Work Text:
Depois de passar inúmeras horas debruçada na cama, seja chorando ou tentando controlar esse choro insaciável, Samira finalmente se encontra nos vastos campos soníferos de Hipnos, adormecendo tão profundamente como uma princesa que tocou, segundos antes, uma roca de fiar. Ela sente o peso dos seus olhos e do corpo fatigado se relaxarem, mesmo com milhares de câmeras apontadas para ela e, provavelmente, milhares de pessoas assistindo naquele milésimo de segundo entre a realidade e o campo do seu subconsciente. Antes mesmo de entrar no reality, ela se pegou pensando: ‘e se eu tiver um sonho erótico com alguém?’, pois, para ela, nada seria tão mortificante quanto a possibilidade de chegar a gemer o nome de outra pessoa em um estado tão vulnerável em rede nacional. Mas isso não chegava a ser pior do que o pensamento de que: ‘e se eu me apaixonar por alguém?’
Samira sempre fora uma garota que se deixava aberta às possibilidades do mundo, visto que tivera uma infância marcada por adversidades que ela nem mesmo gostava de pensar ou ponderar. Às vezes, até mesmo desabafar em voz alta a fazia chorar. Ela se sentia tão envergonhada de ter todos os seus traumas, medos e inseguranças sendo trazidos à tona em uma situação tão complexa como aquela. Nunca imaginou que o seu maior sonho se tornaria uma possibilidade para mais traumas futuros, com medo de como o público estaria vendo esse seu lado lá fora, algo de que ela não fazia a mínima ideia. Apenas esperava o básico de um ser humano: compreensão para entender o seu lado.
Ao mesmo tempo em que pensava nisso, sentia-se grata por ter pessoas tão verdadeiras ao seu lado, mesmo depois de tudo o que fizera com eles, mesmo depois da traição e do seu comportamento angustiante ao ser colocada em um paredão por um de seus quase-aliados. Mesmo depois de tudo isso, ela recebeu o melhor prêmio que alguém poderia lhe oferecer: o perdão e a reconciliação.
Só que… ela não conseguia deixar de se sentir estranha. Como se ainda, no mais profundo do seu coração, houvesse a necessidade perfurante e dilacerante de extravasar algo—ou com alguém—sobre um sentimento que ela não sabia nomear—ainda.
Em meio ao seu estado sonolento, ela podia sentir o aconchego de estar ao lado de Milena, sua colega e principal aliada de confinamento. Alguém que, em um mês, viveu um turbilhão de emoções, seja desentendimentos, frustrações e reconciliações com ela. Sentia o peso do próprio corpo; não sabia se era por causa do seu estado emocional estilhaçado ou se era pela proximidade com Milena, mas sua mente, seu subconsciente—pior… talvez, o seu próprio âmago—trouxe à tona a personificação daquilo com que ela ainda não tinha entrado em conflito—a coisa que ela mais temia perceber, por medo de mudar sua amizade com Milena—em um sonho.
A imagem era simples: elas estavam no quarto, conversando, como sempre fazem. Samira, em um tom mais brincalhão, atiçando a garota ao seu lado com perguntas bobas, que ela sempre fazia, mas nunca achava que seriam levadas a sério, como: “Ah, Tia Milena, fala sério? Você nunca teve curiosidade sobre beijar uma mulher?”
A garota pondera ao seu lado. Mesmo sempre tendo respostas na ponta da língua, parecia estar procurando por algum resquício de coragem para o que iria dizer a seguir.
“Ai, Samira. Eu já tive com você, com a Ana Paula.”
O coração de Samira, mesmo que aquilo fosse um sonho, bateu acelerado.
“Comigo?” ela questiona, tentando confirmar se aquilo era verdade ou alucinação—o que, na verdade, ela sabia: era apenas um sonho.
“Ai, para.” a Milena do sonho dá tapinhas em seu ombro, envergonhada de ter admitido aquilo.
“Não, Milena, olha para mim.” ela diz, puxando com carinho o rosto da colega, com medo de que ela pudesse se quebrar naquele momento e tudo aquilo desaparecesse, e continua: “Você tem vontade de me beijar?”
“Vontade, não sei. É como se fosse uma curiosidade.”
“Toma cuidado que a curiosidade matou o gato, hein?” Samira provoca em um tom que até mesmo ela sente a atordoar, ainda encarando o rosto de Milena, estudando suas feições e expressões que pudessem indicar algum sinal que a fizesse tomar alguma atitude.
Tudo parecia tão nítido, tão banal e, ao mesmo tempo, algo intangível da sua realidade.
Se Samira pudesse se jogar no chão e clamar para que algum Deus escutasse suas preces, ela pediria que Ele a instruísse se o que estava prestes a fazer era o certo.
Mas quem se importava mais com o certo ou o errado? O que era certo e o que era errado àquela altura do campeonato? Nada fazia mais sentido, não quando um sonho tão lindo parecia uma realidade tão distante.
“Se você tem tanta curiosidade, pode me beijar agora.” Ela não faz questão de tirar as mãos do rosto de Milena, tampouco de tomar alguma iniciativa. Mas ela sente—até mesmo suas lágrimas de minutos atrás estão enxutas—o brilho que toma os seus olhos, um sentimento que dilata não apenas suas pupilas, mas seu coração, para tudo aquilo que ela achava que não passava de algo fácil de ignorar, que brincadeiras poderiam ajudá-la a superar aquele peso de sentir algo a mais.
“Eu posso?” Milena a olha com a respiração ofegante; Samira pode ver seu peito subindo e descendo rapidamente. É nesse momento que ela percebe que tudo aquilo já deixou de ser uma brincadeira boba há bastante tempo.
Ela quer mais. Elas querem mais.
“Por favor.” Samira implora em suspiro para que apenas Milena possa ouvir, para ela, para Deus e para qualquer coisa que faça com que Milena finalmente sele seus lábios aos dela.
Então, Milena a beija. É um beijo desengonçado, um beijo novo, um beijo que nem Samira nem Milena haviam dado na vida. Samira nunca havia beijado uma mulher daquela forma, e Milena nunca havia beijado ninguém. Um misto de sentimentos invade o corpo dela, e ela sente que pode entrar em combustão a qualquer momento. É intenso, e ela quer mais. Quer o tangível e o maleável. E percebe que nunca havia sentido algo tão forte por alguém. Milena a beija como se o mundo fosse acabar ali mesmo, naquela casa com pessoas que conhecia havia um mês, naquela casa vigiada por milhares de câmeras, naquela casa e naquele quarto em que milhares de pessoas estavam assistindo, naquele momento, ao beijo mais intenso que Samira havia dado em toda a sua vida.
E nada daquilo parecia importar naquele momento.
Elas estão unidas de uma forma que o mundo deixou de existir há muito tempo.
Samira aprofunda o toque em seu rosto, puxando o corpo de Milena para mais perto do seu, unindo cada vez mais seus corpos.
E que hilário pensar que ela estava em um quarto chamado O Sonho da Eternidade, porque, naquele momento, a eternidade parecia mais real do que nunca.
Elas soltam o rosto uma da outra, pelo que parecia terem sido anos e anos se beijando.
“Meu Deus, Samira!” Milena sussurra como um grito. “Meu Deus, eu beijei uma mulher!”
Samira só consegue dar risada, ainda tentando assimilar o que tinha acabado de acontecer. Ela sente suas bochechas pegarem fogo. “E eu beijei você!” ela sorri, falhando em reprimir o sorriso em seu rosto, e logo acrescenta: “Eu queria que isso fosse real.”
Milena a olha por um instante, como se ela tivesse acabado de falar algo completamente ridículo. “Isso é real, Sami.”
Então, ela percebeu que nunca estivera sonhando.
Que ela e Milena são mais reais do que nunca. E ela nunca mais quer ficar longe dessa realidade.
