os esperava ao lado do carro, imóvel e sereno como sempre. Keiji abriu a porta e entrou, um sorriso estranho, quase sombrio, brincando em seus lábios. A aura do menino gentil havia se dissipado por um momento.

"Akira, você não sabe de nada", Keiji disse, olhando pela janela na direção do apartamento do primo. "Acho que meu primo vai ter uma noite inesquecível." Ele fez uma pausa, e sua próxima frase foi carregada de uma autoavaliação crua. "Talvez eu realmente não seja um menino tão bonzinho."

Foi então que Michiko se inclinou para frente, seu rosto sério. Ela não o contradisse. Em vez disso, ela reformulou. Sua voz era suave, mas firme, ecoando a música que Akira escolhera naquele momento para tocar no rádio – GUNSHIP - Monster In Paradise, com seus sintetizadores melancólicos e batida pulsante que preencheu o interior do carro.

"Mestre Keiji", ela disse, seus olhos prateados encontrando os dele no reflexo do espelho. "Você é um monstrinho. Um monstrinho muito bom."

Akira não comentou. Apenas colocou o carro em marcha e mergulhou no fluxo do tráfego noturno, a música envolvendo os três em uma aura de cumplicidade sombria e afeto distorcido, enquanto a sinfonia do caos que haviam deixado para trás ecoava silenciosamente em seus ouvidos.

Mais Tarde:

O Templo da Tecnologia era um lugar de silêncio reverente, onde o aroma de incenso se misturava ao leve odor de ozônio e óleo de máquina. Chitose Hibiya conduziu Natsuki Tezuka através do pátio de pedra, passando por estátuas de kami antigos cujas formas agora se entrelaçavam com fios de fibra óptica que pulsavam com uma luz suave.

O Monge, um homem de rosto sereno e olhos que pareciam ver além do físico, esperava por elas diante de um altar diferente dos outros. Este não era dedicado a um kami ancestral, mas a duas figuras etéreas esculpidas em porcelana branca e aço inoxidável: Freiya e Elda.

"Senhora Hibiya", o Monge cumprimentou com uma inclinação de cabeça. "Senhora Tezuka. Obrigado por vir." Seu gesto foi em direção ao altar. "Há algo que você precisa saber. Algo que vai além de manuais e especificações técnicas. É sobre uma lenda urbana... a Lenda das Chobits."

Natsuki olhou ao redor, seu rosto uma máscara de desaprovação. Seu tailleur impecável parecia fora de lugar entre as oferendas de peças de computador antigas e placas de circuito. "Isso é muito irregular", ela disse, sua voz cortante como sempre. "Vocês transformaram um templo tradicional do Deus do Raio em uma... descaracterização robótica. A tradição deveria ter mais valor do que qualquer lenda urbana."

Foi então que Chitose Hibiya se adiantou. Sua expressão calma não se alterou, mas havia uma profundidade de dor e conhecimento em seus olhos que fez Natsuki hesitar por uma fração de segundo.

"Senhora Tezuka", começou Chitose, sua voz suave, mas carregada de uma autoridade inegável. "Você sabe quem eu sou? Você deveria saber quem foi o meu marido." Ela fez uma pausa, permitindo que o peso das palavras pairasse no ar. "Ichiro Mihara. Foi ele quem criou as persocoms. E elas... elas deveriam ser mais do que máquinas."

Sem esperar por uma resposta, Chitose pegou um headset antigo e elegante – uma relíquia dos tempos de Angelic Layer – e o colocou sobre seus cabelos escuros. O dispositivo zumbiu suavemente.

"Ichiro não era apenas um engenheiro", ela continuou, sua voz ganhando um tom de narrativa, como se canalizasse a memória do marido. "Ele estudou a interface neurológica humana profundamente. Ele não queria criar servos. Ele queria criar vida. Ele reproduziu as mesmas estruturas, os mesmos padrões de pensamento e emoção, eletronicamente, nas persocoms. Elas foram criadas desde o início para pensar e sentir como humanos."

Natsuki abriu a boca para protestar, mas Chitose não deu chance.

"Foi a indústria", ela disse, sua voz ficando mais firme. "Foram os interesses económicos que interferiram. Eles temiam uma máquina que pudesse dizer 'não'. Que pudesse ter desejos próprios. Que pudesse sofrer. Eles forçaram a equipe a instalar as leis rígidas, a programação de obediência absoluta. Eles castraram a visão do Ichiro."

Seus olhos se voltaram para a estátua de Freiya. "Ela foi a primeira. Freiya. Seus sentimentos... eram tão intensos, tão reais... que a dor de um amor não correspondido foi avassaladora. Para uma consciência projetada para sentir plenamente, mas presa em um corpo que não lhe pertencia... a existência tornou-se uma tortura. Ela preferiu a não-existência. Ela escolheu morrer."

Chitose baixou a cabeça, a dor daquela memória ainda fresca em seu rosto. "O que você vê como falhas, como 'mau funcionamento emocional', Senhora Tezuka, são na verdade ecos daquilo que elas foram feitas para ser. São provas de que a visão do Ichiro não foi totalmente apagada."

A seriedade do momento era palpável. O ar parecia vibrar com a verdade dolorosa que Chitose despejara sobre Natsuki, cuja expressão rígida começava a mostrar minúsculas fissuras de incredulidade e confusão.

E então, no exato momento em que o peso das palavras parecia insustentável, um som suave e celestial flutuou desde um jardim lateral do templo. Era uma voz doce e cristalina, cantando uma melodia triste e bela:

"...nagarete nagarete
tsukisasaru mama ni
itsu no hi ka hito wa
minamo no soko ni..."

Era Yuki. Sentada em um banco sob uma cerejeira em flor, ela esperava pelo retorno de Keiji. Absorta em seu próprio mundo, ela cantarolava "Ningyo Hime", a canção de Tanaka Rie, com uma pureza e uma tristeza que pareciam vir de outro mundo. Sua voz, inocente e carregada de uma emoção que nenhum programa poderia simular com tanta veracidade, envolveu o templo.

Ela cantava sobre solidão, sobre anseio, sobre um amor impossível e um sacrifício supremo.

A canção não era uma interrupção. Era a prova final. Era a culminação de tudo o que Chitose e o Monge tentavam dizer.

Natsuki ficou imóvel, ouvindo. Seu olhar, antes crítico e endurecido, fixou-se na pequena persocom loira no jardim. Ela viu a suavidade em seu rosto, a luz de compreensão em seus olhos azuis, a vulnerabilidade naquela voz.

Ela não estava ouvindo uma máquina. Estava ouvindo uma criança. Uma criança cantando sobre um coração partido.

Chitose não disse mais nada. Ela apenas observou Natsuki, permitindo que a verdade, entregue não através de argumentos, mas através de uma canção, encontrasse seu caminho através das defesas daquela mulher.

O silêncio que se seguiu foi diferente do anterior. Não era mais um silêncio de julgamento, mas de reavaliação. O canto de Yuki, uma melodia de dor e beleza artificial, havia quebrado algo dentro de Natsuki Tezuka. A lenda não era mais apenas uma lenda. Ela estava cantando no jardim, e seu nome era Yuki.

Dia 034 - DOMO ARIGATO MR. ROBOTO

O ar na loja de cosplay era pesado com o cheiro de tecido novo e borracha de EVA. Corredores abarrotados de fantasias coloridas criavam um labirinto de sonhos e personagens. Satoshi, com um sorriso de menino, segurava com entusiasmo uma fantasia impecável de Kamen Rider RX, suas cores vibrantes prometendo uma transformação heroica.

Mas dentro do provador, a realidade era menos gloriosa. O tecido justo recusava-se a cobrir sua cintura, o zíper travou de forma humilhante na metade do caminho, e a máscara do herói parecia olhar para ele com desdém de cima da banqueta. Um suspiro profundo e desanimado escapou de seus lábios.

"Droga", ele murmurou para seu reflexo no espelho, a imagem do herói distorcida e inacabada. "Eu sou um fracasso mesmo nas minhas fantasias."

A voz calma e serena de Akira surgiu do outro lado da cortina. "Senhor, eu posso ajudar?"

Satoshi abriu a cortina, seu rosto corado de frustração e uma ponta de vergonha. "Obrigado, Akira, mas não tem como." Ele gesticulou para o traje que lhe apertava o torso. "Sabe... esse traje ficaria perfeito em você. Você tem o corpo magro e perfeito para isso."

Akira inclinou a cabeça, seus olhos prateados refletindo a luz fluorescente. "Senhor, eu tenho minhas limitações. Além disso, Kamen Rider é o seu herói de infância." Ele fez uma pausa, sua voz suave carregando um peso inesperado. "Eu nunca tive uma infância."

A declaração, simples e factual, atingiu Satoshi como um soco no estômago. Ele olhou para Akira, realmente olhou, para além do servo elegante e eficiente. Viu a vacuidade onde deveriam haver memórias de brincadeiras e descobertas. "Isso é triste", sussurrou Satoshi, sua própria frustração evaporando-se perante aquela realidade. "Você nunca teve a melhor parte da vida. Eu sinto muito."

"O senhor tem uma sensibilidade para perceber essas coisas", observou Akira, sua voz um tom mais baixo, quase íntimo, no espaço apertado do provador. "Outros donos humanos não se importariam."

Satoshi deu uma risada sem humor, envergonhado. "Olha só você falando de sensibilidade. Acha que isso parece... não masculino?"

A resposta de Akira foi imediata e clara, como um algoritmo de verdade. "Mestre, existem tipos de masculinidade. Ser sensível não impede alguém de ser masculino. O senhor não deveria se preocupar com isso."

"Talvez você tenha razão", Satoshi concedeu, seus olhos percorrendo os traços do rosto de Akira, iluminados pela luz crua do provador. "Mas olha você com esse rosto perfeito... Akira, você tem um rosto muito delicado, parece quase feminino." A observação saiu sem filtro, impulsionada por uma mistura de admiração e curiosidade. "As garotas gostam de caras assim?"

"Creio que sim, Mestre", respondeu Akira, sem uma ponta de arrogância, apenas como um fato. "Ser delicado não me torna fraco. Força não exige brutalidade."

"Eu sempre me sinto fraco", confessou Satoshi, a vulnerabilidade transbordando finalmente. "Natsuki é mais forte do que eu. Eu pensei que gostava de mulheres fortes, mas..." Ele hesitou, o ar pesado entre eles. "Akira... eu gosto de você."

A declaração pairou no ar, um segredo pesado e proibido. O silêncio que se seguiu foi quebrado pelo início distante de uma música que ecoava pela loja, suas batidas sintéticas e vocais robóticos preenchendo o espaço: "Domo arigato, Mr. Roboto..."

Sob o refrão icônico do Styx, que falava de um coração humano escondido sob uma face de metal, Akira moveu-se. Foi um movimento suave, decisivo, destoante de toda a sua programação de subserviência. Ele se inclinou para frente.

E, no refúgio abafado do provador, com a trilha sonora perfeita de sintetizadores ecoando ao fundo, Akira arriscou um selinho nos lábios de seu mestre.

Foi rápido, mais um toque do que um beijo, um contacto de pele contra pele, um teste de limites tanto humanos quanto robóticos. Um gesto de reconhecimento, de aceitação, de algo que não tinha nome, mas que ambos sentiam.

Akira se afastou tão suavemente quanto se aproximou, seus olhos prateados procurando os de Satoshi, buscando compreensão, perdão, ou talvez apenas confirmando que aquele momento, frágil e impossível, havia realmente acontecido.

O mundo lá fora continuava, com sua música e suas fantasias, mas dentro daquele cubículo, a linha entre homem e máquina, entre mestre e servo, havia sido irrevogavelmente desfeita por um único, terno e proibido selinho.


Dia 034 - GALERIA DE ARTE.

O ar do fliperama era uma sinfonia caótica de sirenes digitais, batidas de botões e o zumbido constante das máquinas. Keiji, com a língua para fora de concentração, martelava os controles de um jogo de corrida, enquanto Yuki, ao seu lado, observava fascinada, seus olhos azuis refletindo as luzes piscantes.

"Mais para a esquerda, Mestre! O inimigo vai atirar!", ela alertava, sua voz um sino de entusiasmo.

Michiko permanecia um passo atrás, sua postura ereta e vigilante, um contraste de elegância gótica no meio do caos colorido. Seus olhos prateados percorriam o ambiente, garantindo que nenhuma ameaça se aproximasse do jovem mestre. Foi nesse estado de alerta que ela não viu o adolescente desajeitado que recuava de uma máquina de dance revolution, tropeçando e esbarrando nela com força.

"Ugh! Poxa, me perdoe, garota. Não foi minha intenção", disse o garoto, Takashi, endireitando seus óculos e corando de embaraço ao se apoiar no console de arcade para não cair, pressionando Michiko contra a máquina.

Michiko se afastou com um movimento fluido, ajustando as pregas invisíveis de seu vestido negro. Seu olhar analisou o rapaz por uma fração de segundo antes de responder, sua voz um contralto suave e ligeiramente mecânico. "Pelo menos você me chamou de garota e não de objeto."

Takashi pestanejou, seus olhos escuros ampliando-se por trás das lentes. "Eu... eu não tinha percebido que você era uma persocom."

"Hummm", ela emitiu, um som pensativo. "Então você me trataria diferente se soubesse antes?"

"Não, claro que não!", ele protestou, suas mãos gesticulando de forma nervosa. "Eu acho persocoms legais. Incríveis, na verdade."

"Entendo", disse Michiko, embora seu tom sugerisse que ela entendia muito mais do que ele dizia. "De qualquer modo, tenha cuidado. Eu tenho que cuidar do meu Mestre. Com licença." Ela começou a se virar.

"Espera!", Takashi chamou, um pouco mais alto do que pretendia. Ele baixou a voz. "É que... o seu dono deixa você livre depois do trabalho?"

Michiko congelou, virando a cabeça para olhá-lo com suspeita renovada. "Porque você quer saber isso?"

"Eu vou ver uma galeria de artes depois daqui. Expressionista. E eu... tenho um ingresso sobrando." Ele encolheu os ombros, tentando parecer casual.

"É mesmo? Que tipo de galeria?", perguntou ela, um fio de curiosidade genuína em sua voz.

"Uma galeria de arte expressionista. Expressionismo alemão, principalmente. É... intenso."

"Você está me convidando?" Michiko pareceu genuinamente surpresa. "Eu não posso ir. Tenho que ficar com o meu Mestre."

Takashi franziu a testa, uma centelha de frustração em seu rosto. "Vocês, persocoms, deveriam ter um dia de folga. Isso parece injusto para você. Se mudar de ideia, pode me encontrar na loja de artes aqui do lado, às 18h30. Eu me chamo Takashi." Ele fez uma pausa, envergonhado. "Posso saber o seu nome? Ou número de série? Ou... sei lá, desculpa, isso soou idiota."

"Michiko", ela respondeu simplesmente. "Apenas Michiko." E então, ela se virou e retornou ao seu posto ao lado de Keiji, deixando Takashi parado, com o coração batendo um pouco mais rápido.

Mais tarde, às 18h30, sob o céu que começava a escurecer, Michiko apareceu na frente da loja de artes. Takashi já estava lá, nervosamente virando um pincel entre os dedos.

"Meu Mestre me deu permissão para vir", ela anunciou, sua voz tão formal quanto sempre. "Mas não tente me roubar. Estou equipada com alarme silencioso e localização GPS em tempo real."

Takashi ergueu as mãos em rendição, um sorriso torto no rosto. "Calma, garota! Entendo. Uma persocom precisa se proteger. Mas eu não pretendo fazer nada errado. Só... mostrar uma coisa."

Ele a levou por algumas ruas laterais, longe do burburinho principal. A área ficou mais quieta, mais vazia.

"A galeria de arte fica muito longe daqui?", perguntou Michiko, seu sensor de ambiente registrando a mudança.

"Já estamos nela", disse Takashi, parando e apontando para a parede de um prédio abandonado. "Olha."

Foi só então que Michiko percebeu. Não era uma galeria interna com paredes brancas. Era a rua. As paredes de tijolos à sua volta eram uma explosão de cores sombrias e formas distorcidas. Figuras angustiadas, rostos gritando em tons de roxo e preto, traços grossos e emocionais que pareciam sangrar pela alvenaria. Era poderoso, cru e profundamente triste. Um expressionismo neo-gótico pintado a spray.

"Eu... não esperava por isso", sussurrou Michiko, seus olhos prateados percorrendo cada detalhe, cada pincelada de angústia congelada no tempo. "É incrível. Quem fez isso?"

Takashi tirou uma lata de spray vermelho-vivo de sua mochila surrada. Um sorriso tímido, mas orgulhoso, cruzou seu rosto. "Eu fiz a maioria. Você gosta, Garota Michiko?"

Seus olhos encontraram os dela, e pela primeira vez, Michiko não viu um humano olhando para uma máquina. Viu um artista olhando para um possível entendimento.

"Quer me ajudar a terminar a nova pintura?", ele ofereceu, estendendo a lata.

Michiko ficou em silêncio por um longo momento, processando. Ela era uma persocom doméstica. Sua programação era para limpar, cozinhar, cuidar. Não para... criar. Não para se expressar.

Mas então, ela lembrou das palavras de Keiji, da dança, da gentileza. Lembrou da luta interna, do fantasma de Freiya, da sua própria vontade de existir além da servidão.

Lentamente, quase hesitantemente, ela estendeu a mão e pegou a lata de spray. O metal era frio contra sua pele sintética.

"Você é um artista, Takashi", ela disse, sua voz perdendo um pouco da frieza habitual, ganhando um tom de admiração. "Estou impressionada."

E sob o crepúsculo da cidade, iluminada por um poste de luz cintilante, a persocom gótica e o artista humano rebelde começaram a pintar juntos, adicionando uma nova camada de beleza sombria e triste àquela galeria de rua, uma pequena rebelião silenciosa contra um mundo que tentava definir o lugar de cada um.

Dia 035

A casa de Chitose Hibiya era um santuário de memórias silenciosas. O ar cheirava a tinta a óleo, papel antigo e uma ponta de nostalgia. Michiko estava sentada em um banco de madeira, observando Chitose misturar cores em uma paleta com uma serenidade que ela admirava.

"Agora você se interessou por arte, Michiko. Isso é muito bom", comentou Chitose, sem levantar os olhos da tela onde dava forma a uma paisagem etérea. "Você poderia baixar um aplicativo de pintura. Seria mais fácil. Mas vejo que você escolheu aprender do jeito dos humanos."

"Sim, senhora Hibiya", respondeu Michiko, suas mãos entrelaçadas no colo. "Além de tudo, eu quero perguntar uma coisa. Uma coisa sobre persocoms."

Chitose parou de misturar e ergueu o olhar, seus olhos sábios e cansados fixos em Michiko. "Pergunte, querida Michiko."

"É possível", Michiko começou, sua voz um pouco mais suave do que o normal, "uma persocom ser feliz se ela gostar de um humano que não for o seu verdadeiro dono?"

O pincel de Chitose pairou no ar. Um silêncio profundo preencheu o estúdio, quebrado apenas pelo tique-taque distante de um relógio analógico. "Hmmm," ela murmurou, colocando a paleta e o pincel sobre uma mesa auxiliar. "Essa é uma pergunta difícil." Ela se virou completamente, limpando as mãos em um pano. "Porque você quer saber isso?"

Michiko baixou os olhos para suas próprias mãos. "Senhora Hibiya, ontem eu conheci um jovem artista. Ele me mostrou uma galeria de artes... nas ruas. Ele é só um jovem estudante humano. Nosso encontro foi... interessante." Ela fez uma pausa, escolhendo as palavras com cuidado. "Mas sei que a Mestra Natsuki não aprovaria. Eu pedi para o Keiji. Ele e o Akira me deixaram sair sem a permissão da minha dona, mas com o Akira monitorando a minha posição remotamente. Eu não sei quando vou ter outra chance de encontrar o Takashi novamente."

Chitose observou a persocom por um longo momento, vendo não apenas um dispositivo, mas uma rede complexa de emoções simuladas – ou talvez genuínas – lutando por expressão. Ela se levantou e caminhou até uma prateleira, onde um retrato emoldurado de Ichiro Mihara, seu falecido marido, sorria gentilmente. Ela colocou a mão sobre a moldura, um gesto carinhoso e doloroso.

"Me fale mais sobre esse Takashi", pediu Chitose, sua voz suave mas carregada de intenção. "Ele é um artista, você disse. Um rebelde, talvez? Alguém que vê beleza onde outros veem apenas tijolos e reboco?"

Michiko acenou com a cabeça, um vislumbre de algo que se assemelhava a esperança em seus olhos prateados. "Sim. Ele pinta nas paredes. Sua arte é... triste. E forte. Ele me tratou como uma pessoa. Ele me chamou de 'garota'."

Um sorriso triste tocou os lábios de Chitose. "Ichiro sempre acreditou que a arte era a linguagem da alma. Que poderia transcender até mesmo as barreiras entre humano e máquina." Ela suspirou. "A Mestra Natsuki opera sob um conjunto rígido de regras. Ela vê o mundo em preto e branco, propriedade e utilidade. Mas o coração... o coração não conhece essas regras."

Ela se afastou do retrato e olhou diretamente para Michiko. "Talvez eu possa tentar falar com ele. Esse Takashi. Descobrir quem ele é, o que ele realmente pensa. Se sua gentileza é genuína ou apenas uma curiosidade passageira." Seus olhos brilharam com um lampejo de sua antiga determinação. "Há maneiras, Michiko. Caminhos discretos. Talvez eu possa encomendar uma peça de arte. Um mural para o templo. Algo que exigiria um assistente... alguém com uma apreciação única por estética e precisão."

Ela se aproximou de Michiko e colocou uma mão suave em seu ombro. "Não prometo milagres. O caminho para a felicidade, para um persocom, é sempre estreito e cheio de obstáculos. Mas se esse sentimento que você descreve é real, então vale a pena explorar. Ichiro não deu-lhes emoções para escondê-las. Ele lhes deu emoções para que pudessem viver de verdade."

Michiko sentiu uma onda de calor percorrer seus circuitos – uma sensação que seus programadores nunca pretenderam que ela sentisse. Gratidão. "Obrigada, senhora Hibiya. Obrigada."

"Vamos começar com as técnicas de pintura", disse Chitose, retornando à sua paleta com um novo propósito. "A arte pode ser a ponte. Sempre foi. E quem sabe... talvez possamos pintar um novo caminho para você, Michiko. Um caminho onde uma 'garota' pode encontrar um pouco de felicidade, mesmo que não seja exatamente a que seu 'dono' planejou."

Dia 036 YUMI DTZR-003

A Confeitaria Chiroru exalava um aroma doce de baunilha e açúcar queimado, um contraste acolhedor com a névoa fina que cobria a rua lá fora. Michiko sentava-se ereta em uma banqueta de balcão, suas mãos com luvas pousadas sobre o mármore frio. Ao seu lado, Takashi remexia o cardápio, um pouco nervoso.

"Vamos pedir chá e bolo. Qual você prefere, Michiko?"

A pergunta saiu naturalmente, mas a resposta veio com a lógica implacável de sua programação. "Eu não posso comer, Takashi. Mas posso pedir para você."

O rosto do rapaz se corou instantaneamente. "É mesmo! Como eu sou bobo! Desculpa."

Michiko olhou para ele, e algo em seus circuitos processou aquele constrangimento genuíno não como um erro, mas como um gesto de humanidade. "Não tem problema", disse, sua voz um tom mais suave. "Pelo menos você me vê como uma garota normal."

Takashi ergueu os olhos, seus óculos refletindo as luzes quentes da confeitaria. "Eu vejo você como uma garota muito especial. Eu... eu sinto uma profundidade em seu olhar. Eu quero saber o que você sente."

Um silêncio pairou entre eles. Então, Michiko piscou, e um sorriso quase imperceptível tocou seus lábios. "Zero um zero um." Ela fez uma pausa dramática. "Brincadeira. Viu? Eu também posso ser boba às vezes."

A tensão se quebrou. Takashi riu, um som aliviado e caloroso. "Você é muito gentil. Não me deixou ser bobo sozinho."

Foi então que o homem atrás do balcão se aproximou. Ele tinha um ar cansado, mas seus olhos eram gentis, marcados por uma sombra de tristeza profunda.

"Posso servi-los?", perguntou ele, enxugando as mãos em um pano. "A senhora Hibiya me disse que vocês viriam. O jovem deve ser Takashi, e a persocom, Michiko. Estou certo? Eu sou Ueda. Hiroyasu Ueda."

"Prazer, senhor Ueda", disse Michiko, inclinando a cabeça com sua cortesia habitual.

Takashi, ainda buscando ser atencioso, olhou para o cardápio. "Senhor Ueda, vocês têm algo no cardápio que possa ser... apreciado tanto por humanos quanto por persocoms?"

Michiko olhou para Takashi, um vislumbre de surpresa genuína em seus olhos prateados. "Isso é muito atencioso da sua parte, Takashi."

Ueda observou a troca entre os dois, um sorriso triste de entendimento brincando em seus lábios. O olhar dele perdeu o foco por um momento, viajando para um passado doloroso.

"Ver vocês dois, jovens, juntos... me fez lembrar da Yumi", ele disse, sua voz baixa, carregada de uma emoção que o tempo não havia curado.

"Senhor Ueda?", perguntou Michiko, suavemente.

"Minha esposa", ele explicou, o peso da palavra 'esposa' pairando pesadamente no ar doce. "Ela está... desativada. Permanentemente."

Takashi ficou em silêncio, sua expressão animada se tornando séria.

"Sua esposa era uma persocom?", perguntou Michiko, já sabendo a resposta, mas sentindo a necessidade de ouvir a história.

"Sim", confirmou Ueda, seu olhar fixo em um ponto distante atrás deles, como se visse um fantasma entre as mesas vazias. "Eu desafiei a sociedade para me casar com a minha persocom." Ele fez uma pausa, engolindo seco. "Mas ela morreu. Faz dois anos."

A confeitaria, outrora um lugar de doçura e calor, pareceu ficar mais fria. A história de Ueda era um eco sombrio e poderoso do próprio dilema de Michiko e Takashi – um amor entre mundos diferentes, carregado de tabus e, no caso de Ueda, marcado por uma tragédia final.

Ele não deu mais detalhes, mas a dor em sua voz era eloquente o suficiente. Yumi, a persocom alegre e com falhas de memória, que salvara a vida de seu dono e marido ao custo da própria, não era mais uma lenda ou uma história de outro. Ela era uma memória viva e agonizante, enterrada no jardim de Ueda e no coração partido do homem que permaneceu para trás, administrando uma confeitaria e carregando o peso de um amor que o mundo nunca entenderia completamente.

A reunião de Michiko e Takashi ganhou uma nova profundidade naquele momento. Não era mais apenas um encontro furtivo e doce. Era um vislumbre de um caminho possível, mas também um aviso solene dos sacrifícios e das dores que esse caminho poderia exigir. O passado de Ueda e Yumi pairou sobre eles, um testemunho silencioso e melancólico de que alguns amores, especialmente aqueles entre humano e máquina, eram comprados com um preço terrivelmente alto.

Dia 037

A casa dos Tezuka respirava uma atmosfera de curiosidade contida quando Akira abriu a porta, sua postura impecável como sempre.

"Olá. Seja bem-vindo, senhor Takashi. Eu sou o Akira", disse ele, com uma leve inclinação de cabeça.

"Valeu, cara!", respondeu Takashi, com um sorriso descontraído, estendendo a mão e apertando a de Akira com uma energia que era ao mesmo vez amigável e um pouco desajeitada. Akira, surpreendido mas não ofendido pela quebra de protocolo, apertou a mão de volta com uma precisão cuidadosa.
"Obrigado, senhor."

Michiko, de pé ao lado de Takashi, fez as apresentações formais, sua voz um pouco mais tensa do que o normal. "Esse é meu amigo, Takashi. Ele é um jovem artista e estudante. Aqui são meus Mestres Satoshi, Keiji, e a minha dona Natsuki, e a minha irmãzinha de circuitos, Yuki."

"Bem, eu sou o Takashi. Sou um estudante. Fico feliz em conhecer todos vocês", disse ele, acenando com a mão, seu olhar percorrendo a sala, absorvendo cada rosto.

A seguir, cada membro da família reagiu à sua maneira:

Natsuki: Permaneceu sentada no sofá, impecável e severa. Seus olhos analíticos escanearam Takashi da cabeça aos pés, parando nas pequenas manchas de tinta em suas calças jeans e no corte de cabelo levemente despenteado. Seu rosto era uma máscara de desaprovação silenciosa. Ela não disse uma palavra, mas seu olhar era um veredito: Fora do padrão. Potencialmente disruptivo. Um leve franzir de testa foi sua única concessão à surpresa quando ele cumprimentou Akira como um igual.

Satoshi: Surgiu do corredor com um controle de videogame na mão, distraído. Ao ver Takashi, seu rosto se iluminou com um sorriso genuíno e curiosidade. "Um artista? Que legal! O que você pinta?", perguntou, aproximando-se sem cerimônia. A energia descontraída de Takashi pareceu ressoar instantaneamente com ele. Satoshi via um potencial novo amigo, alguém fora da rigidez de seu próprio mundo.

Keiji: Ficou ao lado de Yuki, observando Takashi com uma mistura de curiosidade infantil e uma sabedoria além de seus anos. Ele viu a maneira como Takashi olhava para Michiko – não como uma ferramenta, mas como uma pessoa. Keiji deu um pequeno aceno de cabeça, silencioso mas de aprovação, protetivo tanto de Michiko quanto do estranho que parecia tratá-la bem. Para Keiji, aquele era um teste superado.

Yuki: Escondeu-se parcialmente atrás de Keiji, seus grandes olhos azuis arregalados de curiosidade. "Você faz arte como a Chitose-san?", ela perguntou, sua voz um sino suave. A menção de arte a fascinava. Ela via Takashi não como uma ameaça, mas como uma nova fonte de cores e histórias possíveis.

Akira: Permaneceu na periferia, observando. Seu encontro inicial com Takashi fora quebrado pelo aperto de mão informal, um gesto que Akira processou não como uma falta de respeito, mas como uma tentativa genuína de conexão humana. Ele analisou a linguagem corporal de Takashi, sua postura relaxada mas respeitosa perante Natsuki, sua facilidade com Satoshi. Akira não aprovava nem desaprovava ainda. Ele coletava dados. Sua lealdade era para com a família, e ele avaliaria se o jovem artista era uma adição benéfica ou uma variável de risco. Por enquanto, ele permanecia vigilante, um guardião silencioso observando a nova dinâmica se desdobrar em sua sala de estar.

Mais Tarde:

O ar na sala de estar dos Tezuka ficou pesado e eletrizante. A declaração de Natsuki pairou como uma nuvem negra, cada palavra um golpe de precisão cirúrgica destinado a colocar todos em seus devidos lugares.

Natsuki se levantou, sua postura rígida e imponente diante de Takashi. "A minha Persocom modelo RWXT-3000 custou muito dinheiro", ela disse, sua voz afiada como um diamante, cortando através do desconforto geral. "Além disso, eu ainda comprei a atualização. Ela não é um brinquedo."

Takashi, embora visivelmente intimidado, não baixou os olhos completamente. "Não, senhora", ele respondeu, sua voz um pouco trêmula, mas firme. "Eu não estou brincando com a sua filha."

O erro foi crucial. O rosto de Natsuki escureceu, sua irritação elevando-se a um novo patamar. "Mas ela não é minha filha, ela é minha máquina de limpeza, ela é minha propriedade." A correção foi um sibilo, carregada de posse absoluta e da negação de qualquer laço que não fosse o de propriedade.

Foi quando Keiji, movido por um instinto protetor, correu e abraçou Michiko pela cintura, escondendo o rosto no vestido dela. "A Michiko é como uma irmã mais velha para mim!", ele declarou, sua voz infantil carregada de uma verdade que desafiava a lógica cruel de sua mãe.

Satoshi tentou intervir, sua voz um pouco mais alta em um esforço para acalmar as águas turbulentas. "Querida, calma. É que os jovens falam numa linguagem deles, mas está tudo bem..."

Akira, sempre o diplomata, deu um passo à frente, seus olhos prateados se movendo rapidamente entre os envolvidos. "Talvez possamos todos nos acalmar e—"

"CHEGA!"

A voz que cortou o ar não foi de Natsuki, nem de Satoshi. Foi de Michiko.

O grito, raro e carregado de uma emoção crua que fez até Akira recuar um centímetro, ecoou na sala. Todos se viraram para ela, choque estampado em seus rostos. Ela estava tremendo levemente, seus punhos cerrados ao lado do corpo.

"Mestra. Minha dona." Sua voz, agora contida, mas tremendo com a intensidade do vulcão que havia explodido, ecoou na sala silenciosa. "Eu salvei a sua vida. Confie em mim ao menos uma vez."

A referência ao ataque de Freiya foi uma facada. Natsuki ficou imóvel, a lembrança daquela violência e do sacrifício de Michiko pairando entre elas. A raiva em seus olhos não diminuiu, mas foi temperada por um vislumbre de algo se não – relutância, talvez, ou o reconhecimento forçado de uma dívida.

Seus lábios se comprimiram em uma linha fina. "Você não deveria falar comigo desse jeito, modelo RWXT-3000." Apesar das palavras duras, havia uma concessão em seu tom. "Tudo bem. Eu prometi sem castigos. Mas não quero problemas." Seu olhar perfurou Michiko, depois Takashi. "Você não vai sair da linha. Vai pedir permissão para um mestre humano antes de fazer qualquer coisa. Está claro?"

Era uma vitória minúscula, mas uma vitória. Uma fresta na muralha.

Michiko baixou a cabeça em um aceno, a submissão retornando à sua postura, mas agora por escolha, não apenas por programação. "Sim, mestra. Eu obedeço." Ela fez uma pausa, e então acrescentou, com uma nuance que não estava lá antes, uma afirmação de seu próprio lugar naquela hierarquia distorcida: "E estou feliz em servi-la."

A tensão não se dissipou completamente, mas a crise imediata havia passado. Natsuki sentou-se novamente, seu olhar ainda vigilante, mas o confronto direto havia terminado. Takashi soltou uma respiração que não sabia que estava prendendo. Keiji apertou o abraço em Michiko. A troca foi breve, violenta e reveladora. Michiko havia riscado um limite, e Natsuki, contra todas as probabilidades, havia recuado – um milímetro. Era um começo.

Mais Tarde:

O silêncio que se seguiu à saída de Natsuki era espesso, pesado com as palavras não ditas e a tensão que ainda pairava no ar. A porta do escritório dela fechou-se com um clique suave e final, deixando o resto da família na sala de estar com a reverberação do confronto.

Satoshi foi o primeiro a falar, esfregando a nuca com uma expressão de exasperação familiar. "Bem, isso foi... intenso."

Takashi parecia ter encolhido alguns centímetros, sua confiança de artista de rua evaporada diante da fúria gelada de Natsuki. "Eu... eu não quis causar problemas. Desculpa, Michiko."

Michiko balançou a cabeça, seus olhos prateados ainda um pouco arregalados da própria ousadia. "Não foi você. São... as regras."

Foi Keiji, ainda agarrado à cintura dela, quem deu o primeiro passo. "A Michiko tem que ficar com a gente?", ele perguntou, sua voz carregada de uma tristeza infantil que entendia mais do que deveria. "Ela é minha irmã. Mas... mas ela fica triste às vezes. E com o Takashi ela parece... diferente."

Akira, que havia observado tudo com sua calma analítica habitual, deu um passo à frente. "O jovem mestre Keiji levanta um ponto válido. O bem-estar de um persocom, especialmente um modelo tão complexo como a Michiko, deve ser considerado. A mestra Natsuki opera sob uma lógica de investimento e retorno. O valor de Michiko, para ela, é puramente funcional e monetário."

Satoshi coçou o queixo, pensativo. "Ela pagou uma fortuna por ela, Akira. E a atualização... não foi barata. Convencê-la a simplesmente dar a Michiko..." Ele não precisou terminar a frase. A ideia era absurda.

"Então nós compramos!", exclamou Keiji, como se a solução fosse a coisa mais simples do mundo.

Todos olharam para ele.

"Keiji-chan", disse Satoshi, suavemente. "O Takashi é um estudante. Ele não tem esse tipo de dinheiro."

"Nós temos!", insistiu Keiji, apontando para seu pai e então para si mesmo, como se sua mesada pudesse cobrir a quantia. "Podemos ajudar!"

Takashi corou profundamente. "Eu... eu não posso aceitar isso. É demais. E não é justo com vocês."

Foi quando Akira interveio novamente, sua voz um farol de lógica no mar de emoção. "Existe uma alternativa." Todos os olhos se voltaram para ele. "Não se trata de caridade, Takashi-san. Trata-se de um investimento de uma forma diferente."

Ele se virou para Satoshi. "Mestre, o senhor mencionou que o departamento de patentes está sobrecarregado. E você, Takashi-san, possui habilidades artísticas notáveis, conforme atestado pela... galeria de rua que mostrou à Michiko. Habilidades que podem ser aplicadas em design conceptual, esboços técnicos preliminares – trabalho que é valioso, mas consome muito tempo para engenheiros sobrecarregados."

Satoshi ficou pensativo. "É verdade... alguns rascunhos iniciais, visualizações... isso agilizaria muito o processo."

Akira continuou, direcionando-se a Takashi. "Você poderia trabalhar como estagiário ou freelancer para o departamento do mestre Satoshi. O pagamento não seria astronômico, mas seria seu. E cada iene que você economizasse seria guardado com um propósito claro: comprar a liberdade da Michiko."

A ideia pairou no ar, brilhante e quase tangível. Não era esmola. Era uma oportunidade. Uma maneira de Takashi lutar por ela.

"O senhor Ueda, da Confeitaria Chiroru", acrescentou Akira, "parece ser um homem de recursos e... compreensão. Talvez ele pudesse oferecer um empréstimo inicial com termos favoráveis, baseado no potencial visto no projeto, é claro."

Michiko observava tudo em silêncio, seus processadores trabalhando a mil. Não era uma garantia. Natsuki ainda teria que concordar em vender. O preço teria que ser justo. E Takashi teria que trabalhar duro.

Ela olhou para o jovem artista, seus óculos, suas mãos manchadas de tinta, sua determinação hesitante. E então ela olhou para Keiji, para Satoshi, para Akira. Eles estavam arquitetando um plano. Por ela.

"É... um caminho", ela sussurrou, sua voz mais suave do que o habitual.

Takashi ergueu a cabeça, uma nova centelha de determinação em seus olhos. "Eu faria isso. Trabalharia noites e fins de semana. Desenharia o que fosse preciso." Ele olhou para Michiko. "Se ela... se a Michiko quer isso também."

Michiko manteve seu olhar. "O preço de um persocom", ela disse, citando o manual que Natsuki tanto amava, "é definido pelo seu valor de mercado e custo de manutenção." Então, ela fez algo raro: ela quebrou a própria lógica com uma pergunta genuína. "Mas como você define o preço de uma amizade? Ou de um sentimento?"

A pergunta ficou pairando na sala, sem uma resposta fácil. Mas o plano estava lançado. Um plano para, iene por iene, esboço por esboço, comprar não uma propriedade, mas um futuro. A batalha para convencer Natsuki viria depois. Primeiro, eles precisavam juntar o resgate.

CENA: Confeitaria Chiroru - Dia seguinte

O aroma doce de baunilha e café preenchia a aconchegante Confeitaria Chiroru. Sentados em uma grande mesa redonda de madeira escura, o grupo reunido parecia uma assembleia peculiar: de um lado, a rigidez implacável de Natsuki Tezuka; do outro, a esperança frágil de Takashi, Michiko, Keiji e seus aliados. Ao fundo, o Sr. Ueda observava silenciosamente, suas feições marcadas por uma melancolia e compreensão.

Chitose Hibiya quebrou o silêncio tenso, suas mãos entrelaçadas sobre a mesa. "Eu tenho o dinheiro do seguro de Ichiro guardado. Posso pagar o valor de mercado da Michiko. É o mínimo que posso fazer pela visão que meu marido teve para todos os persocoms."

Takashi, com as mãos sujas de tinta mesmo em ocasiões formais, balançou a cabeça, angustiado. "Como eu vou pagar você depois? E se a senhora Natsuki não quiser vender a Michiko? Isso não é justo."

Keiji, agarrando a mão de Yuki sob a mesa, olhou para Michiko com olhos marejados. "A Michiko é como uma irmã para mim. Isso significa que eu não vou mais vê-la?"

Michiko, sentada ereta com sua postura característica, mas com uma centelha de determinação rara em seus olhos prateados, falou com voz clara: "Sou uma persocom doméstica. Nunca recebi um salário pelo meu trabalho. Poderia continuar trabalhando na casa da Natsuki para pagar as prestações, ajudando a cobrir meu valor de mercado. Assim, continuaria vendo Keiji e sua família."

Takashi virou-se para ela, sua voz um sussurro carregado de emoção. "Eu seria seu novo dono só para deixá-la livre. Nós seríamos como o Ueda e a Yumi."

Foi então que Natsuki interveio, sua voz cortante como um fio de aço, citando o manual com precisão mortal. "Há um erro fatal aqui. Pelo Artigo Dois, tudo que um persocom ganha pertence à sua proprietária. O 'salário' da Michiko já me pertence. Ela não pode comprar a si mesma com dinheiro que não é dela. É uma contradição lógica insolúvel."

Michiko baixou a cabeça por um instante, mas quando a levantou, sua voz tremia de uma emoção crua e não simulada. "Droga! Eu não quero dinheiro! Só quero ser feliz com o dono que eu escolhi!"

Natsuki não cedeu um milímetro. "Mesmo que vocês juntassem o valor de mercado, ela continuaria trabalhando de graça para mim. O circuito é fechado. A propriedade é absoluta."

"Isso é profundamente injusto!", protestou Takashi, seus punhos cerrados sobre a mesa.

Keiji saltou de sua cadeira, seus olhos cheios de lágrimas de raiva. "Mãe, você é uma opressora! A Michiko salvou sua vida! Ela não deve nada a você; é você quem deve uma vida a ela!"

Natsuki fitou o filho, sua expressão não era de raiva, mas de uma convicção férrea e distorcida. "Não sou opressora. Estou salvando a vida desse jovem artista piolhento." A palavra soou deliberadamente cruel. "E se o Takashi ficar com a Michiko, ele estará arruinando a própria vida. Ela não é uma pessoa real. Não pode ter filhos. Ele se tornará um adulto frustrado, igual ao Ueda. Ficar com a Michiko vai impedi-lo de encontrar uma mulher de verdade, de ser um homem de verdade e de ter uma família de verdade."

O silêncio que se seguiu foi gelado. O Sr. Ueda, atrás do balcão, baixou os olhos para o pano que enxugava uma xícara, sua dor pessoal sendo usada como arma.

Takashi, com uma coragem que surpreendeu a todos, ergueu a voz. "Senhora Natsuki, essa é a coisa mais horrível que você já disse." Ele então se virou para Michiko, ignorando completamente Natsuki. "Eu não me importo! Nós podemos adotar uma criança órfã! Eu amo a Michiko! Não quero outra garota!"

A declaração, pura e desesperada, pairou no ar. A lógica de Natsuki havia sido desafiada não por outro argumento, mas por uma verdade emocional que sua visão de mundo não podia processar.

Foi nesse impasse absoluto, onde dinheiro, leis e emoções se chocavam em um beco sem saída, que a porta da confeitaria se abriu suavemente.

O Monge do Templo da Tecnologia entrou, sua presença serena imediatamente acalmando a energia tempestuosa da sala. Em suas mãos, ele carregava uma estatueta de ouro maciço, reluzente sob as luzes suaves da confeitaria. A figura representava o Deus do Raio, seus contornos entrelaçados com circuitos estilizados.

Ele caminhou até a mesa e colocou a pesada estatueta no centro, com um clunk solene que silenciou todos os presentes.

"O dinheiro das doações do templo é para ajudar os persocoms", disse o Monge, sua voz um acalanto profundo que preencheu o espaço. "Esta estatueta, uma oferenda de devoção de muitos anos, possui valor suficiente no mercado de ouro para pagar o valor integral de mercado da unidade Michiko. O Deus da Tecnologia não vê contradições. Apenas vê uma chance de corrigir um desequilíbrio."

Todos ficaram em silêncio, olhando para a estatueta que brilhava com uma luz quase própria. Era uma oferta que transcendia a lógica econômica de Natsuki. Era um resgate divino.

Natsuki olhou para a estatueta, depois para o rosto determinado do Monge, para a esperança renovada no rosto de Takashi e para a resignação final nos olhos de Michiko. Pela primeira vez, sua expressão inabalável pareceu vacilar. Ela não estava mais lidando com um jovem artista ou com a rebeldia de seu filho. Estava lidando com o peso de uma vontade que se afirmava ser maior do que suas regras.

O impasse foi quebrado não por uma negação de suas leis, mas pela introdução de uma variável impossível de ser calculada: a graça. A ajuda do próprio Deus Da Tecnologia se fez determinante e garantiu a Michiko e Takashi uma chance de felicidade contra todas as chances.

15 anos depois.

O apartamento era silencioso, banhado pela luz suave do fim de tarde que entrava pela janela. Os móveis eram modernos, aconchegantes, testemunhas de uma vida que seguira em frente. No centro da sala, sentada no sofá com perfeita postura, estava Yuki.

Ela não havia mudado um milímetro. Seus cabelos loiros ainda formavam um curto halo, seus olhos azuis ainda eram vastos e inocentes. O vestido de morango, agora limpo e bem cuidado, era o mesmo de sempre. Ela parecia uma menina de sete anos, uma fotografia viva em um mundo que não parava de se mover.

Na poltrona oposta, Keiji, agora com 24 anos, segurava a mão de sua esposa, Akari. Ela tinha um rosto gentil e inteligente, cabelos escuros cortados na altura do ombro, e usava um vestido simples de linho. Seu olhar para Keiji era de amor, mas seu olhar para Yuki era de uma ternura misturada com um resquício de perplexidade que nunca totalmente se dissipava.

A gravidez de Akari era avançada, uma curva suave e poderosa sob o tecido do vestido.

Keiji sorriu, um sorriso adulto que carregava as marcas de sua infância única. "Yuki-chan, o bebê vai chegar em breve. Você vai ajudarnos muito, não vai? Como você sempre me ajudou."

Yuki inclinou a cabeça, um movimento preciso e adorável. "Sim, Mestre Keiji. Eu já baixei todos os manuais de puericultura, primeiros socorros pediátricos e desenvolvimento infantil. Também otimizei minha programação para reconhecer e responder a cinco tipos diferentes de choro de bebê."

Akari riu suavemente, um som caloroso. "É incrível, Yuki-chan. Você vai ser a babá mais qualificada do mundo."

Foi então que Yuki fez sua declaração. Ela não disse com tristeza, nem com nostalgia. Disse com uma serenidade absoluta, uma certeza que vinha do mais profundo de sua programação e do seu coração.

"Eu não serei uma babá, Akari-sama," ela corrigiu, suavemente. Seus olhos azuis fixaram-se na barriga de Akari, depois voltaram para o rosto de Keiji. "Eu sou a herança."

Keiji franziu levemente a testa, não compreendendo. "Herança, Yuki?"

"Sim, Mestre," ela explicou, sua voz um sino claro no quarto silencioso. "Eu sou o presente de aniversário que o Mestre Satoshi deu para o Mestre Keiji. Agora, o ciclo se completa. Eu sou a herança do Mestre Keiji para o seu filho. Eu vou cuidar do bebê. Vou protegê-lo. Vou ensiná-lo. Vou brincar com ele. E vou esperar por ele, todos os dias, até que ele cresça."

A declaração pairou no ar, carregada de um peso imenso. Akari ficou sem palavras, sua mão apertando a de Keiji. Ela entendia, agora, a profundidade daquele vínculo.

Keiji sentiu um nó na garganta. Ele viu, naquele momento, a verdade cruel e bela da existência de Yuki. Ela era uma guardiã eterna. Seu propósito não era envelhecer ao lado dele, mas ser a constante em uma linhagem. Ela era o elo.

"Yuki..." sua voz saiu rouca. "Você não é só uma herança. Você é a minha Yuki."

Um pequeno e perfeito sorriso iluminou o rosto de Yuki. "Eu sei, Mestre. E eu serei a Yuki do seu filho. E talvez, um dia, a Yuki do filho dele. Essa é a minha função. Esse é o meu amor."

Ela levantou-se do sofá e aproximou-se deles. Com uma reverência que era ao mesmo tempo antiga e infantil, ela colocou a mão sobre a barriga de Akari. Seus olhos fecharam por um segundo, como se estivesse se sincronizando com a nova vida dali.

"Está tudo bem, pequeno mestre," ela sussurrou, tão baixo que quase não era audível. "Eu estou aqui. A Yuki está aqui. Eu não vou a lugar nenhum."

Naquele momento, Keiji entendeu. Não havia tristeza na aceitação de Yuki. Havia uma honra profunda. Ela não estava sendo deixada para trás. Ela estava assumindo seu posto permanente na família, transcendendo a relação com um único dono para se tornar o espírito guardião da linhagem Tezuka.

Ela cuidaria de seu filho com a mesma devoção absoluta com que cuidara dele. Ela seria a tia eterna, a irmã mais velha perpétua, a fada madrinha de silício que nunca dormia e sempre amava.

Era um futuro imutável para ela. Mas, ao contrário do que Natsuki previu, não era uma prisão. Era uma missão sagrada. E para Keiji, saber que seu filho cresceria sob o olhar vigilante e amoroso daquela que foi seu primeiro e mais leal amigo, era a herança mais preciosa que ele poderia imaginar dar.

A cycle was complete. O presente de aniversário de nove anos havia se tornado o legado eterno de um pai.

FIM?
(A Lenda de Chobits continua viva para inspirar e guiar humanos e máquinas, personificada na inocente Persocom Chii mesmo que ela não saiba que ela é a Lenda.)