Chapter Text
Capítulo 1
- Mamãe, por favor, conte-me aquela história mais uma vez!
Chanyeol poderia resumir sua infância a essa única frase. Ele cresceu pedindo para que sua mãe lhe contasse a mesma história repetidas vezes e ela, sempre tão carinhosa e atenciosa, atendia seu pedido e contava a mesma velha história até que o pequeno Chanyeol adormecesse. A história de quando foi ao País das Maravilhas. O garoto de cabelos loiros adorava a voz animada da mãe enquanto ela soava tão alusiva e gesticulando para o filho tornando toda a experiência tão real quanto foi para ela um dia, o sorriso nos lábios rosados e principalmente o brilho nos olhos da mãe toda vez que ela lhe contava sobre a sua grande aventura com exército de baralhos de copas, lagartas fumantes, chapeleiros malucos e gatos que desapareciam no ar, esse era o seu preferido.
De qualquer forma, Chanyeol foi uma criança diferente, isso era fato. Ele era um explorador nato, daqueles que enxergavam uma grande aventura no menor dos lugares e vêem algo extraordinário em tudo ao seu redor, Alice adorava aquilo no filho e sabia que aquilo era sua culpa. Ela sempre tentou dar o melhor para o filho, o marido tinha um bom emprego em um tabelionato, então brinquedos e desejos materiais eram de certa forma a menor das preocupações, mas sabia que Chanyeol não se importava tanto com aquilo já que tudo que ele desejava era brincar no quintal durante toda a tarde em seu próprio mundo das maravilhas e se encontrar com a fantasia que cabia em todos os seus livros. É, ela amava o menino que havia criado, justamente porque ele era diferente e ser diferente é uma coisa maravilhosa. Mas, ao menos que estejamos na história do Peter Pan, as crianças crescem e com Chanyeol não foi diferente.
Chanyeol se tornou um jovem rapaz tão alto quanto um dia desejou ser — hoje ele alcança os livros da parte mais alta da prateleira sem a ajuda da mãe —, forte e bonito como sua mãe costumava dizer. Porém, existem coisas que nunca mudam não importa quantos anos tenhamos e Chanyeol, com os seus dezessete anos de idade, ainda deitava sob as pernas de sua mãe para que lhe fizesse um carinho em seus fios dourados e contasse novamente aquela história que tanto amava.
— Então o Gato me perguntou: “Para onde você quer ir?” e eu respondi: “Eu não sei, estou perdida!”, e sabe o que ele disse? — Perguntou, mesmo sabendo que o filho sabia de cor a resposta.
— “Para quem não sabe para onde vai, qualquer caminho serve.” — Disseram juntos e começaram a rir
Ouviram o barulho da porta se abrindo e não foi preciso olhar para que soubessem que, parado na entrada da residência, o pai de Chanyeol tirava seu blazer para colocá-lo no cabideiro embutido na parede. Seu dia parecia ter sido cheio, o semblante cansado que acentuava as marcas do tempo que adornavam seu rosto denunciava isso.
— Você demorou para chegar querido. — Disse a Alice, ainda alisando o cabelo do filho.
— Aconteceu muita coisa no trabalho hoje. — Se aproximou e deixou um leve selar na testa da esposa. — O que estão fazendo?
— Ah! — Sorriu como quem soubesse o que estaria para acontecer. — Estou contando uma história para ele.
— De novo? — O homem exclamou em um tom que não parecia nem um pouco contente. — Chanyeol é um homem agora, não deveria encher a cabeça do menino com essas lorotas. Você bem sabe que nada disso aconteceu. — Disse rispido e a mulher se encolheu no sofá.
Era sempre assim, eles eram uma família de respeito, já bastava Chanyeol ter crescido sozinho porque todas as outras crianças o achavam esquisito, já bastava Alice ter conseguido este bom casamento mesmo que todos soubesse que ela era uma lunática. O filho tinha crescido, tinha se tornado um bom homem e parecia que Alice insistia em…
— Pai, não seja tão duro! — Chanyeol interveio, ríspido, mas ainda sem conseguir o olhar nos olhos.
— Chanyeol, não me venha com essas gracinhas tentando defender as loucuras da sua mãe. — Disse dando as costas andando em direção a cozinha. — Eu me casei com ela mesmo sabendo que ela era louca, mas não para que ela vivesse contando histórias de plantas falantes e lagartas tabagistas para o meu filho, se eu soubesse teria pensado duas vezes antes de ter me casado. — Cuspiu e Chanyeol viu os olhos da mãe brilharem com a formação das lágrimas.
— PAI! — Chanyeol gritou enfurecido.
— Filho.. — Alice tentou intervir.
— Não mãe, ele não pode dizer essas coisas sobre você, a senhora não é louca, ele quem é.— E Chanyeol fez questão de dizer pausadamente. — Um homem de verdade não trataria a esposa assim!
— Como disse? — O patriarca perguntou virando-se para o filho
— Exatamente o que acabou de ouvir! — Enfrentou. — O senhor não tem o direito de tratar a mamãe assim! — Sentiu-se envergonhado pela sua fraqueza, mesmo que sentisse os pulmões queimarem em raiva, novamente não conseguia olhar nos olhos do pai.
— Ora, não venha querer botar ordem por aqui mocinho. Você já é um adulto, mas não pense que pode sair por aí mandando em tudo e todos. — O pai esbravejou.
— Pai, o senhor tem que entender.. — Tentou dizer, a voz saindo mais baixa do que gostaria.
Antes que pudesse concluir sua linha de pensamento, Chanyeol sentiu a palma de seu pai acertar em cheio seu rosto, o soluço de choro que sua mãe deu ao fundo doeu mais que a ardência na maçã de seu rosto, está que se encontrava em um tom rubro por onde a mão de seu pai havia tocado.
— Nem mais uma palavra Chanyeol, vá para fora! — Seu pai ordenou, apontando para porta. — Quem sabe que com um pouco de ar puro você não consiga enxergar a proporção do meu desapontamento. — Chanyeol olhou para sua mãe e seu coração se partiu ao vê-la banhar seu rosto em lágrimas, sempre tentava defendê-la era o resultado.
Apesar de sentir sua pele arder e saber que seu rosto permaneceria arroxeado por algum tempo, o que doía mais era ver sua mãe com o coração partido. Às vezes ele se perguntava o por quê de uma mulher incrível como sua mãe ter acabado com uma pessoa como seu pai, era tão difícil ver as luzes de sua mãe se apagarem todas às vezes em que seu pai, totalmente cinza, se aproximava deles.
— Vamos filho, não seja assim. — Pediu Alice. — Vá lá fora, sim? Quando ele for embora você pode voltar para continuarmos com a história! — Sorriu meiga.
Chanyeol acatou o pedido da mãe e retirou-se da sala, mesmo que contra sua vontade, e encarou o jardim por um longo tempo. Não queria ficar ali, queria respirar um pouco de ar, não para refletir sobre tudo o que havia feito, mas para sentir um pouco de liberdade, e foi pensando nisso que resolveu ir andar pelo pequeno bosque próximo dali.
O início do bosque ficava a pouco mais de cem metros de distância de sua casa e Chanyeol costumava ir lá para explorar as áreas "longínquas" quando pequeno, mesmo que a mãe dissesse que era muito perigoso. Hoje, mais consciente, visita-o poucas vezes, principalmente quando deseja fugir dos problemas e constantes discussões dentro de sua casa, o que mais uma vez era o motivo pelo qual estava andando no bosque naquela tarde.
— Não entendo porque ela ainda o defende, ele é tão... ! — Resmungava enquanto andava a passos lentos para dentro do bosque. — Ele não era assim, ele não chamava a mamãe de louca…
— Como ele a tratava?
— Quando eu era criança ele era bom, ele dizia que havia se apaixonado pela aura aventureira que cercava minha mãe, dizia que ele amava a independência dela, não comentava dos boatos, não a chamava de louca. — Riu soprado.
— Isso é horrível, meu caro!
— Eu bem sei. — Suspirou. — Odeio a forma como ele trata a mamãe como louca, se eu pudesse provar a ele que o País das maravilhas existe… Se eu ao menos pudesse vê-lo…
— Gostaria de visitar o País das Maravilhas, garoto?
— É claro, quem… — parou de caminhar ao perceber o que estava acontecendo. — Com quem estou falando?
Silêncio, apenas uma bela borboleta azul podia ser vista, e o barulho do vento balançando as folhas das árvores era o único som ouvido. Não havia nada.
— Eu devo estar ficando louco! — Disse em voz alta enquanto esfregava os olhos.
Mas voltou ao foco novamente quando ouviu estalos de galhos se quebrando próximo de onde ele se encontrava. Curioso, foi atrás do som olhando ao redor a procura do causador dos ruídos, mas não importava o quanto olhasse, tudo que via ao seu redor eram árvores e arbustos, nada mais. Ele deu mais alguns passos e o ruído parecia mais próximo que antes. Continuou naquela direção até encontrar uma grande árvore de cerejeira, ele nunca havia visto aquela árvore antes. Olhou em volta e percebeu que o ruído vinha de algo que se mexia em baixo de uma das raízes da árvore. Focou a visão até enxergar duas patinhas de coelho se debatendo para fora de um buraco, o coelhinho estava preso. O suspiro de alívio preencheu todo o ambiente.
— Nossa amiguinho, você me assustou! — Disse Chanyeol sorrindo aproximando-se do coelhinho para ajudá-lo. — Vamos, não se mexa, vou te ajudar a sair dessa. — Falou se agachando ao lado do coelho.
No momento em que se abaixou o coelho se desprendeu o que o levou a cair dentro do buraco. Chanyeol assustou-se e abaixou-se próximo ao buraco para ver se conseguia enxergar o coelho naquele ambiente escuro, mas tudo que enxergou foi o breu e a sensação que teve em seguida não foi nada agradável.
Ele estava caindo, sem nunca alcançar o fundo. E ele apenas continuava caindo...
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Ao seu redor, enquanto despencava, via coisas penduradas de cabeça para baixo e girando, livros, portas, pianos, camas, sapatos e cipós. De repente tudo que veio à cabeça de Chanyeol foi a voz de sua mãe enquanto ela lhe contava a história.
“. . . Caí em uma espécie de poço e enquanto eu caia sem nunca encontrar o fundo tinha a sensação de estar flutuando. Nas paredes eu vi estantes de livros, cristaleiras lustrosas e várias outras coisas, até que, por fim, encontrei o fundo. . .”
E Chanyeol também encontrou o fundo, mas diferente do que sua mãe lhe contara uma vez, o impacto lhe causou mais dor do que ela fez parecer. Por sorte havia caído sob um amontoado de folhas secas que amorteceram, um pouco, sua queda. De primeira, sentiu-se um pouco tonto, perdido, e apesar de, de certa forma, ele estar embasbacado por saber o que estava acontecendo, ainda não tinha noção da proporção do recente acontecimento.
Recobrando sua consciência por completo, Chanyeol passou a olhar em volta sem acreditar no que via. Ele estava em uma sala cheia de portas, umas maiores, outras menores e no centro uma mesinha com uma chave posta em cima. Esfregou os olhos e focou a visão ao seu redor mais uma vez, nada de novo, ele ainda estava na sala e ela continuava idêntica a sala que sua mãe descreveu para ele durante anos, e se estivesse certo, já sabia a que porta aquela chave pertencia. Foi tomado pela ansiedade e a vontade imensurável de confirmar suas suposições, e sem pensar muito pegou a chave em mãos e procurou por um frasco com o rótulo "Beba-me", o encontrando um pouco à frente da chave. Em outras ocasiões não faria aquilo, mas experimentando um pouco do que sua mãe lhe contava, não pode resistir em pegar o frasco. Sentiu seu corpo tensionar em expectativa, nem ele acreditava no que estava fazendo. Destampou o frasco e rapidamente tragou uma pequena quantia do líquido púrpura. Sentiu sua cabeça girar e de repente, ao olhar em volta, viu tudo começar a aumentar de tamanho, mas ele sabia que na verdade era ele quem estava encolhendo, agora ele tinha um pouco menos de trinta centímetros. Conferiu se a chave ainda estava em seu bolso e sorriu ao senti-la ali.
Lembrando da história da mãe Chanyeol correu para debaixo da mesinha e encontrou uma pequena caixinha onde se encontrava um pedacinho de bolo escrito "Coma-me", ele tirou uma fatia generosa do bolo e embrulhou em seu lenço branco o colocando de volta no bolso.
Seguiu com um sorriso enorme no rosto até a pequena portinha e a destrancou. A luz vinda do outro lado fez com que, por instinto, fechasse os olhos e o obrigou a piscar algumas vezes para que se acostumasse com a claridade. Quando enfim pôde ver algo, ficou boquiaberto, o lugar não se parecia nada com o que imaginara, era tudo bem mais colorido e exótico. Passou pela porta encostada atrás de si e começou a olhar ao redor, seu espírito aventureiro que fora explorado por muito pouco tempo gritava dentro de si, clamando para que ele se afundasse em todas as oportunidades reais de liberdades pertencente àquele lugar, pois ele de fato estava no País das Maravilhas!
Foi então que a ficha caiu, ele estava no País das Maravilhas, lugar onde animais falam, baralhos de cartas eram soldados e chapeleiros eram malucos. Estava no lugar onde se passavam as histórias de sua mãe e ninguém em toda Londres seria capaz de acreditar na existência de um lugar como aquele, eram mentes pequenas que não se abriam para o novo. Mentes pequenas demais para abrigar um universo tão mágico, criativo e lindo como Wonderland.
Chanyeol estava tão encantado com tudo ao seu redor que quase esqueceu que não estava em seu tamanho normal. E tirando a fatia do bolso, mordiscou um pequeno pedaço. Nada. Mais um pedaço. Nada. Mas por sorte não arriscou mais uma mordida, pois quando olhou para baixo, viu o chão se afastar cada vez mais, ele estava voltando ao seu tamanho normal, assustando as flores falantes que ignoravam sua presença até então. Ele deu um leve sorriso cavalheiro antes de trocar algumas palavras com a doce rosa e cravo ranzinza.
E ao longe, escondido entre as árvores, um par de olhos delineados o observava com curiosidade.
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Esperou um pouco antes de começar a explorar o local, já tinha uma noção sobre as coisas existentes ali, mas queria vê-las, mesmo que tudo aquilo não passasse de uma alucinação, queria vê-las!
Escolheu ir primeiro à floresta, sua mãe havia lhe contado que lá ela havia encontrado a lagarta falante e seus amigos excêntricos que acompanharam toda sua jornada. Sem pensar duas vezes, adentrou o lugar com uma animação desconhecida, não havia se sentido tão entusiasmado assim nem quando seus pais lhe fizeram uma casa na árvore dentro do bosque. Mas algo lhe incomodava, ele tinha a sensação de que olhos o observavam, e ora, estando no país das maravilhas sua suposição tinha certo fundamento, mas ele estava sozinho e a floresta conversava com ela mesma, mesmo assim insistiu, não havia nada a perder mesmo.
— Tem alguém aí? — Tentou pela primeira vez, a melhor abordagem que conseguiu pensar.
Silêncio.
— Eu sei que tem alguém aqui, então, por favor, apareça! — Gritou.
Uma risada nasalada pode ser ouvida vinda de algum lugar ali. Um arrepio subiu por sua espinha e mentalmente implorava para que fosse apenas coisa da sua cabeça.
— Tentando um golpe de sorte? — Uma voz levemente rouca disse em algum lugar entre as árvores.
Chanyeol estremeceu, esperava que talvez o respondessem, mas agora que de fato haviam o respondido não sabia muito bem o que fazer.
— Onde... Onde você está? — Questionou, o receio dando seus primeiros sinais de vida.
— Bem.. — O dono da voz disse. — Em todos os lugares. — Riu. — Estou bem atrás de você agora! — Disse e Chanyeol pode sentir sua presença, a voz rouca sussurrando em seu ouvido e o bafo quente arrepiando sua derme.
Chanyeol virou-se abruptamente em busca da pessoa atrás de si.
— Ou não! — Riu.
Quem quer que fosse estava se divertindo com aquilo.
— Por favor, apareça! — Pediu novamente.
— E qual seria a graça disso? — A voz misteriosa indagou.
— É verdade, eu só... Só acho que é mais justo... — Falou quase em um sussurro.
— Justo? O que é justo para você, garoto? — Questionou, e pelo tom era sabido que continha um riso.
— Bem, é que... bem.. Isso só não me parece justo! — Gaguejou, sem de fato responder a pergunta.
— O que não parece justo para você? — A voz estava mais longe agora.
— Não é justo que você possa me ver e eu não. — Respondeu em uma conclusão idiota de que de fato, era só isso que queria.
— É só isso? — Riu nasalado. — Seu senso de justiça é tão tosco. Mas tudo bem, senhor justiceiro, vou acatar seus desejos! — Sussurrou.
Chanyeol jurou ter visto um vulto passar por ele naquele momento, ou seria uma espécie de fumaça? Ele não sabia. Ele só soube que de repente tudo se tornou silencioso novamente e ele teve a sensação de que estava sozinho agora.
— Atrás de você, garoto. — Ouviu a voz e virou-se.
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ALGUMAS HORAS ATRÁS
Correr.
Correr era a única coisa que se passava pela cabeça de Baekhyun naquele momento. Maldita hora em que seus poderes foram lhe deixar na mão, exatamente quando mais necessitava deles.
As cartas de copas se aproximavam cada vez mais, quase o alcançando, mas ele não desistiria tão fácil, passou por isso durante toda a vida — as perseguições estavam ficando mais frequentes na realidade — e uma corridinha não o faria se entregar tão fácil, conhecia aquele bosque como a palma de sua mão, cada árvore, cada arbusto, cada animal. Crescera em meio aquele lugar e o conhecia melhor que ninguém, era uma questão de tempo para despistá-los. Só não contava que desta vez haveriam mais cartas atrás de si. A Rainha enfim estava se tornando um tiquinho mais inteligente.
Baekhyun acabou encurralado pelas cartas, estava cercado, haviam soldados vermelhos por todos os lados e ele não fazia ideia de como sairia daquela situação.
— Precisando de uma ajudinha? — Ouviu uma voz sussurrar próximo a ele.
— Passo. — Disse com um sorriso pequeno se formando nos lábios.
— Então boa sorte para tentar fugir deles. — Disse o Chapeleiro encostado na árvore atrás de si.
— Eu sei me virar! — Riu, olhando de soslaio para o outro.
— Ah, você não sabe não. — Disse o Cheshire tomando sua forma humana ao lado do filho.
— Veja quem fala primeiro, gatinho. — Riu sarcástico observando ao redor a procura de uma brecha na muralha de cartas que terminava de se formar ao seu redor.
— Olha aqui Baekhyun, eu vim para ajudar tudo bem? — Direcionou um olhar sério para o filho. Seria cômico se não fosse pela situação. — Seus poderes ainda precisam de tempo para se restabelecerem.
— Eu sei! — Afirmou achando a brecha que desejava entre os soldados Dois e Três. — Agora pare de me dar sermão e olhe para onde eu olho. — Sussurrou.
— Quando achar melhor. — Respondeu após ver ao que o filho se referia logo depois fazendo sinal para que o Chapeleiro se aproximasse.
— Então, no três. — Disse, pondo-se em posição de corrida.
— No três. — O Gato concordou.
— Três. — Gritou o Chapeleiro ao parar atrás deles.
Ao ouvir o três Baekhyun correu o mais rápido que pode por entre as cartas, sem ao menos olhar para trás, desde que a Rainha entrou nessa guerra maluca de extermínio a todos que não fizessem parte de seu baralho de copas, isso havia se tornado uma regra: Nunca olhe para trás. Por mais que ouça gritos, choros e súplicas, nunca olhe para trás.
Suspirou em alívio correndo em uma direção a qual nem ele sabia onde daria. Mas queria que tudo tivesse sido tão simples assim, como apenas uma fuga. Não fosse Cinco e Sete correndo atrás de si. Na euforia do momento tentando a todo custo despistá-los, não percebeu a raiz alta de uma árvore a sua frente acabando por tropeçar e cair. Fechou os olhos com força por conta do impacto e quando os abriu ficou surpreso ao ver os soldados de copas olhando para algo atrás de si e voltarem correndo para onde haviam saído. Imaginou o que pudesse ser, apenas uma coisa, ou alguém poderia espantar baralhos de copas. Deitou no chão de terra e musgo se deparando com um belo cavalo branco sendo montado por ninguém menos que o Príncipe JunMyeon, filho da Rainha Branca.
— Eu já disse para poupar seus dons para momentos como esse ao invés de gastá-lo com coisas triviais do seu dia. — Comentou descendo em um salto de cima do cavalo. — Estou ficando cansado de te proteger todas as vezes em que esses baralhos aparecem.
— Se eu quiser posso usar os meus dons para coisas triviais do meu dia a dia, Majestade. — Disse sarcástico se levantando do chão. — E eu nunca pedi que me "protegesse". — Respondeu em um rosnado, orgulhoso como sempre
— Ah, claro! — Riu. — Se deixasse seu orgulho de lado iria perceber o quanto faço por você, Baekkie. — Respondeu dócil, ele lembrava muito sua mãe.
— Tenho certeza que sim. — Riu. — E eu já disse para não me chamar assim! — Esbravejou.
— Ora, vamos, não seja arisco gatinho, é apenas um apelido. — Disse o príncipe com um belo sorriso nos lábios carmim, montando em seu alazão.
Adorava provocar Baekhyun Cheshire, ele era um garoto um tanto excêntrico, nunca sorria e se enfiava em problemas demais, mas Junmyeon o adorava desde criança e sabia que para aquele temperamento, apenas uma piadinha ou outra o faria dedicar um pouco de atenção. Era uma pena que Minseok havia chego, estendendo a mão para o filho que ainda se mantinha deitado no chão, mas que carregava um olhar felino de que a qualquer momento poderia avançar sob a Majestade. Tanto Minseok quanto Zhang haviam acabado de "derrotar" as cartas — ao menos momentaneamente — e já teriam que apartar uma possível briga entre o Príncipe e Baekhyun, não que isso fosse alguma novidade, já haviam perdido as contas de quantas vezes viu seu único filho com as mão um pouco ensanguentadas enquanto Junmyeon dizia que estava tudo bem mesmo que estivesse com a bochecha cortada depois de chamar o gatuno de fofinho.
— Ignore-o MinSeok, um dia ele verá que tudo o que digo é verdade. — Disse guiando seu cavalo para que desse meia volta. — A Rainha os aguarda para o chá da tarde, tentem não se atrasar. — Informou cavalgando de volta para o castelo.
— Se esse idiota continuar aparecendo nesse tipo de situação vou começar a pensar na possibilidade de perseguição. — Baekhyun resmungou.
Em nenhum momento tocou a mão do pai.
Minseok procurou pelo filho após o comentário irônico, mas ele já não estava mais ali. Suspirou cansado, era sempre assim.
— Aquele garoto...
— Tudo bem Minseok, ele só precisa de um pouco de ar. — Disse Zhang tocando o ombro do amigo.
— Não é como se eu o prendesse, Zhang. — Sussurrou ao passar a mão pelo rosto.
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Baekhyun nunca teve muita afinidade com o príncipe, ambos sempre foram tão opostos que Baekhyun não conseguia se imaginar tendo algum tipo de relacionamento saudável com alguém como ele. Bondoso, gracioso, delicado, paciente, carinhoso, arrogante, mimado, dramático, vitimista, manipulador. O felino poderia ficar horas montando um longo monólogo sobre como o coelhinho nunca foi o que aparentava ser, ele sabia disso muito bem, melhor do que qualquer um arriscava-se a dizer. Mas ele não pode ficar por muito tempo no monólogo do quão insuportável o príncipe era para si, porque um movimento incomum em um lugar próximo dali chamou sua atenção. Caminhou cautelosamente até estar próximo o suficiente de um arbusto para poder observar o que havia ali à frente. Temia que ainda estivesse sendo seguido, sem seus dons para o ajudar naquele momento, tudo ficava ainda mais complicado, então teria que observar de longe até que eles pudessem ser utilizados novamente.
Alguns metros a frente um garoto de fios loiros olhava o lugar admirado, como se fosse a primeira vez em que estivesse passeando por aquele lugar, e ele parecia realmente entusiasmado andando por entre as árvores e olhando as roseiras como se fossem uma grande novidade para si. Baekhyun sorriu vendo a cena do menino alto, um tanto desengonçado, assustando-se com as rosas falantes, parecia que nunca havia se deparado com aquelas fofoqueiras, línguas soltas, mas o que podiam fazer, estava em suas raízes. Elas eram os olhos e ouvidos de todo o lugar.
Em algum momento, enquanto o seguia em silêncio, o garoto parou de caminhar e passou a olhar ao redor com o semblante sério. Ele finalmente havia sentido sua presença e parecia temeroso. Baekhyun surpreendeu-se com a habilidade sensorial do garoto, ele nem estava tão próximo, mas como o loiro gritava, com a voz levemente trêmula, para que ele aparecesse não houve muita coisa que pudesse fazer, sentiu até um pouco de pena vendo-o trocar o peso entre as penas em nervosismo. Mas antes testou seus dons, não poderia arriscar aparecer em frente ao garoto sem ter certeza de que em qualquer ocasião inesperada tivesse uma saída. Não sabia o que estava lidando, mas ao sair para o pequeno diálogo com o garoto, não se arrependeu, nunca pensou que seria tão divertido brincar com o outro daquela forma.
MOMENTO ATUAL
— Atrás de você garoto. — Disse e o outro virou-se em sua direção.
Os olhares se encontraram pela primeira vez e Baekhyun pôde ver seu reflexo nos belos olhos azuis cristalinos que o observavam, enquanto Chanyeol imergia na imensidão do breu daqueles olhos felinos. A diferença de altura entre eles era bem aparente e Baekhyun sorriu de escárnio ao notar isso, logo desviando os olhos quebrando todo o encanto que os rondava.
Ele odiava esse tipo de coisa melosa, odiava a imagem de um príncipe em um cavalo branco.
— Quem é você? — Baekhyun questionou, e a pergunta soou muito familiar para Chanyeol.
— Acho que você quem deveria me responder essa pergunta — Rebateu.
— Ora, e por que? Não se lembra do próprio nome?— Devolveu. Um sorriso bonito surgindo nos lábios rubros.
Chanyeol calou-se, não tinha uma boa resposta para a pergunta, ele era Chanyeol, filho de Alice, que um dia esteve ali, respondendo a mesma pergunta que o rondava agora.
— Anda, me diga, por um acaso o gato comeu sua língua? — O sorriso tornou-se um pouco maior. — Já adianto que se não tiver uma boa resposta, que se adiante tu, pois o Tempo não me espera. E ele anda um tanto impaciente recentemente! — Disse desaparecendo inesperadamente e surgindo ao lado do loiro, apoiando-se no ombro do mais alto.
— Você está flutuando? — Questionou embasbacado. Os olhos felinos admirando seu rosto de uma distância tão curta.
— Bom, acredito eu, que sim! Mas se os seus olhos estiverem te enganando, não sou eu quem devo te responder. — Disse se distanciando, e sumindo mais uma vez. — Por favor, seja breve, tenho pressa, está quase na hora do chá! — Apressou, surgindo sentado sobre o galho de uma árvore olhando para um relógio de bolso que Chanyeol sequer havia percebido que ele carregava.
— Se está com tanta pressa, por que continua insistindo nisso? — Questionou Chanyeol.
— Ora, vamos lá loirinho. Curiosidade é um pensamento e se pensamos, logo existimos, então me responda, qual a graça de viver uma vida sem curiosidade? Sem existir?— Falou e lentamente sumiu. Reapareceu logo atrás deslizando os dedos pelos ombros largos de Chanyeol.
— Cheshire? — Sussurrou surpreso ao ver Baekhyun desaparecendo em sua frente mais uma vez. Estava tão perdido nos fios rubros e o mar negro dos olhos do metido a filósofo a sua frente que só agora seus neurônios começavam a ligar os pontos.
— Ahn? — Baekhyun pareceu surpreso com a fala do maior. — Não. Não sou ele. — Respondeu, e se repreendeu mentalmente por estar respondendo algo antes do outro. — Mas se apresse, me diga quem é que talvez eu possa sanar sua dúvida.
— Sou Chanyeol, filho da Alice. — Disse firme e Baekhyun apareceu abruptamente a frente do maior, o encarando.
— Alice? — Perguntou mais uma vez. Seu pai conta histórias sobre a criança que apareceu perdida ali uma vez, uma garotinha de fios dourados e olhos azuis cristalinos.
— Sim. — Respondeu. — E você? Se não é o Gato Risonho, quem é? — Questionou vendo Baekhyun se recuperar da surpresa.
— Veja. — Sorriu, se recompondo, logo desaparecendo. — Não é óbvio? — Disse aparecendo sentado no galho da árvore. — Sou o filho dele, Baekhyun Cheshire. É um prazer o conhecer, Chanyeol, filho de Alice!
